Você está aqui: Página Inicial Um pouco de história

Um pouco de história

Acesse o site do Grupo Avalia e tenha acesso à categorização das tarefas da Parte Escrita do Celpe-Bras para conhecer melhor o exame.


Celpe-Bras: avaliação, ensino e formação de professores

de português como língua adicional

Margarete Schlatter

Membro da Comissão Técnica do Celpe-Bras entre 1993 e 2006

 

A Comissão para a Elaboração do Exame de Proficiência de Português para Estrangeiros foi constituída pelo MEC em junho de 1993.  A primeira reunião ocorreu em Brasília e teve como objetivo deliberar sobre as ações necessárias à elaboração do referido exame. As discussões iniciais versaram sobre:

a) Motivações para um Certificado Oficial do MEC de Proficiência de Português como Língua Estrangeira;

b) A população-alvo;

c) A natureza do exame;

d) O que medir (o significado de "proficiência");

e) O tratamento estatístico do exame;

f) O papel da cultura brasileira num exame desta natureza.

A Portaria estabelecia que a Comissão teria 180 dias para a conclusão do trabalho, o que foi considerado insuficiente, visto que o processo de elaboração de um  exame desta natureza deve incluir, além do exame propriamente dito,  testagem piloto, tratamento estatístico para definir a validação e a confiabilidade do teste, a formação de pessoal para a aplicação [...].

 

Com as palavras acima iniciava minha participação na mesa-redonda "Exame de Proficiência de Português/Língua Estrangeira", no I Seminário SIPLE - UNICAMP - Campinas, em novembro de 1994. Tratava-se de um primeiro relato de uma história que havia iniciado com a participação de três integrantes do Ministério da Educação e três professores de universidades brasileiras que, na época, atuavam no ensino de português como língua adicional (PLA):

 

N° 101 - Art. 1° constituir Comissão composta pelos professores LUIZ CASSEMIRO DOS SANTOS, Chefe de Gabinete da SESu; RAIMUNDO HÉLIO LEITE, Diretor do Departamento de Desenvolvimento do Ensino Superior da SESu; MAURICIO DE PINHO GAMA, Coordenador Geral de Apoio Estratégico da SESu; MARGARETE SCHLATTER, do departamento de Línguas Modernas do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; JOSÉ CARLOS PAES DE ALMEIDA FILHO, do Departamento de Linguística Aplicada, do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas e MARIA JANDYRA CUNHA, do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução do Instituto de Letras da Universidade de Brasília para, sob a coordenação do primeiro, desenvolver as ações necessárias à elaboração dê um teste padronizado de português para estrangeiros.

Art. 2° A Comissão, ora constituída, terá o prazo de 180 (cento e oitenta) dias, a contar da data de publicação desta Portaria, para concluir os trabalhos.

RODOLFO JOAQUIM PINTO DA LUZ

Pág. 4. Seção 2. Diário Oficial da União (DOU) de 11 de Junho de 1993.

 

Buscando, desde o início, envolver representantes de universidades de todas as regiões brasileiras, em abril de 1994, o MEC constitui Comissão Permanente para concluir a elaboração do Exame de Português para Estrangeiros, administrar a aplicação, credenciar instituições para a aplicação do exame e assessorar a SESu nas questões relativas ao ensino de português para estrangeiros. Participaram dessa comissão os Professores Luiz Cassemiro dos Santos (coordenador) e Maurício Pinho Gama, ambos da SESu - MEC,  Raimundo Hélio Leite, da Universidade Federal de Roraima, Francisco Gomes de Matos, da Universidade Federal de Pernambuco, Jandyra Cunha e Percília Santos, da Universidade de Brasília, Raquel Ramalhete, da Universidade do Rio de Janeiro, Matilde Scaramucci, da UNICAMP e Margarete Schlatter, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

As reuniões para a elaboração do exame foram realizadas nas universidades dos professores que constituíam a comissão, com vistas a divulgar o trabalho e estimular a criação de Centros de Referência de Português para Estrangeiros nessas Universidades.

 

A elaboração de um Exame de Proficiência era um desejo antigo dos profissionais da área de Português para Estrangeiros na medida em que poderia servir como referência de Proficiência de Língua Portuguesa tanto para professores de Português/Língua Estrangeira como para estrangeiros que quisessem ou necessitassem comprovar o seu conhecimento da língua. Na verdade, um exame desta natureza já havia sido elaborado na UNICAMP, pelos professores Leonor C. Lombello, José Carlos Paes de Almeida Filho, Itacira Araújo Ferreira e Matilde Scaramucci. Foi a partir do trabalho desses professores que iniciamos a elaboração do CELPE-BRAS. (Schlatter, 1994, I Seminário SIPLE)

A motivação principal para a elaboração do Celpe-Bras foi a necessidade de criar um exame único e padronizado para a seleção de estudantes de intercâmbio, principalmente para os que se candidatavam ao Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), programa do MEC/MRE que oferece educação superior em universidades brasileiras a cidadãos de países em desenvolvimento que mantêm acordos educacionais e culturais com o Brasil.

A comissão entendeu que, para esses fins, tornava-se necessário propor uma certificação de uso da língua portuguesa para participar da vida na universidade, o que envolveria criar um instrumento de avaliação que aferisse o potencial dos candidatos para ler, escrever, ouvir e falar em interações da vida cotidiana e estudantil. Nesse sentido, buscou-se elaborar um exame em que:

 

- a proficiência no uso da língua portuguesa fosse analisada por meio do desempenho dos candidatos em tarefas o mais próximo possível de usos autênticos da língua;

- as tarefas propusessem a compreensão de textos escritos e orais e a produção escrita e oral a partir desses textos;

- os critérios de avaliação fossem holísticos e baseados nas condições de recepção e produção propostas nas próprias tarefas;

- o resultado da avaliação fosse expresso em descritores de desempenho do examinando;

- os parâmetros de correção tivessem como base os próprios objetivos das tarefas e os recursos discursivos exigidos para sua realização.

Como poderá ser verificado nos materiais reunidos neste site, buscou-se implementar essas ideias por meio de um exame único, realizado em duas etapas: uma parte coletiva, hoje denominada de “Parte Escrita”, que reúne tarefas que integram leitura e produção escrita e compreensão oral e produção escrita; e outra parte individual, hoje denominada de “Parte Oral”, que avalia a proficiência dos examinandos em compreensão e produção oral.

Desde o início da concepção do exame, a equipe assumiu o compromisso de, por meio de um instrumento de avaliação construído a partir do conceito de uso da linguagem e da noção de gêneros do discurso, propor parâmetros para um ensino que se voltasse para oportunidades de uso da língua visando à participação dos educandos em diferentes situações de comunicação em que o português fosse a língua de socialização entre os participantes. Em um contexto de ensino de PLA, na época ainda predominantemente orientado por uma visão estruturalista, a opção por parâmetros orientados pelo conceito de uso da língua demandava iniciativas de formação tanto de examinadores quanto de professores que pudessem preparar seus alunos para esse exame. Por isso, desde o início, a proposta foi reunir professores das instituições que aplicavam o exame para os eventos de correção, sediados em Brasília. Da mesma forma, ao credenciar novos postos aplicadores, no Brasil e no Exterior, um membro da comissão ficava responsável por visitar a instituição e desenvolver uma oficina de formação com os professores.

Tanto na elaboração dos materiais do exame pelas comissões ao longo desses anos, quanto na dedicação dos professores de PLA na aplicação do exame em suas instituições, como também no esforço das equipes convidadas pelo MEC para as correções das provas escritas, o trabalho com o exame Celpe-Bras foi sempre coletivo, dedicado e comprometido com o compartilhamento de ideias, com o enfrentamento de desafios políticos causados por mudanças de gestão e de infraestrutura, com a criação de uma proposta singular, inovadora, de qualidade e que respondesse às demandas contemporâneas e situadas de avaliação de proficiência em língua adicional.

Com os votos de que este acervo incentive a pesquisa sobre o exame e contribua para dar continuidade:

-   à qualificação de instrumentos de avaliação que tenham em vista o desenvolvimento do letramento;

-   ao debate sobre responsabilidades sociais, ética e formação profissional na avaliação;

-   a ações de planejamento linguístico ético e ecológico;

-   à qualificação dos professores de português como língua adicional;

-   a práticas de ensino e de avaliação voltadas ao letramento e à inclusão social;

-   à educação de cidadãos interculturais, críticos e aptos a participarem nos contextos complexos contemporâneos;

gostaria de expressar um agradecimento especial

-   a Luiz Cassimiro dos Santos, diretor do Departamento de Política de Ensino Superior/MEC que instituiu a primeira comissão do exame, por ter compreendido a importância que tal iniciativa poderia ter como ação de política linguística e para a área de ensino e formação de professores de PLA;

-   a Arsênio Becker, entusiasta e grande incentivador do Celpe-Bras e que, ao assumir a chefia da Divisão de Cooperação e Intercâmbio/MEC em 1996, acolheu o projeto em toda sua dimensão e complexidade, tornando possível a continuidade do trabalho, a implementação e a consolidação do exame;

-   a Matilde V. R. Scaramucci, pela interlocução ao longo de 13 anos na concepção do exame Celpe-Bras, na construção da perspectiva teórica que o fundamenta e na consolidação dos procedimentos que o constituem: elaboração, aplicação e correção, credenciamento de postos aplicadores e formação de quadros de examinadores. Também agradeço a parceria incansável junto a instâncias políticas e administrativas para dar continuidade ao trabalho da comissão e à qualificação do processo avaliativo;

-   aos professores que participaram e participam da Comissão do Exame Celpe-Bras, pelas inúmeras horas dedicadas a esse trabalho e por darem continuidade ao aperfeiçoamento do sistema Celpe-Bras e à formação de examinadores e de professores de PLA;

-   aos professores de PLA que, ao longo de todos esses anos, têm participado na aplicação e correção do exame e que têm construído oportunidades ímpares de aprendizagem conjunta, parcerias de trabalho e amizade; e

-   a Juliana Roquele Schoffen, por ter abraçado o projeto desde o início, por valorizar o trabalho construído coletivamente, por levar adiante a iniciativa conjunta e por organizar este acervo, contribuindo assim para preservar a memória do trabalho de todos.

 

Porto Alegre, primavera de 2014.