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Aspectos Econômicos

A cana-de-açúcar pode fornecer o passaporte do Brasil para o mundo dos países desenvolvidos


Por ser versátil – produz açúcar, álcool, energia elétrica a partir da biomassa e até mesmo plástico biodegradável – a cana-de-açúcar tende a ser um dos produtos agrícolas de maior retorno para a economia brasileira e cumpre alguns requisitos básicos do desenvolvimento sustentável: gera divisas; utiliza mão-de-obra de forma intensiva; fixa o homem no interior do país e auxilia na distribuição de renda; contribui para a segurança energética e coloca o país num patamar diferenciado do ponto de vista ambiental, uma vez que os produtos setoriais contribuem para diminuir a poluição local e ajudam a combater o efeito estufa. 

Não foi por acaso que o programa de todos os candidatos à Presidência da República, e em especial do eleito, continham referência detalhada à agroindústria da cana e ao álcool combustível. 

Não é à toa que em todos os foros internacionais a agroindústria da cana-de-açúcar do Brasil é retratada com seus contornos de modernidade e possibilidades concretas de ajudar o Brasil a pavimentar seu desenvolvimento. 

As oportunidades são grandes, especialmente no que diz respeito a um de seus derivados, o álcool combustível, que tem tudo para se tornar uma commodity ambiental.

O Brasil produz cerca de 13 bilhões de litros de álcool por ano para alimentar uma frota de 3 milhões de veículos a álcool e para adicionar 25% à gasolina de outros 15 milhões de veículos.

Cerca de metade do açúcar contido na cana é destinado à produção de álcool e, para garantir que esse setor econômico mantenha-se sólido e cresça de forma planejada, é fundamental que se tenha clareza quanto à participação do álcool na matriz energética brasileira, o que pressupõe a manutenção e expansão de políticas públicas que garantam a competitividade do álcool com os combustíveis de origem fóssil, em especial a gasolina.

O álcool hidratado, que alimenta os veículos a álcool, depende de uma produção de automóveis que, no mínimo, neutralize o sucateamento de uma frota cujo auge da produção se deu no final dos anos 80. Um bom exemplo de incentivo é o acordo Brasil/Alemanha, dentro da política de estímulo ao resgate de carbono da atmosfera, consagrado pelo Protocolo de Kyoto, e que trará ao Brasil recursos de R$100 milhões para que a indústria automobilística forneça 100 mil carros a álcool mais baratos ao consumidor brasileiro. 

O álcool anidro, cujo crescimento acompanha o aumento do consumo de gasolina, tem uma situação mais clara, mas é fundamental que a banda legal de 20% a 25% de álcool anidro na gasolina não seja alterada e que, dentro dela, se procure manter no nível mais alto, na medida em que haja produção suficiente para o atendimento da demanda. 

Numa era na qual gerar divisas é produzir oxigênio para sustentar o crescimento, faz-se prioritário olhar com carinho para o mercado externo de álcool, ao mesmo tempo incipiente e promissor. Note-se que nesse assunto o que importa é estimular a produção e o uso do álcool no maior número possível de países para que o produto se torne uma commodity.

As perspectivas são animadoras: muitos países têm demonstrado interesse na mistura de álcool à gasolina. É rotina da indústria de álcool do Brasil visitar e ser visitada por comitivas da China, Índia, Estados Unidos, Japão, preocupados não só com a poluição urbana como com a dependência crescente do petróleo importado. Essa característica marca o interesse internacional pelo álcool combustível, visto como produto a ser produzido em casa, evitando a troca de um estrangeiro por outro.

Nos Estados Unidos, políticos defensores do etanol brigam no Congresso com os aliados do petróleo para aprovar lei que incentiva a produção do combustível renovável. A produção norte-americana de álcool tem apresentado crescimento expressivo nos últimos anos, chegando a 6,5 bilhões de litros em 2001. Com 13 novas usinas em operação, a expectativa é que a produção norte-americana de etanol fique em torno de 8 bilhões de litros neste ano.

A Austrália, o terceiro maior exportador de açúcar, também está aderindo à mistura do álcool na gasolina, a exemplo do que acontece com a Índia, que a partir de 2003 adotará a mistura de 5% em nove estados. Se o governo indiano não tem interesse em importar o álcool brasileiro, mostra-se disposto a comprar a tecnologia para produzi-lo. 

A China, o terceiro maior produtor de álcool, conta com projetos de mistura na gasolina a partir de diversas matérias-primas, do milho à mandioca, passando pela cana-de-açúcar, produzida no Sul do país.

Com tantos exemplos pipocando mundo afora, não pode haver titubeio interno que coloque em risco o patrimônio estratégico brasileiro representado pelo álcool. Tê-lo como prioridade não significa, porém, abandonar o açúcar, produto tradicional e que permeia nossos 500 anos de história.

Protecionismo versus açúcar
Quanto ao açúcar, o mercado interno apresenta limitações relacionadas ao alto nível de consumo e o mercado externo, já bastante explorado pelo Brasil, tem no protecionismo dos países desenvolvidos a principal barreira para a expansão. 

Com um consumo per capita de 52kg ao ano, um dos mais altos do mundo, o açúcar tende apenas a acompanhar o crescimento vegetativo da população brasileira. No plano internacional, o Brasil já destina 60% da sua produção à exportação e aumentar esse volume é tarefa árdua, na medida em que é preciso lutar junto a órgãos internacionais para derrubar barreiras protecionistas de todos os portes. 

Uma lição de casa que está sendo feita e deve ser continuada é o contencioso aberto na Organização Mundial do Comércio contra os subsídios às exportações da União Européia. Em novembro, o Brasil iniciou processo de questionamento dos subsídios europeus à exportação de açúcar branco, que concorre com produtos de países naturalmente mais competitivos, como o próprio Brasil e a Austrália. Subsídio que, ao invadir o mercado mundial, rebaixa os preços da commodity. 

Para uma produção mundial de 130,03 milhões de toneladas em 2000, houve exportações de 36,30 milhões de toneladas, ou seja, apenas 27,8% da safra mundial de açúcar é comercializada entre países. Grandes produtores e consumidores de açúcar impõem dificuldades para a ampliação do mercado internacional, garantem preços mínimos altos a seus produtores, dificultam as importações e subsidiam as exportações. 

A participação brasileira no mercado mundial do açúcar é grande – dependendo da safra, o país conta com 30% das exportações globais. Em 2002 deveremos exportar cerca de 13 milhões de toneladas e, embora o Brasil deva manter forte presença no mercado internacional, é difícil imaginar aumentos significativos nesses volumes no atual cenário global. 

A cana pode ainda colaborar com a economia do Brasil na co-geração de energia elétrica a partir de seus resíduos, cuja consolidação depende de políticas públicas regulatórias que não envolvem investimento público direto. Temos o potencial de gerar cerca de 12 mil MW, contra uma potência instalada de energia elétrica no Brasil de 70 mil MW, sem contar com tecnologias em desenvolvimento como a da gaseificação, que pode dobrar esse potencial. Além de ajudar a diversificar a matriz energética, complementa nosso sistema hidrelétrico exatamente nos meses de escassez hídrica. Representa também pontos extras para o país em relação à redução da emissão de gases causadores do efeito estufa, consagrada pelo Protocolo de Kyoto. Várias usinas de São Paulo já obtiveram certificação de crédito de carbono, aptas a comercializar suas emissões num mercado que tende a se ampliar e consolidar. 

Existem ainda outros diferenciais dessa agroindústria de enorme potencial na alcoquímica, que já desenvolveu o plástico biodegradável e conta com níveis de produtividade invejáveis.

Temos terra, tecnologia, produtividade e mercados interno e externo a serem consolidados e ampliados. Com sensibilidade para dosar, misturar e administrar esses ingredientes, o agronegócio em geral e o da cana-de-açúcar, particularmente, podem ser o passaporte da entrada brasileira para o mundo dos países desenvolvidos. 

* Este texto é uma cópia da entrevista dada por Eduardo Pereira de Carvalho, economista e presidente da Unica – União da Agroindústria Canavieira de São Paulo. A entrevista encontra-se no site www.unica.com.br.