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interesse_debian [2008/03/28 00:27] (atual)
root criada
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 +====== Interesse e Desinteresse no Debian ======
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 +"What can an operating system developer do that would actually improve the situation, make the world a better place?"
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 +Richard Stallman
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 +== 0. Introdução ==
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 +O problema do interesse e do desinteresse em projetos voluntários causa uma certa efervescência no debate em torno da comunidade de software livre e de código aberto. Dentre as questões mais recorrentes, estão aquelas que colocam o problema básico da subsistência: ¨como ganhar a vida com software livre e de código aberto”? Outras questões e respostas relacionadas ao interesse e aos benefícios da participação em projetos abertos e/ou livres também é recorrente e tem como base a orientação majoritária do utilitarismo individualista, como no famoso argumento de Eric Raymond em a Catedral e o Bazar, em que defende a existência de uma economia da dádiva entre programadores, através da essencialização da figura do homem egoísta, via psicologia evolutiva.
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 +Em uma palestra chamada “Why Debian for Developers?” oferecida durante o “Debian Day” para a comemoração 14 anos do projeto internacional Debian na cidade de Porto Alegre, um coloborador do Debian-Brasil colocou uma das questões mais recorrentes na abordagem da chamada comunidade Debian para não-iniciados. O colaborador palestrante compartilhou o que acreditava ser a motivação primeira para ingressar no projeto Debian: “Não tem gente, não tem dinheiro, mas a gente quer produzir o melhor sistema operacional [...] que for humanamente possível fazer”.
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 +Com base em estudos da comunidade de software livre e de código aberto, este artigo tem por objetivo refletir sobre o “caráter voluntário, por assim dizer, aparentemente livre e gratuito, e, no entanto, obrigatório e interessado das prestações” (Mauss, 2000:188-189) entre os membros da rede social do projeto Debian – um coletivo a funcionar sob a lógica da dádiva na Internet. O projeto Debian é responsável por uma articulação de desenvolvedores de software livre1 de várias partes do mundo – agência coletiva, distribuída pela rede para a produção e a distribuição de um sistema operacional. Primeiro, discutiremos alguns aspectos do projeto Debian com foco nos laços sociais tecidos entre seus membros. Após uma breve introdução, faremos a discussão dos autores que nos oferecem as ferramentas teóricas adequadas para equacionamento do problema do interesse e do desinsteresse, com ênfase nas motivações para o voluntariado no projeto Debian. Esta discussão será feita com base em entrevistas realizadas com desenvolvedores Debian via IRC e no trabalho etnográfico de Gabriella Coleman (2005) sobre a maneira como o espaço de produção em rede da comunidade Debian estabelece formas de sociabilidade, confiança entre membros e preceitos éticos específicos. Por fim, examinaremos a possibilidade de caracterização de uma das dimensões dessa produção (a distribuição das distinções e do prestígio) como um potlatch e o seu resultado, o sistema operacional Debian GNU/Linux, como uma dádiva no mundo informático.
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 +== 1. Deb-Ian GNU/Linux ==
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 +O projeto Debian foi lançado pelo norte-americano Ian Murdock em agosto de 1993 com o objetivo de criar uma distribuição de software livre não-comercial. O projeto foi inicialmente patrocinado pelo Projeto GNU2 e experimentou um crescimento exponencial ano após ano. Em 1994, a distribuição Debian em sua versão 0.91 tinha algumas dúzias de desenvolvedores voluntários. Em sua última versão de abril de 2007, o projeto contava com mais de mil desenvolvedores trabalhando em 18.000 pacotes de software, distribuídos pela Internet em 20 CDs (3 DVDs)3 no conjunto oficial do sistema operacional.
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 +Uma das características marcantes do projeto Debian é a sua orientação comunitária, com processos de tomada de decisão por consenso ou votação de representantes (democracia, consenso e meritocracia intercalados). Com base em sua etnografia da comunidade Debian, Coleman afirma que os “desenvolvedores Debian operam em um imaginário social enraizado na concepção Milliana de individualismo que lhes exige o cultivo de suas habilidades, o aprimoramento da tecnologia e a prova de seu valor para os outros hackers no interior de sua fraternidade de elite” (Coleman, 2005: 22, tradução minha). Para o ingresso no projeto como Desenvolvedor Debian (DD) é preciso passar por um processo de incorporação. Esse processo garante, segundo Coleman (op. cit.), confiança e coesão no ambiente virtual, uma vez que as trocas do grupo são, em grande medida, realizadas pela Internet, ainda que sejam promovidos importantes encontros anuais face-a-face, as chamadas Debconf. O processo de incorporação de novos voluntários (NMP – New Maintaner Process) ocorre em três momentos segundo Coleman (2005:41): 1) o neófito devem estar na rede de relações de algum dos desenvolvedores Debian e ser indicado por ele; 2) o entusiasta deve compartilhar a experiência do ritual de entrada (respondendo perguntas com base no Contrato Social Debian e o Debian Free Software Guidelines sobre suas motivações para ingressar na comunidade e suas habilidades para contribuir de forma efetiva); e, finalmente, 3) deve partilhar dos valores e aprender o vocabulário específico para atuar como um voluntário (interagindo via listas de discussão, IRC, empacotando, corrigindo ou documentando softwares, etc.).
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 +== 2. O interesse e o desinteresse em teoria ==
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 +No debate sobre o interesse e o desinteresse nas agências social e econômica, ao menos, quarto autores estão relacionados e se fazem presentes: Sahlins, Bourdieu, Godbout e Caillé.
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 +Para a nossa discussão, é particularmente importante a crítica elaborada pelos autores da figura do homo oeconomicus - espécie de correlato do bom selvagem de Rousseau no domínio liberal4 -, a funcionar em explicações e interpretações no campo das ciências sociais e econômicas. A este respeito, Sahlins (2000) possui um insight valioso acerca da persistência desta figura histórica (ficcional) do agente que atua racionalmente para maximizar os lucros de sua ação e para minimizar os custos, com base no cálculo dos meios para alcançar seus fins. O autor afirma que, ao contrário dos argumentos que se mobilizam para fazer a defesa da suposta evidência irrefutável do espírito barganhador a orientar a ação social, esta seria uma marcas de uma cultura particular (individualismo utilitarista) a determinar a intencionalidade por trás da ação5 – uma vez que não existiria “qualquer relação necessária entre o que as pessoas fazem e as razões que elas podem ter para fazê-lo” (Sahlins, 2000: 305, grifo meu).
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 +Para Bourdieu (1996), neste debate em específico, um das questões centrais é a de saber quais são as condições de possibilidade de um ato desinteressado, tendo em vista todas as implicações de sua reflexão situada na contra-mão do utilitarismo como horizonte filosófico. A operação teórica sugerida pelo autor é a do deslocamento da noção de interesse para as noções de illusio, libido e investimento. Ao fazer referência ao mundo social em sua multi-dimensionalidade, quer dizer, com base em uma teoria dos campos e do habitus, o interesse é equacionado nos termos de uma estruturação mental que é produto da incorporação da estruturação objetiva de um dado campo (aquilo que o autor chamada de “cumplicidade ontológica entre estruturas mentais e estruturas objetivas de espaços sociais”, Bourdieu, 1996:139). Logo, o interesse, ao invés de ser um produto consciente, o cálculo de custos e benefícios da ação, é a expressão de um dado campo e deve ser a ele referido. Existem, em suma, dois caminhos possíveis dentro desta linha argumentativa: o do desinteresse como recusa do interesse puramente econômico (o que caracterizaria uma das formas de reducionismo) e o da manifestação de disposições desinteressadas ou generosas - que são estruturas sociais incorporadas e estruturadas na forma de um habitus - o esquema gerador de práticas que é interiorizado pelos agentes sociais ao longo de suas trajetórias no interior de espaços de socialização.
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 +Por sua vez, Jacques Godbout (2002) sustenta uma avaliação do que seria a oposição comumente feita entre o homo oeconomicus e o homo donator, avaliação balizada pela necessidade de atualizar a teoria em torno da economia do dom (repensada como o estudo dos processos de tecitura e manutenção de laços sociais). Segundo o autor, escaparia das duas tendências comuns nas ciências sociais, o holismo e a o individualismo metodológico, o “jogo constante entre liberdade e obrigatoriedade” (Godbout, 2002:76). Disso resulta uma incapacidade em situar o problema da gênese do laço social para as duas tendências, por um lado, em função da figura do ator racional orientado à maximização de seus benefícios a partir do cálculo dos custos da ação, por outro, de um sujeito cujo móvel da ação são os constrangimentos de ordem estrutural. Como uma solução para o impasse, o agente social é situado pelo autor nessa zona de ambigüidade em que oscila entre a gratuidade e a obrigatoriedade. E esta é uma posição bastante fecunda para a nossa análise do trabalho voluntário na comunidade Debian como veremos a seguir.
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 +À questão da ambigüidade, ou melhor, da fluidez e plasticidade da economia do dom (que é também uma economia dos símbolos e da política), Caillé (1992) propõe uma definição da dádiva como ponto de partida para a caracterização dos circuitos de troca que estão para além da reciprocidade e do interesse puros. O dom, a rigor, seria “toda prestação de bem ou serviço efetuado, sem garantia de retorno, [que visa] criar, alimentar ou recriar o elo social entre pessoas” (Caillé, 1992:32). Nesta perspectiva, o problema da abordagem de Bourdieu reside no fato de que o interesse (ou a illusio, in ludo) é um elemento comum à composição de todos os campos. Ademais, o desinteresse seria da ordem do cálculo inconsciente – o que se expressa, segundo Caillé, na forma emprestada da psicanálise lacaniana do ça calcule.
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 +Do ponto de chegada da reflexão de Caillé, surge a questão: “entre os defensores do livre arbítrio e do arbítrio servil, como podemos arbitrar”? A idéia do interesse é, então, desmembrada em “interesse por” e “interesse em”, representando respectivamente o interesse instrumental e exterior em relação a uma atividade social e o interesse pela realização de atividades por prazer nas quais há o sentimento de estar/ser incluído. Para Bourdieu, existiria a injunção à “rebater o interesse por em relação ao interesse em”, sem permitir, por conseguinte, uma reflexão aprofundada, garantida pela sociologia crítica como prática de desvelamento de estratégias sociais, empreendida no jogo e na impossibilidade de enquadramento do dom a partir de quatro registros, conforme argumenta Caillé: 1) obrigação; 2) espontaneidade; 3) interesse (por); e 4) como prazer (interesse em).
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 +A despeito das incompatibilidades, uma tentativa de aproximação entre os autores pode ainda ser feita a partir do tema da política (ou do político na economia) e de alguns pontos de aproximação teórica. A este respeito, faríamos referência a Caillé, Godbout e Bourdieu para os quais a questão política (em formulações teóricas distintas) estaria implicada na insistência do individualismo metodológico naturalizado e assumido como referencial teórico de maior poder explicativo e interpretativo para muitas correntes nas ciências sociais. De forma esquemática, nos diz Caillé, “é possível dizer que a modernidade se edificou confiando plenamente no desdobramento de duas grandes lógicas sistêmicas e funcionais: a lógica de mercado [interesse particular e regra da equivalência] e a lógica do Estado representativo [monopólio legal da força]”.
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 +Para a reflexão acerca do interesse e do desinteresse no trabalho voluntário para a comunidade Debian, a posição de Caillé e Godbout habilita-nos a ir mais longe que Sahlins e Bourdieu. E a razão para isto consiste na forma como os autores abordam a gênese do laço social e a agência situada entre a condicionalidade e a incondicionalidade, a obrigatoriedade e a gratuidade, o interesse e o desinteresse em uma zona de ambigüidade. Sob a injunção às três obrigações do Dom – dar, receber e retribuir -, a atualização da discussão de Mauss por parte de Caillé e Godbout diz respeito à teorização daquilo que caracterizam como a ligação entre dom e simbolismo6.
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 +Vejamos agora como se equacionam interesses e desinteresses entre bens e pessoas no interior da comunidade Debian.
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 +== 3. Voluntarismo na comunidade Debian ==
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 +Um enquadramento instantâneo e espontâneo da comunidade Debian nos ofereceria a seguinte disposição: em um pólo, à direita, ficariam os atributos fundamentais do mercado desde a perspectiva liberal, com a orientação à acumulação de capital e o apego ao produto do trabalho de agentes informáticos. Em outro pólo, à esquerda, figuraria o modelo de funcionamento que é próprio da comunidade de software livre - o de uma economia da dádiva entre programadores -, em que haveria a obrigatoriedade contratual do desapego ao código-fonte dos programas com a proporcional e respectiva acumulação de prestígio entre os pares.
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 +Contudo, bastaria um pouco de empiria para que evidenciássemos a inadequação dos modelos apartados da economia de mercado de um lado e do dom de outro. A experiência junto aos desenvolvedores nos leva a constatar que a vivência dos agentes na comunidade Debian é muito mais rica e diversificada do que os modelos apartados do liberalismo e da dádiva são capazes de apreender. Daí a questão de como os diferentes grupos que compõem a ecologia da comunidade de software livre e de código aberto atuam entre economias, entre espaços sociais, dialogando nos e entre diversos mundos de ação.
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 +Não nos parece, portanto, que a nossa problemática deva ser informada pelo “paradoxo da gratuidade7”, ou seja, a partir da pergunta de por que é fornecido ao Debian um trabalho altamente valorizado e demandado pelo mercado por grupos orientados ao compartilhamento e ao voluntariado. Não seria mais racional e adequado à realidade do establishment corporativo a dominar a paisagem tecnológica engajar-se em projetos de software pago? Este questionamento simplesmente não faz muito sentido para os agentes8. A reflexão nativa está situada entre economias e não há contradição em atuar seja no mercado ou para o Debian, cooperando para desenvolver e distribuir uma dádiva para usuários e produtores de software desde que continue sendo livre. Como costumam dizer os hackers alinhados com o projeto GNU, fala-se free no sentido de liberdade de expressão e não de cerveja grátis, ou seja, a questão é a liberdade da informação e dos usuários e produtores de informação e não proibição da venda do produto do trabalho. No caso do Debian, em sua definição de software livre (codificada no documento DFSG – Debian Free Software Guidelines) há inclusive suporte para a utilização de softwares proprietários (não-livres) no topo do sistema operacional Debian GNU/Linux, ainda que a distribuição tenha uma orientação não-comercial. E um grande número de desenvolvedores e colaboradores atuam, ao mesmo tempo, em empresas e para o Debian, muitas vezes sendo pagos para trabalharem em personalizações do sistema.
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 +"eu não diferencio fortemente o trabalho em que eu sou pago e o trabalho que eu faço por diversão".
 +Krura9, Desenvolvedor Debian
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 +Quando questionados sobre as razões pelas quais trabalham como voluntários, os desenvolvedores respondem de forma recorrente que a diversão, a busca e o compartilhamento do conhecimento, a tecitura de novos laços e a maior margem de atuação para tomar decisões são importantes:
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 +"Interagir com outras pessoas, fazer amigos, pessoas com os mesmos interesses, é divertido [...] Eu gosto de trabalhar com pessoas com altas habilidades; o sentimento é o de comunidade e de ser parte de algo tão grande. É bom quando um lançamento é feito e você sabe que trabalhou para que ele fosse feito"".
 +Jeana, Desenvolvedora Debian
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 +Há uma bibliografia recente em ciências sociais e elaborada pelos próprios membros da comunidade de software livre e de código aberto sobre a ligação da ética hacker com o desenvolvimento de novos coletivos na Internet (Himanen, 2001; Raymond, 2000; Torvalds, 2001; Coleman, 2005; Apagnua, 2001). O que nos parece importante reter desta discussão para os nossos objetivos é que o trabalho no contexto hacker é orientado pelo prazer10 – e, com este intuito, agrupam-se diversos coletivos para colaborar em um particular projeto de software. O trabalho é geralmente bastante flexível, organizado em redes, nas quais se combinam grupos de usuários locais, como no Brasil, organizado por estados, o Debian-RS, Debian-CE, Debian-RJ, etc., a falar em nome do projeto Debian internacional e promover encontros face-a-face (Dia D – Debian Day, Debconf) e install fests - reuniões para a instalação do Debian GNU/Linux nos computadores das pessoas entusiasmadas com a idéia de rodar algo diferente do sistema operacional Windows.
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 +"Ajudar num projeto que preza pela liberdade e porque ser voluntário no debian é divertido. Também é bem legal sentir-se parte de um projeto tão grande como o debian - liberdade que o código, documento, som, imagem, video seja livre para distribuir, para reproduzir e modificar como a DFSG diz [...] diversão porque ao trabalhar num pacote ou tradução você acaba aprendendo muito, superando o conhecimento que existia anteriormente - a sensação de entregar um trabalho - sensação de realização, superação, reconhecimento".
 +Fipe, Colaborador Debian
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 +Há também um sentimento comum relatado por um colaborador Debian como “sentir-se como um tijolo em uma parade” (Kriby, Colaborador Debian), uma metáfora para a organização coletiva do Debian, em que cada desenvolvedor e colaborador fornece o seu trabalho para a formação de algo muito maior11. Outra expressão bastante comum nas assinaturas de e-mail dos entusiastas do software livre é aquela que diz: “it is not about taking, it is about giving”. Ambas expressam este valor compartilhado pela comunidade, a saber, a liberdade como princípio organizativo, acompanhada de todas as obrigatoriedades que se fazem presentes no ato de dar uma contribuição voluntária para a comunidade.
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 +"Adoro desafios. Adoro programar. Adoro conversar e trabalhar com pessoas que sabem mais do que eu e aprender com elas. Adoro ver alguém querendo aprender a programar bem e poder ajudar essa pessoa a melhorar seu código"
 +Salv, Desenvolvedor Debian
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 +O valor das pessoas e dos softwares estão intimamente entrelaçados12. A produção do software livre implica na tecitura de laços de amizade, de trabalho e de cooperação, assim como de desavença e de disputa. Ainda que este fato não represente nenhuma novidade, uma vez que a antropologia econômica tem, desde os seus primórdios, procurado demonstrar como os circuitos econômicos estão imbutidos nas relações sociais, ou melhor, são constitutivos e inseparáveis da cultura, o caso do projeto Debian é a evidência de uma articulação que aponta para o coletivismo na produção de tecnologia da informação. O valor das pessoas deriva, em grande medida, do prestígio auferido e alcançado entre os pares. E este prestígio está relacionado também ao valor da contribuição voluntária (ou não) ofertada à comunidade. A excelência técnica é um alto valor a partir do qual são avaliadas as pessoas, os softwares e os grupos de produção de software, sem que a liberdade seja colocada de lado.
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 +"First and foremost that it gives me a very special opportunity both to learn more about computing and also to shape how my own computer operates. I also believe very strongly that Debian represents the freedom aspect of free software, and that this is perhaps the most delicate and important aspect of the community that needs to be fostered"
 +Graber, Desenvolvedor Debian
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 +A dívida, no que se refere às prestações na economia da dádiva entre programadores, também é uma dimensão presente. Ela não se presentifica, no entanto, somente em formas discursivas, mas na justa medida em que retro-alimenta os desenvolvedores de software livre com o sentimento de que foram recompensados em seus esforços - em que uma peça de software ou um projeto no qual estão trabalhando tem êxito e/ou lança uma nova versão aprimorada. Esta seria uma das dimensões do simbolismo e da dádiva experimentadas na produção e promoção de software livre. O circuito de prestações, contra-prestações e retribuições se faz de diversas formas: são elogios à solidez de uma determinada aplicação direcionados ao grupo de desenvolvedores, é um patch oferecido a uma versão de software já publicizada e utilizada em larga escala para resolver bugs, são traduções para a internacionalização/localização de projetos, etc. Não há, a rigor, uma maneira única a materializar as trocas, elas ocorrem com softwares, elogios, sentimentos de recompensa, amizade, ódio/desavença (em flamewars), oferta de espaço em disco, de servidores para hospedagem de algum serviço, entre outras formas.
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 +== 4. Considerações Finais ==
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 +Poderíamos afirmar que a força que anima as trocas emana do Contrato Social e do das Linhas-guia para o Software Livre segundo a comunidade Debian13? Seriam estes importantes documentos, portanto, como hau a estabelecer, nas palavras de Bruno Karenti, ”a ligação de direito e a ligação entre as coisas” (Karsenti, 1994:385)? Certamente não.
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 +Como apontado por Lévi-Strauss em seu prefácio à obra de Marcel Mauss, incorreríamos desta forma no erro de assumirmos a explicação nativa como explicação/interpretação antropológica de fenômenos sociais. É por esta razão e pela necessidade de ampliar o escopo da análise das entrevistas que optamos por assumir a perspectiva da antropologia do dom de Caillé e Godbout, tendo em vista que é a partir dela que nos é permitido “lançar luz sobre a imbricação do espírito e da matéria e sua relação com o nível econômico e jurídico nas quais elas se atualizam” (Karsenti, 1994: 385).
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 +Vimos que para os desenvolvedores Debian existe muito mais em jogo do que o software, pois existe o prazer, a política em processos de tomada de decisão, a amizade e a dificuldade em lidar com “problemas sociais sérios [pois] nem sempre você consegue trabalhar com pessoas legais. Alguns DDs são completos imbecis (como pessoa)” (Salv, desenvolvedor Debian). Todos estes aspectos conformam um mundo de ação dedicado que exige dos agentes o partilhamento de valores e práticas, assim como definições de liberdade para os programadores, colaboradores, usuários, softwares, documentos, etc.
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 +O mundo de ação Debian pode ser entendido como um potlatch em certos aspectos. Ele possui este traço fundamental recorrentemente discutido pela literatura em antropologia econômica dos valores das pessoas em seu entrelaçamento com o valor das coisas. A dinâmica interna do Debian também possui um aspecto estatutário que está ancorado na lógica do potlatch – o maior prestígio para a melhor contribuição para a comunidade, no sentido da contribuição útil e primorosa em seus quesitos técnicos. O sistema operacional GNU/Linux Debian representa uma dádiva que não tem preço: como pagar as horas de trabalho dos milhares de voluntários espalhados pelo mundo? O móvel é essencialmente outro e o ponto de partida também para a lógica comunitária. Ainda que esteja implicado, o retorno financeiro não é o principal motor da colaboração, tal como seria se, por hipótese, todos agentes fossem, em suas convicções mais íntimas, indivíduos individualistas em busca da maximização dos benefícios de suas ações. O ponto de partida também não é o da pretensa auto-regulação de um domínio de troca que estaria apartado do social, é, justamente pelo contrário e acima de tudo, o da defesa da liberdade como obrigação de quem produz, distribuiu e utiliza softwares que mobiliza pessoas na empresa desta agência coletiva organizada através da Internet.
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 +== 5. Bibliografia ==
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 +APGAUA, Renata. “Linux e a Perspectiva da Dádiva” in: Horizontes Antropológicos, ano 10, no. 21, pp. 41-65, 2004.
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 +BOURDIEU, Pierre. Razões práticas. Sobre a teoria da ação. Campinas, Papirus, 1996.
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 +CAILLÉ, Alain.”O Dom entre o interesse e 'desinteressamento'". In: Paulo Henrique Martins & Roberta Campos Bivar. Polifonia do Dom. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2006, p. 25-65.
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 +______. Antropologia do dom: o terceiro paradigma. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
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 +______. Don, intérêt et désintéressement. Bourdieu, Mauss, Platon et quelques autres. Paris: La Découverte/MAUSS, 1994.
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 +COLEMAN, E. Gabriella, "Three Ethical Moments in Debian". Disponível em SSRN: http://ssrn.com/abstract=805287, 2005.
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 +GODBOUT, Jacques. “Homo donator versus homo oeconomicus”. In: MARTINS, Paulo Henrique (Ed.). A dádiva entre os modernos. Petrópolis: Vozes, 2002, pp. 63-97.
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 +POLANYI, Karl. A Grande Transformação - as origens de nossa época. Rio de Janeiro, Editora Campus, 1980.
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 +KARSENTI, Bruno. Marcel Mauss, Le fait social total. Paris: PUF, 1994.
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 +MAUSS, Marcel. "Ensaio sobre a dádiva: forma e função da troca na sociedade arcaica". In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac&Naify, 2000, p. 183-314.
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 +SAHLINS, Marshall. “Experiência individual e ordem cultural” In: Cultura na prática. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2000. p. 301-377.
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 +TORVALDS, Linus. Prologue: “What makes hackers tick?” In HIMANEN, Pekka. The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age. New York: Random House, 2001.
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 +1“Nós mantemos a definição de Software Livre para mostrar claramente o que deve ser verdadeiro à respeito de um dado programa para que ele seja considerado software livre. 'Software Livre' é uma questão de liberdade, não de preço. Para entender o conceito, você deve pensar em 'liberdade de expressão', não em 'cerveja grátis'. 'Software Livre' se refere à liberdade dos usuários executarem, copiarem, distribuírem, estudarem, modificarem e aperfeiçoarem o software”. (Fonte: Projeto GNU, acessada dia 13/05/2005, http://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt.html). O software livre, em definição, está ancorado nas chamadas quatro liberdades: usar, estudar, copiar e distribuir as modificações que forem feitas ao código de um programa de computador.
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 +2O projeto GNU propunha uma economia cujo meio circulante fosse a informação a ser manipulada livremente e de forma colaborativa - “GNU Não é UNIX, Software Livre, Sociedade Livre” (Página de Abertura, Projeto GNU - http://www.gnu.org – acessado dia 13/10/2006, ênfase e tradução minha). Há uma relação estreita entre as liberdades que concernem a economia de softwares e sua relação com um ideal de sociedade, tal como preconiza o projeto GNU. Conforme postula o seu fundador Richard Stallman, “a sociedade também precisa de liberdade. Quando um programa possui um dono, os usuários perdem a liberdade de controlar parte de suas próprias vidas. E, acima de tudo, toda sociedade deve encorajar o espírito de cooperação voluntária em seus cidadãos. Quando os donos dos softwares nos dizem que ajudar nossos vizinhos de forma natural é pirataria, eles poluem o espírito cívico de nossa sociedade. É por isso que nós dizemos que Software Livre é questão de liberdade, não de preço”. (“Why Software Should Not Have Owners” - http://www.gnu.org/philosophy/why-free.html, acessado dia 16/10/2006, tradução minha). É possível assumir a iniciativa contratualista da comunidade Debian (com a criação da Debian Free Software Guidelines e o Contrato Social Debian) como uma derivação da concepção de liberdade para a GNU GPL – licença pública geral GNU -, que regula as trocas entre produtores, distribuidores e usuários de software livre. Esta discussão merece um espaço maior ao que podemos dedicar aqui. Para um breve histórico e uma análise aprofundada dos contratos da comunidade Debian, ver Coleman (2005).
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 +3“A Brief History of Debian” (fonte: http://www.debian.org/doc/manuals/project-history/ch-releases.en.html – acessada dia 13/07/2007)
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 +4“Na realidade, os sugestões de Adam Smith sobre a psicologia econômica do homem primitivo eram tão falsas como as de Rousseau sobre a psicologia política do selvagem” (Polanyi, 1990: 63). Para uma crítica do paradigma do selvagem barganhador, ver Polanyi, 1990.
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 +5Para Sahlins, não existe uma determinação da consciência a partir das condições materiais de existência, assim como a intencionalidade não é de ordem estritamente subjetiva, mas cultural. Nem o materialismo a determinar práticas, nem o idealismo do sujeito como origem e fundamento de suas práticas mas a dialética estrutura e ação. “Qualquer intenção considerada pode corresponder a um conjunto indefinido de práticas culturais e vice-versa, uma vez que a intenção se liga à convenção por um esquema de significação relativo e contextual. Mas, se a ligação é arbitrária, nem por isso é aleatória, na medida em que é motivada no interior da ordem cultural” (Sahlins, 2000: 305-306).
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 +6“Já o estruturalismo lévi-straussiano ou lacaniano, ao contrário, tomou um caminho errado perdendo o dom, reduzido à troca, perdendo o símbolo, reduzido ao signo e perdendo o simbolismo, reduzido ao simbólico, ou seja, ao conjunto de símbolos herdados, dos símbolos mortos, excluindo os símbolos vivos. Resgatando a coextensividade do dom e do símbolo, obtemos os meios para reabrir a questão do sentido que fora obstruída e começar a adivinhar com o que se assemelharia uma semântica – ligada à semântica da ação – que não fosse apenas formal” (Caillé, 2002: 243, ênfase adicionada).
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 +7O trabalho de antropologia de Renata Apgaua (2004) “O Linux e a Perspectiva da Dádiva” propõe a discussão deste ponto precisamente: como as lógicas da dádiva e do mercado estão presentes na constituição das comunidades de software livre e como é feita a passagem de um registro ao outro. A autora assume como ponto de partida a existência de um Linux puro e outro impuro (o hacker/geek e o corporativo) e defende que o paradoxo da gratuidade (ou a leitura mercantil da economia da dádiva) leva a reconsiderarmos o problema do entrecruzamento das lógicas. A este respeito, a autora defende que “mesmo no que poderia ser considerado um momento de mercado, há espaço para a dádiva e vice-versa. A dádiva não possui uma localização, mas ela surge em relação das pessoas com as coisas, as pessoas e os acontecimentos, o que pode ocorrer mesmo [...] em um momento de mercado. Não existem, necessariamente, hora e local para o surgimento da dádiva. Ela é relacional, contextual e imprevisível. Talvez existam momentos propícios, mas a imprevisibilidade e o mistério caracterizam a própria dádiva” (APGAUA, 2004:239).
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 +8É importante observar as diferentes posições nativas em torno do tema do software livre e de código aberto. Como um representante no Brasil dos interesses corporativos da IBM, César Taurion defende que a questão financeira é, em última instância, o que determina a colaboração: “Claro que os fatores psicológicos e sociais se mantém ao longo da sua vida como contribuinte ativo do projeto, mas é interessante que observamos que à medida que o colaborador aumenta seu nível de comprometimento com o projeto (mais horas investidas) a motivação começa a derivar para recompensa financeira. Ele aprende que existem chances de ganhar dinheiro, seja direta ou indiretamente. E mais curioso ainda, a maioria dos que pregam que a gift economy (http://en.wikipedia.org/wiki/Gift_Economy) deve ser a única base econômica do Open Source (ganhar dinheiro é uma heresia) faz parte do grupo que ou não colabora (são apenas usuários) ou colaboram muito esporadicamente, praticamente não escrevendo linhas de código. Herético? Mas façam vocês uma pesquisa informal e provavelmente vão chegar a este mesmo resultado... Portanto na prática, à medida que o envolvimento com o projeto aumenta, a importância da recompensa financeira aumenta...Na minha opinião isto é natural e saudável. Open Source não é exceção às regras da economia [...] A gift economy deve ser uma das bases dos valores econômicos, mas não pode ser a única. Ganhar dinheiro é sempre bom!” (“O que motiva o desenvolvedor Open Source” - http://www-03.ibm.com/developerworks/blogs/page/ctaurion?entry=o_que_motiva_o_desenolvedor, acessado dia 07/07/2007).
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 +9Os nicknames são fictícios, pois faz-se necessário a preservação da privacidade e da identidade daqueles que concederam a entrevista.
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 +10“Você não se preocupa em fazer muito dinheiro. A razão pela qual os hackers do Linux fazem algo é porque eles acham que é muito interessante, e eles gostam de compartilhar esse algo interessante com os outros. Inesperadamente, você obtém tanto o entretenimento do fato de que você está fazendo algo interessante, como também a parte social. Assim é como você tem este efeito Linux de rede fundamental para o qual existem muitos hackers trabalhando juntos porque eles obtêm prazer com o que fazem” (Torvalds, 2001:XVII, tradução e ênfases minhas).
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 +11Segundo Coleman (2005), este aspecto é passível de generalização para toda a comunidade de software livre e de código aberto: “the F/OSS hacker system of meritocracy compels individuals to release the fruits of their labor in order to constantly equalize the conditions for production, so that others can also engage in the life-long project of technical self-cultivation within a community of peers” (Coleman, 2005: 23).
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 +12Neste ponto, concordamos com Caillé em sua crítica à Bourdieu: “É, sobretudo, porque ele não pensa que a questão do valor das pessoas é logicamente e antropologicamente primeiro por relação àquele do valor das coisas, ela retorna a ilusão economicista característica que consiste em crer que o valor das pessoas é determinado pelo valor econômico das coisas que elas possuem” (Caillé, 1994: 95, tradução nossa).
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 +13Poderíamos aqui acrescentar igualmente o importante insight sobre o contrato desde a perspectiva de uma antropologia do dom. Segundo Caillé, “qualquer contrato sempre implica algo de não contratual e que as origens históricas e antropológicas do contrato não são contratuais” (Caillé, 2002:201).
  
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