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A rede de movimento político-informática:

a constituição do movimento de software livre no Brasil




  1. Introdução

Existe um recente conflito social em curso que diz respeito ao trabalho sobre a informação (por exemplo, a produção de programas de computador). Com a consolidação da internet como um artefato cultural de alguns grupos sociais, sobretudo técnico-científicos, instaurou-se uma disputa em torno do controle de ferramentas informáticas (que significa a capacidade de trabalho sobre elas e a sua utilização/imposição sob certas condições arbitrárias).

A idéia de tecnopolítica1 de Pierre Lévy pode servir para ilustrar um aspecto fundamental deste conflito pela produção, distribuição e consumo de tecnologias com o argumento de que não existe uma essência neutra das ferramentas informáticas. E que, portanto, elas são moldada por uma série de confrontos sociais. Em uma dada ordem de discurso2, certos acontecimentos podem nos servir de ponto de partida para a análise da disputa acerca do que as tecnologias são, assim como elas devem ser trabalhadas e aquilo que elas deverão vir a ser no futuro.

Em 1984, um manifesto redigido por um hacker norte-americano (Richard Stallman, especialista em computação), então pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), deu início a um movimento internacional de produtores de software (Projeto GNU) que propunha uma economia cujo meio circulante fosse a informação, manipulada livremente, segundo o manifesto3, de forma colaborativa. A ascensão deste movimento em escala global pode ser considerada um dos marcos fundamentais do processo de luta pela modelagem de ferramentas informáticas, justamente por colocar em jogo novas formas de trabalho em contraposição ao modelo corporativo (dominado por empresas com a Microsoft, Dell, Hewlett and Packard, entre outras).

Um acontecimento no movimento de software livre que deitou raízes no Brasil trouxe a tona (tornou visível uma temática em detrimento de outras tantas possíveis) um conflito bastante expressivo. Este acontecimento4 colocou em relação direta a corporação Microsoft (com seus representantes brasileiros), a chamada comunidade de software livre e a corporação IBM diante do problema da objetivação do trabalho sobre a informação. Em outros termos, poderíamos afirmar que estes grupos disputam entre si modelos de produção, licenciamento e distribuição de programas de computador, remetendo a diferentes concepções em torno da organização do trabalho e, em nível mais abstrato, às relações entre tecnologias e sociedades, sujeitos de tecnologia e sujeitos da tecnologia. As políticas do ITI-BR (instituto de tecnologia da informação do governo federal brasileiro) em favorecimento da implementação de software livre nos órgãos do governo fez com que a Microsoft se pronunciasse publicamente, reclamando ao governo “neutralidade” para tratar de questões tecnológicas. Este evento tornou pública e notória a oposição entre estes agentes informáticos no Brasil: de um lado, o modelo de uma economia de software livre nascente, de outro, a continuidade de um modelo corporativo de venda de softwares fechados.

No entanto, o atual estado da luta entre as lógicas livre e corporativa tornou nebulosa a fronteira entre as diferentes formas de discursivizar e promover uma economia da informação (entendida aqui especificamente como produção, distribuição e consumo de ferramentas informáticas). Este ensaio tem por objetivo esboçar uma reflexão acerca das formas de organização do movimento de software livre no Brasil e perceber quais são as estratégias discursivas mobilizadas para constituir/romper/manter os laços de sociabilidade em rede do grupo. O movimento de software livre no Brasil é entendido aqui como um ator coletivo heterogêneo fundamental no processo de consolidação da sociedade da informação no Brasil. A nossa hipótese de trabalho é a de que este movimento tornou-se responsável pela formação de uma cultura técnico-política, ao estabelecer pontos de contato entre o mundo técnico-informático e o político profissional/institucional.


  1. O movimento de software livre como rede de movimento


Os anos 70 marcam o período de reavaliação teórica no domínio das discussões sobre ação coletiva. Esta reavaliação foi feita no contexto de “formação de uma nova esfera de conflitos que pertence especificamente às sociedades pós-industriais” (Melucci, 1989). A reformulação teórica deste momento teve por objetivo acompanhar as modificações ocorridas no padrão organizacional dos movimentos, verificada empiricamente:


A situação normal do 'movimento' hoje é ser uma rede de pequenos grupos imersos na vida cotidiana que requerem um envolvimento pessoal na experimentação e na prática da inovação cultural [...] A nova forma organizacional dos movimentos contemporâneos não é exatamente instrumental em seus objetivos [...] A forma do movimento é uma mensagem, um desafio simbólico aos padrões dominantes”. (Melucci, 1989: 62)


A constatação feita por Melucci é a de que se faz necessário reformular a estrutura teórica de análise. E, neste sentido, o autor propõe que a categoria movimento social seja redefinida como sistema de ação, baseado na solidariedade (o fato de os seus membros compartilharem de uma mesma identidade, de um mesmo conjunto de símbolos e significados), no conflito (na medida em que envolve agentes opostos que lutam pelos mesmos recursos) e com vistas a romper os limites do sistema em que ocorre a ação coletiva.

A idéia de uma rede de movimento utilizada pelo autor é particularmente interessante para o nosso objeto de estudo, uma vez que o movimento de software livre desenvolve suas ações fundamentalmente através da internet (grande parte de seus agentes trabalha desenvolvendo a tecnologia infra-estrutural da rede mundial de computadores).

Melucci também faz eco à proposição clássica de Marshall McLuhan (o meio é a mensagem) através da metáfora de um movimento social que seria, em si, um meio-mensagem-que-comunica. Isto é particularmente útil também para a nossa reflexão sobre o movimento de software livre brasileiro. Em suas próprias práticas de produção de ferramentas, ele informa aos domínios político-institucional e empresarial um novo modelo de economia da informação, baseado na perspectiva da dádiva.

Faz-se necessário, antes de avançarmos na discussão das características pertinentes ao movimento de software livre, nos interrogarmos sob que condições esta efervescência cultural de técnicos em informática, estudantes/professores e políticos profissionais constitui de fato um movimento de software livre no Brasil. A este respeito, Melucci, com o objetivo de estudar movimentos sociais em sociedades complexas (Melucci, 2001), propõe-nos alguns princípios que deveriam ser satisfeitos para que um movimento “empiricamente verificado” pudesse servir para um trabalho analítico. Façamos, pois, a discussão de cada um desses princípios.


2.1. Um movimento social não é a resposta a uma crise, mas a expressão de um conflito


Em uma franca oposição a duas ênfases tradicionais5 (estrutural/objetivista e “subjetivista/motivacional”), Melucci procura afastar a idéia de que os movimentos sociais seriam manifestações de uma patologia social ou de uma contradição inerente ao funcionamento do sistema sócio-econômico.

Existem lutas que são travadas atualmente no âmbito da economia da informação (entendida como produção, consumo e distribuição de tecnologias da informação). O movimento de software livre é composto por uma série de subgrupos que estão engajados na disputa em torno do modelo de economia de informação. Por exemplo, a Fundação de Software Livre (FSF – Free Software Foundation) está na raíz desta disputa contra o modelo corporativo (cujo foco reside em um modo centralizado de produção, altamente hierarquizado e organizado para a construção de ferramentas a ser em emprestadas6 para os usuários mediante pagamento).


2.2. Um movimento social é uma ação coletiva cuja orientação comporta solidariedade, manifesta um conflito e implica a ruptura dos limites de compatibilidade do sistema ao qual a ação se refere


Ainda sobre a FSF, a sua proposta de software livre está em conflito com o mercado de software corporativo vigente. Um elemento fundamental distintivo dos dois modelos em disputa é o sistema de licenciamento. A Microsoft, por exemplo, trabalha com a EULA (end user license agreement) que proíbe o compartilhamento das peças de software com outras pessoas e impede a visualização do código-fonte dos programas. A licença de software livre (GPL), pelo contrário, coloca-se na contramão do modelo corporativo ao fazer a defesa da livre circulação das informações e da necessidade de abertura e publicização dos códigos dos programas.

Em termos mais amplos, a solidariedade do movimento de software livre se manifesta na adesão de seus agentes a certos postulados básicos interdependentes, sem se resumir a eles: 1) o conhecimento deve ser livre; 2) não se deve impedir as pessoas de terem acesso as informações; 3) compartilhar informações serve para ajudar a seus vizinhos; 4) a questão moral do compartilhamento de informação precede a questão informática. Outros sinais de adesão dos membros da comunidade de software livre materializa-se em símbolos como o pingüim do sistema operacional GNU/Linux e o C invertido da licença GPL (copyleft). Os símbolos e significados em torno da Liberdade são marcas distintivas do movimento, sinais de uma identidade constantemente fabricada, visto que a todo momento ela está sendo acionada tanto para defender a causa do software livre como para fazer uma avaliação de conjuntura, na qual lamenta-se que o presente esteja dominado pela lógica corporativa e sugere-se que muitos esforços deveriam ser mobilizados para que o futuro viesse a ser livre.

Nos EUA, onde o movimento de software livre nasceu e no Brasil, onde ele começou a ganhar expressão nacional, as correlações de força as quais se submetem os agentes do movimento (ou dos movimentos) são bastante diferenciadas. Uma característica interessante do movimento de software livre no Brasil é o sua penetração em órgãos do governo federal, e a implementação de políticas públicas pró-software livre7. Este fato não ocorre nos Estados Unidos, onde as manifestações públicas normalmente se endereçam às grandes corporações informáticas e o contato com a esfera política institucional é raro.


2.3. O campo analítico da ação de um movimento social depende do sistema de relações no qual tal ação coletiva se situa e a qual se refere


A recomendação de Melucci neste item é a de evitar analisar os movimentos sociais em suas manifestações empíricas (lugares institucionais, protestos localizados, etc.), para empreender um estudo das condições de possibilidade destas manifestações empiricamente constatadas. Ou seja, os sistemas de referência da ação coletiva devem ser entendidos como estruturas analíticas, como formas específicas de relações sociais (Melucci, 2001:18).

Para retomarmos a discussão do fim do item anterior, a idéia de um movimento de software livre no Brasil, a defesa, que parte dos próprios agentes informáticos, da existência de um movimento é sintoma da presença de um elemento que estabelece a diferença entre a estratégia global (o movimento de software livre que partiu dos Estados Unidos e se internacionalizou) e a construção de táticas locais (a criação de grupos de defesa do software livre no Brasil e em outras partes do mundo, como a África). Quer dizer, no Brasil, o movimento, em suas diversas facetas, estabelece ligações com o governo federal, governo dos estados e prefeituras, fato que revela a tendência a uma hibridização discursiva e prática: são mesclados os saberes e as práticas informacionais dos hackers e dos agentes governamentais em alguma medida. Em termos de estratégia global, em contraste, o movimento de software livre no Estados Unidos caracteriza-se por um forte apelo liberal (todas as decisões e o avanço do movimento se fazem para além da instância político-institucional; em alguns casos, a interferência governamental não é vista como positiva em se tratando de economia livre de software8). Portanto, teríamos duas tendências que não coincidem: a da promoção de software livre que propõe a agenda tecnológica do governo brasileiro e a tendência global (norte-americana) que influencia as práticas/os discursos em diversas partes do mundo mas se revela como produto de outro conjunto de relações sistêmicas.

Em suma, existiria um sistema de referência básico a sustentar o movimento de software livre em todas as suas manifestações empíricas: o sistema mobilizador de uma economia da dádiva, na qual o compartilhamento dos softwares garante a status dos agentes do grupo (aquele que fornece o peça de software mais importante, garante para si o lugar de maior prestígio na comunidade de produtores de software livre).

  1. A rede de movimento: rede de discursos e práticas


Ao longo dos anos 70 no Brasil, uma nova configuração foi assumida pelos movimentos sociais. Produto da crise das instituições, sindicatos burocratizados e o fechamento do Estado em função da ditadura militar, a “sociedade civil” foi revitalizada com a emergência de novos personagens políticos. Eder Sader foi o autor responsável pela investigação das condições de surgimento das novas formas organizativas que vieram a tona.

Como já mencionamos sobre a contribuição de Melucci, os trabalhos teóricos sobre a ação coletiva nos anos 80 já não podiam utilizar-se dos referenciais do período anterior. As mudanças ocorridas ao longo dos anos 70 transformaram o formato das organizações políticas de contestação em múltiplos aspectos. No Brasil, o trabalho de Eder Sader revelou-se inovador pela proposição de um novo caminho téorico-metodológico.

Parece-nos interessante reter do trabalho de Sader a discussão sobre as relações entre linguagem e sociedade. A sua definição de matriz discursiva nos permite investigar os processos de constituição/manutenção identitária a partir da filiação dos agentes a certas redes de enunciados (redes de discurso que estabelecem/transformam/reforçam as fronteiras sociais de um grupo).


O discurso que revela a ação revela também o seu sujeito. A linguagem faz parte das instituições culturais com que nos encontramos ao sermos socializados. É na verdade a primeira instituição cultural e que dá o molde primordial através do qual daremos forma a qualquer de nossos impulsos. Ela é condição tanto no sentido de que nos “condiciona”, quanto no sentido de que constitui um meio para alcançarmos outras realidades, ainda não dadas” (p. 57 – Quando novos personagens entram em cena)


    1. Posições discursivas sobre a questão do software (livre e proprietário)


Com base na reflexão sobre as matrizes discursivas, organizamos um conjunto de textos a partir de um acontecimento em que emergiu um conflito aberto entre a comunidade de software livre e os representantes brasileiros da corporação Microsoft. Poderíamos antecipar a análise destes textos com a afirmação de que se distribuem neles todos três posições-sujeito básicas: a) a comunitária “livre” para a qual a questão da liberdade dos programas de computador é condição de possibilidade de um trabalho sobre a informação; quer dizer, a determinação qualitativa “livre” é uma das regularidades que incidem sobre os objetos discursivos desta posição; b) a corporativa-comunitária (IBM) para a qual o modelo de software livre é bom para os negócios pela sua flexibilidade – o software livre como objeto em disputa liga-se no discurso da IBM a uma outra rede de enunciados e dissipa a regularidade da determinação da posição discursiva “livre”; c) e a corporativa tradicional para a qual o software/programa de computador é obviamente proprietário, na justa medida em que é produto de um trabalho que deve ser protegido. Estas três posições centrais possuem derivações, outras posições periféricas desdobram-se a partir da centralidade destas posições básicas.

Ao pensarmos nos lugares de enunciação possíveis, faz-se necessário descrevermos também a que conjunto de práticas (em um âmbito institucional) eles correspodem. Vejamos alguns exemplos:


Como em livre empresa e livre discurso, o “livre” (free, que em inglês também quer dizer grátis) em “software livre” refere-se a liberdade, não a preço. Isso significa que se tem a liberdade para estudar, mudar e redistribuir o software que usa: o cidadão ajuda a si mesmo e aos outros e, assim, participa da comunidade”. (Richard Stallman - Em Busca dos Ideais da Independência – 2000)

Com certeza o movimento do software livre é de grande importância, pois afeta a estrutura da indústria de software, e obriga a revisão de algumas práticas comerciais de licenciamento. Já vemos claras mudanças na própria maneira como o software passa a ser distribuído e remunerado”. (Cezar Taurion – IBM – entrevista em 05/05/2005).


Nossa perspectiva é a da neutralidade tecnológica. Pensamos que o consumidor --nesse caso, os diferentes órgãos de governo-- tem a possibilidade de colocar em disputa as diferentes ofertas de empresas, o que dará um melhor retorno aos investimentos do governo. Pensamos que passar uma lei ou decreto que obrigue a compra de software de um tipo ou de outro é algo que deixa de beneficiar o governo e levará a uma redução da competição e, portanto, promoverá custos mais altos e soluções inferiores do que se houvesse mais empresas competindo”. (Eugenio Beaufrand – Microsoft América Latina – entrevista em 28/04/2005).


Faz-se necessário conceber as práticas de discurso como práticas que sustentam outras ações práticas e vice-versa – com a idéia aproximada de que o discurso é constitutivo do social. Dos três excertos acima, podemos deduzir três modelos de trabalho sobre a informação que incidem sobre diferentes objetivações do que o software é. Quer dizer, para um grupo de agentes, os programas de computador devem ser livres para circularem e estabelecerem laços cooperativos entre seu grupo de produtores, para outro grupo, devem servir para impulsionar um novo modelo de negócios em âmbito corporativo concorrencial, ou, ainda, para outro grupo é preciso colocar em igualdade de termos todos os modelos de software para equilibrar as disputas entre eles (através de instâncias político-institucionais).

Essa idéia contrasta com o mais comum dos softwares proprietários, que mantém usuários sem ajuda e divididos: o trabalho interno é secreto, é proibido compartilhar o programa com o vizinho. Não podemos estabelecer uma comunidade numa terra de software-proprietário, onde cada programa tem um senhor [...] A Microsoft certamente quer os benefícios do nosso código, sem as responsabilidades. E tem um propósito mais específico ao atacar o GNU GPL: ela é mais conhecida pela imitação do que pela inovação. Quando faz algo novo, seu propósito é estratégico – e não é aperfeiçoar a computação para seus usuários, mas fechar alternativas para eles”. (Richard Stallman - Em Busca dos Ideais da Independência – 2000).


Entendemos que o modelo de software livre vai transformar a indústria de software, mas não de maneira uniforme. Em nossa opinião, conviveremos sob ambos modelos, softwares livres e proprietários, e cabe à indústria e aos usuários extrair o melhor das alternativas disponíveis [...] Para a IBM, software livre é uma estratégia de negócios aderente à visão on-demand. Todos os nossos hardwares suportam Linux e todos os principais softwares já têm versão para Linux”. (Cezar Taurion – IBM – entrevista em 05/05/2005)


Fatos sobre Windows e Linux - companhias líderes e analistas independentes confirmam: o windows tem um custo total de propriedade menor do que o Linux, e um desempenho superior. Microsoft – Softwares que agilizam negócios” (página de internet Microsoft Brasil - www.microsoft.com/brasil/technet/).


Todas estas manifestações discursivas trabalham com um conjunto de evidências pré-construídas relacionadas com as realidades práticas de cada grupo de agentes que se faz sujeito das discursividades em questão. Para o grupo comunitário, a questão do “compartilhamento da informação” precede o momento de mercado, de disputa entre as ofertas de software. Para os grupos corporativos, a IBM, apostando no software livre, e a Microsoft, negando o “compartilhamento de informação”, está em jogo o investimento em diferenciais competitivos que dizem respeito diretamente ao domínio de práticas sobre a informação. De um lado, o software é “livre” necessariamente e por outro é “proprietário” obviamente – ou o trabalho se organiza de forma colaborativa guiado por uma economia da dádiva, ou ele se organiza de acordo com uma economia de mercado com vistas a acumulação.


  1. Considerações Finais


No atual estado da luta em torno do trabalho sobre a informação, o processo mais evidente é o de hibridização dos grupos sociais em confronto. De forma embrionária no Brasil, o movimento de software livre começou a encaminhar resoluções de conflitos latentes. Durante o período que antecedeu o último fórum de software livre (junho de 2005), o significante livre bastou para reativar os vínculos necessários no campo de memória discursiva do movimento, a saber, a necessidade de um software livre, para uma comunidade livre composta por hackers livres. O momento atual, transcorridos seis anos desde o lançamento da proposta de um movimento Open Source, é o de uma profunda cisão no interior do movimento internacional de software livre. Agora, a questão da liberdade está vinculada uma outra expressão que é sintoma de uma nova orientação discursiva, a escolha.

Em relação ao nosso caminho teórico-metodológico, parece-nos que o grupo (e os subgrupos) de agentes de software livre cumpre as exigências teóricas de Melucci para uma análise de movimentos sociais como categoria analítica. No entanto, para este ensaio, deixamos em suspenso uma série de questionamentos que nos levariam a problematizar e a aprofundar a identificação que fizemos dos critérios de Melucci com as evidências que havíamos observados em campo. Desta primeira experiência de trabalho, obtivemos, com certeza, uma maior clareza dos contornos dos subgrupos que compõem o movimento de software livre brasileiro. A escolha da abordagem discursiva relacionada ao problema da análise de redes sociais também revelou-se bastante produtiva. Com ela, conseguimos articular o domínio de práticas sociais, no âmbito do trabalho sobre a informação sob a perspectiva da reciprocidade, e o domínio de práticas discursivas que também acenavam para redes de enunciados e significados (e, por conseguinte, de sujeitos-agentes). Cumpre, pois, realizamos, em um trabalho futuro, análises de maior fôlego para conteplarmos todas as facetas deste fenômeno da ação coletiva para o qual esboçamos apenas algumas descrições de superfície.


  1. Bibliografia


LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34,1998.

MELUCCI, Alberto. 2001. A Invenção do Presente: movimentos sociais nas sociedades.
complexas
. Petrópolis: Editora Vozes, 2001.

__________. Um objetivo para os movimentos sociais? In Revista Lua Nova, n° 17, São Paulo: 1989.

SADER, Eder. Quando novos personagens entram em cena experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-80). São Paulo: Paz e Terra, 1988,

1Ver Lévy, Pierre. Cibercultura (Editora 34, São Paulo, 1999, tradução de Carlos Irineu
da Costa do original em francês publicado em 1997)
.

2Este conceito diz respeito à articulação entre práticas de discurso e práticas não-discursivas trabalhadas por Foucault em Arqueologia do Saber (1969). Para uma definição do conceito, ver Foucault, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1998. A definição de matriz discursiva utilizada por Eder Sader ancora-se, em alguma medida, na discussão foucaulteana da formação discursiva.

3A definição do software livre conforme o website do projeto GNU: “Nós mantemos esta definição do Software Livre para mostrar claramente o que deve ser verdadeiro à respeito de um dado programa de software para que ele seja considerado software livre. "Software Livre" é uma questão de liberdade, não de preço. Para entender o conceito, você deve pensar em "liberdade de expressão", não em "cerveja grátis". "Software livre" se refere a liberdade dos usuários executarem, copiarem, distribuirem, estudarem, modificarem e aperfeiçoarem o software. Mais precisamente, ele se refere a quatro tipos de liberdade, para os usuários do software: a liberdade de executar o programa, para qualquer propósito (liberdade no. 0); a liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades (liberdade no. 1); acesso ao código-fonte: um pré-requisito para esta liberdade. A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo (liberdade no. 2); A liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie (liberdade no. 3)”. Acessado dia 13/05/2005: http://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt.html

4Em uma nota para a imprensa, Sérgio Amadeu, diretor do ITI-BR, fez a defesa do software livre em detrimento da implementação de softwares proprietários: “"Em atenção às demandas da imprensa nacional e internacional, que se solidariza com o Governo Brasileiro nesse momento sem precedentes na história, em que o dirigente de uma importante instituição pública deste País sofre pessoalmente a ação daqueles interessados em manter um modelo hegemônico, venho, após ouvir meus advogados e procuradores federais, dizer que a provocação judicial movida contra minha pessoa é, por si só, tão inusitada e descabida, que não merece resposta. Por outro lado, gostaria de registrar que a contratação de software preservando os valores liberdade e abertura é, para o Governo Brasileiro, uma questão ligada de forma indissolúvel ao princípio democrático. E porque se percorreu um longo e doloroso caminho para chegar ao estágio atual de desenvolvimento da democracia neste País, não arrefeceremos em nossa luta”. Acesssado dia 30/10/2004: http://www.softwarelivre.org/news/2532

5A ênfase estrutural pode ser pensada como uma desconsideração da especificidade de um movimento social, na medida em que são feitas remissões constantes do plano fenomênico-empírico para o plano estrutural com vistas explicar a ação a partir do estabelecimento de uma relação causal. A outra ênfase – das motivações individuais – centra sua explicação em uma análise das estruturas de oportunidade de ação, ação acionada por uma cálculo de custos e benefícios da mobilização a ser realizado pelos indivíduos.

6Existe uma série de restrições aplicadas à peça de software distribuída pela licença EULA (End User License Agreement, da Microsoft). Um estudo detalhado da licença pode ser encontrado aqui: http://www.msversus.org/node/1acessado dia 21/06/2005

7Citamos na introdução o caso do ITI-BR (instituto de tecnologia da informação do governo federal). A cidade de São Paulo também teve um projeto de implementação de tele-centros para a inclusão digital com o uso de software livre. O objetivo, segundo o site do projeto, era a de “consolidar-se como a porta de entrada das comunidades à rede mundial de computadores e aos serviços e informações prestados aos cidadãos por Prefeituras, Estados e União, além de, incluir as pessoas das regiões de maior exclusão, na luta pelos seus direitos e no exercício de seus saberes coletivos, na busca de suas necessidades e no desenvolvimento de habilidades e. competências necessárias ao cotidiano em constante transformação. Quando foi criada em janeiro de 2001 a Coordenadoria do Portal e Inclusão Digital encontrou as áreas de exclusão social e econômica da cidade fora da rede, com milhões de excluídos digitais” (http://portal.prefeitura.sp.gov.br/cidadania/coordenadoria_governo_eletronico/pid/0001 – Acessado dia 14/05/2005).

8Durante o último fórum internacional de software livre, ocorrido durante os dias 1,2,3 e 4 de junho em Porto Alegre, realizamos 30 entrevistas com vistas ao mapeamento dos grupos que atuam no movimento de software livre brasileiro. Nesta ocasião, tivemos a oportunidade de entrevistar Eric Raymond, um dos nomes de grande status no movimento internacional Open Source, que se auto-intitulou um capitalista anarquista. Dizia ele: “Eu sou um libertário, Isto significa que eu acredito em mercados livres, pouco governo ou nenhum governo, se você me compreende”. Para este trabalho, não pretendemos analisar em profundidade estas cisões internas do movimento, no entanto, é importante ressaltar que as considerações que estamos fazendo estão ancoradas em um trabalho empírico prévio. Cumpre agora desenvolver um trabalho analítico. A entrevista com Eric Raymond pode ser visualizada neste endereço: http://www.noticiaslinux.com.br/nl1118191189.html

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