Bioética
e Família
José
Roberto Goldim
A relação
familiar tem grande repercussão em inúmeras áreas
da Bioética. Os procedimentos de reprodução assistida,
o processo de tomada de decisão envolvidos em situações
de início e fim de vida, de autorização para a realização
de procedimentos ou para a participação em projetos
de pesquisa são exemplos de situações onde os vínculos
familiares podem ter papel decisivo. O objetivo do presente texto é
apresentar alguns elementos que permitam facilitar a compreensão
da abrangência destes vínculos.
Hilde
L. Nelson e James L. Nelson apresentam vários aspectos que devem
ser considerados quando se discute questões éticas relativas
à família. Eles destacam sete aspectos fundamentais:
-
Os membros da família
não são substituíveis por similaridade ou por pessoas
melhor qualificadas;
-
Os membros da família
são vinculados uns aos outros;
-
A necessidade de
intimidade produz responsabilidade;
-
Fazer com que uma
pessoa exista produz responsabilidades;
-
As virtudes são
aprendidas no colo da mãe e do pai;
-
As famílias
são histórias em andamento;
-
Nas famílias
os motivos contam muito.
Os
membros da família não são substituíveis por
similaridade ou por pessoas melhor qualificadas.
Os membros das
famílias, ao contrário dos funcionários de organizações
ou outros tipos de vínculos, não são passíveis
de serem substituídos por outras pessoas baseando-se no critério
de qualificação. As organizações são
estruturadas para atingirem uma determinada finalidade externa a elas.
As famílias são um fim em si mesmas. Mesmo em situações
de rearranjos familiares, tais como separações e novos casamentos,
o impacto na vida dos seus membros é muito maior e mais profundo
que o verificado nas organizações. Por este motivo é
que os programas de adoção buscam manter unidos os irmãos
de uma mesma família de origem. Por este mesmo motivo, muitas pessoas
adotadas ou geradas a partir de doação de gametas podem querer
conhecer as suas origens biológicas.
Os
membros da família são vinculados uns aos outros.
Os membros de
uma família não são escolhidos, salvo as situações
de casamento e adoção. As relações de parentesco
se baseiam, além do afeto, em relações biológicas,
políticas e históricas e não em cláusulas contratuais.
Os irmãos têm vínculos biológicos entre si e
com seus pais que em muito ultrapassam os limites de uma simples amizade.
O mesmo acontece com os primos. Outros membros das famílias se agregam
devido a novos vínculos que se estabelecem, através de relacionamentos
afetivos, como por exemplo, em casamentos. Pessoas de famílias biológicas
diferentes passam a constituir novas histórias compartilhadas, trazendo
consigo todos os seus vínculos prévios, que podem facilitar
ou dificultar o seu próprio relacionamento. Mesmo em situações
onde por questões de violência ou traição rompem-se
os vínculos sociais e afetivos entre membros de uma família,
os vínculos morais permanecem.
A
necessidade de intimidade produz responsabilidade.
Uma relação
de intimidade envolve um relaxamento nas defesas,
amplia o volume de informações pessoais que são compartilhadas.
A intimidade cria oportunidades de crescimento pessoal, amplia as possibilidades
de conhecermos melhor a nós mesmos e aos outros com quem compartilhamos
esta relação íntima. A intimidade cria espaços
de enriquecimento interpessoal. A intimidade ocorre quando existe
confiança, quando a pessoa reconhece no outro a responsabilidade
para poder lidar com segurança com estas informações.
O dever associado ao acesso a estas informações é
a confidencialidade, que é um dever moral.
Em contrapartida, as relações de intimidade também
tem um risco associado que é o do aumento na vulnerabilidade.
A revelação da intimidade de uma família, feita por
um de seus membros, gera danos para todos os seus membros, pois todos tornam-se
vulneráveis, passíveis de terem suas vidas privadas tornadas
públicas.
Fazer
com que uma pessoa exista produz responsabilidades.
As
virtudes são aprendidas no colo da mãe
e do pai.
A família
é o primeiro e, talvez, mais importante elemento formador do referencial
moral de uma pessoa. As famílias são comunidades morais.
A formação da consciência da criança ocorre
predominantemente na família. As pessoas desenvolvem-se ao longo
de toda a sua vida, por influência de amigos, da escola, do convívio
social. Em todas estas situações as virtudes podem ser aprendidas,
porém a família é a primeira comunidade moral que
a maioria das crianças frequenta.
As
famílias são histórias em andamento.
Os membros de
uma família são sempre influenciados pela história
de seus familiares. As situações familiares são dinâmicas
e não estáticas. Muitas vezes apresentam um padrão
de funcionamento, mas mesmo este padrão pode ser alterado. As decisões
familiares baseiam-se nesta noção de processo, de situações
que se sucedem. O que garante a estabilidade de uma relação
familiar não é a manutenção de um estado, mas
sim a compreensão desta possibilidade de mudança. Charles
Dickens, em seu livro David Copperfield, já dizia que "acidentes
ocorrerão mesmo nas famílias mais ordenadas". Uma família
baseada na noção de estabilidade estática (estado)
poderá ter um abalo imprevisível, enquanto que outra que
se tem por base um equilíbrio dinâmico (processo) terá
possivelmente maiores condições de enfrentar criativamente
este desafio. Habitualmente as pessoas seguem, sem questionar, a afirmativa
de Leo Tolstoy, em Anna Karenina, de que "as famílias felizes
são todas iguais, cada família infeliz é infeliz a
sua maneira". Tanto as famílias felizes e infelizes o são
de maneira diversa e particular, as famílias infelizes apenas despertam
maior atenção.
Nas
famílias os motivos contam muito.
Aristóteles,
na Ética a Nicômacos, afirmava que entre pessoas íntimas
as intenções são tudo. A motivação á
um fator diferencial no estabelecimento da intimidade. A nossa percepção
sobre a motivação das pessoas pode alterar a nossa avaliação
sobre as mesmas e suas ações. Nas famílias as ações
motivadas por dever tem menos significado que as motivadas por amor. Henrik
Ibsen, em A casa de bonecas, dizia que a "vida em família deixa
de ser livre e bela quando se baseia no tédio e em obrigações".
Referências
Bibliográficas
Aristóteles.
Ética a Nicômacos. Brasília: EDUNB, 1985.
Nelson
HL, Nelson JL. The patient in the family: an ethics of Medicine and families.
New York: Routledge, 1995:74.
Jecker
NS. Family relationships. In: Reich WT. Encyclopedia of Bioethics. 2 ed.
New York: Simon & Schuster Macmillan, 1995.
Material de Apoio - Família
Página de Abertura - Bioética
Texto atualizado em
06/06/2003
(c)Goldim/2000-2003