Ética e Pesquisa em Animais Silvestres


 

José Roberto Goldim


 

Habitualmente, quando se fala em Ética e Pesquisa em Animais logo são lembradas pesquisas realizadas em laboratórios com animais criados especialmente para este tipo de atividades visando a sua transposição para os seres humanos. Os estudos em animais são considerados como uma etapa importante para a pesquisa na área da saúde, por exemplo. Estes animais são selecionados, criados em biotérios com todos os cuidados de segurança biológica, reconhecimento de origem e linhagem, alojamento, alimentação  e cuidados ambientais. Porém outros animais também são objeto de pesquisa, que são os animais silvestres. Estes animais por estarem no ambiente natural não tem estes cuidados descritos anteriormente, mas exigem por parte dos pesquisadores e demais pessoas envolvidas na reflexão sobre aspectos éticos da pesquisa algumas considerações, além daquelas estabelecidas nas legislações específicas sobre captura e manejo de animais silvestres.

 

Uma importante questão inicial é a da pretensa relação de proximidade entre as espécies a serem estudadas com a espécie humana. A maioria da legislações sobre pesquisa em animais refere-se apenas a utilização de animais vertebrados. Os invertebrados ficam em uma situação de desamparo legal. A suposta distância evolutiva faz com que estudos e procedimentos nos invertebrados sejam realizados sem os cuidados que habitualmente são propostos e utilizados para as demais espécies.

 

            A própria coleta dos animais silvestres para fins de estudo tem implicações éticas. As coletas, para coleções didáticas redundantes, também tem esta mesma característica. O objetivo pode ser  o de instrumentalizar o aluno em buscar, coletar e preparar adequadamente uma coleção de animais, porém existem alternativas que permitem este aprendizado sem estas inadequações. Outras vezes são realizadas coletas por esgotamento, ou seja, todos os espécimes existentes em um determinado local são coletados com a finalidade de demonstrar variabilidades locais ou determinar que efetivamente era uma nova espécie que estava sendo descrita. Isto acarreta a extinção daquela espécie naquele local específico, o que é inadequado desde o ponto de vista científico, ético e ecológico. 

 

            Algumas vezes a questão não se esgota na coleta dos animais silvestres, mas também na maneira com que são manipulados visando a sua conservação em coleções. As técnicas que visam conservar os animais da melhor forma possível, nem sempre são as mais adequadas, desde o ponto de vista do sofrimento destes animais. Isto ocorre em espécies que não tem apelo afetivo, quer seja por estarem aparentemente mais distantes da espécie humana, como no caso dos invertebrados, ou por serem manejadas habitualmente ser reconhecer o sofrimento, como no caso dos peixes.

 

            As pesquisas com animais silvestres tem várias outras implicações. A própria presença dos pesquisadores acarreta modificações nos hábitos, comportamentos e habitats. Por mais dissimulada que seja a presença, ela sempre implicará em alguma mudança ambiental. Quando ocorrem interações entre os pesquisadores e os animais esta situação pode se agravar, inclusive com a possibilidade de contaminação recíproca de doenças.

 

Outra situação é a que diz respeito a captura de animais para fins de pesquisa ou experimentação. Estes procedimentos devem ser embasados na avaliação da geração de conhecimento que resultará desta pesquisa, da sua exeqüibilidade e da relevância da mesma. Os cientistas têm se utilizado de algumas situações peculiares para obterem material de pesquisa, como por exemplo nos estudos sobre hábitos alimentares e de verminoses. É proibido abater animais com finalidade de obter o conteúdo visceral, utilizado nestas pesquisas. Uma forma utilizada, que é legalmente adequada, é a obtenção deste material quando ocorre a temporada de caça. Os pesquisadores solicitam aos caçadores que permitam a utilização das vísceras dos animais abatidos. O argumento é que os animais foram mortos, com autorização para outra finalidade, e que estão apenas coletando um material biológico que habitualmente e descartado. Uma importante questão ética que poderia ser levantada é a da possibilidade de uma mesma pessoa desempenhar estes dois diferentes papéis de caçador e de pesquisador. O abate teria por finalidade obter legalmente as vísceras, que desta forma deixariam de ser material biológico descartado, para se tornar no objeto em si de todas as ações, ainda que legalmente amparadas.



Pesquisa em Animais
Página de Abertura - Bioética


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