Pósfácio à 2ª edição de Iracema

José de Alencar

ALENCAR, José de. Posfácio à 2a edição de Iracema. In: TELLES, Gilberto Mendonça et al (org.). Prefácios de romances brasileiros . Porto Alegre: Acadêmica, 1986. p.95-111.

Comentário e notas: José Luís Jobim (UFF)

II

Minhas opiniões em matéria de gramática têm-me valido a reputação de inovador, quando não é a pecha de escritor incorreto e descuidado.

Entretanto poucos a darão mais, senão tanta importância à forma do que eu; pois entendo que o estilo é também uma arte plástica, porventura muito superior a qualquer das outras destinadas à revelação do belo. Como se explica, portanto essa contradição?

Pretendo tratar largamente desse assunto em uma pequena obra que tenho entre as mãos, e na qual me propus a fazer um estudo sobre a índole da língua portuguesa, seu desenvolvimento e futuro; considerando especialmente a tão cansada questão do estilo clássico.

Sou obrigado, porém a antecipar algumas reflexões como resposta ao artigo, que em seus Novos ensaios críticos , escreveu sobre Iracema um distinto literato português, o Sr. Pinheiro Chagas (1).

Vale a pena ser advertido por crítico tão ilustrado, quando a censura, como a sombra que destaca no quadro o vivo e fino colorido, não passa de um relevo imerecido a elogios dispensados com excessiva generosidade. A questão vai, portanto extreme de qualquer assomo da vaidade, que estaria por demais satisfeita com as finezas recebidas.

Eis as palavras do artigo a que me refiro:

" Não, esse não é o defeito que me parece dever notar-se na Iracema; o defeito que eu vejo em todos os livros brasileiros e contra o qual não cessarei de bradar intrepidamente é a falta de correção na linguagem portuguesa, ou antes a mania de tornar o brasileiro uma língua diferente do velho português por meio de neologismos arrojados e injustificáveis e de insubordinações gramaticais, que (tenham cautela) chegarão a ser risíveis se quiserem tomar as proporções duma insurreição em regra contra a tirania de Lobato ".

Continua o escritor no desenvolvimento dessas idéias pela maneira por que melhor se pode ver em sua obra; escusando-me de reproduzir todo o texto para não alongar-me.

Na opinião do Sr. Pinheiro Chagas, a gramática é um padrão inalterável, a que o escritor se há de submeter rigorosamente. Só o povo tem a força de transformar uma língua, modificar sua índole, criar novas formas de dizer. Apoiado na opinião de Max Muller (2), o ilustrado crítico sustenta que a filologia é uma ciência natural ou física, regida por leis invariáveis como a rotação dos astros.

Singular doutrina que ninguém se animou a produzir, nem mesmo a respeito das artes liberais, manifestações menos inteligentes do pensamento. A música, a pintura e a escultura, que falam exclusivamente aos sentidos, por sua natureza material, sofrem não obstante a impulsão do espírito. Beethoven ou Rossini, Fídias ou Rafael, Praxiteles ou Michelangelo, qualquer dessas individualidades, sem falar de tantas outras, teve o poder de criar uma escola, de abrir novos horizontes sua arte, de revelar formas antes desconhecidas.

A linguagem, porém, a única das artes que fala ao espírito, é um marco imutável, sobre o qual nenhuma ação têm os escritores, esses obreiros da palavra, que a nova teoria reduz à condição dos mecânicos, mais ou menos destros no manejo de um instrumento bruto!

Suponho eu que há grande equivocação na interpretação dada à teoria de Max Muller; o corpo de uma língua, a sua substância material que se compõe de sons e vozes peculiares, esta, só a pode modificar a soberania do povo, que nesses assuntos legisla diretamente pelo uso. Entretanto, mesmo nesta parte física é infalível a influência dos bons escritores; eles talham e pulem o grosseiro dialeto do vulgo, como o escritor cinzela o rudo troço de mármore e dele extrai o fino lavor.

Mas além dessa parte fonética da língua, que forma seu corpo, há a parte lógica, o seu espírito, ou, para usar da terminologia da ciência, a gramática. Essa não é, como se pretende, mera rotina ou usança confiada à ignorância do vulgo, que somente a pode alterar. Aqui está o ponto falso da teoria invocada.

A gramática, ou a filosofia da palavra, é incontestavelmente uma ciência. Como todas as ciências, ela deve ter em cada raça e em cada povo um período rudimentário; ainda mesmo depois de largo desenvolvi mento, existirá algum ramo de conhecimentos humanos que não esteja imbuído de falsas noções, e até de erros crassos?

O mesmo sucede com a gramática; saída da infância do povo, rude e incoerente, são os escritores que a vão corrigindo e limando. Cotejem-se as regras atuais das línguas modernas com as regras que predominavam no período da formação dessas línguas, e se conhecerá a transformação dessas línguas, e se conhecerá a transformação por que passaram todas sob a ação dos poetas e prosadores.

O ilustrado crítico, levado pela força da verdade, reconhece "que os sábios enriquecem um idioma". Ora, como enriquecê-lo senão aumentando-lhe o cabedal, dotando-o de outros vocábulos mais expressivos, e de locuções elegantes e sonoras?

Não me alongarei muito sobre a síntese da questão, porque receio me falte espaço para descer à análise.

Acusa-nos o Sr. Pinheiro Chagas a nós escritores brasileiros do crime de insurreição contra a gramática da nossa língua comum. Em sua opinião estamos possuídos da mania de tornar o brasileiro uma língua diferente do velho português!

Que a tendência, não para a formação de uma nova língua, mas para a transformação profunda do idioma de Portugal, existe no Brasil, é fato incontestável. Mas, em vez de atribuir-nos a nós escritores essa revolução filológica, devia o Sr. Pinheiro Chagas, para ser coerente com sua teoria, buscar o gérmen dela e seu fomento no espírito popular; no falar do povo, esse "ignorante sublime", como lhe chamou.

A revolução é irresistível e fatal, como a que transformou o persa em grego e céltico, o etrusco em latim, e o romano em francês, italiano, etc.; há de ser larga e profunda, como a imensidade dos mares que separa os dois mundos a que pertencemos.

Quando povos de uma raça habitam a mesma região, a independência política, por si só, forma sua individualidade. Mas se esses povos vivem em continentes distintos, sob climas diferentes, não se rompem unicamente os vínculos políticos; opera-se também a separação nas idéias, nos sentimentos, nos costumes, e portanto na língua, que é a expressão desses fatos morais e sociais.

Não fazemos senão repetir o que disse e provou um sábio filólogo N. Webster (3) : - "Logo depois que duas raças de homens de estirpe comum separam-se e se colocam em regiões distantes, a linguagem de cada uma começa a divergir por vários modos". Dicc. ingl. Introdução sobre a origem das línguas .

Creio que o Sr. Pinheiro Chagas se engana completamente quando pretende que o inglês e o espanhol da América é o mesmo inglês e o espanhol da Europa. Não só na pronúncia, como no mecanismo da língua, já se nota diferença, que no futuro se tornará mais saliente.

E como podia ser de outra forma, quando o americano se acha no seio de uma natureza virgem e opulenta, sujeito à impressões novas ainda não traduzidas em outra língua, em face de magnificências para as quais não há ainda verbo humano?

Cumpre não esquecer que o filho do novo mundo recebe as tradições das raças indígenas, e vive ao contato de quase todas as raças civilizadas que aportam a suas plagas trazidas pela imigração.

Em Portugal o estrangeiro perdido no meio de uma população condensada, pouca influência exerce sobre os costumes do povo: no Brasil, ao contrário, o estrangeiro é um veículo de novas idéias e um elemento da civilização nacional.

Os operários da transformação das nossas línguas são esses representantes de tantas raças, desde a saxônia até a africana, que fazem neste solo exuberante amálgama do sangue, das tradições e das línguas.

Não admira que um literato português note em livros brasileiros certa dissonância com o velho, idioma quinhentista. Essa mesma dissonância achamos nós escritores brasileiros nas páginas do Calabar e dos Bandeirantes, em que o ilustre poeta, o Sr. Mendes Leal (4), procurou descrever as cenas e tradições americanas. O velho estilo clássico destoa no meio destas florestas seculares, destas catadupas formidáveis, destes prodígios de uma natureza virgem, que não podem sentir nem descrever as musas gentis do Tejo ou do Mondego.

Os livros do Sr. Mendes Leal não passam para nós de traduções esmeradas de Cooper (5), com substituição de nomes geográficos. Seus personagens nada têm de brasileiros; que faltam-lhes não só os costumes, como esses idiotismos (6) indígenas, que o Sr. Pinheiro Chagas chama de incorreções, negando-nos assim o direito de criar uma individualidade nossa, uma individualidade jovem e robusta, muito distinta da velha e gloriosa individualidade portuguesa.

Se a transformação por que o português está passando no Brasil importa uma decadência, como pretende o Sr. Pinheiro Chagas, ou se importa, como eu penso, uma elaboração para a sua florescência, questão é que o futuro decidirá e que eu me proponho tratar largamente na obra a que já aludi. Sempre direi que será uma aberração de todas as leis morais, que a pujante civilização brasileira, com todos os elementos de força e grandeza, não aperfeiçoasse o instrumento das idéias, a língua.

Todos os povos de gênio musical possuem uma língua sonora e abundante. O Brasil está nestas condições; a influência nacional já se faz sentir na pronúncia muito mais suave de nosso dialeto.

Aproveitarei o ensejo para defender-me de alguns neologismos (7) de termos e locuções, pelos quais tenho sido censurado; a eles sem dúvidas se referiu o Sr. Pinheiro Chagas, quando me qualificou de inovador, embora não me compreendesse entre os mais audazes.


(1) Manuel Joaquim Pinheiro Chagas (1842-1895), poeta, novelista, dramaturgo, historiador, jornalista, orador e político português. Figura de grande prestígio em sua época, foi professor do antigo Curso Superior de Letras em Portugal.

(2) M. Max Muller foi professor em Oxford e membro correspondente do Instituto de França. Na biblioteca de Machado de Assis, constava uma tradução para o francês da 5. ed. inglesa de sua obra: La science du langage . Paris : Durant et Pedone Lauriel, 1867. 10. ed. 530 p. trad. para o francês por Georges Harris e George Perrot.

(3) Noah Webster (1758-1843) Lexicógrafo americano, que tinha intenção de padronizar a ortografia e a gramática da língua. Autor do Grammatical Institute of the English Language (1783-5); que se tornou a principal referência para questões de ortografia na América, durante várias gerações. Mais tarde, escreverá o Compendious Dictionary (1806), que precede o American Dictionary of the English Language (1828).

(4) José da Silva Mendes Leal (1828-1895) "encontrou inspiração na história brasileira do século XVII para escrever os quatro volumes de Calabar , impressos na tipografia do Correio Mercantil , do Rio de Janeiro, onde haviam sido publicados em folhetim" (Wilson Martins. História da inteligência brasileira . São Paulo: Cultrix/Edusp, 1977. V. 3. p.191).

(5) James Fenimore Cooper (1789-1851) primeiro escritor americano a ganhar reputação mundial. Sua obra mais famosa é The Last of the Mohicans .

(6) Segundo Aurélio Buarque de Holanda, idiotismo é uma "Locução, modo de dizer ou construção privativa de uma língua, e muitas vezes de origem popular ou familiar; idiomatismo" (Dicionário Aurélio eletrônico, versão 2.0, 1996).

(7) Segundo Aurélio Buarque de Holanda, neologismo é uma "Palavra, frase ou expressão nova, ou palavra antiga com sentido novo" (Dicionário Aurélio eletrônico, versão 2.0, 1996). Alencar, repetidamente acusado de empregar neologismos em seus textos, freqüentemente contra-argumenta que não se pode ter uma realidade diferente sem palavras diferentes que a representem.