Pósfácio à 2ª edição de Iracema

José de Alencar
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Comentário: José Luís Jobim (UFF)

Um dos problemas com que se defrontaram os escritores das antigas colônias, na era pós-colonial, foi o da língua. Que tipo de atitude adotar em relação à língua européia que desembarcou no continente, trazida pelo conquistador, mas que, no século XIX, já era moeda franca para a maioria da população, em países como o Brasil ou a Argentina?

Como as normas estabelecidas para o uso do idioma originavam-se quase exclusivamente da metrópole, e os novos países já registravam variações acentuadas em relação àquelas normas, havia no oitocentos uma questão no ar: deveria-se aceitar como padrão de correção a norma européia - e, como conseqüência, considerar erradas todas as práticas lingüísticas que não estivessem de acordo com aquela norma - ou deveria estabelecer um novo padrão, que contemplasse as idiossincrasias lingüísticas das nações emergentes?

No Brasil, José de Alencar é um dos exemplos mais destacados da importância desta questão. Repetidamente questionado sobre suas "incorreções" e "descuidos" como escritor, ele sempre procurou deixar claro que não aceitava os pressupostos a partir dos quais se julgava a sua escrita "incorreta" ou "descuidada". Acreditava que, por detrás de uma argumentação "purista" sobre o emprego da língua - que alegava a defesa de uma "correção" - encontrava-se, na verdade, uma proposta de submissão aos padrões lingüísticos prescritos pelos gramáticos portugueses e/ou por uma certa leitura do universo de escritores portugueses investidos de autoridade como "clássicos". Por isto, não aceitava esta argumentação "purista" e advogava o direito e o dever de os escritores brasileiros afirmarem sua diferença em relação aos padrões portugueses. Para fundamentar sua posição, o autor cearense adota várias estratégias, entre as quais: fazer extensas análises das repreensões gramaticais que recebe, justificando suas opções como fruto consciente de uma escolha que visou atender a características da língua portuguesa no Brasil que apresentariam diferenças em relação a Portugal; invocar a autoridade de lingüistas estrangeiros para abonar suas opiniões; apresentar as razões nacionalistas correntes no Romantismo, para fundamentar suas atitudes; procurar nos próprios "clássicos" contra-exemplos do que se propõe como norma, justificando as opções de uso da língua que emprega em seus romances. Estas estratégias, é claro, têm raízes históricas.

Após a proclamação da Independência do Brasil, em 1822, sucede-se a publicação, em todos os campos, de obras que buscam justificar ideologicamente a nossa autonomia política. A necessidade de mostrar que também temos um capital humano notável - representada, por exemplo, na Biografia de homens ilustres nas letras e artes do Brasil , de Antônio de Vasconcelos Meneses de Drummond - corre paralela à ânsia de assinalar diferenças e distância em relação à antiga metrópole, nos campos da língua e da literatura. Publicam-se obras em que os adjetivos nacional ou brasileiro ocupam lugar de destaque, como o Compêndio de gramática da língua nacional (1835) e o Compêndio de ortografia da língua nacional (1848), de Antônio Alvares Pereira Coruja (em ambos, Wilson Martins observa que " a palavra ' nacional ', para designar o idioma, equivale a um manifesto ") (Martins, 1977, p. 393); ou a Nova retórica brasileira (1860), de Antônio Marciano da Silva Pontes, aprovada para uso no Colégio Pedro II.

Contudo, longe de ser apenas um interesse de gramáticos e retóricos, a questão da Língua Nacional fez parte da ordem do dia dos literatos, no período pós-colonial. E dentre estes, poucos terão se dedicado mais a este tema do que José de Alencar, que inclusive deixou testemunhos explícitos sobre ele, em anexo a seus romances: os pós-escritos a Iracema e Diva ; o prefácio a Sonhos d'ouro , significativamente intitulado Bênção paterna ; as notas a O gaúcho ; etc. Deixou também sua participação em polêmicas, nas quais as questões lingüísticas eram debatidas. Talvez a mais famosa destas tenha sido a com Joaquim Nabuco (1), mas é importante assinalar as que teve com José Feliciano de Castilho e Franklin Távora.

Entre 1871 e 1872, usando os pseudônimos de Semprônio (JFC) e Cincinato (FT), aqueles dois escritores fizeram dueto contra Alencar. José Feliciano de Castilho, irmão de Antônio, o conhecido poeta romântico português, concentrava-se em objeções lingüísticas, assim resumidas por João Ribeiro:

"Em conclusão, a crítica de José Feliciano pode ser decomposta em dois motivos gerais: um, a censura indébita de imagens, de tropos e de neologismos quase sempre aceitáveis; o outro, a questão da gramática portuguesa que considera intangível e por isso mesmo inadaptável a quaisquer diferenciações fora do velho Portugal " (Ribeiro, 1929).

Repare-se que João Ribeiro cita Pinheiro Chagas, que condenava em Iracema "a mania de tornar o brasileiro uma língua diferente do velho português por meio de neologismos arrojados e injustificáveis" (2) (Apud Alencar, 1958, p. 313). Só que Ribeiro declara os neologismos "aceitáveis".

Alencar reitera, em seus textos, posições bastante definidas: as diferenças no uso da língua que se encontram nos autores brasileiros não são criação exclusiva destes autores, mas significam a incorporação de práticas lingüísticas já vigentes na fala de nosso povo; as analogias e diferenças entre o Português do Brasil e o de Portugal devem ser creditadas, entre outras coisas, às semelhanças e diferenças de meio e raça entre estas duas nações; a língua literária não é uma mera reprodução do falar do povo, mas uma elaboração dos literatos, que busca melhorar e enriquecer o patrimônio lingüístico popular nacional.

Com freqüência, quando se aborda a atitude de Alencar em relação à identidade lingüística nacional, cita-se a frase emblemática do pós-escrito a Diva: " A língua é a nacionalidade do pensamento como a pátria é a nacionalidade do povo " (Alencar, 1959, p. 559). Vista isoladamente, esta frase pode parecer apenas a confirmação de uma certa apropriação do pensamento de linhagem herderiana. Contudo, há muitas especificidades alencarianas, sobre as quais vale a pena chamar a atenção. Para começar, é bom lembrar que, em vez de adotar a equação clássica (uma língua + uma raça + uma terra = uma nação), ele prefere formular outra.

Para o autor de Iracema , a língua portuguesa, primeiro termo daquela equação, não poderia servir aos propósitos nacionalistas dos escritores de uma ex-colônia, pois o idioma pertencia originalmente à antiga metrópole, e certamente evocar as afinidades e interseções da comunidade lusófona não poderia servir para marcar a peculiaridade da nação brasileira. Assim, lutando contra aqueles que adotam a ideologia da pureza do idioma - inevitavelmente relacionada às suas origens portuguesas -, Alencar busca freqüentemente ressaltar as diferenças do Português do Brasil.

Quanto ao segundo termo daquela equação, a raça, o literato cearense está longe de propor a idéia de exclusividade de uma única. Na verdade, ele opta pelo oposto: chamar a atenção para a mescla de várias raças. Seria a mistura, e não a pureza, que nos caracterizaria como nação, e esta mistura singular geraria contribuições lingüísticas que fariam o idioma nacional configurar-se diferentemente de Portugal. O espírito do povo brasileiro seria algo adquirido em nosso solo pelos que se submeteram a este amálgama racial e ajudaram a contribuir para a formação de um idioma nacional, já diferente do velho Português.

Ao longo de sua carreira, Alencar sofreu contínuos ataques à sua escrita. Na maioria das vezes, estes ataques alegavam que ele era um escritor descuidado e que cometia seguidas incorreções, avaliadas segundo um padrão de correção dos gramáticos portugueses, que presumia um certo purismo da língua, e era avesso a inovações: " Minhas opiniões em matéria de gramática têm-me valido a reputação de inovador, quando não é a pecha de escritor incorreto e descuidado " (Alencar, 1958, p. 312).

No entanto, Alencar não deixava sem resposta estes ataques, buscando demonstrar sempre que eles partiam de pressupostos que ele programaticamente colocava em questão. Há uma certa linha de argumentação empregada por Alencar em vários textos. A seguir, ressaltaremos alguns tópicos desta linha.

No que diz respeito a raça, Alencar não adotava o lema de "uma raça = uma nação", mas buscava ressaltar a constituição de uma identidade nacional nas Américas através do amálgama singular de raças que configuraria o Novo Mundo:

" Cumpre não esquecer que o filho do Novo Mundo recebe as tradições da raça indígena e vive ao contato de quase todas as raças civilizadas que aportam a suas plagas trazidas pela emigração.

Os operários da transformação de nossas línguas são esses representantes de tantas raças, desde a saxônia até a africana, que fazem neste solo exuberante amálgama do sangue, das tradições e das língua. " (Alencar, 1958, p. 314).

Como foi com freqüência acusado de, em seus textos, apresentar modificações inaceitáveis ao "puro" idioma português, Alencar também buscou defender-se desta acusação, não só atacando o "purismo", como também atribuindo a origem das transformações lingüísticas, não ao escritor, mas ao povo. No entanto, na visão do autor de Iracema , não há nenhuma idealização positiva do povo. Ao contrário, o autor cearense refere-se ao " grosseiro dialeto do vulgo " (Alencar, 1958, p. 313). Para ele, a contribuição maior do escritor não é reduplicar a " mera rotina ou usança confiada à ignorância do vulgo " (Alencar, 1958, p. 313), mas elaborar esteticamente a língua. São os bons escritores que " talham e pulem o grosseiro dialeto do vulgo, como o escultor cinzela o rudo troço de mármore e dele extrai o fino lavor " (Alencar, 1958, p. 313).

Alencar acredita que os escritores, " neste período especial e ambíguo da formação de uma nacionalidade ", são " operários incumbidos de polir o talhe e as feições da individualidade que se vai esboçando no viver do povo ":

" Palavra que inventa a multidão, inovação que adota o uso, caprichos que surgem no espírito do idiota inspirado; tudo isso lança o poeta no seu cadinho, para escoimá-lo das fezes que porventura lhe ficaram do chão onde esteve, e apurar o ouro fino " (Alencar, 1959, p. 700).

Talvez o texto em que Alencar expresse de maneira mais sintética e articulada o seu ideário sobre a relação entre o escritor, a literatura e a língua nacional seja a carta de 26 de novembro de 1874, em que ele afirma:

" Nós, os brasileiros, temos descurado inteiramente o máximo assunto da nacionalidade de nossa literatura; e por uma timidez censurável nos deixamos governar pela férula do pedagogismo português, que pretende o monopólio da ciência e polimento de nossa língua.

Eu insurgi-me contra essa tirania literária; e não por acinte, senão por uma natural impulsão do gênio brasileiro, que eu sinto em mim e no país que me cerca, tão outro do português, embora seu irmão carnal pela origem e pela língua.

Coloquem-se, ao lado um do outro, dois exemplares das várias classes portuguesas e brasileiras, desde a base até o cimo da sociedade. Ao cabo de uma hora de prática e de observação, não há quem não os distinga perfeitamente. Eles se destacam por suas excelências e defeitos recíprocos, assim como pelos seus ridículos e cacoetes próprios.

Ora, a teima em negar o fato que se impõe, a pretensão de destruir a realidade para substituí-la por uma convenção impossível sob o nome de 'classicismo' é a insana tarefa de Sísifo " (Apud Menezes, 1977, p. 334-335).

Insurgindo-se contra o "pedagogismo português", que tentava impor uma "convenção impossível" aos literatos brasileiros, Alencar marcou uma nítida posição na busca de uma identidade lingüística nacional.

O fragmento selecionado do pós-escrito à 2a edição de Iracema (1870) é, certamente, um dos mais representativos das posições alencarinas.


(1 )Publicada originalmente em O Globo (1875): Alencar escreveu em 7,14,21 e 28 de outubro e 4,11,18 de novembro; Nabuco escreveu em 3,5,8,10,17,24 e 31 de outubro e 7,14 e 21 de novembro.

(2) Ressalte-se que Pinheiro não condena apenas Iracema por isto, mas "todos os livros brasileiros".