Do realismo maravilhoso dos haitianos

Jacques Stéphen Alexis
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Comentário: Maximilien Laroche (Universidade Laval)

O REALISMO MARAVILHOSO: ANTÍTESE, PARADOXO E SUBSTITUIÇÃO

O real na palavra é este horizonte comum que nos faz brincar com as posições do sentido e nossa posição de locutor. Podemos falar de horizonte de recepção como se fala de horizonte de espera, pois as transformações de sentido e o fio da sucessão de imagens se inscrevem sobre uma mesma película.

O que acontece quando transformamos uma língua em outra? Poderíamos sem dúvida verificar, tentando imaginar o que representou passar do latim "niger", ao francês "nègre". Mas podemos constatá-lo mais facilmente examinando a mudança de "nègre" a "nèg", na passagem do francês ao crioulo haitiano.

Dois filmes passam simultaneamente na tela de nossa consciência e o locutor que fala crioulo faz o vai e vem de uma cena a outra de sua própria consciência. Ao horizonte de recepção se somam pólos distintos de emissão e é aí que se aloja o maravilhoso. Pois de uma recepção que nos aprisionava de algum modo ao passado, ao menos nos mantinha na linha reta de uma história que pretendia se fazer contra nós, passamos a uma emissão que nos projeta no futuro, na esperança e no sonho.

Imposição da necessidade, elã do desejo, real e maravilhoso. Um exame do vocabulário de Jacques Roumain em Gouverneurs de la rosée e particularmente seu esforço para ligar o vocabulário do francês ao do crioulo haitiano o demonstrava. Pois tentando dizer "nèg" a quem pronuncia "nègre", é sua simbólica das cores que ele quer mudar pois a palavra haitiana "nèg" não tem conotação de pele. Poder-se-ia dizer, em caráter definitivo, que é este espectador, o leitor do romance, que Roumain quer mudar. De uma visão do mundo em branco e preto, ele pretende fazê-lo passar ao espetáculo de um filme onde o arco das cores de pele vá do azul/preto ao amarelo/vermelho, conforme a simbólica da língua e da cultura haitianas.

O maravilhoso se instala nesta visão estereoscópica. Com efeito, segundo o dicionário Robert, entende-se por estereoscópico: "um instrumento de óptica onde a observação de duas imagens simultâneas tomadas por objetivos paralelos (cuja distância é próxima da dos olhos) dá a sensação da profundidade e do relevo a imagens com duas dimensões".

Apoiando-nos nesta definição, podemos dizer que a língua crioula do Haiti permite ter esta visão estereoscópica que transforma a perspectiva tradicional, isto é, no caso da palavra "nègre" transforma a visão racista que se impôs com o escravismo e o colonialismo do século XVI ao XIX. Esta língua, combinando-se com o francês, dá ao escritor que fala crioulo e francês no Caribe, o instrumento, em outras palavras, a linguagem e as palavras, que o faz adquirir uma visão realista maravilhosa do mundo. Esta visão se caracterisa então pela "sensação de profundidade e de relevo das imagens" em palavras que de outra forma seriam unidimensionais. No uso de um instrumento, sua linguagem, os escritores do realismo maravilhoso combinam os poderes das duas línguas: o francês e o crioulo que eles colocam em posições antitéticas.

O real e o maravilhoso estão, portanto, alojados no coração da palavra, sobretudo quando no percurso de sua evolução passam de uma época a outra e mudam de sentido. Mas o que acontece com o sintagma, isto é, com certas expressões hoje consagradas como: "realismo maravilhoso, realismo mágico, antropofagia cultural…"?

No sintagma o horizonte de recepção leva vantagem sobre os pólos de emissão, as imposições do sentido ou a necessidade da imagem prevalecem sobre sua liberdade e sua imprevisibilidade. As teorias do realismo maravilhoso, do realismo mágico, da antropofagia cultural devem em primeiro lugar, ser tomadas ao pé da letra, como sintagmas. E é neste quadro que deve ser circunscrito o espaço do sentido ou da imagem; um espaço cujo contorno, as linhas flutuantes, sucessivas e finalmente evolutivas são dadas pela língua do outro, pela História através da qual o outro gostaria de nos aprisionar. É preciso entender o sintagma realismo maravilhoso sobre o fundo sonoro do pano de fundo semântico do sintagma "realismo socialista" e compreender que um caribenho pretende inscrever seu realismo no espaço do realismo europeu ao mesmo tempo opondo-se e concordando com este realismo conforme suas tendências. Jacques Stephen, haitiano que fala haitiano mas escreve em francês, faz ouvir sua voz, ou melhor, inscreve sua dissidência e sua adesão no concerto das vozes do espaço da linguagem e da cultura européias.

Daí esse parentesco entre os sintagmas tais como realismo maravilhoso, realismo mágico e "black magic". Esta última expressão foi aplicada por Toni Morisson. Poderíamos facilmente substituí-la por realismo fantástico ou realismo maravilhoso, embora encontremos aí, ainda de modo mais intenso, a antítese do branco e do negro (magia branca/magia negra) e observa-se a mesma evolução que para as palavras nègre/nèg ou a mesma antítese, no limite o oxímoro, da palavra negritude. O que no início - magia negra era conotada negativamente - se torna positivo na nova acepção que toma o sintagma, quando se transforma no domínio estético para caracterizar a arte de Toni Morrison.

A mesma relação pode se constatar na "antropofagia cultural". Os modernistas brasileiros de 22, por este sintagma entendiam opor-se aos estereótipos espalhados a respeito dos indígenas do Brasil e de uma maneira geral pôr fim a esta arrogância intelectual que levava a crer que não havia cultura para além do cabo Finisterra. Revertendo a opinião dos europeus que viam uma prática bárbara na antropofagia praticada pelos índios, Oswald de Andrade quis mostrar nesta prática, ao contrário, um princípio de evolução cultural.

Da palavra ao sintagma e finalmente ao discurso há um fio condutor. Se a antítese caracteriza o primeiro e se o paradoxo é a regra para o segundo, pode-se dizer que a metonimização ou princípio de sibstituição que é evidente na expressão "realismo maravilhoso" pode ajudar a definir o discurso de Alexis.

Jacques Roumain, escritor que se tornou célebre por causa do romance Gouverneurs de la rosée , era também poeta. Para ele a poesia era uma arma. Esta era uma concepção bem feita para agradar Alexis. É, aliás, uma visão da arte partilhada até hoje por escritores caribenhos para os quais o engajamento político permanece como exigência incontornável. O manifesto do realismo maravilhoso de Alexis dá conta em muitos trechos das convicções políticas do autor. Esta posição ideológica que fazia oposição à ideologia capitalista, colonialista e racista não era menos distanciação, em certa medida, em relação à ideologia anticapitalista e à sua estética, o realismo socialista.

Se Alexis argumentou em favor do realismo socialista e defendeu sua aplicação na Rússia e, se suas convicções o levavam a uma arte engajada, ele não estava menos convencido da necessidade de adaptar seu engajamento e sua arte às realidades da História do povo haitiano e de uma maneira geral às realidades de cada cultura. E é por isso que, se o conteúdo de suas proposições coincidem com as exigências do realismo socialista, a forma para atingir seus objetivos se distingue por este epíteto "maravilhoso" que se substitui ao socialista, não para anular mas ao contrário, para lhe acrescentar uma identidade particular.

Antes de procurar qualquer outra origem à invenção do sintagma "realismo maravilhoso", é preciso ver nele a metonimização pela qual a palavra "maravilhoso" se substitui a "socialista", não para substituir mas para completá-lo, delimitá-lo e identificá-lo à sorte do realismo praticado no Haiti. Assim, passando de um caráter explícito a implícito, a idéia de revolução e de engajamento social contida na palavra socialista não fica abolida. Ela é, ao contrário, completada pela de maravilhoso. Esta última palavra encontra logo uma dupla significação: a de uma revolução socialista que seria uma A metonimização é um procedimento de substituição, um modo de desenvolvimento histórico por substituição. O sintagma "realismo maravilhoso" é um duplo de "realismo socialista"`e sua criação ilustra o modo de desenvolvimento do discurso de Alexis que procede por adjunção, alargamento e aumento. Por um jogo de substituição, este discurso usa da multiplicação e faz desenvolver o sentido adicionando níveis ou registros complementares. Ela acrescenta o implícito ao explícito em uma dialética não-contraditória.

A metonimização é um procedimento de substituição, um modo de desenvolvimento histórico por substituição. O sintagma "realismo maravilhoso" é um duplo de "realismo socialista" e sua criação ilustra o modo de desenvolvimento do discurso de Alexis que procede por adjunção, alargamento e aumento. Por um jogo de substituição, este discurso usa da multiplicação e faz desenvolver o sentido adicionando níveis ou registros complementares. Ela acrescenta o implícito ao explícito em uma dialética não-contraditória.