Do realismo maravilhoso dos haitianos

Jacques Stéphen Alexis

Tradução:

Normélia Parise

ALEXIS, Jacques Stéphen. Prolégomènes à un manifeste du réalisme merveilleux des Haïtiens. Dérives . Montréal, n.12, 1970. p.245-271.

Comentário: Maximilien Laroche (Universidade Laval)

Tradução: Zilá Bernd (UFRGS)

É com emoção que saúdo, em nome dos escritores e artistas haitianos, nossos irmãos e nossas irmãs do Mundo Negro que assistem ao Primeiro Congresso dos escritores, artistas e intelectuais negros. Não somente os escritores e artistas Haitianos, mas também toda a imprensa haitiana, toda a intelectualidade haitiana ficaram profundamente interessados por esta confrontação histórica entre os homens de cultura de origem negra. Depois que o hebdomadário Reflets d´Haïti , o primeiro em nosso país, falou do Congresso e popularizou sua idéia, toda a imprensa haitiana, durante semanas, fez campanha, estudou e discutiu a questão e criticou a forma da participação haitiana. A imprensa haitiana, cotidiana ou periódica, assim como a maior parte de nossos intelectuais deploraram, particularmente, o fato de que não se orientou no sentido da constituição de uma delegação ampla que seria o reflexo de uma escolha de nossos próprios intelectuais. A discussão foi benéfica pois nos valeu esta delegação representativa sob vários aspectos. Apesar de tudo, apesar da discussão, apesar do desejo nitidamente expresso de proceder da maneira anteriormente definida, é preciso dizer que não houve condições de tempo para que uma organização surgisse e tomasse em mãos a formação da delegação e o financiamento de sua viagem. A intelectualidade haitiana queria que uma grande campanha de popularização das idéias diretrizes e dos objetivos do congresso fosse organizada em escala nacional, na capital como na província. Ela queria que se explicasse às largas camadas da população a importância para o povo do Haiti em combater lado a lado com os povos irmãos do Mundo Negro e com todos os outros. Ela queria que toda a intelectualidade haitiana sem exclusão fosse representada pelos melhores de seus escritores, por seus romancistas, por seus poetas, pelas suas pessoas do teatro, por seus jornalistas, por seus etnólogos, por seus pintores, por seus escultores, por seus músicos, por seus cantores, por seus dançarinos a fim de que, ao retornar ao Haiti, eles pudessem expor a seus meios respectivos o que fazem os intelectuais de origem negra e a maneira com que julgam os esforços haitianos. Ela queria enfim que o financiamento da viagem de seus delegados fosse a pequena contribuição de cada haitiano. Que o governo tivesse, no final das contas, que financiar a viagem desta delegação, talvez incompleta mas bem representativa de setores importantes, delegação com a qual eu colaboro, aliás, dentro de um espírito o mais fraternal, que o governo, dizia eu, tenha se encarregado, isto demonstra o interesse que teve a intelectualidade haitiana por este Congresso. Reuniões e discussões importantes e numerosas foram realizadas este ano em torno dos temas deste Congresso, assim como para precisar a situação e as tarefas da Cultura Haitiana em função da cultura de outros povos irmãos. Assim, tendo que permanecer em Paris na época em que ocorria o Congresso, numerosos escritores e artistas haitianos concederam-me a delicada honra de apresentar os pontos de vista dominantes entre nós sobre o que deve ser a orientação da Literatura e da Arte haitianas em função das origens, da história, da geografia e das lutas de nosso povo. A comunicação que submeto é, em grande parte, um trabalho pessoal, mas ela foi largamente discutida e aprovada por numerosos escritores e artistas haitianos. Neste sentido, devo agradecer o Grupo Folclórico Simidor , alguns membros do Foyer das Artes Plásticas, o Grupo Culture , o Teatro d´Haïti e sua Troupe de Atores Populares pela colaboração em algumas seções desta comunicação; devo também agradecer a todos os escritores e intelectuais haitianos que, pelo aporte crítico ou considerações metodológicas, permitiram-me melhorar meu trabalho. É pelo fato da grande massa dos criadores haitianos produzirem em uma via realista, uma via realista que lhes é certamente própria, que nós pensamos ser útil esclarecer o que necessita de nós uma arte haitiana nacional em sua forma expressiva tanto quanto humana, e universal por seu conteúdo estético. Tal é a origem desses Prolegômenos para um Manifesto do Realismo Maravilhoso dos Haitianos.

Antes de passar à exposição desta comunicação, permitam-me agradecer de todo coração a grande revista dos intelectuais de origem negra Présence Africaine, graças a qual este Congresso reuniu-se. Não podem nos acusar de particularismo negro quando a cultura dos povos negros como os povos eles mesmos são ainda vítimas do racismo, do denegrimento e do paternalismo de um certo Ocidente nostálgico de um passado revolto. Porém, isto exige também que definamos claramente nossas proposições, aproximando as realidades que as fundamentam. Assim, posso vos dizer que todos os intelectuais conscientes e combativos da República do Haiti querem e acreditam na fraternidade das armas culturais dos povos negros do Mundo no âmbito da fraternidade de luta de todos os povos da Terra.

PROLEGÔMENOS PARA UM MANIFESTO DO REALISMO MARAVILHOSO DOS HAITIANOS

1 - Introdução

Todos os intelectuais de nosso tempo sentem-se, de modo mais ou menos confuso, solidários do homem e solidários entre si. Dentre eles, os mais conscientes e os mais clarividentes da missão da Arte estão convencidos de que sua ação de forma dispersa é um entrave ao desenvolvimento de uma arte consciente, radiante, verdadeiramente a serviço do homem. A eles parece que não basta mais apoiar-se em casos particulares, quando, por exemplo, a liberdade do artista é ameaçada, mas que é preciso projetar a luz da crítica sobre a estética. Eis o que explica este encontro dos intelectuais negros.

Neste século em que os homens já viajam na velocidade do som, em que as idéias ultrapassam as fronteiras sem passaporte, este século da maior descoberta energética de todos os tempos - descoberta que permite tantas liberações e tantos avanços ainda ontem inconcebíveis -, este século em que se iniciou a erradicação definitiva da injustiça e da exploração, este século em que todas as raças, todos os povos, todas as pátrias lançam-se impetuosamente na conquista de um nível de vida enfim humano, este século no qual igualdade e progresso estão na ordem do dia, é natural que o conteúdo fundamental das obras de arte tende a abarcar o conjunto dos problemas que se colocam ao homem do todo lugar. Há hoje, conseqüentemente, um encontro inevitável da arte de todos os povos no plano do conteúdo estético: o amor do real, da natureza e da vida, amor da liberdade, da justiça e da verdade, amor do homem acima de tudo, em uma palavra, humanismo novo.

É claro que o artista, em todos os tempos, foi uma testemunha da vida da cidade, ele reproduziu seus tipos e suas cenas essenciais, seus hábitos, seus costumes, suas crenças, sua moral, ele cantou suas belezas, lutas, dramas, o artista foi um professor do ideal, de coragem, um educador público, um poeta da esperança e do sonho colocados em antítese com as durezas e as feiúras do momento. Pôde-se dizer que o artista era uma harpa eólica que vibrava a todos os sopros; certamente isto não é mais suficiente. Não se trata somente de testemunhar do real e explicá-lo, trata-se de transformar o mundo, cada um trabalhando particularmente na esfera que lhe é própria, naturalmente. Trata-se de contribuir à eclosão do que nasce e se desenvolve, trata-se de contribuir à liquidação do que definha e constitui um entrave ao desenvolvimento do homem. O artista deve tomar partido, ele deve ser um combatente.

É portanto útil que, ultrapassando a consciência individual de suas missões e tarefas, todos juntos, livremente, os artistas progressistas de um país, os únicos nos quais todo povo se reconhece, confrontem seus pontos de vista sobre as tarefas presentes da arte nacional em função da história de seu povo, de suas tradições, de suas tendências manifestas, de seus gostos, de suas esperanças, de seus sonhos, de suas certezas e de seus combates. É útil que seja montado um programa geral de trabalho , simples e concreto, ligado ao mesmo tempo às tradições artísticas nacionais, aos valores novos que nascem, ao futuro e ao homem de todo lugar. Este programa deverá, certamente, ser precisado em função das disciplinas particulares, mas importa, primeiramente, que as necessidades de toda a arte nacional sejam definidas globalmente, para a arte de escrever, para as artes cênicas, para as artes plásticas, para a música bem como para as outras disciplinas.

O objetivo destes prolegômenos não é o de dar uma resposta que se queira completa e definitiva, mas somente provocar a discussão e contribuir à clarificação do programa geral de trabalho em função das realidades presentes mais evidentes e das perspectivas. Este trabalho é, portanto, um esboço, um défrichage preliminar e não um verdadeiro manifesto que só pode nascer de uma discussão aprofundada. Já que tudo indica que há uma maneira própria aos Haitianos na arte, que há atualmente uma Escola de Realismo Novo particular aos Haitianos, uma Escola que se procura e que se esboça pouco a pouco, uma Escola que começamos a chamar de Escola do Realismo Maravilhoso, esta contribuição apresentada diante dos intelectuais dos povos irmãos negros, poderia, graças ao aporte de todos, apressar a constituição desta Escola haitiana sob bases fundamentais claras.

2 - A cultura haitiana

Sabe-se que no início do século XVI, alguns anos após a descoberta de Colombo e a invasão dos conquistadores, restava somente uma pequena parte do povo indígena Taïno do Haiti, o povo Chemès . Na verdade, após as lutas heróicas de Anacaona a Grande, A Flor de Ouro, música e poetisa, coreógrafa e bailarina de talento, tanto quanto chefe político resoluta, e as lutas de Caonabo e outros caciques indígenas, este povo fora dizimado e escravizado nas minas de ouro. Eles pereceram em massa devido aos maus tratos, ao duro trabalho ao qual não estavam habituados, aos suicídios coletivos aos quais se lançavam em seu desespero

e às doenças importadas pelos espanhóis. O povo Chemès e a cultura local do qual era a expressão sobreviveram; cultura que se expressava através de uma técnica já avançada (cerâmica cozida em fogo aberto, trabalho do ouro, agricultura em montículos espaçados, construção de cassaves (bolo de farinha de mandioca), do milho, produção de cerveja mabi ...), cultura que se expressava ainda através de uma religião animista (panteão dos deuses ditos xémès , clero individualizado de padres- butios , cerimônias precisas, etc...) que se expressava através de uma música, de cantos e de danças que executavam artistas especializados - os sambas - , uma pintura mural, uma escultura da pedra e em faiança revestida de uma película de estanho, do tipo maiólica como no México, etc...

Agravando-se sem cessar a loucura do ouro, os Espanhóis começaram o Tráfico de negros para substituir os escravos índios debilitados. As primeiras revoltas aconteceram e foram conduzidas por um cacique, o grande e nobre cacique Henri; índios e negros tomaram em armas e refugiaram-se em nosso Bohoruco , nas vizinhanças de nossos lagos e de nossos altos cimos cobertos de florestas de pinheiros. Eles ali se defenderam vitoriosamente de tal forma que os Espanhóis tiveram que assinar com eles a paz. Foi lá que os índios e os negros revoltosos, esses " marrons ", como eram chamados, - talvez esta palavra designava originalmente os mestiços de negros e de índios, os zambos - realizaram o sincretismo cultural taïno-africano, cuja realidade ilustraremos mais adiante com exemplos atuais. Era natural que nos " yucuyaguas ", vilarejos dos rebeldes, se operasse uma fusão de técnicas de produção, a dos cantos e das danças, das artes plásticas, dos panteões de duas populações animistas. Muito tempo após a epopéia do cacique da Liberdade, o Bohoruco continuou sendo um refúgio para os escravos negros e os resíduos das populações Chèmes . Aliás, sabe-se que ao longo da grande população de escravos do século XVII, organizada sob a conduta do negro Padrejean, os mestiços zambos constituíam um elemento importante.

Com a invasão dos bucaneiros e dos flibusteiros franceses, a França obteria uma colônia, uma colônia que ia, ela também, constituir um cliente para o comércio de "madeira de ébano". A cultura haitiana individualizou-se progressivamente ao mesmo tempo que a nação haitiana, no interior da sociedade escravagista dominicana. No curso de um longo amadurecimento histórico durante o qual os resíduos da população autóctone chèmes misturaram-se em São Domingos com os múltiplos elementos africanos trazidos pelo Tráfico (Mandingas, Bambaras, Ibos, Peuhls, Aradas, Congos, etc...) e também com alguns elementos europeus (principalmente franceses e espanhóis), a cultura haitiana desenhou-se progressivamente a partir do aporte decisivo africano, até o dia da independência - primeiro de janeiro de 1804, momento em que a nação haitiana e sua cultura em formação iam trilhar um desenvolvimento autônomo. O negro dito " bossale ", isto é, recém introduzido na colônia, não importando sua origem, fundia-se progressivamente na comunidade dos negros ditos " créoles ", isto é, nascidos no país. Estes negros " créoles " tendiam a unificar pouco a pouco o mosaico de elementos de cultura de origens diversas que eles haviam recebido. Eles criavam uma linguagem (o falar dos negros " créoles ", o créole ), cantos e danças comuns, uma música comum, contos, lendas e uma literatura oral que se ressentia naturalmente da incrível diversidade de aportes. A originalidade e a riqueza era muito grande, e tudo que era trazido misturava-se bem, pois, à exceção do aporte francês e ocidental, todos os aportes refletiam sociedades no mesmo estágio aproximado de desenvolvimento histórico. Estes aportes fundiram-se nas oficinas dos escravos com uma tal rapidez que até mesmo a religião unificara-se e tornara-se o reflexo das condições de existência próprias de todos os escravos da colônia, dada a longa sobrevivência das superestruturas ideológicas apesar do desaparecimento da base condicionante. Conquistada a independência, obtida uma relativa liberdade de movimento através do país, a fusão ia ainda acelerar-se no âmbito deste país onde quase tudo estava para ser reconstruído, pois a guerra libertadora impusera a destruição de todo o produto dos suores dos antigos escravos, todas as riquezas deste pequeno país que absorvia a metade do comércio exterior da França. É preciso não esquecer esta guerra de terra queimada, pois ela explica bem os atrasos que conheceu o país e em particular a lentidão com a qual as obras de cultura de valor universal apareceram nos primeiros passos desta nação que realizara a incrível façanha de obter a independência no exato momento em que as potências de rapina começavam a se lançar na conquista dos países menos desenvolvidos.

O que é uma cultura, na verdade, senão, de um modo geral, o produto desta tendência que impulsiona os homens a organizarem os elementos de seu conhecimento do universo e da sociedade onde vivem, a organizá-los coletivamente, em função do passado e do presente recompondo uma imagem mais vasta que a aparência, imagem projetada em seu psiquismo, em seus atos, seus comportamentos e em todas as suas produções? Podemos, assim dizer, de acordo com o que precede, que mesmo as coletividades primitivas bem desenvolvidas e organizadas têm uma cultura. Uma cultura, entretanto, local.

Quando as sociedades entram em um processo de formação de povo ou de nação, a cultura torna-se algo mais complexo, mais rico e mais diverso. Poderíamos, neste caso, dizer que a cultura é uma comunidade de psiquismo, de gostos, de tendências, de conceitos, expressando-se em todos os domínios da atividade humana, uma comunidade historicamente formada, mais ou menos clara, mais ou menos estável, uma comunidade resultando de uma herança psíquica e exteriorizando-se através de obras de beleza e de razão, em relação variável com o desenvolvimento das forças produtivas e com as relações sociais da sociedade que as produz. Se a sociedade considerada é ainda debilmente unificada em seu território, pode-se falar de cultura de povo (a cultura da Grécia antiga ou do Egito antigo, por exemplo) ou ainda de cultura nacional quando ela é a expressão de uma verdadeira nação em formação ou já formada (a cultura haitiana ou alemã, por exemplo).

Seria bom, entretanto, cavar mais profundamente a realidade que esconde a palavra cultura para ter uma concepção viva do fenômeno. Pois, seguidamente, inclui-se no patrimônio de uma cultura nacional obras produzidas bem antes que se possa considerar a existência da nação em formação como algo adquirido. Vê-se então que quando falamos em cultura nacional, subentendemos a longa continuidade cultural de um território hoje ocupado por uma nação individualizada, não obstante as estruturas sociais diferentes e os estágios de desenvolvimento das forças produtivas que se sucederam. As obras de cultura têm, na realidade, uma vida muito longa, uma ressonância bem mais longa que a sociedade que as condicionou, ou que as tendências do espírito dos homens dos quais estas obras são contemporâneas. Em decorrência disso, a cultura é um dado que abarca toda a vida de um povo, desde os primórdios de sua formação, sua constituição progressiva, até sua organização moderna: a cultura é um devir incessante cujas origens se perdem na noite dos tempos, e cujas perspectivas esfumam-se na névoa do porvir.

Isto significa dizer o quão consideramos estreitas as visões daqueles que resumem a cultura em algumas obras de arte e de literatura de valor e amplitude universais sem considerar o sentido do verdadeiro, do belo e do humano que não se traduziu ainda em obras conhecidos pelo mundo inteiro; muitas vezes estas concepções do belo são simplesmente incompreendidas deliberadamente. Uma cultura exterioriza-se, é claro, através de um conjunto de obras-testemunhos que ilustram aos olhos de todos a cultura em questão, mas não é somente a partir destas obras que um povo mostra a originalidade e a humanidade geral de seu aporte cultural. Permaneceremos fiéis, até mais ampla demonstração, à fórmula segundo a qual o povo, tomado em sua massa, é a única fonte de qualquer cultura viva; ele é de alguma forma a sua base, o fundamento do qual brotam os aportes dos homens de cultura; é preciso acrescentar que, muito seguidamente, estas projeções individuais de um sentido nacional do belo projetam-se de tal forma sobre as base que as condicionou que esta base é, ela própria modificada. Às vezes, as obras de cultura encontram-se claramente à frente da cultura da qual fazem parte. A oposição que alguns tentam estabelecer entre as formas trazidas pelos homens de cultura e as formas trazidas coletivamente pelas massas, prende-se à uma lógica absurda das categorias que se quer tornar estanques arbitrariamente. Mesmo quando um artista tenta justificar a originalidade de seu aporte por uma teoria de sua larva, a consciência deste artista é uma consciência social, uma consciência coletiva tanto quanto individual que retoma muitas vezes sem dar-se conta, as formas, os ritmos, as simbologias populares, sejam próximas, sejam velhas ou ainda muito longínquas. Para nós, a cultura de uma coletividade é um fato primeiro, embora a reprodução de obras artísticas universais - fato segundo - projeta-se sempre sobre a cultura em questão, a impulsiona para frente, e ilustra sua autonomia. Devemos então considerar todo o conjunto das manifestações de nossa atividade de povo testemunhando a autonomia cultural haitiana, e não uma parte de suas manifestações, as obras-testemunhos consideradas como universais por uma grande parte da humanidade. Em outras palavras, sem ousar pronunciar a palavra, somos forçados de considerar a existência de culturas superiores e de culturas inferiores e justificamos esta tendência manifesta no imperialismo cultural destes estados que obstinam-se em sufocar o aporte cultural de outros povos. É indiscutível que alguns povos contemporâneos produziram mais obras que outros, é ainda verdade que as culturas refletem, em uma medida variável, o desenvolvimento das forças produtivas das coletividades, mas quem, baseando-se nisso, ousará afirmar que a escultura de Praxíteles é inferior à escultura destes últimos cem anos? Entretanto, Praxíteles vivia em uma sociedade escravagista na qual as forças produtivas eram debilmente desenvolvidas! Para nós, uma obra de cultura é uma soma que testemunha para os humanos; é absurdo crer que uma cultura que legou dez mil obras conhecidas e reconhecidas é superior a uma cultura que teria legado somente cem. As culturas contêm necessariamente aspectos positivos e aspectos negativos, e qual seja o povo considerado, ele luta sempre para mostrar seu verdadeiro rosto, através das estruturas sociais inumanas e conjunturas desfavoráveis. As culturas de todos os povos são irmãs, irmãs de idades diferentes, mas irmãs.

Estes são alguns dados a partir dos quais julgamos a cultura de nosso país. A cultura haitiana é uma cultura nacional, a de uma nação bem individualizada, embora ela tenha ainda muito caminho a percorrer , e nós o sabemos. Mas sabemos ainda que é uma grande e bela cultura, como o povo haitiano, grande e belo, apesar de viver em um pequeno território. É através dos esforços e das lutas que percorremos nossa estrada que é bem longa diante de nós, mais os escritores, artistas e intelectuais haitianos têm confiança em sua cultura e em seu povo.

3 - Os aportes constitutivos da cultura haitiana

Na ocasião das remissões históricas precedentes, era possível dar-se conta que os aportes constitutivos da cultura haitiana eram em número de três:

1. O aporte indígena taïno chemès;

2. O aporte africano;

3. O aporte ocidental e mais particularmente francês.

Freqüentemente, minimizamos o aporte taïno na cultura haitiana: é um erro. O primeiro campo cultural onde podemos ver o aporte taïno chèmes para a cultura haitiana é o da técnica. Todo mundo sabe que o tipo de habitat rural haitiano tem claramente o mesmo estilo do ajoupa chemès ; a técnica de fabricação da cerâmica, da tessitura das redes de algodão, da fabricação de bolos de mandioca denominados de cassaves , da construção das pirogas denominadas boumbas , da produção de cerveja mabi ; estas e diversas outras técnicas em uso atualmente provêm diretamente dos índios. O segundo campo onde encontramos a influência indígena é a religião vudu. É do conhecimento de todos o fato de que inúmeros instrumentos do culto desta religião, as pedras consagradas, os atributos dos Loas , certos cântaros ritualísticos (os govis ) são muitas vezes de origem indígena; estátuas de zémès , deuses indígenas são, às vezes, escondidas sob altares consagrados a certos deuses vudus. Mais que isso, parece que o sincretismo exerceu-se até mesmo sobre estes próprios deuses (a Maîtresse da água, a Sereia, os Simbis vermelhos, Sobo Naqui Dahomey , etc...). A iconografia espanhola sobre os taïnos permite pensar que os " Kandales " dos quais se fantasiam nossos pequenos reis do carnaval popular atual são de origem chemès ; da mesma forma que as danças executadas por estes reis de carnaval fazem pensar que estes continuadores do famoso Ostro, rei da banda " Brillant de soleil " do Bel-Air , dançam em um estilo de inspiração indígena. Alguns etnógrafos acham que as festividades rurais " Rara " são de origem indígena e até mesmo que os " Vêvê ", brasões dos deuses vudus desenhados no solo durante cerimônias, teriam vindo dos chemès (o fato é contestado por outros). Pode-se pensar ainda que a técnica, sobretudo linear, das artes plásticas chemès (baixo-relevos do Bassin-Zin , por exemplo) encontra-se no estilo de inúmeros retábulos de altares vudus atuais. É para nós uma tarefa importante buscar na cultura haitiana a herança dos filhos de Anacaona, a Flor de Ouro do Cacique Henri. É com contentamento que vemos nossos especialistas orientarem-se na via das pesquisas que são muito importantes para uma clara compreensão do nosso passado e do nosso presente, portanto do nosso futuro. É impressionante constatar a fidelidade que possuem as massas populares haitianas aos índios chemès ; de modo que, no Carnaval, que traduz geralmente o eu profundo dos povos, os desfiles tradicionalmente são abertos por uma grande quantidade de pessoas fantasiadas de índios e carregando o nome dos grandes caciques. Aliás, o estudo comparado dos diversos tipos de porcelana maiólica em uso em todo o golfo do México e nas diversas Antilhas, na época, oferece grandes possibilidades de informação; da mesma forma que um estudo sistemático das regiões do delta do Orinoco e das Guianas de onde os chemès são originários e onde ainda vivem certas povoações de origem taïno , permitiria precisar melhor as fases ciboneys e as diversas fases taïnas .

Entretanto, o aporte africano representa a maior parte na constituição da cultura haitiana. Qualquer que seja o campo da atividade criadora do povo haitiano que considerarmos, encontraremos a marca indelével do negro. Quer se trate de literatura oral, de nossas lendas, de nossos contos cantados ou do extraordinário romanceiro de Bouqui e de Malice, quer se trate da música ou da dança, quer se trate de artes plásticas ou de religião, é a filiação africana que se impõe ao espírito. Certamente que todas as obras têm a cor haitiana, elas nos pertencem, refletem a terra onde vivemos assim como nossa história épica e não poderiam ser superpostas às de tal ou tal outro povo negro, mas elas têm um ar de família indiscutivelmente negro.

O Ocidente também nos marcou, e particularmente a França. Da mesma forma que nós não poderíamos esquecer a influência da Revolução francesa sobre a Revolução haitiana de 1804, não podemos esquecer que a França participou de uma maneira positiva na constituição de nossa cultura haitiana.

Devemos à França o essencial do vocabulário de nossa língua crioula que, se, pela sua semântica, ela tem filiação africana, contem somente uma pequena porcentagem de palavras vindas do falar chemès , de dialetos africanos e do espanhol. Isto é possível pois, sendo diferentes os dialetos africanos, as palavras francesas em uso nas oficinas dos escravos eram um bom meio de comunicação dos escravos entre si e com os colonos franceses. Seria uma atitude idealista crer que este vocabulário francês foi comunicado sem que fosse transmitido, ao mesmo tempo, um modo de conceber e de pensar, qualquer que fosse o grau. Ao nosso ver, fundado em discussões que duram quase trinta anos, o créole é uma língua e não um dialeto. Mais do que isso, o créole é um utensílio maleável e aperfeiçoado que permite dar conta de toda a realidade atual do Haiti. Se imaginássemos, por exemplo, proibir o uso de qualquer outra língua no Haiti, exceto a língua oficial, o francês, sobre toda a extensão do território, a produção, a vida econômica como a vida social, paralisariam imediatamente e irremediavelmente, e não poderíamos mais falar em coletividade haitiana nem em nação haitiana; seria a Torre de Babel. Há, portanto, um unificador coletivo do Haiti, a língua haitiana créole , de semântica africana, embora com vocabulário basicamente francês.

Não é tudo. É, de fato, impensável que os colonos franceses tenham vivido mais de 150 anos no Haiti, sem influenciar, em outros campos, os escravos negros com os quais mantinham relações sociais. Não somente o francês transmitiu aos nossos pais inúmeros usos correntes em nossas campanhas, mas ele lhes deu formas artísticas que foram assimiladas pelo nosso povo para serem exprimidas de uma maneira propriamente haitiana. O minueto, a contradança haitiana atual, as canções de ninar, as canções folclóricas, a fabulação de certos contos e todo um tesouro que, apesar do ar de parentesco com seu correspondente francês, não pode ser reivindicado como francês. A música haitiana em algumas de suas formas expressivas as mais autenticamente haitianas, nossa dança nacional, o merengue por exemplo recebeu uma influência da música francesa dos séculos XVII e XVIII. A religião vudu é o produto de um sincretismo cultural com o catolicismo importado pelos franceses; os santos católicos sendo, em uma certa medida, confundidos, sobretudo na iconografia, com os Loas vudus; outros deuses são até mesmo considerados como brancos (o Demoiseau Blanc , por exemplo). Medimos, assim, em que medida a marca foi importante.

E mais, se o Cabo Francês, hoje Cabo Haitiano, na época que ali viviam os faustosos e riquíssimos colonos franceses era chamado a "Paris de São Domingos", se, por exemplo ali se representavam peças e operas criadas em Paris, dava-se concertos, isto não pode ser transmitido a muitos haitianos. Os letrados e os homens de cultura haitianos não somente preservaram o gosto pela arte e pela literatura francesa, mas também adotaram as suas formas. É claro que enquanto criadores " burgueses", se se pode assim dizer, eles copiaram, no início mecanicamente estas formas, infundindo, muitas vezes um conteúdo haitiano. Daí nasceu esta corrente literária e artística de língua e expressão francesa que ia haitianizar-se progressivamente até em suas formas para resultar na literatura e arte haitianas de hoje. Nós não poderíamos rejeitar as belas coisas que fez Madiou Beaubrun Ardouin, Ignace Nau, Oswald Durand, Massillon Coicou, Pétion Jérome e tantos outros, sem negar valores que não se explicam sem o contexto do Haiti e que são haitianos antes de tudo. A França legou as nossas classes dirigentes a língua francesa, mas ela a legou também aos criadores haitianos que estavam, em certa medida ligados ao povo, amantes da cultura haitiana e de suas formas expressivas populares. Tal é a origem da obra destes grandes testemunhos que se expressam em formas ao mesmo tempo herdadas da França e do Haiti.

Para concluir, seria justo acrescentar que a Espanha nos deu mais do que algumas palavras de nosso vocabulário créole . As tropas revoltosas de Jean-François, de Biassou, de Toussaint Louverture não souberam combater lado a lado com os soldados espanhóis pela liberação de seu território, o Haiti não soube constituir um só e mesmo país com a parte espanhola durante décadas sem que isto não tenha influenciado a cultura haitiana. Até o presente a Espanha continua sua ação interposta por outrem, por intermédio de Cuba e da República Dominicana onde centenas de milhares de trabalhadores haitianos trabalham sedentariamente e temporariamente. Devemos enfim dizer que os soldados poloneses e alemães das tropas de Napoleão que passaram para o lado do Exército da Independência haitiana e que, por conseqüência, foram adotados como verdadeiros e fiéis filhos do povo haitiano, nos transmitiram também alguma coisa. Ainda hoje, seus descendentes estão concentrados no sul (em Fonds-des-Blancs , por exemplo) e no nordeste ( Bombardopolis ).

Todos estes aportes de uma diversidade incrível misturaram-se para formar um só corpo, e se o elemento africano dominou todos os outros, a cultura haitiana não deixa de ser uma singular originalidade que lhe permite esperar bastante do futuro.

4 - As incidências particulares na cultura nacional haitiana

É comum ouvir dizer em certos meios haitianos que haveria praticamente duas culturas que coabitam no Hati. As classes dirigentes seriam de língua e cultura francesas e as classes populares analfabetas em sua maioria esmagadora, seriam de cultura haitiana, isto é, fortemente africanizadas. Estas visões que são correntemente expressadas em nosso país pelos " assimilacionistas ", os papagaios da cultura que querem fazer do Haiti uma "província cultural da França", são naturalmente falsas no sentido em que elas se fixam na aparência exterior das coisas. É verdade que em qualquer país, há uma incidência diferente da cultura nacional segundo as classes sociais, é o que alguns chamam de cultura burguesa e cultura proletária, no âmbito de uma cultura nacional. Todas as classes dirigentes do mundo são hoje atingidas por esta doença que se chama cosmopolitismo. É verdade que as classes dirigentes são mais apaixonadas pela história e pela literatura francesas que pela história e literatura haitianas, é fato que elas cantam todas as canções da moda, dançam todos os maxixes, todos os " lambethwalk ", que elas passam suas férias na Normandia, na Côte d´Azur, na Flórida ou em Nova York e conhecem pouco a campanha e o interior do país. É correto dizer que jamais as classes dirigentes foram mais despreocupadas, mais desdenhosas do passado, do presente e do futuro de seu país, mais apesar de tudo não podemos dizer que elas não partilham da cultura nacional haitiana.

Dizíamos que as classes dirigentes haitianas são de cultura haitiana burguesa, sob o verniz aparente de sua cultura francesa e de seu cosmopolitismo. Todas as reações íntimas, políticas, artísticas, religiosas, sentimentais, sociais destas pessoas correspondem à estrutura semifeudal e pré-capitalista do Haiti. Elas amam, e aliás, vibram intensamente com a música nacional, desde a mais tenra idade, elas aprendem, mesmo que de seus empregados, os contos, as lendas e a literatura oral do Haiti, elas participam das bandas de carnaval popular, seguidamente são também mais animistas e " vuduistas " que o povo, em resumo reagem geralmente como os outros haitianos. Estas teorias " verbosas " do Haiti, "província cultural" da França, deviam provocar, naturalmente, reações violentas. Intelectuais, escritores e artistas haitianos reagiram diante disto, preconizando teorias diametralmente opostas. Muitas vezes, em sua boa vontade e grande piedade com relação à realidade haitiana, eles exageraram e caíram em um nacionalismo cultural, em um populismo que nem sempre foi de melhor qualidade, mas, em suma, sua reação foi benéfica e continua sendo. Decantada de um certo " negrismo ", de um certo populismo, esta corrente indianista na arte e na literatura é uma coisa dinâmica e proveitosa para a cultura haitiana. Entretanto, devemos dizer também que todas as glosas e todas as gargantas quentes em favor de uma pretensa " negritude " são perigosas no sentido em que elas escondem a realidade de autonomia cultural do povo haitiano e a necessidade de solidariedade com todos os homens, com os povos de origem negra também, naturalmente.

Nós não pensamos que a cultura haitiana seja uma sucursal, uma província da cultura francesa; ela é algo de bem próprio ao solo e aos filhos deste solo. As formas e as simbologias populares devem ser a base sobre a qual nós devemos construir nossa produção cultural, considerando o futuro no Ocidente e na África, das formas que são, já há muito tempo, formas haitianas que o Haiti renovou. O romance, a poesia, o teatro, a música, as formas das artes plásticas têm, ao menos no Haiti, dupla herança ocidental e africana ao mesmo tempo, isto é, são sínteses haitianas. Se os " assimilacionistas " copiaram, outrora, mecanicamente as modas e as formas ocidentais e francesas, não é culpa da cultura francesa; aliás, pela utilização renovada destas formas que fizeram Marcelin, Hibbert, Lhérisson e Roumain no plano do romance, Oswald Durand, Louis Diaquoi, Isnard Vieux, Roussau Camille, Morisseau-Leroy, Emile Roumer, Jean Brierre e René Depestre na poesia, Justia Elie, Occide Jeanty e Ludovic Lamothe na música e tantos outros criadores de todas disciplinas, somos herdeiros de todo um tesouro que devemos levar adiante para que ele reflita, no plano da forma quanto do conteúdo, o verdadeiro rosto de nosso povo, seus problemas, suas esperanças, suas lutas.

5 - A permanência dos aportes culturais

Se as classes dirigentes do Haiti, muitas vezes solidárias de um certo imperialismo racista, querem negar a herança cultural africana, é preciso dizer que a massa de nosso povo, intelectuais de vanguarda à frente, reivindicam sua qualidade de negros e a permanência de uma herança cultural africana. Sem equívoco, eles reconhecem o parentesco de sua cultura com as de seus vizinhos e de seus irmãos de origem africana.

É verdade que todos os povos que encontram suas origens na África revelam uma permanência de traços culturais de forma que haveria uma má fé evidente em não reconhecê-los; as massas negras transplantadas na América que se tornaram nações ou minorias nacionais e os Africanos de hoje participam desta permanência. Um outro fato indiscutível é que as obras originadas de países de origem negra são mais imediatamente sentidas, mais intimamente penetradas pelos homens de origem negra. Numerosos são os ritmos musicais haitianos que se parecem, às vezes a ponto de serem confundidos com certos ritmos africanos; o vudu haitiano, a macumba brasileira, a santeria cubana têm manifestações não somente vizinhas, mas atraem o espírito em direção a certas manifestações religiosas similares próprias à África. O conto popular haitiano ou cubano, não somente na fabulação, mas também na maneira de contar, está próximo dos contos africanos. Poderíamos multiplicar os exemplos.

Esta permanência de traços culturais (seja ela africana ou ocidental) é a menos estável e a menos durável quando o real econômico e histórico interno da nação considerada, a faz evoluir diferentemente de outros povos de culturas aparentadas. As condições geográficas, as trocas e as relações humanas constantes são também importantes para uma longa permanência de traços culturais herdados. Esta permanência de traços culturais tende sempre a enfraquecer-se em uma nação individualizada. Entretanto, este parentesco cultural, estes elementos de cultura não desaparecerão sem deixar traços na cultura nacional situada longe da região da qual ela procede. De fato, as nações estão sujeitas a outras influências culturais, das outras nações vivendo em uma mesma zona geográfica, zona onde as relações e as trocas são freqüentes. Aliás, muitas vezes no mundo de hoje, as nações de uma mesma zona geográfica têm uma realidade econômica e histórica interna vizinha, senão paralela.

6 - A confluência cultural zonal

Quando pensamos, por exemplo, que ao redor da bacia do Caribe e do golfo do México, verdadeiro Mediterrâneo centro-americano, as diferentes nações que ali vivem conheceram no passado condições de povoamento e de migração semelhantes, que estas migrações duram ainda, que o estágio semifeudal e pré-capitalista é comum a todos, que a mesma dependência econômica e política é seu lote, não podemos nos espantar com o fato de que elas conhecem uma confluência de suas diversas culturas nacionais. Certas reações destes povos diante do real, seus hábitos de vida social, suas reações sentimentais oferecem, às vezes, uma semelhança impressionante, freqüentemente mesmo sua arte tem tendências análogas, não somente no conteúdo, mas também, em uma certa medida, na forma expressiva. Aliás, a história dos povos latino-americanos, da forma como eles se ajudaram para conquistar sua independência respectiva, a ajuda de Dessalines e de Piéton ao general Mexicano Mina, a Miranda, a Bolívar, os voluntários haitianos que derramaram o sangue sobre as terras latino-americanas, tudo isto criou uma fraternidade que favorece a confluência cultural. Isto nos conduz à convicção de que nossos esforços não poderiam ser dissociados, e é evidente que devemos estar atentos a todas as práticas culturais da República Dominicana, de Cuba, de Porto Rico, do México, do Panamá, da Venezuela, etc...

Aliás, a confluência cultural zonal não é própria somente à América Central e Latina, todas as nações da Europa ocidental parecem ter entrado em um processo de interpenetração das diversas culturas nacionais e em todas as grandes regiões do globo constata-se o mesmo fenômeno. Na Europa ocidental, as escolas artísticas, a música, a literatura, as modas vestuárias, os costumes, a técnica, a ciência e outros campos influenciam-se uns aos outros, mesmo o vocabulário das línguas carregam-se de palavras bebidas nos países vizinhos. Da mesma forma, considerando as nações eslavas da Europa central, a Ásia menor, a África do norte, o sudeste asiático, a Ásia do norte, a África negra devemos nos perguntar na presença desta confluência das culturas nacionais por zona, se não assistimos no mundo de hoje a um início de constituição de culturas zonais que, em um estágio superior, suplantariam as culturas nacionais.

7 - "A Cultura" - "A Cultura humana"

Falamos com freqüência e igualmente de "A Cultura" ou de "Cultura humana". Apesar da utilização interessada que fazemos deste termo para bem justificar as perspectivas que não têm nada a ver com a cultura, as perspectivas imperialistas, as perspectivas de rapinas e tutelarizações, acreditamos ser útil conservar este termo para caracterizar o fato real, a tendência à constituição de uma comunidade cultural de todos os homens. Certamente, trata-se somente de um dado que se distingue apenas vagamente até o momento presente, mas este dado precisa-se e destaca-se sem parar. "A Cultura", a "Cultura Humana" é de fato o produto de uma seleção, de uma escolha crítica da consciência de todos os homens de progresso em tudo o que há de mais positivo, de mais válido, de mais dinâmico nas diversas culturais nacionais existentes. O humanismo novo pelo qual lutam centenas de milhões de homens no mundo se nos apresenta justamente como o núcleo desta cultura do futuro, própria a todos os homens. A constituição desta cultura humana não se realizará sem batalhas, é bom, é vantajoso que seu núcleo, o humanismo novo atual, seja constantemente verificado, discutido e recolocado em questão no que ele tem de provisório. Significa dizer que o espírito de pretensão, o espírito de chauvinismo em relação aos problemas da cultura é não somente contrário ao progresso, mas ainda é quotidianamente atacado pela realidade que amontoa diante de nossos olhos, os primeiros dados desta cultura do futuro, própria a todos os homens. Não acreditamos, nós Haitianos, que seja vaidade ou pretensão dizer que, de nossa parte, nosso povo terá contribuído e contribui com, certamente algumas das obras de valor que ele produziu para a alegria e a felicidade dos homens, sua arte e sua arte de viver, mas também com o humanismo de Tous-Saint-Louverture, o de Jean-Jacques Dessalines como com o de Jean-Jacques Acaau.

Não vemos porquê, em função de tudo o que precede, os filhos de não importa qual povo, de não importa qual cultura existente sobre a terra teriam um complexo de inferioridade diante de tal ou tal cultura, a menos que se queira negar aos outros homens as qualidades e as possibilidades que ele atribui a si mesmo. Nos últimos séculos, o Ocidente encontrou-se à frente do movimento da humanidade na produção de obras universais de cultura, nós o reconhecemos de bom grado, mas o que representam alguns séculos em relação aos longos milênios da cultura que houve no passado e razão a mais em relação ao futuro que nos espera a todos. Chegou o momento de levantar nossas mãos negras no debate ao lado de todas as mãos fraternas amarelas, brancas ou vermelhas. Dificuldades temporárias existem ainda no mundo de hoje, há muitas opressões, muitas injustiças contra as quais os homens sensíveis devem lutar, mas desde agora, é possível dizer que nós nos orientamos na direção de um concerto harmonioso das culturas nacionais. O espírito sopra nenhuma zona do mundo, tem monopólio sobre a cultura; a realidade do mundo atual o demonstra.

8 - A querela histórica do Realismo e do Formalismo

É nossa opinião motivada que, em regra geral, para os Haitianos como para nossos irmãos negros, uma vez que trata-se deles hoje, a arte está necessariamente ligada à vida. Nós somos sonhadores, sim, mas infinitamente realistas, embora nuanças de opinião indiscutíveis, inevitáveis e naturais, existam entre nós. A arte para nós está essencialmente ligada à vida prática; antes que os colecionadores viessem na África, o (artista) plástico era um decorador de objetos úteis, rituais ou outros, o griot era o poeta do povo... Da mesma maneira, os povos Centro e Latino-americanos, cujas culturas parecem confluir atualmente, quase sempre produziram, em geral, obras ligadas ao real. Certamente, no dia seguinte de suas independências respectivas, quase todos os povos conheceram fases de imitação, da França sobretudo, mas nada de durável surgiu daí. Tudo o que foi feito de notável, de válido em sua literatura procedeu do realismo. A arte haitiana foi realista bem antes da Revue Indigène . Foi uma furiosa batalha que os companheiros haitianos do espiritual ganharam, desde há muito tempo, dos raros partidários da "arte pura".

Nós estamos convencidos de que a tendência que consiste em se lançar nas experiências intelectualistas e cosmopolitas, nas experiências que não tem nenhuma ligação com a história de seu país, nenhum contato com a terra natal, nenhuma solidariedade com o homem de nosso tempo e seus combates, essa tendência à "arte pura", à liberdade sem freio em lugar de um sentido da liberação humana, essa tendência à gratuidade, diz respeito a apenas uma pequena parcela de artistas ligados às classes sociais decadentes, à expressão de verdadeiros pederastas da cultura. Infelizmente, algumas dessas pessoas existem em todos os países. Houve, é claro, através da história da cultura um movimento pendular entre os dois pólos, Realismo e Formalismo, conforme se as classes dirigentes eram dinâmicas ou decadentes, mas o essencial da produção de todos os grandes artistas tinha uma ligação com o realismo, com o humanismo de seu tempo e com a expressão nacional apesar dos caprichos da "encomenda social", do "mercado cultural" em uma palavra. Certamente os sectários da gratuidade podem encontrar ancestrais e precursores, e mais, grandes artistas puderam sofrer influências negativas, cometer pecados veniais, conceder uma importância muito grande ao aspecto formal, mas eles somente foram grandes em definitivo porque sua obra permanecia globalmente realista, humanista. Em conclusão, podemos dizer que se a tendência humanista e realista formou uma corrente poderosa, uma corrente permanente que atravessa e ilumina toda a história da arte, a tendência formalista sempre constituiu somente uma manifestação recessiva. Esta escola contínua que atravessa a história, a de um realismo às vezes ingênuo, às vezes naturalista, às vezes místico, às vezes humanista, freqüentemente dinâmico, nacional e social, conhece um apogeu em nossa época e apresenta-se sob o aspecto de um realismo neo-humanista, nacional, social senão popular. Certamente esta escola procurou-se e procura-se ainda através dos exageros, dos erros e dos falsos passos aliás, nós reivindicamos em alto tom para ela o direito ao erro, quer dizer, o direito de procurar a verdade no esforço e na luta -, mas esta escola existe em nosso tempo como uma coisa viva, indiscutível. Em arte, como em qualquer outro domínio, nós continuamos sempre nossos ancestrais e nossos heróis, eis porque nós devemos resolutamente rejeitar os jogos de palavras, de sons, de cores, de linhas ou de massas. Qualquer que seja a consciência que um artista verdadeiro possa ter de seu tempo, da sociedade e do humanismo, ele se esteriliza para sempre, enquanto criador de alegria, de beleza e de coragem na vida quotidiana e de esperança nos destinos dos homens, se ele se deixar levar pela pura prestidigitação artística, pela pederastia estética.

Que não nos enganemos, o realismo que domina nosso tempo não nega que a arte seja matéria de deleite, ao contrário. Mas assim como um homem de senso não poderia recusar-se a saborear a boa cozinha sob pretexto de que comer é uma pura necessidade biológica, da mesma forma existem boas cozinhas que satisfazem aos imperativos da dietética, o realismo social não propõe à qualquer um engolir os "versos/vermes de terra artísticos". O que quer o realismo é que a arte e a literatura não esqueçam seu objeto: produzir um alimento sadio e vivificante para o espírito e o coração dos homens, que satisfaça ao mesmo tempo o bom gosto. A arte e a literatura têm seus vícios como a sexualidade, a gastronomia, o prazer de beber e o direito ao descanso.

O realismo social tem uma relação com o romantismo revolucionário. Com efeito, se entendemos por classicismo, como freqüentemente fizemos, um dogmatismo, um academicismo preconizando a eternidade das leis do belo e a adoção necessária dos velhos organons, negando que a beleza é uma criação contínua, nós rejeitamos esse classicismo ao velho celeiro das ideologias retrógradas. Para tanto, não rejeitamos o classicismo que criou as belas obras que conhecemos, obras que são testemunhos para os homens de seu tempo e testemunhos para a grande aspiração à dignidade, à felicidade, à justiça e à liberação-aspiração que é eterna. Este classicismo é no fundo apenas sinônimo de alegria para numerosas gerações vindouras. O romantismo foi, em quase todos os países, a despeito das doenças infantis, um movimento cultural autenticamente revolucionário em relação ao classicismo congelado em suas concepções de belo. O romantismo é revolucionário no sentido em que ele compreende que nada é eterno, que as formas artísticas, nascem, vivem, envelhecem e morrem, que podemos sempre ultrapassar as grandiosas aquisições do passado atualizando o homem em seu meio social e na natureza onde ele vive, iluminando mais vivamente o caráter contraditório da consciência humana, dando um mais amplo lugar ao lirismo e ao sonho. Isso não significa que se deva, para tanto cair em um anarquismo da forma, na negação pura e simples do que o passado criou no plano das formas. O que é a forma senão veículo que permite desenvolver o conteúdo, de comunicá-lo? Em outros termos, as únicas regras às quais as formas devem obedecer é corresponder ao conteúdo, ser belas, agradáveis, digestas, encantadoras. Como o gosto e a sensibilidade formal de um povo não são válidos para um outro, as formas devem, em uma cultura nacional, corresponder antes de tudo às tendências, ao caráter do povo em questão.

As formas, antes de tudo, devem ser suscetíveis de fazer vibrar o povo ao qual a obra de arte é destinada. As formas aceitas do passado de um povo não são para tanto necessariamente a única vestimenta que serve à realidade. Há justamente em todas as culturas nacionais um tesouro de formas populares originais que ainda são muito pouco utilizadas pelos artistas profissionais; é claro que estes podem adaptar, segundo sua personalidade própria, essas formas, levando em consideração, bem entendido, as tradições do passado ou mesmo criar formas inteiramente novas que respeitem o espírito nacional. É uma gloriosa missão para os criadores partidários do realismo social vivo e de uma estética popular, beber no tesouro continuamente enriquecido pelos povos e que são desdenhados pelos artistas menos perspicazes.

9 - A ótica haitiana dos organons tradicionais

À luz de nossa realidade nacional, não pensamos, no Haiti, que os gêneros e os modos artísticos que floriram no Ocidente e dos quais se servem nossos criadores e que são, aliás, preciosos para a cultura de qualquer canto do mundo, sejam acabados nem perfeitos. O povo haitiano assim como outros povos de origem negra, por exemplo, tem uma visão bem pessoal da realidade sensível, do movimento do ritmo e da vida. Para um Haitiano a harmonia musical não é unicamente a harmonia ocidental, o acorde perfeito não é de Bach, sua concepção do glissando, do vibrato, da síncope musical e original, sua técnica do canto zomba das regras do canto à italiana: poderíamos dizer a mesma coisa para todos os modos e gêneros artísticos. Nos consideramos capazes, no âmbito de nossas tradições nacionais e sob uma forma que nos é própria, de renovar essas formas e esses modos criados pelo Ocidente. Temos aguçado, é claro, o sentido do nacional para querer impor aos outros o que nos é próprio, mas há uma certa ótica ocidental da beleza para julgar o que nos é próprio que nos é freqüentemente intolerável e que deixa um vestígio de imperialismo cultural. Todos os homens são belos e todas as culturas são capazes de renovar a beleza aos olhos de todos os homens. Parece que o peso das leis tradicionais dos gêneros ainda pesa demais sobre o espírito ocidentalizado. Apenas alguns homens avançados concebem a possibilidade de uma evolução progressiva dos organons, evolução insensível contudo, que poderia, com o tempo conduzir a uma transformação decisiva dos cânones. Tudo em nós se insurge contra tal reformismo artístico, ainda que nosso ímpeto não signifique de modo algum que rejeitemos por princípio o aporte dinâmico do passado, qual seja sua origem. É impossível que todos os meios do passado estejam à altura das mensagens dos tempos presentes; é preciso resolutamente rejuvenescer os antigos organons, descobrir e redescobrir, senão inventar, segundo a ótica de nosso povo, bem entendido. Como pode que os homens do século XX não se dêem conta que os gêneros somente entraram em sua adolescência? Todas as obras mestras do passado cuja harmonia nos enfeitiça não serão nada ao lado do que deve nascer. Na nossa opinião, novas belezas somente podem ser criadas à condição de dizer não aos antigos organons de cujo espírito somos herdeiros; com efeito esses antigos organons haviam sido herdados dos mais antigos os quais também, em seu tempo, haviam negado os precedentes; o movimento é contínuo.

Parece-nos, com efeito, que a arte haitiana como a arte dos outros povos de origem negra diferencia-se muito da arte ocidental que nos enriqueceu. Ordem, beleza, lógica e sensibilidade controlada, nós recebemos tudo isso, mas nós pretendemos ultrapassá-las. A arte haitiana apresenta com efeito o real com seu cortejo de estranho, de fantástico, de sonho, de crepúsculo, de miséria e de maravilhoso: a beleza das formas não é, qualquer que seja o domínio um dado definido, um fim primeiro, mas a arte haitiana o atinge por todas as vias, até mesmo a da dita feiura. O Ocidente de filiação greco-latina tende muito freqüentemente à intelecção, à idealização, à criação de cânones perfeitos, à unidade lógica dos elementos de sensibilidade, à uma harmonia preestabelecida, nossa arte tende à mais exata representação sensual da realidade, à intuição criadora, ao caráter, ao poder expressivo. Esta arte não recua diante da deformidade, do chocante, do contraste violento, diante da antítese enquanto meio de emoção e de investigação estética e resultado espantoso, ele conduz a um novo equilíbrio, mais contrastado, à uma composição também harmoniosa em seu contraditório, à uma graça toda interior nascida do singular e do antitético.

A arte haitiana, como a arte de seus primos da África, é profundamente realista, embora ela esteja indissoluvelmente ligada ao mito, ao símbolo, ao estilizado, ao heráldico, ao hierático mesmo. O despojamento, a busca do traço característico sonoro, plástico ou verbal, acompanha-se muito bem da acumulação e da riqueza: cada elemento é despojado até a essência, mas esses elementos podem juntos formar uma formidável acumulação. Esta arte demonstra a falsidade das teses daqueles que rejeitam o maravilhoso sob o pretexto de vontade realista, pretendendo que o maravilhoso seria somente a expressão das sociedades primitivas. A realidade é que essas obras friamente e pretensamente realistas não atingem o seu objeto e não tocam certos povos. Fora com este realismo analista e racional que não toca as massas! Viva um realismo vivo, ligado à magia do universo, um realismo que abala não somente o espírito, mas também o coração e toda árvore dos nervos!

A arte haitiana parece procurar o tipo, mas a maneira com a qual ela trata seus tipos é atual, no sentido latino do termo, acctualis : que age de tal modo atual que todos os sujeitos particularizados podem reconhecer-se. Esta arte é aquela dos momentos característicos da vida, mas ela resume o conjunto do real. A imaginação domina e refaz o mundo à sua guisa, entretanto não acharíamos um único elemento gratuito, um único detalhe que não tenha sua realidade prática subjacente, imediatamente inteligível para a massa dos homens para os quais ela existe. Mesmo o arabesco, a simetria, o heráldico, o totêmico, longe de serem abstratos têm um laço direto com a vida de todos os dias. O resultado é único: violência, entrelaçamento de ritmos, ingenuidade, exuberância, aspereza de tom, agressividade das linhas, vegetação de espirais, patético do vibrato, alegria selvagem do verbo, lirismo doloroso da melodia, exaltação e volúpia das cores, dissonâncias e síncopes, sentido do movimento, fausto e sobriedade do desenho, ornamentação embaraçada e clara ao mesmo tempo, desmedida e gosto da composição - elementos zoomórficos assimetricamente reunidos, confrontados para conduzir a uma flor, a um sentimento humano, a um frisson real, imagens concretas, densas, impudicas ao mesmo tempo, retorno lancinante, percussões monocórdicas e em meio a tudo isso surge o homem, trabalhando para seu destino e sua felicidade.

Esta arte em profusão desafia todas as regras e as contem todas; é todo o contraditório, todo o vibrante da vida que a atravessa. Para julgá-la, um só critério é aceitável: ela ilumina o homem e seu destino, seus problemas de cada instante, seus combates otimistas e suas libertações? O milagre é que contrariamente às construções intelectualistas de um certo Ocidente decadente, suas pesquisas surrealistas a frio, seus jogos analistas, a arte haitiana, como aquela dos povos de origem negra, conduz sempre ao homem, à luta, à esperança e não à gratuidade e à torre de marfim. É neste sentido que a maioria de nós compreendeu perfeitamente o que queria dizer nosso querido Aimé Cesaire quando ele dizia: "... O sangue é um vaudoun poderoso! ...". O sangue, de acordo, mas todo o sangue; em outros termos não seremos jamais os sectários de um particularismo estreito que separaria o mundo em raças e categorias antagonistas.

10 - Para uma integração dinâmica do Maravilhoso: o Realismo Maravilhoso.

A arte e a literatura de vários povos de origem negra como a de muitos países das Antilhas, da América Central e Latina deram numerosas vezes o exemplo da possibilidade de uma integração dinâmica do Maravilhoso no realismo. Não nos parece justo pensar que os prestígios, a originalidade e o singular atrativo das formas estéticas próprias aos paises de origem negra sejam inexplicáveis nem que eles tenham a ver com o acaso, com o atrativo da novidade ou com uma questão de moda. Certamente todos os povos, quais sejam eles, são dotados de sensibilidade, como de razão, entretanto lembraremos o aforismo segundo o qual " os povos que não têm mais lendas são condenados a perecer de frio ". Nós constatamos objetivamente o fato de que a vida moderna com suas duras exigências de produção, com a concentração de grandes massas de homens em exércitos industriais, tomados pela frenesi do taylorismo com seus lazeres insuficientes, com seu contexto de vida mecanizada, entrava, diminui a produção das lendas e de um folclore vivo. Por outro lado, as populações subdesenvolvidas do mundo tendo vivido, ainda recentemente, em plena natureza, foram obrigadas, durante séculos, a aguçar particularmente sua visão, sua audição, seu tato. Os povos, cuja vida industrial é mais desenvolvida, serviram-se de seus sentidos em uma menor medida durante os últimos séculos, a civilização material poupando-lhes muitos esforços; isso foi o preço da mecanização industrial, cujos efeitos lamentáveis todo o mundo constata.. As populações subdesenvolvidas do mundo, elas, conhecem uma mistura de civilização mecânica e de vida "natural" se o podemos dizer, e é indiscutível que elas tenham uma sensibilidade e uma vivacidade particular. Os problemas que elas enfrentam: o baixo padrão de vida, o desemprego, a miséria, a fome, as doenças são também problemas que a elas importa liquidar, e nós não esquecemos disso.

Esta sensibilidade de uma vivacidade particular dão a esses povos possibilidades artísticas que de vem ser utilizadas. Daí a conceber que o Haitiano não procura apreender o conjunto da realidade sensível, mas o que o toca, o que o ameaça, o que repercute fortemente nele e desestabiliza particularmente sua emoção na natureza, há só um passo. Por um outro lado, a realidade não sendo inteligível em todos os seus aspectos aos membros das coletividades subdesenvolvidas, eles transpõem naturalmente suas noções de relatividade e de maravilhoso em sua visão da realidade quotidiana. Um pássaro em vôo rápido é antes de tudo um par de asas, uma mulher que amamenta impressiona por seus seios globulosos e pesados, uma fera é antes de tudo um barulho de passos e um rugido, o corpo se movimenta naturalmente ao ritmo da música, sem seguir um esquema preestabelecido, contrariamente a outros homens que exercitam continuamente pressões sobre seu corpo em função dos usos sociais das sociedades refinadas. Para testemunhar a sensibilidade particular e às vezes paradoxal do Haitiano por exemplo, nós citaremos o fato de que o possuído de nossa religião vudu chega às vezes a tomar um ferro em brasa nas suas mãos sem se queimar e o lambe; ele sobe alegremente nas árvores mesmo se ele é um idoso, ele chega a dançar durante vários dias e noites seguidas, ele masca e engole vidro ... Longe de qualquer concepção mística do mundo, à luz de numerosos fatos de observação, muitos valores deverão ser revisados pela ciência. Podemos, com efeito, despojar um ser humano de todos seus antecedentes de todos os reflexos incondicionados nascidos de reflexos condicionados hereditariamente transmitidos? O ser humano não pode ser o filho de ninguém, não podemos negar o passado e a história, o haitiano, e através dele sua cultura, é beneficiário de uma herança de reações de comportamentos e de hábitos anteriores a seus cento e cinqüenta anos de independência; ele é ainda, em uma larga medida, herdeiro de elementos de cultura vindos da longínqua África. O Haitiano tem um andar, um ar de família tanto interior quanto exterior, que o faz parecer, sobre muitos planos, a seus outros irmãos de origem negra do mundo. Eis, aliás, porque estamos aqui neste Congresso.

É pelo fato de se darem conta de que seu povo exprime toda sua consciência da realidade utilizando o Maravilhoso, que os escritores e artistas haitianos tiveram consciência do problema formal de sua utilização. Sob as personagens imaginárias do romanceiro de Boqui e de Malice, é uma pintura fiel das condições da vida rural que o narrador haitiano realiza, são as belezas, as deformidades e as lutas, o drama dos esmagadores e dos esmagados que ele coloca em cena.

Em suas canções de trabalho, pois entre nós o trabalho não se concebe sem música ou sem canto aos quais participam todos os trabalhadores, em suas canções de trabalho, os deuses vudus do Haitiano são apenas uma aspiração à propriedade da terra sobre a qual ele trabalha, uma aspiração à água que alimenta as colheitas, uma aspiração ao pão abundante, uma aspiração à livrar-se das doenças que o afligem, uma aspiração à um melhor modo de vida em todos os domínios. As canções e as danças religiosas mesmo, são símbolos transparentes onde imploramos aos deuses a resolução de problemas precisos: há, aliás, deuses camponeses, deuses militares, deuses políticos, deuses poderosos e deuses explorados, deuses dos amores infelizes, deuses enfermos, deuses de uma perna só, deuses cegos, deuses mudos, deuses de rapina e deuses simples, gentis, serviçais, poetas e galhofeiros. Nosso povo coloca também, quando ele é marinho, a amplidão do horizonte, o encarpelamento das ondas, o drama do mar, sob a forma de Agouet Arroyo o Loa do oceano, ele canta a Sirène Diamont , a "Rainha Sol" como ele diz às vezes, mas nada de mais atual, nada de mais verídico, nada de mais vivo que todas essas entidades. Como seríamos nós inconscientes se recusássemos utilizar tudo isso a serviço de uma tomada de consciência e de lutas precisas e atualizadas? É o que fazia escrever o poeta e dramaturgo Morrisseau-Leroy em um artigo recente:

" Nós vivemos um renascimento da canção haitiana. Eis que florescem ainda formas de expressões tanto ricas quanto originais como o tempo onde as coplas ditirâmbicas ou satíricas, líricas ou bucólicas voavam dos lábios de um povo cujo estado de espírito e humor souberam resistir atodas as misérias ... De uma extremidade a outra da república, os sobrinhos, os tios, as sobrinhas e as tias cantam ou cantarolam em cadência ... e se Agoué T'arroyo não protege suficientemente esta rude classe de trabalhadores contra os naufrágios, as instituições sociais oficiais da República não fizeram melhor neste sentido. É, pois, gratuitamente que em suas canções eles invocam os deuses e os chefes ... Eu quero sobretudo sublinhar que, se a realidade, em seu aspecto local como em seu aspecto universal, escapa àqueles a quem um certo humanismo muito desterrou, os poetas populares, os "composes" permanecem, a meu ver, os únicos mestres da poesia haitiana, os únicos capazes de nos fazer cantar e dançar juntos em uma convicção inconfessada e comum de que o povo está são e salvo. "

O que é, pois, o Maravilhoso senão a imagética no qual um povo envolve sua experiência, reflete sua concepção do mundo e da vida, sua fé, sua esperança, sua confiança no homem, em uma grande justiça, e a explicação que ele encontra às forças antagônicas do progresso? O Maravilhoso implica certamente a ingenuidade, o empirismo senão o misticismo, mas a prova foi feita de que se pode envolver outra coisa. Quando o grande pintor que é Wilson Bigaud pintou um quadro intitulado " O Paraíso Terrestre ", ele utilizou todo um Maravilhoso, mas não seria a maneira com a qual o povo haitiano concebe um tempo de felicidade que o pintor exprimiu? Olhe todas essas frutas que se acumulam em cachos sobre a tela, essas massas espessas, densas e coloridas, todos esses animais esplêndidos, tranqüilos e fraternos, selvagens inclusos, não é o sonho cósmico da abundância e da fraternidade deste povo que sofre sempre de fome e de privação? Quando em sua peça "Rara" Morisseau-Leroy mostra um homem que morre por seu direito a um dia de festa no final de dias de labor, paralíticos que se levantam e dançam, mudos que se põem a cantar, quando, após a morte dos heróis, o povo conta que eles percorrem a região, dançam sem parar, quando vemos esses espectros, que ninguém se engane, que ninguém dê uma significação mística e que cada um veja nisso a incitação à luta pela felicidade. Naturalmente é preciso sempre fazer melhor e os combatentes da vanguarda da cultura haitiana se dão conta da necessidade de transcender resolutamente o que há de irracional, de místico e de animista em seu patrimônio nacional, mas eles não acreditam que haja aqui um problema insolúvel. Eles rejeitam a vestimenta animista que esconde o núcleo realista, dinâmico de sua cultura, núcleo carregado de bom senso, de vida e de humanismo, eles colocarão sobre seus pés o que caminha muito freqüentemente sobre a cabeça, mas eles não renegarão jamais esta tradição cultural que é uma grande e bela coisa, a única que eles possuem de próprio. Da mesma maneira que não se trata, para nenhum povo, de renegar a arte religiosa, nem as obras influenciadas por uma concepção mística da vida, os homens de cultura haitiana, saberão em uma via dinâmica, positiva e científica, uma via de realismo social, compreender todo o protesto humano contra as duras realidades da vida, toda a emoção, o longo grito de luta, de angústia e de esperança que contém as obras e as formas que lhe transmitiu o passado.

O realismo social consciente dos imperativos da história preconiza uma arte humana pelo conteúdo, mas resolutamente nacional por sua forma.

Isso quer dizer que os pseudo " mundialistas " da cultura, verdadeiros cosmopolitas, verdadeiros apátridas não têm nada a ver com o homem de nosso tempo, nada a ver com o progresso, portanto, nada a ver com a cultura. Se todas as raças humanas, todas as nações são iguais e irmãs, nem por isso elas deixam de ter suas próprias tradições, seu próprio temperamento e formas mais suscetíveis de tocá-las. Se a Arte não fosse nacional em sua forma, como os cidadãos de um país fariam para lhe reconhecer os perfumes e os climas que eles amam, para reviver verdadeiramente as obras de beleza que lhe são oferecidas e ali encontrar seu quinhão de sonho e de coragem? O resultado seria que o povo considerado dificilmente poderia participar do movimento da humanidade em marcha em direção à sua liberação, uma vez que esta arte e esta literatura, dados essenciais à tomada de consciência como ao deleite estético, não teriam nenhuma influência sobre sua sensibilidade.

Os artistas haitianos utilizaram o Maravilhoso em um sentido dinâmico antes de se darem conta de que eles faziam o Realismo Maravilhoso. Pouco a pouco nós nos tornamos conscientes do fato. Fazer realismo corresponde para os artistas haitianos começar a falar a mesma língua que seu povo. O Realismo Maravilhoso dos Haitianos é, pois, parte integrante do Realismo Social, sob sua forma haitiana, ele obedece às mesmas preocupações. O tesouro de contos, de lendas, toda a simbologia musical, coreográfica, plástica, todas as formas de arte popular haitiana para ajudar a nação a resolver os problemas e a cumprir as tarefas que estão diante dela. Os gêneros e os organons ocidentais legados a nós devem ser resolutamente transformados em um sentido nacional, e tudo na obra de arte deve mexer com esta sensibilidade particular dos Haitianos, filhos de três raças e de muitas culturas.

Para resumir, o Realismo Maravilhoso se propõe:

1º - Cantar as belezas da pátria haitiana, suas grandezas como suas misérias, com o senso de perspectivas grandiosas que lhe dão as lutas de seu povo e a solidariedade com todos os homens: atingir assim o humano, o universal e a verdade profunda da vida.

2º - rejeitar a arte sem conteúdo real e social;

3º - procurar vocábulos expressivos próprios à seu povo, aqueles que correspondem ao seu psiquismo, utilizando sob uma forma renovada, alargada nos moldes universais, de acordo, bem entendido, com a personalidade de cada criador;

4º - ter uma clara consciência de problemas precisos, concretos atuais e os dramas reais que enfrentam as massas no objetivo de tocar, de cultivar mais profundamente e de impulsionar o povo em suas lutas.

Em função das disciplinas particulares muitos dos aspectos deverão ser precisados, mas só uma discussão aprofundada nos permitirá aproximar mais da verdade. Isso não é uma tarefa fácil, a de progredir na via deste realismo, muitas tentativas, muitos erros nos esperam, mas nós saberemos mesmo tirar partido de nossos fracassos para chegar o mais rápido possível ao que se perfila diante de nossos olhos. O trabalho decidirá de todo resto.

11 - Problemas contemporâneos da cultura haitiana

Nós dissemos que o Haiti enfrenta um sério problema por causa de seu bilingüismo. Este bilingüismo não seria um problema se não houvesse este dado que transtorna tudo: uma percentagem de analfabetos que ultrapassa 85%. Se a literatura haitiana não produziu muito mais, isso se deve ao analfabetismo que limita o mercado literário, o que não encoraja muito os escritores haitianos que vivem com dificuldades de sua arte e, com algumas exceções, não conseguem fazê-lo. Os escritores haitianos são, conseqüentemente obrigados a se voltarem para a função pública e eles não somente podem consagrar pouco tempo à sua arte, como também sua liberdade de expressão encontra-se singularmente restringida no âmbito de um país onde a função pública é historicamente uma questão de favorecimentos ( partisanerie ). O problema mais grave é que não há comunicação verdadeira possível entre o povo haitiano e seus filhos que são criadores válidos, que honram e ilustram sua cultura. Nossa posição é clara sobre esse ponto, o combate para o engrandecimento da literatura haitiana é inseparável da luta por uma verdadeira ação de alfabetização massiva e organizada pelo Estado. Um escritor que não compreendesse essa tarefa histórica de liquidar o analfabetismo no Haiti, um escritor que não compreendesse a necessidade prática de participar de uma grande e poderosa organização de combate para levar o povo e o governo a consagrar uma parte importante de nossos recursos a uma tal obra, não somente esqueceria seus deveres de patriota mas ainda esqueceria sua missão de escritor e clérigo.

Consideramos que há duas línguas que podem dar conta literariamente da realidade viva do Haiti, o créole e o francês. Para nós, o créole está no estágio em que se encontrava o francês em relação ao latim durante a Idade Média. O francês era então a língua do povo, o latim a dos letrados e dos sábios. Nessa época poderíamos apenas prever com dificuldade qual língua sairia vitoriosa no futuro, o falar popular ou a língua latina: as condições objetivas da França fizeram com que o francês evoluísse, se enriquecesse, e que o latim se degenerasse, tornando-se o latim de cozinha, perecesse e depois desaparecesse (na Itália também). Hoje, ainda que o créole seja a língua da esmagadora massa da população, não queremos fazer profecias sobre o futuro, pois as condições de vida moderna não são as mesmas da Idade média, entretanto devemos ter uma atitude prática esperando que o francês e o créole acabem com sua querela histórica no Haiti. Nós pensamos, com efeito, que é um dever ensinar o povo haitiano a ler em sua língua materna créole e que não devemos continuar cometendo a tolice que arruinou durante cento e cinqüenta anos os esforços da instrução pública, a saber, obstinar-se a ensinar a ler aos iletrados em uma língua, apesar do parentesco, para eles estrangeira. É claro que somos partidários que se ensine, em todos os níveis, o francês como uma língua privilegiada, mas o créole deve estar na base ao menos da escola primária e rural. Assim, evitaremos o risco de ver aqueles que foram alfabetizados pelo francês tornarem-se rapidamente analfabetos funcionais, o que acontece freqüentemente. Pensamos também que é preciso, no ensino, conceder um espaço privilegiado, após o francês, ao espanhol, haja visto nosso contexto latino-americano, assim como o fato de que centenas de milhares de Haitianos falam esta língua.

No plano da literatura, pensamos que é necessário, de forma competitiva, utilizar as duas línguas, o francês e o créole , e não uma língua "mediana", francesa em sua forma gramatical e créole em seu aspecto, graças a uma utilização do velho francês que findou seu tempo. Não é uma língua "mediana" que triunfará no Haiti, é ou o francês ou o créole , e mais, no futuro longínquo, esta língua vitoriosa será função de nossas relações com os outros estados antilhanos e latino-americanos próximos. Nós não consideramos Dom Quixotes os escritores haitianos que começam a publicar obras em créole, a questão é inseparável da alfabetização e, é preciso, imediatamente, textos em créole para levar a termo esta alfabetização. Devemos igualmente pensar na tradução de obras de todos os escritores haitianos válidos e na tradução de todos os clássicos da literatura haitiana em créole . Quanto ao movimento do teatro em língua créole , que se desenvolve há alguns anos, ele é extremamente importante para introduzir a cultura em todas as camadas da população.

No plano das artes plástica, estamos felizes com o imenso interesse que a pintura haitiana desperta no mundo, quase tanto quanto a pintura mexicana. Estamos felizes de ver que, em todos os concursos de pintura organizados na América Central, a pintura haitiana encontra-se entre os primeiros lugares, quando ela não obtém as palmas, mas desde já nos damos conta de um perigo que espreita as artes plásticas haitianas. O que adveio à nossa escultura, tão promissora há alguns anos, espreita nossa pintura. Com efeito, o mercado haitiano das artes plásticas é, em grande medida, um mercado estrangeiro, um mercado norte-americano e, da mesma forma em que uma grande quantidade de nossos escultores deixaram-se corromper pelo gosto do pitoresco e do selvagem de um certo turismo norte-americano e produzem obras que não tem mais nada de haitiano, constatamos os sintomas desta doença em nossos pintores. É importante que vozes se levantem contra uma tal comercialização, mas é necessário também vislumbrar os meios de luta para ampliar o mercado nacional das artes plásticas. Ao mesmo tempo, precisamos apresentar nossas obras para a Europa como para as outras regiões do mundo que manifestam interesse pelos continuadores de Hector Hippolyte, a brilhante pleiade dentre a qual Wilson Bigaud, Dieudonné Cédor, Louverture Poisson e Pholomé Ohin são os melhores. Que um espírito profundamente nacional e realista nos sirva de bússola, esta bússola que nos valeu e nos vale sempre grandes sucessos.

A ameaça que plana sobre nossos artistas plásticos, se ela é válida para nosso canto e nossa dança folclórica, sempre em função desse turismo norte-americano cada dia mais invasor, não é importante no âmbito da nossa música. Se constatamos um refluxo da música cubana e da música dominicana sobre a nossa, é freqüentemente apenas um retorno do que nós mesmos exportamos, mas não devemos nos inquietar demasiadamente com essas influências pois a herança cultural dos criadores cubanos e dominicanos não é fundamentalmente diferente da nossa. O que não quer dizer que não devemos nos preocupar em exprimir fielmente nossa realidade nacional na música. O que nos preocupa, antes de mais nada, é a desafeição que a música de câmara e a música sinfônica conhecem entre nós. Não há muitos lugares no mundo onde o trabalho de compositor seja rentável. É preciso contudo estudar o problema em todos os seus aspectos para que haja entre nós numerosos continuadores de Justin Elie, de Occide Jeanty e de Ludovic Lamothe.

Conclusões

Eis chegado o momento de nos voltarmos aos nossos irmãos de origem negra para lhes dizer que precisamos deles para cumprir nossas tarefas. Quantas tarefas, com efeito, nos esperam em nossos respectivos países! A colaboração e a ajuda mútua nos são indispensáveis; todos nós esperamos que este primeiro Congresso seja seguido de muitos outros, a fim de confrontar, incessantemente dentro de um espírito de amizade e de fraternidade, o que realizamos. Mas que nos seja permitido emitir um desejo. Seria necessário que uma organização permanente nos ajudasse a realizar com êxito nossa colaboração, seria necessário que houvesse em cada país interessado pelo menos um Comitê Internacional dos intelectuais de origem negra e que um eficaz Comitê Internacional de Ligação dos intelectuais de origem negra coordenasse as manifestações de solidariedade e de colaboração dos diversos comitês Nacionais no intervalo de nossos Congressos. Talvez fosse necessário mesmo que em cada uma de nossas cidades importantes houvesse Comitês Locais, encarregados de popularizar e de aplicar as decisões. Entretanto, somente as Comissões de trabalho deste Congresso poderão considerar o detalhe desta proposta, também em nome dos Intelectuais, Escritores e artistas haitianos, eu saúdo fraternalmente todos os nossos irmãos e irmãs de diversos países, acorridos para trabalhar juntos em um espírito resoluto de fraternidade e de solidariedade.