Do ensimesmamento à abertura:
uma literatura das Américas

Bernard Andrès

ANDRÈS, Bernard. Do ensimesmamento à abertura: uma literatura das Américas. Cadernos do I. L./UFRGS , Porto Alegre, v.7, p. 33 - 58, maio de 1992. Tradução de Herbert Holler.

Comentário: Donaldo Schüler (UFRGS)

DO ENSIMESMAMENTO À ABERTURA: UMA LITERATURA DAS AMÉRICAS (1)

"Entre os povos jovens, engajados em um projeto coletivo, entre as nações novas e em emergência em que a vastidão da vida deve ser identificada, nomeada e consagrada a todos os possíveis pela virtude da linguagem, a exigüidade do mercado nacional pode acompanhar-se de um benefício exorbitante, de uma oportunidade inaudita, que consiste em dizer as coisas pela primeira vez... Não se trata de dizer coisas novas. Esta esperança é enganosa

(...). Trata-se de dizer ou de redizer as coisas onde não foram ainda proferidas, com toda a riqueza conotativa, sem a qual não há literatura.

André Belleau (2)

Redizer aqui

Proferindo estas palavras diante de uma platéia israelense, há quase vinte anos, André Belleau formulava um dos aspectos mais paradoxais das literaturas em emergência: condenadas à repetição desnecessária, mas retirando a sua originalidade desta limitação. No Canadá, os estudos comparados não deixaram de trabalhar este aspecto da questão (em paralelos que implicam sobretudo as literaturas francófonas e anglófonas (3)).

Proferidas ulteriormente, as produções jovens só podem retornar a um dizer anterior à sua enunciação. Um dizer longínquo. Um dizer estranho. Tanto mais estranho e longínquo que redito em outros lugares (aqui), torna-se outro (se), não se convence sempre de sua originalidade. Fantasma da fonte e do modelo... Constrangimento partilhado pelas letras do "Novo Mundo", que estimula e contraria sua evolução. Uma situação que convida o crítico a mudar de perspectiva: não mais a única filiação européia, mas a colateralidade americana.

Entendamo-nos: não se trata, sob o pretexto de evitar uma volta condenável sobre si, de substituir o " ailleurisme (4)" por um novo ailleurisme com cores tropicais e para trocar de exotismo, diluir a "especificidade" quebequense em um novo melting pot americanoso. Jean Marcel já alertou sobre os perigos do mito americanista (ele pensava mais nos Estados Unidos que no resto do continente). Segundo ele, a idéia pancontinentalista é "ridícula na medida em que não há nem mesmo unidade de civilização nos EUA". Lembramo-nos do ponto de vista do autor na época do Joual de Troie (1973) e de sua desconfiança a respeito de qualquer aproximação apressada com os "vizinhos do sul":

"Como se lá pudesse existir uma medida comum entre um povo eminentemente livre, que conquistou o mundo, e nós, que não somos livres e não conquistamos nada - nem mesmo a nossa liberdade sempre latente" (p.111).

Seis anos mais tarde, Gérard Tougas voltou ao assunto exprimindo o seu fascínio pela "força literária dos Estados Unidos", "o exemplo americano", esta literatura que retiraria as chaves da nossa. É no Destin littéraire du Quebec , em 1932, que Tougas assinala a posição hegemônica dos Estados Unidos no campo literário, colocando o Quebec entre as "neoliteraturas" da América:

"A literatura de nossos vizinhos do sul traçou uma curva que todas as neoliteraturas do Novo Mundo são condenadas a seguir, de perto ou de longe. Pois todas, em um certo momento, procuraram emancipar-se da Europa e a literatura americana foi a primeira que indicou o caminho a seguir" (p.11).

Mas Tougas logo lamenta o impacto desta literatura sobre a francofonia. O problema, segundo ele, é a hesitação do ponto de vista, ora centrado na América, ora centrado na França (com esta evidente nostalgia da Idade de Ouro da "grande" literatura francesa). Para perceber a originalidade e o "destino literário do Quebec", Tougas é levado a bordejar entre o "gênio francês" e o dinamismo americano. O principal interesse de seu ensaio reside, entretanto, na perspectiva comparatista esboçada não com os Estados Unidos, mas com as outras literaturas francófonas, hispanófonas e lusófonas da América. No entanto, como conciliar esta abertura de espírito com a estreiteza de visão que marca as considerações de Tougas sobre a arte popular, a visão dos Estados Unidos como "pátria implícita do judaísmo", sua percepção da mestiçagem cultural, dos "metecas" e das "moças incultas" (sic) ? Pelo menos o trabalho de Auguste Viatte sobre a "América francesa", vinte anos antes, não caía neste excesso (a despeito do eurocentrismo com tendências neocolonialistas, denunciado, na época, por Gilles Marcotte).

Vê-se que, por mais generosa e sedutora que pudesse parecer, toda a empresa comparatista apresenta a sua parte de preconceitos. Ela exige, sobretudo da parte do pesquisador, um certo número de precauções metodológicas, tanto mais imperativas se a literatura de referência e sua institucionalização forem mais recentes, ainda muito dependentes das ex-metrópoles. É precisamente este estatuto privilegiado da Europa que gostaria de interrogar aqui, a partir do que Jean-Claude Germain chamou de "ailleurisme" no campo cultural quebequense. Na ótica de uma abertura para as literaturas da América, tratar-se-ia de interrogar este "problema" procurando equivalentes entre nossos vizinhos do sul mais ou menos distantes e, talvez assim, melhor compreender a nossa apatia institucional para com as trocas latino-americanas. Todo um programa que apenas poderei esboçar aqui em linhas gerais propondo principalmente a seguinte hipótese: é em reação contra o ailleurisme que fixou nossa tradição crítica sobre Paris até os anos sessenta (pelo menos!) que a história literária ensimesmou-se no único corpus quebequense (freqüentemente em análises imanentes, formalistas: sei algo sobre isto por ter eu próprio dedicado algum tempo a isto). Este reflexo de autonomização era sadio, historicamente necessário. Ele correspondia à fixação de instâncias de legitimação locais e de um aparelho literário consolidado, não escapando porém a um certo "nombrilisme", quando ele não confinava à autarquia, estratégia suicida para uma literatura em emergência. Como sair desta situação, atualmente, sem cair nos jogos estéreis de influências nem no terceiro-mundismo (5), como abordar a perspectiva comparativista? A solução não consistiria em negligenciar, taticamente, o eixo leste-oeste, considerando a possibilidade de vislumbrarem uma perspectiva vertical, à luz da experiência latino-americana, a evolução da literatura quebequense?

Arriscarei neste sentido alguns apanhados bem elementares sobre o eixo Quebec-Brasil que nos é mais familiar há algum tempo (números especiais de revistas, intercâmbios universitários, etc. (6)). Do impacto da colonização sobre as letras até a constituição de um leitorado, passando pela inelutável ligação francesa, como o Quebec e o Brasil transpuseram, superando ou não, provas similares e, sobretudo, quais problemas metodológicos tal análise coloca para a história literária?

De uma colonização à outra

A colonização, então. Ou antes, as colonizações, assim como saem das narrativas de viagem e dos relatos dos jesuítas, notadamente: um domínio sobre o qual os comparatistas não se dedicaram ainda o suficiente. Assinalei, em outro trabalho, o interesse de um paralelismo entre as estratégias de evangelização dos jesuítas na Nova-França e no México, ao longo de todo o século XVII (7). Vimos como os nossos religiosos tinham pouca imaginação e pouco gosto pelo mórbido na sua maneira de assustar os indígenas pela evocação do inferno, quando comparados com seus colegas de Tepotzotlan ou Tenancingo. Estes últimos, não deixavam de retomar o tema, dramatizando de maneira figurada a mensagem do evangelho. Com a condição de ter como objeto séries discursivas homogêneas regidas pelos mesmos protocolos de escritura (as Relations da Companhia de Jesus no caso em foco), uma tal perspectiva oferece uma dupla vantagem: perfazer nosso conhecimento dos fatos históricos, mas também ponderar certas leituras contemporâneas dos ditos fatos (por exemplo, aquela que Denys Delâge propõe sobre visões e pesadelos, na reserva de Sillery entre 1640 - 1650 (8)). O exemplo do impacto literário da colonização portuguesa no Brasil, comparado ao da colonização francesa no Canadá, não é apenas esclarecedor sobre o plano temático. É revelador também de um fenômeno de "interferência ideológica" assinalado por Denis Monière, no Quebec, e por Lilian Pestre de Almeida, no Brasil (9).

Este último apenas foi assunto de uma colonização (abstração feita às veleidades holandesas e francesas (10)) mas conhece-se a maneira curiosa pela qual consolidou-se a empresa colonial portuguesa: a deslocação da corte de Lisboa para o Rio em 1807, tornando-se o Rio então a capital do império português (pode-se imaginar o deslocamento de Versailles para o Quebec, para fugir do espectro revolucionário?). O Canadá conheceu dois tipos de hegemonias. Denis Monière exprime, nestes termos, o traumatismo causado pela segunda colonização sobre a consciência coletiva dos "novos súditos":

"A conquista teve, então, efeitos sobre o desenvolvimento ideológico, sobre a sociedade canadense eliminando a classe dinâmica, quebrando o ritmo do desenvolvimento ideológico desta sociedade, subtraindo-a de seu campo de influência intelectual natural e permitindo a uma ideologia reacionária e em regressão de fortalecer-se. Reforçou-se para tornar-se mais tarde, dominante (11).

Prossegue ressaltando o impacto da intervenção inglesa que "interferirá no desenvolvimento da consciência democrática, impondo uma mediação exógena à sociedade canadense". Lilian Pestre de Almeida evoca um feito análogo ao comparar o Quebec com o Brasil. Por seu lado, Denis Monière atribui esta interferência ao curso singular tomado pela história do Quebec: " Não tivesse sido a conquista, a sociedade canadense teria, provavelmente, conhecido uma evolução ideológica comparável a da sua metrópole e das outras colônias americanas (12)". Que teria acontecido ao Quebec se ele tivesse seguido o curso "normal" das coisas (o contra-golpe da Revolução francesa e, com seus vizinhos do sul, os processos de liberação nacional que marcaram a história americana do século XIX)? Qualquer que seja, foi por falta de opção da França do Antigo Regime e, opondo-se à Revolução, que as forças conservadoras posicionadas pela Inglaterra irão modelar as mentalidades até o século XX (13). Sobre este plano, no inicio do século XIX, o Brasil e o Canadá francês partilharão uma experiência similar. No que se refere à relação com a França revolucionária e com a exportação destes princípios por intermédio das guerras napoleônicas, os dois países adotam oficialmente a estratégia do ensimesmamento territorial e ideológico. Oficialmente, as comunicações estão cortadas. Tanto para o Rio quanto para o Quebec, o oceano se interpõe. Mas estará a ruptura consumada e a filtragem ideológica terá sido eficaz?

O ensaio de Joseph Costisella sobre L'esprit révolutionnaire dans la littérature canadienne-française (1968) permite que se duvide disto. Marcel Trudel (1945), de sua parte, estabeleceu a influência de Voltaire no meio intelectual franco-canadense desde o século XVIII. Quanto a Rudolph Grossmann, ele evoca o mesmo fenômeno, mais marcante ainda na América Latina. Para ele, os franceses figuram no topo da lista na importação das novas idéias na América Latina:

"Eles aparecem como sendo os precursores (...) da emancipação política e, por mais de um século, asseguram-se em contrapartida de sua "contribuição no domínio cultural" uma indiscutível primazia na tutela destes novos Estados. No Brasil, notadamente, períodos inteiros da periodização literária do século XIX tinham nomes prescritos pela França (Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo). Mas, sobretudo, entre 1760 e 1830, esta influência se exerce de maneira preponderante no campo ideológico. O ascendente mais marcante é (...) o das obras tipicamente representativas do Século das Luzes: Montesquieu, Rousseau e Voltaire (14)."

Sobre este último, o historiador argentino menciona também o impacto da Henriade sobre a epopéia brasileira da "Plêiade Mineira". Assim, de uma referência cultural a outra, das Luzes à Revolução Francesa, se as lutas de libertação nacional na América do Sul permitiram revoltar-se contra o jugo da Espanha e de Portugal, elas também soldaram-se no plano literário por uma dependência marcada para com o resto da Europa, estando a França em primeiro lugar. No Quebec, se o Instituto Canadense e os intelectuais exilados (15) continuam em contato direto com a França Contemporânea, a censura eclesiástica forja os códigos de uma instituição nascente, impondo se "rótulo de pureza" à produção literária, controlando a importação de obras francesas 16 . Qualquer que seja a eficacidade desta (re-)ação, ela pode contato direto com a França Contemporânea, a censura eclesiástica forja os códigos de uma instituição nascente, impondo se "rótulo de pureza" à produção literária, controlando a importação de obras francesas (16). Qualquer que seja a eficacidade desta (re-)ação, ela pode tão somente afetar a relação que os escritores locais mantêm com a antiga metrópole. Bastava-lhes, de todas as maneiras, situar-se em relação "aos velhos países que a civilização corrompeu e aos seus romances ensangüentados (17)". Que eles os rejeitem ou se inspirem neles, os autores quebequenses expõem-se, a prazo mais ou menos longo, a sofrer a sua "influência". Mas o interesse para a crítica não deve contabilizar créditos e dívidas na economia das trocas com a Europa (para infalivelmente imputar ao oeste o déficit). Mais inovadora seria a abordagem comparada dos jogos de derivação textual entre duas ou várias literaturas da América e qualquer outra do continente.

Fortuna e infortúnio da França

Consideremos, por exemplo, literária. Muito criticou-se a "fortuna" dos literatos franceses no Quebec. Não haveria um meio de rever este pressuposto à luz de um estudo comparado da recepção dos franceses sobre o conjunto do continente? Apercebemo-nos então que as "sacrossantas" noções de "defasagem", de "progresso" ou de "atraso" - incluindo-se as questões de periodização - são inteiramente relativas. Melhor, que segundo a importância que se dá ao fato de ser ou não "influenciado" pelos românticos, tal "atraso" na recepção pode vir a ser inteiramente benéfico! Exemplos: Quem adivinharia os danos causados por Chateaubriand nos Novos Mundos? Bem, resumindo, o Quebec apenas foi punido muito tardiamente, em relação ao México. Quem se queixará disso? Assim, segundo Yves Dostaler que prepara o inventário dos romances em circulação no Quebec no século XIX, o autor de páginas tão belas sobre as quedas do Niágara, "foi até 1850, um dos autores mais citados e a sua glória não conheceu nenhum ofuscamento ao longo de todo o século (...). De 1830 a 1850, inúmeros extratos (de suas) obras (...) eram publicados nos jornais (18)". Contudo, o aparecimento de Atala na Gazette de Québec data de 1835, enquanto que desde 1801, o mesmo Atala fora traduzido no México (no mesmo ano de seu lançamento) por Fray Servando Teresa de Mier (19)! O autor apenas seria levado a sério uns trinta anos mais tarde no Canadá. O que dizer da Colômbia (com Fernandez Madrid, Jorge Isaacs), com o argentino Echeverria e o brasileiro Alencar? O que dizer do "indianismo" latino-americano dos anos 1860 a 1880? Dever-se-ia falar também do impacto comparado de outros românticos, dos autores da Restauração, Alexandre Dumas, Eugène Sue e de Victor Hugo. A Oraison pour tous deste último havia sido traduzida pelo venezuelano Andrés Bello e, entre nós, Hugo era presidente honorário do Instituto Canadense. Vê-se: ainda falta fazer a história das comparações entre instituições literárias quebequenses e latino-americanas sobre a base dos contextos textuais franceses.

Visto que não se trata de, por algum reflexo inconsiderado, jogar a França no esquecimento. Mas antes procurar compreender como a literatura metropolitana trabalhou os nossos textos, notar neles paralelismos ou desvios, compara estes últimos com os descobertos entre nossos vizinhos americanos: estabelecer assim, em uma perspectiva continental, a economia das trocas literárias das derivações discursivas, não interpretando nunca o desvio como termo de erro ou de infidelidade (20). Como é que as literaturas latino-americanas (e permitam-me incluir a quebequense sob essa denominação) através de que estratégias, segundo que modelos apropriaram-se da França, incensaram-na, imitaram-na, denegriram-na, pasticharam-na, parodiaram-na, "antropofagizaram-na" (para parafrasear Oswald de Andrade)?

O número 138 de Liberté intitula-se "Odiar a França?", André Belleau usava de alguns aforismos que diziam muito sobre a ambigüidade da relação com a ex-mãe pátria (ou partida):

"Nós estamos sempre atrasados em relação à França. Na era Romântica, líamos o abade Delille; na época de Zola, Chateaubriand; em pleno surrealismo, Barrés e Bourget. Hoje, no tempo de Lacan, Barthes, Derrida, Deleuze, Foucault, descobrimos Boris Vian. A França que nós amamos não é jamais a França oferecida no presente. Ela nos amedronta muito (21)".

Parece que a relação com a França apresenta-se de maneira menos tensa, crispada, trágica mesmo, para os nossos vizinhos do sul (eu não penso especificamente nos Estados Unidos, evidentemente). Talvez porque sua relação com a França repouse sobre certas afinidades culturais e estéticas: uma ligação não-imposta. Escolhem-se os amigos, não os parentes. A situação não é tão simples e devemos nos resguardar das comparações apressadas. Assim, chegando a este nível de considerações quando se abordam os famosos problemas do "atraso", do "avanço" ou da "telescopia" entre séries literárias, um certo número de precauções se impõe. Eu as assinalo, pois elas são de natureza a questionar o próprio princípio de uma tradição comparatista fundada sobre os jogos de influências e de hierarquização entre obras (com o sentimento de dependência cultural ao qual conduz fatalmente este tipo de abordagem (22)).

O eterno triângulo vicioso

Retornemos ao caso do Brasil e do Quebec. A tentação de aproximar estas duas literaturas sobre a base dos fenômenos de colonização é grande, como já foi verificado, ou simplesmente em razão de sua importância relativa sobre os continentes sul e norte-americanos (23). Consideremos a dimensão lingüística. O Quebec oferece o mesmo caráter de isolamento que o Brasil: Francofonia versus anglofonia e lusofonia versus hispanofonia. Quando do Encontro Internacional de Escritores Quebequenses, José Geraldo Nogueira Moutinho lembrava o destino isolacionista de seu país, pois se, disse ele, "um brasileiro, mesmo de cultura média, é plenamente capaz de compreender, ler e também se fazer compreender em espanhol, o contrário não acontece (24)." Seríamos então levados a estabelecer uma ligação entre os dois países e as condições de consumo de suas literaturas, a despeito do desequilíbrio demográfico (seis milhões de habitantes de um lado, vinte e três vezes mais do outro): no nível do leitorado propriamente dito, os problemas de analfabetismo reduzem consideravelmente o desvio em questão. Mas admitindo mesmo que cruzando habilmente as variáveis, chegássemos a um certo equilíbrio no nível dos leitores em potencial dos dois países, dever-se-ia ainda levar em conta este dado suplementar que é o consumo do produto literário america no pelas ex-metrópoles.

Abordemos então o problema das relações triangulares que estas duas literaturas mantêm com a Europa (a França em particular porque - salvo exceção - os quebequenses e os franceses conhecem Amado pelas obras traduzidas em Paris e os brasileiros apenas podem ter acesso a Godbout pela mediação dos editores parisienses). Os problemas de contato direto com o próprio âmago da francofonia encontram-se decuplicados quando se trata das obras quebequenses e brasileiras. Como ler, ser lido e se fazer ler sem sair do "triângulo vicioso"? Por outro lado, os leitores do Brasil e do Quebec são comparáveis ou observáveis a partir de que ângulo, em relação aos leitores europeus? Quando se coteja o número de amantes em potencial das letras brasileiras com o dos leitores europeus da literatura quebequense, constata-se a posição precária desta última. É certamente o drama da difusão das produções quebequenses, invejosamente filtradas pelo aparelho literário parisiense: apenas chegam aos leitores francófonos (ou lusófonos) os autores quebequenses editados em Paris. As tentativas de difusão direta do livro quebequense na França sempre chocaram-se com a apatia ou a hostilidade da instituição parisiense (25). Na mesma ordem de idéias, poderiam ser invocadas as histórias literárias, antologias, dicionários e manuais metropolitanos de literatura em sua relação com as produções americanas. As literaturas latino-americanas gozam, ao menos, de uma especificidade relativa para os europeus, pelo simples fato da ascensão destes países ao estatuto de nações independentes há mais de um século. Que se pense no Dictionario das literaturas portuguesa, galega e brasileira , publicado por I. do Padre Coelho, em Porto, em 1960, ou na História general de la literatura española e hispano-americana de Diez-Echarri y Roca Franquesa, publicado no mesmo ano em Madri. Os dois volumes são citados como exemplo por Grossmann, que destaca:

"É verdade que as duas mães-pátrias (a Espanha e Portugal) jamais consideraram a literatura de além-mar como uma produção colonial. Cervantes, no El canto a Caliope (1584) e Lope de Vega em El laurel de Apolo (1631) consideram os seus colegas americanos (...) como iguais. Com uma de suas colegas, a peruana "Amarilis" Lope chega a manter uma correspondência poética. Mesmo os trabalhos espanhóis e portugueses mais recentes (...) consideram como um todo absoluto metrópoles e nações filiais (26)".

Para voltar à acolhida mútua de nossas duas literaturas, a recepção da literatura brasileira (mesmo traduzida) não apresenta nenhum problema, tanto na Europa quanto na América Hispânica...e no Quebec. Mas acontece bem o contrário com a recepção das letras quebequenses. Ora, como comparar duas literaturas no único plano das temáticas ou das influências, fazendo a abstração de sua difusão e de sua recepção? Não querendo cair no mais puro idealismo, o comparatista deve reconhecer o impacto das condições de recepção na produção dos discursos literários, no próprio texto, o lugar e a figuração do leitor em potencial. Escreve-se de maneira diferente quando se pode, razoavelmente, contar com uma tiragem de 100.000 exemplares (e mais com as traduções), do que quando, no melhor dos casos, chega-se a 10.000 exemplares (cifra aproximativa de uma boa venda no Quebec). As opções estéticas, a formulação da linguagem, a própria língua (o drama do Quebec literário com a França é "como se pode estar separado pela mesma língua"), tudo isto varia enormemente se um romance é destinado a (ou ser potencialmente lido por) um grande número de leitores, ou se ele deve limitar-se aos confins de um pequeno vilarejo, da cidade, ou (quase) do país... Daí o balanço bastante sombrio que fez Jacques Godbout, há uns anos, sobre a sobrevida das letras quebequenses fortemente subvencionada. Cito a conclusão deste autor que reivindica, em alto e bom som, o direito de publicar aonde quiser:

"(...) contudo, não há porque envergonhar-se de uma vida artística que exige fundos de Estado. No passado, os mecenas compensavam a falta de vendas, pois o povo era iletrado. Hoje, sabe-se que a não ser que haja um mercado de 12.000.000 de habitantes as artes têm necessidade de um sistema de divisão igualitário. O problema continua sendo uma questão de gosto, de escolha, de meios. Que literatura encorajar? A nossa tem como função perpetuar a Instituição. Isto nos dá, apesar de tudo, entre os bons e os maus anos, escolhendo-se ao acaso, quatro ou cinco livros que o público pode ler com interesse e prazer. Todos os outros volumes são publicados para satisfazer os Comitês da Instituição (27)."

É que, como explica André Belleau, embora o aparelho literário quebequense (editoras, distribuidoras, instância crítica), "a Norma continua francesa" ("a função reguladora", "as normas do dizer literário em virtude das quais um escritor é mais ou menos reconhecido como tal (28)"). A problemática não é inversa na América Latina? Em relação as ex-metrópoles, o romance latino-americano não constituirá a Norma, não exercerá doravante uma forma de hegemonia estética ao passo que por razões econômicas evidentes, uma parte considerável da tiragem transita ainda para o aparelho editorial ibérico? Ao contrário, por questões evidentes de mercado os autores quebequense encontram-se divididos entre os próprios códigos culturais e a Norma parisiense. De onde as "tensões e distorções produzidas pelo encontro, em um mesmo texto, dos códigos culturais quebequenses e dos códigos literários franceses". Mas deste ponto de vista, Belleau é mais otimista que Godbout quando constata que, apesar de tudo, a literatura quebequense "consegue dizer-NOS através e apesar da norma do OUTRO". Seja como for, imagina-se o gênero de torcicolo escritural que afeta tanto o autor quanto o leitor quebequense!...

Ainda quanto a este aspecto, a situação é bem outra no Brasil onde regulamentou-se, pelo menos após Oswald de Andrade, este problema de ingestão de gêneros importados. Com efeito, apesar da "função alienante que o gênero francês manteve sobre a cultura brasileira (29), nossos vizinhos do sul (do Equador) chegaram a uma relação mais saudável com a/as ex-metrópoles. Notadamente, no nível da famosa cronologia da história literária, que Lilian Pestre de Almeida nos convida a subverter, em sua "Defesa e ilustração da antropofagia ou o ponto de vista periférico (30)".

Periferia e diferença

Concordo totalmente com as suas colocações, com as razões que ela evoca, mas também por uma razão fundamental que parece ter escapado à maioria das abordagens comparatistas cujo pressuposto, o ponto-ápice de referência continua sendo precisamente a sacrossanta cronologia. Na L'Archéologie du savoir, Michel Foucault já havia sugerido proceder a uma suspensão das seqüências temporais: a sucessão não é a única coisa absoluta, dizia, "não há no discurso uma única forma e um único nível de sucessão". Ele insistia menos nas "épocas", unidades muito confusas, que nos "períodos enunciativos que articulam-se, mas sem confundir-se com eles sobre o tempo dos conceitos, sobre as fases teóricas, sobre os estágios de formalização e sobre as etapas da evolução lingüística (31)". Quando é que nos decidiremos, em literatura comparada, a abandonar as "influências" para examinar as "árvores" de derivação enunciativa" (Foucault) ? "Tudo foi dito, mas não por mim", afirma com razão o Poeta. O que importa, é menos o assunto que as suas condições de enunciação ou de re-enunciação. Como se viu acima, sobre os escritores da Nova-França (32) é possível verificar séries de deriva- ções discursivas entre os corpus franceses e quebequenses, portugueses e brasileiros, espanhóis e peruanos, etc... É preciso, enfim, não confundir precisão e hierarquia, nem colocar as sé- ries literárias em questão em uma es- cala única, graduada por valores esté- ticos que transcendem os particularis- mos locais. Assim convém interrogar seriamente a segmentação literária por século ou por "idade" (Antigüidade, Idade Média, Renascença, Classicismo, Luzes, etc.), antes de abandoná-la so- bre as formações discursivas america- nas.

Estas atualizações epistemológicas revelam-se tanto mais necessárias quanto estudos comparados gozam em relação à história literária tradicional de um preconceito favorável (ligado, em boa parte, ao clima de cosmopolitismo, de tolerância e de abertura de espírito, que viu o nascimento desta nova "ciência" após a Primeira Guerra Mundial (33)). Contudo, desde aquela época, o perigo do eurocentrismo espreitava os comparatistas tentados, no melhor dos casos, a "fazer um justo lugar para as literaturas de repercussão limi tada" e fundi-las "intimamente" "com as cinco ou seis grandes literaturas do mundo moderno (34). É verdade que, na época, as literaturas da América não conheciam nem o desenvolvimento, nem a credibilidade que puderam gozar depois. Contudo, a atenção que os historiadores europeus prestam atualmente às produções francófonas "periféricas" continua ainda marcada pelo eurocentrismo. Sabe-se em que "conexidade" da "literatura de expressão francesa na França de além-mar e no estrangeiro", a "Plêiade" encurralou o Quebec. Face a face com esta perspectiva muito redutora, a posição das histórias literárias e manuais espanhóis e portugueses testemunham, como se viu, uma abertura de espírito bem mais ampla. No entanto, os estudos de fonte e de fortuna literárias caro aos comparatistas, oferecem ainda traços de condescendência ou mesmo, para utilizar a expressão de Tânia Franco Carvalhal, o índice de uma "ideologia colonizadora". No seu entender, desde que uma relação de analogia se estabelece entre duas obras, ela se desdobra em uma relação de devedor a credor que só favoreceria "os sistemas culturais consolidados", em relação aos quais os sistemas mais recentes farão sempre papel de "parentes pobres ou de herdeiros distantes (35)". E Tânia Franco Carvalhal, adotando a solução preconizada por Silviano Santiago sobre os estudos comparados, afirma: a pesquisa de "um novo discurso crítico que utiliza cada vez menos, ou até negligencia completamente, a caçada às fontes e às influências para estabelecer como único critério de análise a diferença (36)".

Esta diferença situa-se em dois planos, ou melhor, sobre dois eixos. Sobre o eixo leste-oeste (Europa-América), convém, com efeito, reconhecer às literaturas do Novo Mundo um caráter distinto ligado ao desenvolvimento particular de suas sociedades de referência: diante da lenta estratificação das letras européias (épocas, escolas, códigos e tradições de escrita), assiste-se na América a uma emergência bastante recente do discurso literário (mesmo que os povos andinos tenham conhecido um passado cultural bem apreciável, antes da chegada de Colombo). A integração das tradições seculares européias efetua-se então aqui em um tempo recorde, com todos os fenômenos de aceleração, de justaposição e de telescopia estudados por Grossmann que insiste sobre um dado primordial: a síntese (dos gêneros, dos códigos e dos modos discursivos), como princípio da evolução literária. Dois ou três séculos para assimilar uns vinte (37)".

Sobre o eixo norte-sul, a noção de diferença reveste-se também de um caráter determinante. É impossível reconduzir as literaturas da América a um modelo único de desenvolvimento, mesmo que cada uma delas tenha passado pelas mesmas fases históricas, da colonização à autonomização. Sabe-se também que a própria noção de latino-americanidade é problemática, se considerarmos a parte não-negligenciável das línguas e culturas pré-colombianas nas literaturas sul-continentais e da América central (o que dizer da parte que concedemos à americanidade em nosso próprio passado cultural?) (38). Contudo, o papel destas diferenças merece uma atenção bem particular por parte dos comparatistas americanos. A própria maneira de colocá-los no âmbito de um estudo contrastivo pode verificar-se rico em ensinamentos dos leitores e a difusão do livro. Pode-se mesmo dizer que, em favor de semelhante abordagem norte-sul, a dimensão européia ressurge, não mais como pólo de atração ou princípio regulador dos discursos, mas como simples transição em uma economia periférica (e reivindicada como tal) dos bens simbólicos.

A despeito de tentativas recentes de aproximação entre as duas culturas (39), o equilíbrio das trocas parece claramente desfavorável para Quebec: as letras brasileiras são infinitamente melhor difundidas no Quebec que o inverso. Certamente que fatores externos colaboram para isto: a intermediação da França, suas instâncias de consagração e seus aparelhos de difusão têm, certamente, alguma influência. Mas não se deveria negligenciar um outro fator, este interno. Trata-se do estatuto infinitamente mais definido da norma literária brasileira em relação à portuguesa. Fernando Pessoa, Jaime Cortesão, Ferreira de Castro não são eclipsados, hoje em dia, por Jorge Amado, Graciliano Ramos e Clarice Lispector? Cotação literária, cotação lingüística, assim como, se se pensa no impacto das novelas brasileiras sobre o grande público português: maravilhas da colonização ao avesso, com este sotaque de TV GLOBO, dissimuladamente infundido nas cabanas lisboetas (40)! Um fenômeno análogo observa-se na maioria das literaturas da América em que as velhas redes de influências tendem a inverter-se. Em relação às ex-metrópoles, o romance latino-americano está na iminência de constituir a norma, de exercer uma forma de hegemonia estética, ao passo que, por razões econômicas evidentes, uma parte considerável da tiragem transita ainda pelo aparelho editorial ibérico. Ao inverso, por questões bem conhecidas de sobrevida e dispondo inteiramente de sua própria máquina eleitoral, os autores quebequenses não podem continuar insensíveis ao mercado francófono e às normas hexagonais que lhes filtrem o acesso (41). Eles sabem também que não gozarão, de imediato, de um reconhecimento sem condescendência da parte de seus semelhantes hexagonais, contrariamente à maneira pela qual os escritores americanos são aceitos por seus companheiros anglo-saxões ou ibéricos.

Mas, assim mesmo, os quebequenses tiram vantagem de uma situação excêntrica em relação à Paris: possuem aparelhos e redes de legitimação própria e um sentimento de pertinência, do qual nem sempre se beneficiam os demais colegas de periferia francófona. Os Wallons, por exemplo, não sofreram por muito tempo com sua grande proximidade da Rive Gauche? Com a sua própria maneira de passar do constrangimento à contrariedade, formulando, enfim, a "questão nacional" não supunha, em 1983, uma tomada de consciência inspirada na iniciativa quebequense (42)? Esta posição geográfica e cultural inédita da instituição quebequense, nos confins das áreas francófona e latino-americana, os (belos) riscos aos quais se expôs a Montreal cosmopolita, se podem inquietar autores como Jean Larose (1987), deveriam, ao contrário, estimular a escrita apresentando novos desafios à "quebecitude". Simon Harel acabou de estabelecer um primeiro balanço da maneira pela qual aceitaram o desafio Jacques Poulin, Jean Basile, Yves Beauchemin, Nicole Brossard, mas também Jacques Godbout, André Major, Hélène Rioux, Jacques Renaud, Paul Chamberland e - em sua época - Jacques Ferron. Reagir à "neocitude", tanto pela acolhida quanto pela rejeição, a curiosidade como a desconfiança, a dúvida e até mesmo a agressividade, é sempre interrogar-se a si mesmo, romper o enclausuramento, concorrer para o "delineamento da identidade quebequense (43)". E passear junto ao Saint-Laurent, subir a rua colonial, escutar duas jovens portuguesas falar quebequense, é, talvez, também voltar às fontes incertas de um país cujos ancestrais poderiam ter tomado posse, antes que Cartier tivesse plantado aqui as suas bandeiras.

Rio, Província do Quebec

O que nos conduz, por um curioso desvio, a nosso paralelo com o Brasil (com certeza!). Sobre esta colonização portuguesa, permitam-me abrir um pequeno parênteses de ficção política para finalizar. Se se pensar bem, o Canadá não escapou por pouco da hegemonia portuguesa? Isto passou-se ao final do século XV, três anos antes de Cabral descobrir o Brasil. Este nome, Brasil, designava então, entre os exploradores ingleses... o vale do rio Saint-Laurent! Antes mesmo que Pedro Álvares Cabral colocasse os pés no Brasil, chamando-o de Terra de Santa Cruz (1500), expedições portuguesas singravam o Atlântico Ocidental, paralelamente às expedições dos ingleses Croft e Jay vindos de Bristol. Estes últimos estavam à procura da "Ilha de Brasylle", a oeste da Irlanda (44). Esta "Ilha do Brasil" ou "Ile of Brasile", abordada em 1481 pelos ingleses - antes da viagem do genovês Jean Cabot - nada mais era senão a Terra Nova. É verdade que uma certa confusão marcava então o processo de denominação nas descobertas. O que se procura no caminho das Índias é "a terra do grande Khan", ou a "ilha das sete cidades". O que se encontra é um lugar que "produzia madeira do Brasil e seda e onde o mar transbordava de bacalhau" (de onde o nome dado por Cabot para a Terra Nova: Terra de bacalâo) (45). Mas, segundo John Day, negociante inglês da época, Cabot apenas "redescobrira" o famoso "Brasil" dos homens de Bristol, igualmente identificado como uma região que se estendia da Margem Norte do Saint-Laurent à Nova Escócia e à Terra Nova. Fato significativo e maravilha do acaso objetivo: foi no vigésimo quarto dia de junho de 1497 que Cabot "descobre" o Saint-Laurent: dia de São João que se tornará, como se sabe, feriado nacional no Quebec... Quanto à possibilidade real do Quebec ter podido ser colonizado por Portugal, ela reside na tentativa de Cabot ter oferecido antes os seus serviços à Lisboa, depois à Sevilha, antes de oferecê-los à Londres (que aceitou): em testemunho, uma carta do dia 25 de julho de 1498 de Pedro de Ayala, adjunto da Embaixada espanhola em Londres (46)... Acaso administrativo, acaso geográfico, acaso semântico da denominação: tantas coincidências que irão inspirar talvez, cinco séculos mais tarde, a imaginação do poeta do "reino da Cálcio". Pensa-se no fantasma de Robert Charlebois, quando canta:

Cartier, Cartier, Oh! Jacques Cartier!

Se tu tivesses navegado na direção contrária do

Inverno (...)

Para o lado do verão, hoje teríamos

Toda a rua Sherbrooke repleta de coqueiros

(...)

E todo o monte Royal coberto de bananeiras.

Ou ainda:

Eu sonho com o Rio junto a meu rádio (...)

Sou apenas um pobre desempregado,

desempregado

No reino do cálcio (47).


(1) Palestra proferida no Instituto de Letras da UFRGS, no dia 9 de março de 1991 como atividade inaugural das áreas de Estudos Francófonos (Mestrado) e Doutorado em Letras do CPG - Letras da UFRGS, no âmbito do acordo UFRGS/UQAM. Tradução por Herbert Holler sob a supervisão de Zilá Bernd.

(2) André Belleau, Y a-t-il um intellectuel dans la salle?, Montreal, Primeur, 1984, p. 191.

(3) Cf. David Hayne, Antoine Sirois e outros, Bibliographie d'études de littérature canadienne comparée, 1930-1987, Cahiers de littérature canadienne comparée, nº1, Sherbrooke, Universidade de Sherbrooke, Departamento de Letras e Comunicações, 1989.

(4) O "ailleurisme" designa esta propensão da crítica a apreender seu corpus em função dos modos e dos códigos europeus, franceses no caso presente. Cf. Jean-Claude Germain, entrevista dada a Voix et Images, vol. VI, nº2, inverno de 1981.

(5) Sobre estas questões, ver o número de Voix et Images, vol. XII, nº 1 (34), outono de 1986, "Dossier comparatiste Quebec-Amérique Latine", notadamente o artigo de Gilles Thérin, "La littérature quebecoise, une littérature du tiers-monde?" (p.12 - 20).

(6) É preciso aqui sublinhar as trocas diretas, há algum tempo, entre os dois países: números de revistas culturais e universitárias (Dérives, Études Littéraires, Voix et Images, cadernos do CEF) aulas de literatura brasileira no Quebec e vice-versa, pesquisa acadêmica, etc. (cf. o resumo da primeira tese de doutorado brasileira sobre Anne Hébert, por Bernadette Veloso Porto, em Voix et Images, vol. XII, nº1 (34), outono de 1986, p.106 - 108).

(7) Cf. supra. "Jouer le Sauvage: rôle, emploi et représentation de l'indien dans les espetacles de Nouvelle-France", I, 2.

(8) Denis Delâge, Le pays renversé. Amérindiens et Européens en Amérique de Nord-Est. 1660 -1664. Montreal, Boréal Express, 1985, p.298 s.

(9) Cf. Denis Monière, Le Developpement des idéologies au Quebec des origines á nos jours. Montreal, Quebec/Amérique, 1977, p.109, e Lilian Pestre de Almeida, "Regard périphérique sur la francophonie ou porquoi et comment enseigner la littératture française dans les Amériques", Études littéraires, vol. XVI, nº 2, agosto de 1983, p.255.

(10) Sobre a relação ambígua de Brasil a Portugal e o fantasma de uma colonização holandesa, ver Pestre de Almeida, ibid., p.271, nota 4. Sobre as veleidades expansionistas da França ao Brasil no século XVI - a expedição francesa do cavaleiro Nicolas Durand de Villegagnon (1555- 1560) -, ver Frank Lestringant, "Introduction", André Thevet, Les singularités de la France Antarctique (1557), Máspero, 1983, p.7 -34.

(11) Denis Monière, op.cit. , p.109.

(12) Ibid., p.111.

(13) Sobre o impacto da Revolução Francesa no Quebec, ver notadamente Michel Grenon (sob a direção de), L'image de la Revolution française au Québec, 1789 - 1989, Hurtubise HMH, 1989, p.229 - 249, e Pierre H. Boulle e Richard Lebrun (sob a direção de), Le Canada et la Revolution française, Montreal, Centro Universitário de Estudos Europeus, 1989.

(14) Rudolph Grossmann, Historia y problemas de la literatura latino-americana (traducción del alemán por C. Probst), Madri, revista do ocidente, 1972, p.190. Sobre o romantismo do último século, o autor não hesita em falar para seu continente de "colônia literária da França" (p.257).

(15) O Quebec divide com a América Latina uma certa tradição do exílio. Quebec terra do exílio para os franceses que vêm povoar a Nova-França, para os intelectuais liberais que vêm fundar as "gazetas" no fim do século XVIII (Fleury Mesplet, Valentin Jotard) para os realistas que fogem da Revolução Francesa, ou os legalistas a Independência americana; mas também exílio dos Patriotas quebequenses depois do fracasso da Rebelião de 1837-1838 (Papineau, Barthe), deportação para a Austrália com escala na baía do Rio, exílio voluntário de Crémazie, Fréchette, de grande número de poetas da Escola literária de Montreal, dos Exotistas do começo do século XX, de Roquebrune, Marcel Dugas, François Hertel, Paul-Émile Borduas. (Sem esquecer Anne Hébert e Marie-Claire Blais).

(16) Lucie Robert analisa esta colocação de instâncias de produção, de difusão e de legitimação no Quebec em seu recente ensaio, L'instituition du littéraire au Quebec, Quebec, Presses de l'université Laval, 1989. cap.II .

(17) Patrice Lacombe, La terre paternelle (1846), Montreal, HMH, 1972, p.118.

(18) Yves Dostaler, Les infortunes du roman dans le Québec de XIXéme siècle, Montreal, Hurtubise HMH, 1977, p.22.

(19) Cf, Rudolph Grossmann, op.cit., p.257.

(20) Sobre este tipo de precaução metodológica, ver Jean Bessière, "Littératture comparée et littératture générale", La recherche en littératture générale et comparée en France. Aspects et problèmes (prefácio de Daniel-Henri Pageaux), Paris, Société française de littératture général et comparée, 1983, p.285 s.

(21) André Belleau "Parle(r) (z) la France ", Liberté, nº138, novembre - dezembro 1981, p.32.

(22) Para uma crítica deste tipo de comparatismo, cf. Pestre de Almeida, op.cit., p.265 e Tânia Franco Carvalhal, "Literatura comparada e dependência cultural", Literatura comparada, São Paulo, Ed. Ática, 1986, p.71-82.

(23) O Canadá e o Brasil figuram aproximadamente cada um a metade da superfície de seu respectivo continente.

(24) José Geraldo Nogueira Moutinho, "Où en sont les littératures nationales", Liberté, nº112, 113, 1977, p.280.

(25) Eu penso particularmente na polêmica de 1980 em L'Express entre Victor Lévy Beaulieu e o diretor de uma editora parisiense.

(26) Rudolf Grossmann, op.cit., p.34. Eu traduzo notando, é verdade, que esta fraseologia (madres patrias; países filiales) trai uma visão paternalista do fenômeno: argentino de origem germânica, Grossmann publica, primeiramente Munique, depois em Madri, sua história literária.

(27) Jacques Godbout, "La bourse ou la vie", Liberté, nº134, março 1981, p.60-61. Sobre seu último debate com André Varnasse sobre "L'achat chez nous", ver Le devoir, 3 março 1990, p. D-2.

(28) André Belleau, Y a-t-il um intellectuel dans la salle?, op.cit., p.156

(29) Lilian Pestre de Almeida, op.cit., p.254

(30) Ibid., p.266-267

(31) Michel Foucault, L'Archéologie du savoir, Paris, Gallimard, 1969, p.194 e 220.

(32) Cf. supra, "Pour une archéologie des lettres québécoise", I, 1.

(33) Cf. Claude Pichois e André-M. Rousseau, La littératture comparée, Paris Armand Colin, p.23-24. Sobre o espírito humanista que animava a empresa em 1931, ver a conclusão doravante clássica de Paul Van Thieghem, La littératture comparée, Paris, Armand Colin, 1931, p.210-211: "La littératture général peut donc contribuer puissamment à guider ceux qui doivent se donner pour mission de rapprocher les peuples (...), par um sympathie éclairée pour ce que chaque écrivain a apporté (...), des sentiments, d'idées, d'expressions, au patrimoine commun de l'humanité pensante".

(34) Ibid., p.205-206, (trata-se logicamente da França, da Alemanha, da Itália, da Espanha e da Inglaterra...).

(35) Tânia Franco Carvalhal, Op.cit., p.72.

(36) Silviano Santiago, Uma literatura nos trópicos. São Paulo, Perspectiva, 1978, p.20.

(37) Cf. Rudolf Grossmann, Op.cit., p.42-65.

(38) Sobre a representação do índio no imaginário norte-americano, ver Gills Thérin (sob a direção de), Les Figures de l'Indien, Montreal, Université du Québec à Montréal, "Les Cahiers du Département d'études littéraires, 1988.

(39) Cf. supra, nota 6.

(40) Alfredo G. A. , Valladão, "Les fabuleuse alchimie du feuilleton télévisive", Autrement, nº 44, novembro de 1982, p.198.

(41) Assim, o primeiro folhetim quebequense televisionado vendido para a França (por Lise Payette) é dublado em... francês para os telespectadores hexagonais (sabe-se de um outro ponto de vista que a União dos artistas de Quebec proíbe a seus membros de se dublar em sua própria língua).

(42) Cf. o Manifeste pour la culture walonne lançado em 1983 por oitenta artistas e intelectuais, assim com René Andrianne, Écrire en Bélgique, Bruxelas, Nathan-Labor, 1983, citado por Jacques Dubois, "Jogo de forças e contradição no campo literário da Bélgica contemporânea", Lise Gauvin e Jean-Marie Klinkenberg (sob a direção de), Trajectoires. Littérature et instituitions au Québec et em Bélgique francophone, Montréal/Bruxelas, Presses de l'Université de Montréal/ Éditions Labor, 1985, p.14, Dubois evoca "a referência admirativa na ascensão nacional da literatura quebequense".

(43) Simon Harel, Le Voleur de parcours. Identité et cosmopolitisme dans la littérature québécoise contemporaine, Longueuil, Le préambule, 1989, p.289.

(44) "Le 15 juillet 1480, un vaisseau (...) jaugeant 80 toneaux entreprit un voyage de Kingroad à Bristol, vers l'ile de Brasylle, à l'ouest de l'Irlande, pour ensuite franchrir les mers (...). The overseas Trade of Bristol in the Later Midle Ages, ed.E.M. Carus-Wilson ("Bristol record Soc.", vol.VII, 1937), p.157-163. Citado por David B. Quinn, "John Day", Dictionnaire biographique du Canada, tomo I, Quebec/Toronto, Presses de l'Université Laval/ University of Toronto Press, 1966, p.398.

(45) Cf. R.A. Skelton, "Jean Cabot", Ibid., p.154, e L. A. Vigneras, "Gaspar Corte-Real", Ibid., p.241.

(46) Esta carta é citada por R. A. Skelton, Loc. Cit., p.151

(47) Robert Charlebois e Daniel Thibon, "Cartier". Robert Charlebois: Longue distance, disco SN 905. Distribuição trans-Canadá. Cf. também Robert Charlebois e Michel Robidoux, "Je revê à Rio", Robert Charlebois, disco SNX 946.