Do ensimesmamento à abertura:
uma literatura das Américas

Bernard Andrès
- Comentários -

Comentário: Donaldo Schüler (UFRGS)

Bernard Andrès: De outra parte...

Tive a fortuna de conviver com Benard Andrés no ambiente em que ele trabalha. Aproveitei minha estada em Montreal, onde lecionei por um trimestre teoria da literatura e literatura brasileira, para ouvir segundas-feiras pela manhã as preleções de Bernard sobre literatura quebequense desde suas origens até a atualidade num auditório que acolhia cerca de duzentos graduandos, todos francófonos. Na UQAM (université du Québec à Montréal), literatura quebequense é literatura escrita em língua francesa. O que no primeiro momento me espantou, comecei a compreendê-lo aos poucos. Eu ocupava um apartamento que ficava na Rua Saint Laurent, que divide Montreal ao meio. Se ia para a direita, encontrava anglófonos, se ia para esquerda estava entre francófonos. As tentativas de falar inglês com francófonos foram inúteis. Diziam que não entendiam inglês. Entabular conversa em inglês na Universidade era inconcebível. Não tive contato com anglófonos em Montreal. Mas em Toronto, importante centro econômico, não encontrei ninguém que falasse francês, nem autoridades. Além das duas grandes comunidades, a anglófona e a francófona, há muitas outras comunidades étnicas, que preservam suas línguas de origem e seus costumes, entre elas, uma comunidade de lusófonos que reúne cerca de quarenta mil habitantes. Fui várias vezes à Montreal antiga, núcleo imponente da civilização francesa para respirar ares de outros tempos.

Para entender as lições de Bernard, tive que esquecer o Brasil, onde vigora, o que um antropólogo definiu como dialética da feijoada, a mistura de tudo. Vive-se no Canadá a antifeijoda, a cuidadosa separação de tudo. Isso é prejuízo? Se respondemos corremos o risco de impor nossa própria cultura como padrão. Se universalizamos a feijoada, privamo-nos do sabor de outros pratos, o que é lastimável. O requinte da cozinha montrealense é inesquecível. No Canadá, vive-se um clima de autonomia que não temos. Insistimos - é a herança que a coroa nos deixou - em unificar tudo, de centralizar o mais possível. Tememos e combatemos a fragmentação. Assisti a um plebiscito em que os quebequenses responderam livremente se queriam a independência ou se preferiam que o Quebec continuasse unido às outras províncias do Canadá. Isso aconteceu sem interferência da polícia e do exército. O plebiscito se realizou em dia sereno com a tranqüilidade de quem vai à urna para votar. Tentei esquecer a feijoada para compreender Andrès. É necessário observar ainda que ele é argelino de formação francesa. Escreveu um ensaio sobre um dos romancistas do grupo Nouveau Roman , que na década de sessenta foi motivo de muita discussão no Brasil. Bernard se radicou no Quebec já como intelectual conceituado.

Como conceber que um estrangeiro com essa formação seja professor de literatura quebequense? As dificuldades se acumulam. Compete-nos entender o Canadá, entender, o Quebec, entender a literatura quebequense e, em meio a tudo isso, entender Benard.

A braços com essas inquietações, comecei a ouvir as preleções de Bernard. Ele se instrumenta bem. Seu cuidado o leva a examinar até documentos de escasso valor literário. Para Bernard, pelo menos no que se refere ao Quebec, literatura é tudo o que se escreve. Bernard é tranqüilo, Bernard não se apaixona. Suas reflexões correm serenas. Bernard acompanha a produção literária desde os primeiros povoadores, orientados pelo sonho de uma Nova França em condições climáticas, territoriais e humanas bem distintas. Preponderante não era a etnia. A identidade se realizava no modo de ser, pensar, fazer. Como, entretanto, permanecer o mesmo em ambiente distinto? Problema crucial. Começava-se a escrever uma nova página da cultura francesa que envolvia mesmo aqueles que não escreviam. Bernard amplia a noção de escrita. Procura ler o texto no seu contexto. Persegue o que se esconde no silêncio, o que escoa nas entrelinhas. Lê espetáculos teatrais. Interessa-lhe saber quem eram os atores, a que público se dirigiam, em que circunstâncias se davam os espetáculos, elementos modificadores decisivos. Das modificações determinadas por uma série de fatores, emerge o quebequense. Ecrire le Quebec (Escrever o Quebec) , chama-se um de seus livros. Note-se que o objeto do escrever não é o livro, é o próprio Quebec. Quem escreve não é um autor, não é um grupo, são todos os implicados na formação do Quebec, sem excluir os índios com os quais os escreventes europeus se defrontam. No escrever o Quebec não há outros que estejam fora do processo da escrita, não há escreventes privilegiados. Não se procurem vitoriosos nem vencidos. Isso ajuda a compreender o pluralismo étnico que se vive no Quebec hoje? Evitemos saltos. Bernard leva em conta a história. O escrever se opõe, por sua própria natureza, à fixidez. Não se escreve sobre o já sabido. Só interessa ao receptor no texto o que ele não sabe. O receptor, quebequense ou não, se descobre na escrita. O que é ser quebequense? Isso não pode ser reduzido a conceito. Ser quebequense se alarga nas tramas da escrita, que a todo momento se modifica. Definir o que é o quebequense seria sair fora da escrita e isso Bernard não admite.

O Quebec sofreu traumas de que nos livramos. Expelimos todos os invasores. A conquista não afetou a construção do Brasil. A realidade quebequense é outra. Os quebequenses foram constrangidos em meados do século XVIII a conviver com gente que não estava interessada na construção da Nova França, ferida que marca os quebequenses indelevelmente e os empenha na luta de preservar o que desde as origens foram. A ameaça é o actante desse teatro cultural em cuja cena comparecem de tempo em tempo novos atores. O teatro abarca livros, jornais, sentimentos, conversa...

Veio a Revolução Tranqüila dos anos 60, a versão quebequense do Modernismo, que agitou o Continente de Sul a Norte desde as últimas décadas do século XIX. O desejo de liberdade esvaziou as igrejas, marco de referência desde as origens. Sem a proteção desses sólidos monumentos líticos, como permanecer na rota peculiar? O culto à língua francesa é agora força de unificação que o catolicismo já não exerce. Guardada a língua, a cultura quebequense se põe em sintonia com os problemas universais sem risco.

Já dispomos dos elementos para entender Bernard? Ele é nitidamente um homem de periferia. Sai da periferia argelina e elege a periferia quebequense, não só como cenário de atuação mas também como objeto de reflexão. Não se entusiasma pelo separatismo. Pensa o Quebec dentro da cultura universal. Um livro de contos seus, publicado em 1992, chama-se significativamente D'ailleurs... (De outra parte...). Quem é de outra parte não tem pátria. "De outra parte" se conceitua na primeira página em oposição à náusea (nausée) sartreana. Náusea sente-se num ambiente fechado. A fuga do confinamento, salva da náusea e cria o sentimento do exílio que se confunde com a própria existência. Não é sem motivo que Bernard viaja tanto. Acompanhado quase sempre de sua esposa Patrícia, que comunga com ele, no gosto pelo estranho, ele já percorreu a maior parte do Globo. Não, como turista. Que só toca a superfície das coisas, reduz o mundo a cartão postal. Os lugares mais exóticos interessam a Bernard porque ficam em outra parte. O paradoxo é incontornável: em outra parte, Bernard se sente em casa.