A aculturação literária

Roger Bastide
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Comentário: Glória Amaral (USP)

ROGER BASTIDE (1/3/1898-10/4/1974)

Dados biográficos

Roger Bastide nasceu em Nîmes e passou a infância nas Cévennes, planalto localizado depois das planícies do Languedoc, uma região rude e severa.

Pertencia a uma família protestante, portanto, a uma comunidade minoritária num país católico, a um grupo cuja história está marcada pelas perseguições aos camisards, calvinistas de sua região que lutaram contra Luis XIV. Talvez esteja aí uma das causas de seu interesse por outras culturas. Aliou à formação familiar austera ao calor do Mediterrâneo, cuja proximidade permitiu-lhe a convivência.

Seguiu estudos regulares no liceu de Nîmes (1908-15), e depois da guerra, obteve uma bolsa para inscrever-se, em 1919, no curso de filosofia da Faculdade de Bordeaux.

Iniciou uma carreira de professor de filosofia no secundário, lecionando de 1924 a 1938 sucessivamente em Cahors, Lorient, Valence e Versailles, colaborando em várias revistas como Revue du Christianisme Social , Revue Internationale de Sociologie , Grande Revue , Cahiers du Sud , nas quais escrevia sobre sociologia, geral e religiosa, misticismo e literatura.

Em 1938, foi convidado pelo professor Georges Dumas para ocupar a vaga deixada por Lévy-Strauss e lecionar sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, no quadro de professores estrangeiros contratados por ocasião da fundação da Faculdade de Filosofia.

Instalou-se em São Paulo com a família, onde viveu até 1954, quando voltou para a França para ocupar o posto de titular de Etnologia Social e Religiosa na Sorbonne. Lecionou também na École Pratique des Hautes Études e no Institut des Hautes Études d'Amérique Latine. Criou, em 1961, um Centro de Psiquiatria Social que dirigiu até sua morte.

No seu perfil intelectual, alguns traços são praticamente consenso. Em primeiro lugar, a prolificidade de sua produção e a diversidade de seus interesses. O inventário intitulado "A produção intelectual de Roger Bastide", elaborado pelo Centro de Estudos de Sociologia da Arte (USP) e que se encontra no Instituto de Estudos Brasileiros levanta 1039 títulos entre cursos, artigos, prefácios, resenhas, um conjunto que abrange Antropologia, Sociologia, Etnologia, Psicologia, História, Filosofia, Religião, Artes Plásticas e Literatura, revelando a gama variada de seus interesses. Sua produção situa-se, de fato, em fronteiras: entre o sagrado e profano; entre grupos étnicos; entre a sociologia e a literatura. E finalmente, uma informalidade de abordagem que em nada compromete a profundidade da análise.

Nota-se nesta diversidade uma concentração na temática do sagrado e uma preocupação com a interpenetração das civilizações. Revelou sempre uma consciência aguda do Outro e uma sensibilidade excepcional para captar e analisar diferenças. O traço mais original do pensador Bastide me parece ser a relação que estabelece entre os assuntos, partindo de uma noção de interdisciplinaridade, para se concentrar numa determinada questão e seus múltiplos aspectos.

Tendo Brasil como tema, escreveu sobre literatura, pintura, teatro, arquitetura, folclore, carnaval, religião.

Um intelectual francês nos trópicos

Quando Roger Bastide chegou ao Brasil, os jovens da Semana de Arte eram intelectuais maduros e São Paulo encontrava-se em grande efervescência cultural. Integra-se rapidamente num grupo em que podemos distinguir Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Lazar Segall, o arqueólogo Paulo Duarte, que escreveu o prefácio de Terra dos contrastres e diretor da revista Anhembi , para a qual Bastide colaborou ininterruptamente. E também com os professores da Missão Francesa que vieram para a USP. Circulava, portanto, tanto no meio acadêmico quanto no da intelectualidade.

Além de sua atuação como sociólogo, vamos encontrar também sua atividade como crítico literário e de artes nos principais jornais da cidade, que lhe foram abertos pelos contatos que foi estabelecendo.

Sua produção está centralizada na sociologia, campo até hoje mais conhecido de sua obra. Leu com toda atenção os trabalhos dos pioneiros da sociologia e antropologia no Brasil: Nina Rodrigues, Silvio Romero, Euclides da Cunha, Manuel Querino, Oliveira Viana, Gilberto Freyre. Isto porque achava, ao contrário de outros europeus que aqui chegavam, que os intelectuais autóctones tinham mais condições de estudar bem a realidade social, pois só eles a conheciam a fundo. Além disso, nada tinha contra o subjetivismo que poderia vir da ligação desses intelectuais com o país, o que, ao contrário, para ele, poderia ser fonte de conhecimento.

A sua integração no meio brasileiro traduziu-se através de intensa produção: 17 livros, 168 artigos de revista, 506 artigos de jornal, fora as resenhas de livro.

Tudo isso não significa que deixou de sofrer um impacto forte com o universo cultural tão diferente que representava o Brasil para um intelectual francês do fim dos anos 30.

Ele próprio nos traça então o que chama de "itinerário intelectual de um pesquisador europeu nos trópicos". Em primeiro lugar, este impacto expressa-se através de uma "crise de consciência", de uma necessidade de modificação em suas perspectivas intelectuais, norteadas pelas categorias lógicas européias.

Desde o início, o número considerável de africanos que compõem a população brasileira chama sua atenção e considera o processo de mestiçagem brasileiro bem sucedido.O nosso sincretismo religioso acabou por atraí-lo de forma decisiva e por levá-lo ao estudo das religiões afro-brasileiras, como um meio para a compreensão da nova realidade em que se viu mergulhado. Seu amigo Paul Arbousse-Bastide, também professor da USP, nos confirma inclusive que seu interesse, quando chegou ao Brasil, centralizava-se em "problemas de aculturação e conflitos de cultura"

À descoberta, soma-se o encantamento e a busca de um método para abarcar tão heterogêneo universo. O ponto de partida para a compreensão desta nova realidade cultural, que resistia às abordagens cartesianas e racionais, será a literatura, porta de entrada conveniente e atrativa. Além disso, quando aqui chegou em 1938, Bastide tinha já uma produção de cerca de 19 artigos sobre literatura francesa.

Comprovando essa posição, termina sua introdução de Terra de contrastes com a seguinte afirmativa:

O sociólogo que quiser compreender o Brasil não raro precisa transformar-se em poeta.

Lança-se assim no estudo da poesia afro-brasileira e de poetas brancos que se encontravam em encruzilhadas e que revelavam raízes da cultura africana em seus poemas. É nesta perspectiva que devem ser entendidos seus primeiros textos sobre literatura brasileira, como A poesia afro-brasileira (1943), primeiro livro publicado no Brasil, "uma espécie de estudo de caso em que traçou as etapas a serem percorridas". Encontramos aí seus quatro estudos sobre Cruz e Sousa, exemplos de literatura comparada ilustrativos de sua visão.

De uma forma geral, Roger Bastide enfoca a literatura brasileira buscando mostrar momentos significativos da identidade nacional. Neste sentido é interessante examinar, rapidamente, sua visão de três autores que contribuiram para a formação da nossa consciência nacional.

O sociólogo francês escreveu três artigos sobre Euclides da Cunha (1948). No primeiro deles, coloca-se contra a opinião difundida na época de que "Euclides da Cunha é mais brasileiro do que Machado".

Começa por estabelecer, num tom em que se sente a ironia do olhar de fora, que forçosamente consegue ter uma perpectiva diferente, "uma hierarquia de nacionalismo": para ele, "Euclides é o mais europeu dos dois escritores e Machado, o mais brasileiro".

Na verdade, esta reflexão tem seu embrião num artigo de 1940, publicado na Revista do Brasil , talvez o mais conhecido dos artigos de crítica literária de Bastide: "Machado de Assis, paisagista", segundo Antonio Candido, "salvo engano, o primeiro ensaio que trata da obra de Machado de Assis de modo realmente contemporâneo". Neste ensaio mostra que a paisagem brasileira não se veste de exotismo nos romances de Machado. O romancista está de tal forma impregnado pelo cenário natural brasileiro que nem precisa falar dele de forma explícita. Sua sensibilidade tropical flui na descrição das figuras femininas, que o crítico chama de "mulheres-vegetais, mulheres-paisagens", como mais tarde chamará as de Jorge Amado de "mulheres-fruta, mulheres-cacau". Retoma estas idéias para estabelecer uma comparação com Euclides.

E em relação a este, o que diz?

Em primeiro lugar, que sua perspectiva da região descrita é a de alguém que vem de fora, do litoral; trata-se, portanto, da visão de um estrangeiro, que observa sobretudo o exótico. Em segundo lugar, Euclides reflete sobre os problemas de Canudos através dos filósofos europeus, como Taine ou Buckle. Bastide o define como um grande sociólogo, mas um sociólogo de pensamento universal, em cujo trabalho só o assunto tratado é brasileiro. As suas impressões de leitor europeu são curiosas. Sente uma sensação de exotismo lendo Machado, mas lendo Euclides, diz: "sinto-me em casa, na França, reencontro a geometria cartesiana numa admirável aplicação a um problema local".

No outro artigo, Bastide compara Euclides a Joaquim Nabuco. Para nós, a imagem difundida de Nabuco é a bela figura de um dos últimos românticos do Império, tribuno que luta pelo abolicionismo, embaixador do país mesmo depois de proclamada a República. Leu Taine e Renan e escreveu versos em francês; razões pelas quais este patriota que nos aparece como o protótipo do brasileiro afrancesado, um certo ar de europeu perdido nos trópicos dos homens cultos da época.

Para o sociólogo francês, ambos são dois brasileiros a representarem, cada um, um Brasil diferente. O de Nabuco é o Brasil aristocrático dos grandes fazendeiros, voltados para o passado; o de Euclides é o Brasil dos engenheiros, voltados para o futuro; dois momentos distintos da sensibilidade nacional. Ora, ver assim estas duas figuras não é conferir status de nacionalista radical ao autor dos Sertões , apenas distingui-lo da casa grande.

E o leitor francês, que usa a sua literatura como parâmetro, como ponto de apoio, vê Euclides como um herói stendhaliano, hesitante entre o vermelho do uniforme militar e o terno preto do engenheiro.

Mas não se limita a comparar Euclides a outros escritores nacionais. Procura também defini-lo esteticamente no panorama literário da virada de século, dominado, em grande parte, por uma linguagem naturalista e parnasiana.

A conclusão a que chega Bastide é de que Euclides da Cunha insere-se perfeitamente no contexto brasileiro da época e que sua obra tem como ponto de partida a filosofia social européia, o parnasianismo e o naturalismo literários.

Numa certa perspectiva, foi exatamente uma visão de fora, sem parti pris, que lhe permitiu, em 1948, uma reavaliação do mito.

É ainda essa mesma visão que o leva a ver com entusiasmo todo trabalho que permite uma penetração efetiva na cultura brasileira. Como o de Gilberto Freyre. Provavelmente a obra brasileira que o sociólogo francês mais leu foi Casa - grande e senzala ; pelo menos foi a única que traduziu para sua língua.

E é também o que acontece em relação a Macunaíma , sobre o qual declara de forma incisiva, em 1946, num texto significativamente intitulado "Macunaíma visto por um francês" ( Revista do Arquivo Municipal, vol.CVI, Ano IX, jan.fev. 1946, p.45-50): "Não se pode encontrar um livro mais especificamente brasileiro que Macunaíma".

A alta conta em que tem o romance de Mário se conserva ao longo dos anos, pois num texto escrito para a revista Mercure de France , de 1957, continua a considerá-lo o que de mais brasileiro se produziu na nossa literatura: "Este livro extraordinário escrito em uma semana parece-me pôr ponto final no movimento indianista que começou no Brasil com o romantismo: não penso que se possa ir além."

E retoma sua gradação nacionalista de obras e de autores: a "Confederação dos Tamoios" é um "poema português adornado de exotismos"; no caminho da compreensão da mestiçagem como germe do Brasil, segue-se Alencar, mas, segundo Bastide, a influência de Chateaubriand "estragou" (o termo é dele) as bases da literatura indianista que estava procurando lançar. E finalmente, Mário de Andrade, que teria atingido a perfeição e conseguido realmente reproduzir a mestiçagem lingüística étnica do brasileiro. O entusiasmo de Bastide leva-o, nesse texto, a fazer uma feliz observação, tão elucidativa quanto poética, sobre o romance: "uma explosão de riso que se tornou poesia".

A sua perspectiva antietnocêntrica, sempre respeitosa, tende a diminuir o peso da cultura européia sobre a nossa literatura: "A esta selvageria lírica atropelando, com seu riso, uma civilização de importação".

Dado o caráter tão brasileiro da obra, o estrangeiro só pode dela se aproximar por fora, comparando com o que lhe é familiar, ou seja, sua própria literatura. E Bastide, escrevendo para o público francês do Mercure , compara então Mário a Rabelais e Macunaíma a Gargantua. Ambos os escritores têm aspectos comuns e fundamentais: o gigantismo da fala, articulado em torno de um herói popular e folclórico e uma embriaguez dupla, de vida e de ciência.

"Macunaíma em Paris" (O Estado de São Paulo, 3 de fevereiro de 1946) é mais uma crônica do que um ensaio. Conta um sonho em que Bastide se vê mostrando Paris e a França ao herói de Mário de Andrade.

O texto divide-se em dois eixos perfeitamente simétricos: França-Brasil, cotejados ininterruptamente, sem que, em nenhum momento, Paris seja colocado como instância superior. O que se procura é precisamente um paralelo: estabelece-se um rigoroso levantamento de correspondências. Se os parisienses têm as "lycéennes" e as "midinettes", temos as normalistas e as costureirinhas; se os franceses têem a Fada Melusina, temos a/Uiara; comem cassoulet e tomam vinho e comemos feijoada e tomamos aguardente e assim sucessivamente. O narrador-sonhador, o francês, coloca-se inclusive timidamente em face de um Macunaíma incisivo, exigente, questionador e que conhece as equivalências entre as duas capitais.

Cruzam com Gargantua que faz uma descrição étnica do brasileiro: És bem brasileiro; tens lábios de africano, olhos de índio, nariz de português, o lado direito de italiano, o ombro esquerdo de alemão, a ponta do pé de espanhol, o joelho de cristão-novo...

Ao que Macunaíma, sem se encolher, retruca petulantemente: Como tu és bem francês: tens crânio romano, olhar celta, bigode gaulês, cabelos de franco, nariz de árabe...

Num tom quase ingênuo, vemos aí desdobrar-se toda a mistura étnica e cultural que encontramos no Brasil equiparar-se a uma mistura nos mesmos moldes na França.

Como balanço, parece-me importante registrar que um francês, nos anos quarenta, se dedique ao exercício de uma leitura comparativa, encontrando o tempo todo pontos de contato entre a França e o Brasil, colocando-os em pé de igualdade e sem, em nenhum momento, diminuir a cultura brasileira. E que tenha tido uma compreensão profunda de uma obra que seja tão entranhadamente o espelho da cultura brasileira quanto Macunaíma . Chamaria ainda atenção para o estilo saboroso, de crítica-escritura, com pitadas de humor e muito de simpatia.

Por tudo o que vimos, o texto "Sociologie et littérature comparée", publicado nos Cahiers Internationaux de Sociologie , logo depois da volta de Bastide à França, retomado em Le prochain et le lointain , é bastante representativo do conjunto de sua obra.

Representativo pelo seu campo de interesse situado entre fronteiras das ciências humanas, as relações entre a sociologia e a literatura comparada, o texto selecionado discute um problema teórico e traz idéias de dois pensadores muito visitados pelo sociólogo francês: Tarde e Durkheim. A estrutura é, como acontece com freqüência no texto bastidiano, cartesiana: apresentação dos objetivos logo no primeiro parágrafo, discussão dos aspectos teóricos para, em seguida, ilustrá-los com exemplos e concluir no parágrafo final.

Os conceitos teóricos são ilustrados por exemplos literários, atestando mais uma vez o lugar ocupado pela literatura no conjunto de sua obra de caráter polisêmico. Interessa-nos particularmente que sejam tomados às literaturas francesa e brasileira. Sua utilização é de caráter ilustrativo, sem nenhum julgamento de valor; ambas as literaturas recebem o mesmo tratamento equitativo. Em "Sociologie et littérature comparée", encontramos outra ilustração dessa postura, ao descrever a transposição da antítese hugoana para a poesia de Castro Alves. A apropriação confere-lhe um caráter político próprio, permitindo um ponto de vista novo sobre o africano. Situa no mesmo plano a apropriação da poesia francesa por Castro Alves e depois por Cruz e Sousa e a que Corneille faz do drama espanhol em "Le Cid". Qualquer uma delas serve para ilustrar a movimentação dos fatos de aculturação através dos "meios internos". É este o princípio que norteia a crítica literária de Roger Bastide e que lhe permitiu, nos anos 40, ter uma visão diferente da obra de Euclides e de Machado.

Quando emite julgamentos de valor, não é em detrimento da nossa literatura. Ao contrário, por vezes faz afirmativas algo exageradas como, por exemplo, ao situar Cruz e Sousa no movimento simbolista aponta a "grande tríade harmoniosa": Mallarmé, Stefan George e Cruz e Sousa.

Nas três páginas dedicadas aqui à nossa literatura, faz um passeio rápido e conciso do arcadismo ao romantismo, registrando a passagem da influência lusa para a francesa e alguns exemplos da assimilação que o romantismo brasileiro fêz de autores franceses. Considerando-se o veículo de publicação e seus leitores, a referência a autores franceses torna-se importante para a compreensão que possam ter de uma literatura provavelmente pouco conhecida do público. E certamente podemos apreciar um momento de divulgação respeitosa da literatura brasileira.