Interrogando a identidade

Homi K. Bhabha
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Comentário: Sabine Mabordi (UBC - University of British Columbia)

Tradução do comentário: Mariana Lustosa (UFRGS)

A Ambivalência de Homi Bhabha

"Se o epistemológico inclina-se a uma “representação” de seu referente, antes que à performatividade, o enunciativo tende repetidamente a “reescrever” e a resituar a reivindicação à prioridade cultural e antropológica (Alta/Baixa; Nossa/Deles) no ato de revisão e hibridação das hierarquias sentenciosas estabelecidas, da localidade e das expressões do cultural” (BHABHA, 1985, p.57).

Homi Bhabha, que nasceu na Índia e leciona na Inglaterra e nos Estados Unidos, desenvolveu sua noção de hibridismo nos seus trabalhos sobre o discurso colonial. Em seu texto mais importante sobre o assunto, Signs Taken for Wonders: Questions of Ambivalence and Authority under a Tree Outside Delhi, May 1817 , o autor reconhece influências de Foucault, Derrida, Freud e Fanon, mas não menciona nem por uma vez Bakhtin, de quem o conceito de hibridismo foi claramente emprestado (1). Em um artigo publicado oito anos antes, Culture's in Between, Bhabha ocasionalmente revela estar ciente do hibridismo na obra de Bakhtin e nos permite inferir, indiretamente, a influência deste no seu desenvolvimento do conceito (BHABHA, 1993, p.212).

O hibridismo de Bhabha parece implicar os dois: uma condição e um processo. É uma condição do discurso colonial na sua enunciação, dentro da qual a autoridade colonial/cultural é construída em situações de confronto político entre posições de poderes desiguais. É também um processo de negociação cultural (como posteriormente García Canclini demonstra), ou, no que poderia ser entendido como um lapso foucaultiano e freudiano/lacaniano, "um modo de apropriação e de resistência, do pré-determinado ao desejado" (BHABHA, 1994, p.120).

Para Bhabha, o hibridismo é uma ameaça à autoridade cultural e colonial, subvertendo o conceito de origem ou identidade pura da autoridade dominante através da ambivalência criada pela negação, variação, repetição e deslocamento. É também uma ameaça porque é imprevisível. Mas o autor adverte, em trabalhos posteriores, que não é nem o Eu, nem o Outro. Bhabha repete numerosas vezes essa descrição intrigante do hibridismo: "é menos que um, e o dobro", provavelmente referindo-se às suas características discursivas como parciais, mas reafirmando-as no sentido bakhtiniano. Esses traços do hibridismo fazem com que este transgrida todo o projeto do discurso dominante e exija o reconhecimento da diferença, questionando e deslocando "o valor do símbolo para o sinal" do discurso autoritário (BHABHA, 1994, p.113).

Provavelmente a característica mais marcante e problemática do hibridismo de Bhabha é a sua ambivalência, a qual não permite que o mesmo solucione tensões entre culturas, assim como o híbrido bakhtiniano não soluciona o conflito entre as duas consciências no enunciado. O conceito de ambivalência permeia os escritos teóricos de Bhabha, e sua análise é baseada numa clara distinção entre a diversidade cultural - definida como uma categoria - e a diferença cultural - definida como um processo.

"Se a diversidade cultural é uma categoria da ética, da estética ou da etnologia comparativas, a diferença cultural é um processo de significação através do qual enunciados sobre ou em uma cultura diferenciam, discriminam e autorizam a produção de campos de força, referência, aplicabilidade e capacidade” (BHABHA, 1994, p.34).

Tendo Bhabha estabelecido que está interessado no conceito de diferença cultural, e não no de diversidade, ele sugere que "se focalize o problema da ambivalência da autoridade cultural" (BHABHA, 1994, p.34). Essa ambivalência, ou pensamento ambíguo,

"... é tornada viável somente através da estratégia de contradição ... a qual requer uma teoria da "hibridação” de discurso e de poder que é ignorada por teóricos que se ocupam da luta por "poder”, mas o fazem simplesmente como os puristas da diferença” (BHABHA, 1994, p.111). (2)

Numa discussão importante sobre as contribuições de Bhabha para a teoria crítica, na qual ele analisa a ambivalência da crítica indiana, Robert Young pergunta, com o seu inimitável senso de humor, se ela está "sendo usada como um modelo, ou ... uma forma de imitação, hibridismo, duplicação fantasmagórica e imaterial que personifica a duplicidade do próprio nome de Bhabha?" (YOUNG, p.156).

O próprio Young oferece uma crítica ambivalente do trabalho de Bhabha. Ele o acusa de mover conceitos como o fetichismo para a imitação, hibridação e paranóia, mas, em seguida, parece elogiá-lo por não permitir a retificação desses conceitos. Young acredita que Bhabha é negligente ao indicar tanto as fontes teóricas desses termos (assim como o próprio elo teórico entre eles) quanto as culturas aos quais eles se aplicam. Há um progresso político e teórico no trabalho de Bhabha, sugere Young, com a introdução da hibridação - um avanço no conceito de imitação -, uma vez que esta "permite uma forma de subversão ... que transforma as condições discursivas de domínio no princípio da intervenção" (YOUNG, p.112).

Mas se a hibridação tornou-se agora o ponto de resistência, Young prevê a volta do problema da intervenção individual enquanto essência estática, a qual Bhabha criticou na obra de Edward Said, Orientalism . O conceito "imitação" sugerido por Bhabha substituiu o de intervenção, transformando-o em ambivalente, incerto, impossível de se definir. Entretanto, agora que Bhabha introduz o "nós" com a asserção da resistência ("Então as palavras do mestre transformam-se no lugar da hibridação - o sinal subordinado e guerreiro do nativo -, então poderemos não só ler as entrelinhas mas também buscar mudar a freqüentemente coerciva realidade que elas claramente contêm) (BHABHA, 1994, p.121). Young questiona o "quem" e o "quando" do "nós". Quando a resistência tornou-se articulada, pergunta ele: naquele momento, ou mais tarde, quando o crítico lê o texto colonial? Há consciência por parte dos colonizados quanto ao potencial subversivo da hibridação e, portanto, habilidade para ele/ela agir, ou apenas o crítico pode percebê-lo e avaliá-lo? Young mostra que prefere a ambivalência anterior da intervenção na imitação àquilo a que ele se refere como este "topos politicamente mais convencional", o qual ele atribui à hibridação (YOUNG, p.149). O autor critica a hibridação porque encontra contradições na sua teorização, já que a ambivalência é tanto a condição como o efeito da situação colonial.

Além disso, Young sugere que, por implicação, tanto o conhecimento do colonizador quanto o do colonizado são "puros", e, entretanto, isso contradiz a ambivalência encontrada na condição do colonial. Ele presume que essas dificuldades acarretaram o desaparecimento da hibridação no trabalho de Bhabha, concluindo com uma aparente aprovação da ambivalência de Bhabha, não só como uma característica da condição colonial - a qual produz uma negação da autoridade colonial -, como também como um princípio teorizante, que desestabiliza e rejeita a autoridade e a historicidade do discurso ocidental hegemônico. Seja como um tributo, como sua própria estratégia de subversão, ou como o resultado da complexidade e/ou confusão na obra de Bhabha, Young consegue ser tão ambivalente quanto o objeto ambivalente de sua crítica.

Em 1993, três anos após a publicação de White Myhtologies , Bhabha escreveu um pequeno artigo para a revista Artforum , onde seu conceito de hibridismo - o qual Young pensou estar morto em função das dificuldades teóricas não resolvidas - reapareceu numa discussão sobre multiculturalismo. Nesse artigo, Bhabha resume a elaboração do híbrido de Bakhtin e, então, a sua própria noção de hibridismo. Numa aparente resposta ao questionamento de Young quanto à especificidade do texto colonial, a autoridade colonial aqui foi substituída pela "autoridade cultural" como um todo (BHABHA, 1993, p.212). Entretanto, com essa substituição, Bhabha cai numa generalização ainda maior. Esta mudança gera uma preocupação que é compartilhada por Ania Loomba - uma crítica indiana que leciona neste mesmo país - e Young: a elaboração de uma teoria geral do colonialismo baseada em eventos específicos (3). Loomba adverte que "o hibridismo da enunciação expande-se até se tornar a característica definitiva de toda (a ênfase é minha) autoridade colonial; em qualquer lugar, a qualquer hora" (LOOMBA, p.309).

No mesmo parágrafo dedicado ao hibridismo, Bhabha toca aparentemente, mais uma vez, em outro importante aspecto do questionamento crítico de Young: estratégia e intervenção. Ele define hibridação como uma estratégia de negociação (discursiva). Mas esta nem aparece diferente de descrições prévias, nem mostra sinais mais claros de eficiência. Quanto às intervenções, estas são criadas a partir daquele processo de negociação e caracterizadas como intervenções espaçadas, "as quais encontram sua voz numa dialética que não busca supremacia ou soberania cultural" (BHABHA, 1993, p.212) (4). Resta saber se esta caracterização elimina qualquer essencialismo possível e restitui a ambivalência à intervenção, e se acaba com quaisquer dúvidas que Young pode ter sobre o assunto.

Se a linguagem de Bakhtin é, por algumas vezes, pesada e confusa, o discurso de Homi Bhabha é extraordinariamente difícil e enganoso (5). Enquanto Arik Dirlik refere-se a Bhabha como "um mestre da mistificação política e da ofuscação teórica," (6) Robert Young sugere que Bhabha produz "desorientação e confusão", provavelmente "imitando" o discurso colonial como sua própria estratégia de negação da sua autoridade e a do próprio autor (7).

REFERÊNCIAS:

*BHABHA, Homi. "Signs Taken for Wonders: Questions of Ambivalence and Authority under a Tree Outside Delhi , May 1817", in Critical Inquiry , 12, 1985.

____ . "Culture's in Between". Artforum , September, 1993: 167-214.

____ . The Location of Culture . London : Routledge, 1994.

* LOOMBA, Ania. "Overworlding the ' Third World '." Patrick Willimas and Laura Chrisman eds. Colonial Discourse and Post-Colonial Theory . New York : Columbia University Press, 1994: 305-323.

* YOUNG, Robert. White Mythologies: Writing History and the West . London: Routledge, 1990.


(1)Esse artigo apareceu primeiramente na publicação da Universidade de Chicago, Critical Inquiry , em 1985, sendo reproduzido com algumas mudanças no livro The Location of Culture , de Bhabha, publicado em 1994. Irei, portanto, retirar citações do livro e não do artigo prévio.

(2)É interessante notar que aqui Bhabha substituiu o objeto de seu ataque, os "pós-estruturalistas ocidentais" do seu artigo original de 1985, pela palavra mais generalizada "teóricos".

(3)Ver o artigo Overworlding the ' Third World ' , de Ania Loomba.

(4)A introdução da palavra "dialética", aqui, é intrigante. Para Bakhtin, como James Clifford salienta em The Predicament of Culture (p.43): "dialógico ... não é reduzível de dialética". Estará Bhabha utilizando os termos alternadamente? Ou o termo "hibridismo" estará sendo usado para solucionar diferenças?

(5)Numa conferência, em 1990, ele respondeu a um comentário vindo da platéia sobre a "repulsiva dificuldade" de sua palestra: "Eu não posso me desculpar pelo fato de que você achou meu artigo completamente impenetrável (?). Eu o escrevi com plena consciência: eu tinha um problema e o resolvi. E se algumas pessoas entenderam o que estou dizendo, eu fico feliz". Em Cultural Studies , 1992, p.67.

(6)Ver The Postcolonial Aura: Third World Criticism in the Age of Global Capitalism (1994, p.333, n.6). Ania Loomba é mais específica na sua crítica à mistificação de Bhabha. Ela salienta, além de outros aspectos questionáveis de seu trabalho, que: "... a incerteza de sua linguagem e de sua construção ... está em si aberta à crítica ao trabalho que intenciona ser político e intervencionista" (1994a, p.308).

(7)Ver White Mythologies (1990, p.156).