Apropriação da voz

Neil Bissoondath

Tradução:

Jacqueline C. Isoton

BISSOONDATH, Neil. Selling Ilusions : The Cult of Multiculturalism in Canada . Canada : Penguin Books, 1994. p.167-185: Appropriation of Voice.

Hipertextos: Jacqueline C. Isoton (UFRGS)

Apropriação da voz

O impulso de segregação foi sentido primeiramente na comunidade literária canadense em 1987 quando um clima desagradável se desenvolveu entre os editores da Imprensa de Mulheres em Toronto. Uma proposta antológica de contos encontrou problema quando as objeções foram levantadas, em parte por Marlene Philip, afetando algumas das histórias já contratadas para a publicação. O problema era simples: escritoras brancas tinham escrito do ponto de vista de personagens femininas negras; elas tinham "apropriado" as experiências de mulheres já exploradas em uma sociedade dominada por homens brancos. As escritoras brancas tinham, ao contar as histórias de mulheres negras, praticado um tipo de imperialismo cultural. A casa, uma editora vital e necessária, opôs-se violentamente à publicação. Um tipo de golpe interno sucedeu. Fechaduras foram trocadas, empregos foram perdidos.

Mas isso era apenas o começo. Logo outras exigências foram feitas: não só os brancos não deveriam escrever sobre os negros, mas os homens não deveriam escrever sobre as mulheres, os não-nativos sobre os nativos, e assim por diante, tudo baseado na afirmação de que se você não viveu a vida, você não tem o direito de escrever sobre ela. E o escritor, que ousa explorar o território julgado não ser o dele ou dela próprio, torna-se um ladrão, abre a acusações de racismo, sexismo e imperialismo de pessoas que se opõem a ser retratadas de outras formas a não ser aquelas pelas quais se retratariam - e os auto-retratos, deixam-nos ver isso bem, tendem a ser livres de manchas.

Outros campos, fora a escrita, também sentiram o ferrão da apropriação cultural . Em 1992, o pintor de Montreal, Lyne Robichaud inscreveu um quadro chamado Mulher com Bananas em uma exposição do trabalho de artistas estudantes da Universidade de Concórdia. A tela, um retrato de uma mulher negra carregando um cacho de bananas sobre a cabeça, refletiu uma certa dignidade no meio do sofrimento. Isso foi, se algo, profundamente solidário. Mas Lyne Robichaud logo encontrou o seu trabalho retirado da exposição depois que um comitê julgou o trabalho racista: Lyne Robichaud era branca, o assunto dela era negro. Foram protestos em vão, e o público era tratado ao deleitoso espetáculo de um comitê de virtuosas mulheres brancas protegendo a dignidade das mulheres negras, através da censura de um comovente retrato produzido por uma mulher branca.

Em um artigo na revista Brick, a escritora Dionne Brand acusa meus retratos de mulheres e negros de simplesmente revalidar os mitos do " discurso eurocêntrico ", de traçar "somente o estereótipo tão prestativo na dominação branca", de filtrar as vozes deles "através da tela eurocêntrica do discurso racista, sexista”. Além disso, ao produzir um Neil Bissoondath para denunciar a crítica da apropriação cultural, o estabelecimento cultural branco produz uma face escura para rejeitar e desacreditar todas as outras faces escuras e, simultaneamente, confirmar e reinscrever aquela representação colonial, a qual é essencial para a dominação racial.

Não há nenhuma dúvida de que para aceitar os princípios da apropriação cultural é me condenar. Eu tenho escrito não somente do ponto de vista do jovem, dos homens de pele morena descendentes dos indianos do leste, nascidos no Caribe e vivendo no Canadá, mas, também, das perspectivas de uma jovem mulher japonesa, de jovens homens negros e de jovens mulheres negras, de uma jovem menina da América Central, de um homem espanhol de meia idade e um homem idoso judeu, de uma jovem mulher branca e de um homem branco, de um revolucionário marxista e de um agente da CIA. Eu tenho escrito sobre a esquerda e a direita e as vítimas deles. Eu tenho escrito sobre os opressores políticos e os politicamente oprimidos.

Espanta, então, que Ms. Brand, Ms. Philip e aqueles que apoiam as visões delas vejam em mim um racista de direita dedicado à preservação do colonialismo imperialista . Isso pode vir como uma surpresa, embora eu também tenha sido chamado de comunista por causa de um artigo que escrevi sobre o fascismo espanhol; de social-democrata, por escrever sobre os males sociais; e de feminista, por explorar a situação das mulheres. Há, de fato, um rótulo que não foi quase atribuído a mim, a cada má apropriação, a cada contradição por algo a mais que eu tenha escrito. É o risco que corre um escritor, cuja ficção surge de preocupações políticas, mais especificamente do efeito da política na vida cotidiana de pessoas simples. Eu não tenho nenhuma ideologia para vender e estou resignado ao fato de que nunca haverá nenhuma falta daqueles que tentarão definir a mim e ao meu trabalho em termos políticos raramente favoráveis.

As acusações niveladas contra mim e a uma variedade de outros artistas pelo país têm no final pouco a ver com o racismo ou sexismo ou qualquer outro "ismo". Esses são, simplesmente, ganchos convenientes que têm muito mais a ver com o vazio revelado da poltrona da ideologia revolucionária. Desafiados onde isso mais machuca, aqueles que se vêem nos meus personagens retrucam como crianças, com uma surpreendente, ou típica, mente ingênua. Toda a expressão artística - seja ela um livro, uma pintura ou uma exposição de museu - exige uma certa sutileza da mente, uma certa nudez emocional, se é para se compreender. Os ideólogos, que são impulsionados por freqüentes mágoas legítimas de uma mente aberta à recepção de idéias, não têm. Vivendo através de idéias recebidas, eles curvam e simplificam as complexidades da vida para adequar às suas próprias preocupações ideológicas. Eles procuram intimidar todos a aceitar suas visões e seus horários.

Àqueles que procuram subordinar à arte, suas funções e suas liberdades à política sexual, racial ou religiosa procuram nada menos que impor as suas próprias visões ideológicas nas expressões criativas dos outros. Eles próprios reivindicam direitos que eles negariam àqueles que não compartilham a sua visão de mundo.

Nessa sociedade, a acusação do racismo é algo particularmente violento. Há poucos que não reconhecem o racismo como um mal, fazendo-lhe uma acusação facilmente nivelada por aqueles que interpretam o mundo através da cor da sua pele, por aqueles que são racializados . Declarando-se anti-racistas, eles ironicamente dividem uma visão racial da vida com os arquitetos e defensores do "apartheid". Eu sugeriria que se definir pela cor é ser racista, assim como definir-se pelo gênero é sexista; isso é reduzir a complexidade dos seres humanos a fórmulas. Além disso, eu sugeriria que ideologia política imposta distorce a realidade, e que ideologia racial aguçada distorce a alma.

Quando aplicada às artes, a ideologia imposta tem conseqüências mortais. Nos Estados Unidos, os sentimentos de direita, essencialmente, transformaram o polêmico fotógrafo Robert Mapplethorpe em um pornógrafo, enquanto em Toronto sentimentos parecidos conduziram à apreensão, pela polícia, de quadros controversos e desenhos de uma jovem pintora chamada Eli Langer em dezembro de 1993.

As preocupações ideológicas podem, também, ser impostas de dentro e, ainda assim, com conseqüências não menos fatais. O mais claro exemplo que eu conheço é o romance Mother , do brilhante escritor soviético Maxim Gorky. Gorky produziu muitos nítidos e penetrantes trabalhos através de sua ilustre carreira, mas nenhum de seus escritos fascinou o primeiro líder do estado soviético tanto quanto Mother. Lenin declarou-o o melhor romance de Gorky, enquanto o próprio Gorky reconheceu de longe como o seu pior. O problema, como bem compreendeu Gorky, foi que o livro era muito desejado, os personagens muito manipulados, suas preocupações conscientemente construídas na mente com final político. Ele havia subordinado a literatura à política e produzido um trabalho politicamente atraente que foi, também, um romance estático e artificial.

As considerações ideológicas podem também infetar as revisões. Timothy Mo é um jovem e talentoso romancista britânico, cujos três primeiros romances (Sour Sweet, The Monkey King, An Insular Possession) foram indicados para o prestigioso prêmio "Booker" no U.K. Assim era seu último romance, uma exploração brilhante da natureza da coragem e do comprometimento intitulada The Redundancy of Courage . É a história de um jovem homem chinês chamado Adolph Ng que é pego numa situação muito semelhante à ocupação da Indonésia no leste do Timor. Uma revisão insensível do romance em The Globe and Mail questionava a autenticidade da descrição de Mo de Adolph Ng, em parte porque, enquanto Ng é chinês puro, Timothy Mo - cuja mãe é inglesa - é só meio chinês. A outra objeção do revisor era de que "o narrador é muito diferente [o autor] na experiência" - uma hesitação, presumivelmente, nunca conhecida por Shakespeare quando ele estava escrevendo Hamlet ou por Tolstoy quando estava escrevendo Anna Karenina . O poder da imaginação, então, é - se não deduzido – pelo menos, visto com desconfiança. Todos que incitam à pergunta: as declarações de experiência de vida e depoimentos de composição racial e étnica devem agora estar submetidos a romances manuscritos ( para não mencionar ao emprego ou às aplicações de conferências)? Isso representaria a última ordem da sociedade multicultural.

As considerações ideológicas também exigiram às editoras que publicassem uma quota imposta dos escritores de "minoria", indiferente da qualidade do trabalho. Noções de qualidade, o argumento segue, não são nada, mas as invenções artificiais dos homens brancos que, procurando prolongar o controle deles sobre a sociedade, usam ferramentas - tais como as idéias "eurocêntricas" por excelência - para manter a etnia e as mulheres nas extremidades da corrente principal. É preciso ser dito que tais idéias são os produtos da inabilidade que, tornada hipócrita, procura um tipo de bem-estar artístico para suportar suas fantasias.

O mundo acadêmico, também, foi severamente afetado. Uma idéia fazendo a ronda em alguns departamentos de literatura da universidade, sugere que desde que os professores homens sejam, pela sua própria natureza, incapazes de compreender completamente o ponto de vista feminino, eles não poderiam ensinar romances de escritoras mulheres. ( Diz que um argumento parecido poderia ser feito, pois Northrop Frye teria sido incapaz de ensinar um romance da africana vencedora do prêmio nobel Wole Soyinka). Isso ocorre para poucos, comentou um professor, que se os homens não podem ensinar Atwood e Akhmatova, então, dessa mesma forma, professoras mulheres não podem ensinar Shakespeare ou Chaucer. A noção é aquela que diminuiria a idéia essencial de uma universidade, reduzindo nossas perspectivas sobre grandes, ou mesmo não tão grandes, trabalhos de literatura através de atitudes reminescentes de uma criança mau, recusando deixar outras crianças brincarem com seu beisebol, simplesmente porque, na opinião dela, eles não jogam bem.

Doreen Kimura, neuro-psicóloga na universidade de Simon Fraser e antiga professora com mais de vinte anos de experiência, entregou o discurso de convocação na universidade do Oeste de Ontário em três de junho, 1993. O que ela tinha para dizer era tão revelador quanto angustiante.

A professora Kimura falou em defesa do direito à liberdade acadêmica - uma liberdade a qual, na sua essência própria, deve requerer o direito de perturbar e até ofender. Assim como uma cientista biológica, ela enfatizou, que lida com idéias provocativas. A sua pesquisa sobre o cérebro e o comportamento, por exemplo, a qual requer a noção que todo o comportamento é uma função do sistema nervoso e não da alma, poderá desafiar as crenças básicas de certos fundamentalistas religiosos. Nem algumas feministas poderão considerar, gentilmente, a idéia de que o sexo é um fator contribuinte na forma como os cérebros humanos estão organizados, na forma "que os indivíduos diferem um dos outros nos seus talentos intelectuais especiais". A "ofensa dos alunos no sentido intelectual", ela insistiu, é muito mais o papel de uma universidade: é somente ao ter suas crenças e pressuposições básicas desafiadas, que os alunos aprendem e crescem.

É com essa experiência que a professora Kimura continuou a detalhar a atmosfera criada por alguns alunos que estavam ofendidos por serem ofendidos:

Eu infelizmente sei de colegas, ambos dentro e fora da minha própria universidade, que tiveram os seus cursos invadidos por membros dos tribunais de interesse especial, meramente, porque eles foram socialmente contraditórios. Um professor na universidade de York teve observadores colocados na sua aula por um dia quando ele discutia a evolução de diferenças de comportamento entre homens e mulheres. Um comitê de guarda foi estabelecido na universidade de Toronto para assegurar que nenhuma das referências feitas em livros-textos poderiam ser construídas como desfavoráveis para qualquer minoria, não importa quão fatual ou bem-estabelecido são tais referências.

Esses não são eventos isolados, infelizmente, mas agora se tornaram banais, pelo menos nas universidades do leste. Os graduandos de hoje serão muito jovens para recordar as reportagens de invasão nas aulas da universidade pelos partidários fascistas na Europa nos anos trinta, mas alguns dos pais, hoje aqui, podem recordar tais táticas. De fato, os regimes totalitários, tipicamente, iniciam com a supressão do discurso livre. Podemos nós, honestamente, exigir que haja alguma diferença fundamental entre o controle comunista e fascista da academia do passado e a supressão de idéias que estão se espalhando por nossos campus hoje?

O que brota no cenário universitário tem uma maneira de se expandir para o todo da sociedade. A intimidação que a professora Kimura detalha é, hoje, para muitos, um fato da vida nas comunidades acadêmicas e artísticas.

Na universidade Trent em Peterborough, Ontário, um grupo de professores assinou uma petição requerendo o direito de serem ofensivos, uma ação que eles levaram à luz de uma ordem da polícia emitida em outubro de 1993 pelo Departamento de Educação e Treinamento de Ontário. Visando respeitar a dignidade de todos, a ordem "proíbe a discriminação por quaisquer das razões usuais (raça, credo, sexo, orientação sexual, incapacidade, idade) mais algumas que não são tão usuais (dialeto, pronúncia, 'o recibo da assistência pública, o registro das ofensas provinciais ou as ofensas federais perdoadas')". Nenhum desses chãos são instáveis, mas a ordem lança então uma sentença de possibilidade surpreendente: "Uma reclamação não tem que ser um alvo direto a ser opostamente afetado por um ambiente negativo”.

Um ambiente negativo: imagine, conforme postula Robert Fulford, a possibilidade para acusações de racismo por um estudante nativo em uma aula ministrada por um professor oposto à soberania nativa; a possibilidade de desconforto intenso por alunos homens em uma aula ministrada por uma professora mulher; "os ambientes negativos" nas aulas onde os judeus eram convidados a estudar O Mercador de Veneza , negros exigidos a ler Otelo e mulheres a ler Ulisses . Ambientes negativos - ambientes de desconforto e aflição - são parte do funcionamento normal de uma universidade: somente governos burocratas e mentes deformadas fracassam ao compreender que, segundo o senhor Fulford coloca, ser ofendido é parte do aprender como pensar.

O medo de ofender tocou ainda o judiciário, como John Sopinka do supremo tribunal de justiça abordou em um discurso para os estudantes de ciência política da universidade de Concórdia: "No passado, os juízes foram insensíveis às preocupações legítimas dos grupos de minoria ou inferiorizados. Entretanto, há motivo para a preocupação legítima que superzela a dissecação de toda a palavra que abandona os tribunais, com vistas de encontrar alguns defeitos que podem ser a base para uma reclamação ao conselho judicial e que podem resultar em decisões que são politicamente corretas, mas não legalmente e fatualmente corretas. O juiz que está analisando, pode decidir um caso que evitará o conselho judicial, ao invés de concordar com o material apresentado".

É na universidade Concórdia, também, que as preocupações sobre a liberdade de discurso conduziram ao estabelecimento do clube Sociedade para a Liberdade Intelectual, onde um dos estudantes organizadores disse para as pessoas falarem sem ter que se subjugar.

Não é segredo que a ideologia de todos os tipos, rigorosamente aplicada, tem uma forma de, eventualmente, comer suas próprias crianças. A cobiça "reaganista", por exemplo, consumiu pratadas de seus próprios partidários.

Alguns anos atrás, enquanto em um turismo de promoção do livro em Vancouver, eu encontrei uma jovem mulher com uma história interessante para contar. É importante saber que ela se considerava uma feminista arraigada. Ela contou-me sobre um artigo que havia escrito sobre a sua cantora favorita, uma mulher negra e americana, de grande talento e renome. Ela submeteu o fragmento à uma revista feminista que tinha publicado seu trabalho anteriormente. Após algum tempo, os editores informaram-na que, embora eles gostassem muito do artigo, eles não o publicariam. Ela tinha, eles explicaram, citado muitos críticos homens. A sua explicação - que a maioria dos críticos de música são homens - e sua sugestão de que publicar escritoras mulheres poderia ajudar a mudar aquela situação, não produziu nenhum efeito. A objeção básica deles para o artigo foi que a cantora era negra e a escritora era branca - uma situação intolerável na visão deles. O artigo, sob solos puramente raciais, nunca poderia ser suficientemente bom.

Tais limitações sobre o assunto conduzem a frias conclusões lógicas. Isso não significa, pois, que mulheres jovens não devam escrever sobre mulheres velhas, homossexuais sobre homens, protestantes sobre católicos? Isso não significa que escritores doentes físicos devam escrever somente sobre os doentes físicos e escritores nativos somente sobre escritores nativos - de fato, um escritor cree só sobre crees , um escritor mohawk só sobre mohawks ? Afinal, então, essa visão não diz que a ficção, e também a não-ficção, devam dar prioridade à autobiografia? (Numa nota sem importância e de um campo diferente, isso nos negaria o prazer do que pode ser o melhor exemplo de apropriação cultural jamais vista: o time jamaicano de trenó olímpico).

"Encontre o seu próprio rio", o escritor nigeriano Chinua Achebe disse uma vez do livro Heart of Darkness de Conrad. "Não aproprie nossa geografia às suas viagens psíquicas". É uma noção curiosa, essa idéia de apropriação. Afinal de contas, o rio e tudo o que isso representa estão ainda aqui, mesmo depois que Kurtz tenha viajado em sua extensão. Nada previne Achebe, um escritor de distinção e sucesso internacional, de enviar algum de seus personagens à uma viagem para dentro de seu brilho e suas escuridões - ou junto ao brilho e as escuridões do Thames, Mississipi ou St. Lawrence. O que, precisamente, Achebe e outros escritores africanos perderam da exploração psíquica de Conrad em relação a um rio tropical? O mundo ganhou uma obra-prima, e eu por ele estou contente que Conrad tenha acompanhado Kurtz naquela viagem. Limitar Kurtz ao Thames é exigir o empobrecimento da imaginação.

Deve-se salientar que, no artigo para a Brick , Brand explicitamente se desvincula de quaisquer tentativas de censura. Ela gentilmente afirma que "Neil Bissoondath pode escrever em qualquer voz que o agrada”. Entretanto, em uma entrevista com Dagmar Novak em 1990, Brand tomou uma posição bastante diferente sobre escritores brancos que abordam temas nativos: "Eu acho que eu posso dizer, categoricamente, que os brancos não podem escrever sobre a vida nativa”. Não deveriam? ela é questionada. "Não devem. Sim, não devem e não podem, " ela responde. Não é, então, uma censura externa que ela requer, mas uma censura interna - a qual é ainda mais suavizante para a vida criativa.

Uma sociedade livre depende de uma multiplicidade de vozes e visões, da interação de visões conflitantes. Nós só nos diminuiríamos ao diminuir essa variedade. Os termos desse debate estão alterando as percepções da arte, de sua natureza e de seu papel, e isso é saudável. Mas eu temo, também, que o tom indignado do debate - o nome evocativo, a criação dos mártires - esteja desprezando as artes de forma rígida e desagradável. O "debate" na união dos escritores sobre acusações de racismo contra June Callwood conduziram (após várias cartas agressivas contra Callwood, algumas anônimas, outras não) a dez dos mais elegantes escritores do Canadá a publicar uma carta sugerindo que "todos deveriam se danar por um período de consideração arrependida." O debate sobre a conferência "Escrita através da Raça" acabou, inconclusivamente, depois que "uma combinação de gritaria estourou ... com cerca de 150 membros da união se ajustando." Todas as perspectivas em cada tópico de disputa deveriam ser bem-vindas - como cidadãos de uma sociedade livre, nós todos seremos os mais ricos por isso - mas ninguém mais tem o direito de tentar suprimir a voz de ninguém, não importa o quanto desagradável aquela voz possa ser.

Qualquer tentativa de fechar a mente é uma questão de liberdade fundamental. Qualquer limitação do assunto ou ponto de vista, se imposto de dentro ou de fora, representa para nós todos uma restrição forte no livre jogo da imaginação. Assim como Salman Rushdie salientou, no que diz respeito aos escritores, você tem que sentir que escreve em liberdade absoluta - e liberdade de expressão não significa nada se ela não inclui a liberdade para ofender.

A partir desse tópico, a união dos escritores do Canadá assumiu uma posição mais definida. Numa decisão aprovada em junho de 1992, a união, "resolutamente", afirmou "a liberdade de imaginação e a liberdade de expressão de todos os escritores em qualquer lugar”. Entretanto, seguindo rapidamente essa afirmação estavam seis orações iniciando ou com "Mas desde que" ou "E desde que" - suas próprias versõezinhas de orações concessivas. O endosso da liberdade criativa é, então, qualificada, de uma forma ou outra, em reconhecimento de que "a mal- apropriação cultural existe como uma forma de opressão”. Ela termina com a declaração de que a União "reconhece e afirma a responsabilidade e a obrigatoriedade que visam à liberdade de imaginação e à liberdade de expressão”. Isso tem sido descrito por alguns como um chamado ao exercício da sensibilidade, um objetivo louvável, provavelmente. Mas, no reino da apropriação cultural, quem é que vai decidir o que é sensível, o que é responsável? E não são essas qualidades julgadas, essencialmente, sob critérios políticos, não-literários? E quanta sensibilidade, qual definição de responsabilidade, será aceitável aos ativistas políticos para os quais a noção essencial de escrita sobre uma cultura não a dele própria é anátema?

Embora maquiada, a posição da União dos Escritores do Canadá é menos uma resolução que uma irresolução.

No que se refere aos escritores, está claro que aqueles que defendem a chave da imaginação, ou que exigem que as imaginações dos outros procedam de formas prescritas, são profundamente ignorantes do processo da escrita.

Em uma entrevista, Timothy Findley disse uma vez, "Na comunidade gay eles dizem, 'Quando você vai escrever o romance gay ?' Mas eu não defino a minha vida pela minha sexualidade. Eu não sou um escritor gay , eu não sou um escritor homem, eu só sou um escritor. "

Somente um escritor: aquelas três palavras encontram-se no coração disso.

De certo modo, ser um escritor de ficção é a mais simples das tarefas. É ser um contador de histórias, nada mais, nada menos. Mas para contar uma boa história, e contá-la bem, é um processo exigente, às vezes, misterioso. Ser só um escritor é ser vítima, até certo ponto, das exigências e desejos do processo de escrita em si.

Uma descrição do meu processo de escrita - e é um pouco diferente para cada escritor - deve começar com o que eu não faço.

Eu não sento no meu computador e penso: Eu hoje escreverei uma história sobre uma mulher negra ou um homem judeu e ofenderei alguém - pois fazer isso seria engajar-se no jornalismo. Eu não decido que escreverei uma história para marcar pontos sobre racismo ou socialismo ou capitalismo - pois fazer isso seria engajar-se em propaganda. Eu evito, a qualquer preço, desempenhar o papel de marionete, bem como manipular meus personagens, dizendo-lhes o que pensar ou como agir; ou de insistir na essência política ou socialmente correta deles. Fazer qualquer um desses, seria matar toda a possibilidade de tecer ficção digna de crédito.

O conselho mais corriqueiro para jovens escritores é: Escreva sobre o que você sabe. Descreva, em outras palavras, o que você experimentou. É bom conselho - contanto que alguém lembre que há muitas maneiras de experimentar um evento. Escrever sobre o que você sabe não significa escrever somente sobre o que você viveu . Isso inclui tudo o que você veio a entender e apreciar através da troca de idéia, observação, leitura, sonho, filmes - os vários afluentes para a imaginação humana. O cérebro é um instrumento extraordinário; ele não é unidimensional e quase sempre conhece coisas de que nós não estamos conscientes. Ele, constantemente, processa aquela informação, acrescentando, reparando, alterando, conectando. É dessa forma que, originalmente, ocorre.

Como a minha ficção sucede precisamente, não é facilmente explicado. É um processo da mente, e quando me perguntam, como é freqüente, onde eu obtenho as minhas idéias para as histórias, eu não posso oferecer nenhuma resposta coerente. A verdade é que eu não sei realmente. O que acontece é isso: eu não acho as histórias, elas me acham.

Os personagens surgirão desordenados, freqüentemente resultando de histórias ou eventos que se gravaram em meu subconsciente; às vezes, suas vozes falam no mais inconveniente dos momentos (tal como quando eu estou no banho ou lavando a louça). Quando uma voz está obrigando, quando ela começa a relatar o conto, eu me esforço, com a linguagem que eu tenho à minha disposição, para capturar para o papel o que ela diz ou mostra para mim. Eu sigo a voz desse mundo, agradecido pela sua generosidade, compelido pela sua reticência. E é na escrita que eu descubro quem é o personagem, e qual história ele ou ela tem para contar. É na escrita, palavra por palavra, frase por frase, que eu descubro as aparências e as vidas dos meus personagens, suas alegrias e suas dores. Nada é planejado, nada é decidido antecipadamente. Enredo e estrutura cuidarão de si, moldadas pelas revelações das vozes na minha cabeça - vozes que pertençam a estranhos que eu, lentamente, começo a conhecer, palavra por palavra, frase por frase. É raro, quando eu começo a trabalhar com uma história, que eu saiba qual será o resultado - e mesmo quando eu sei, eu nunca tenho qualquer idéia de como nós chegaremos lá. Freqüentemente, na escrita, minha própria história me surpreenderá. Esse é o medo de escrever ficção: ser conduzido a um mundo, a vidas, nunca previstas.

Se os personagens vivem, às vezes eles farão e dirão coisas que eu não gosto ou com as quais eu não concordo, mas isso, longe de diminuir a validade deles, os conduzem a uma integridade maior. Em Immoral Fiction , Marlene Philip vê misogamia na descrição que faço de uma personagem feminina. A personagem não é fisicamente atraente; ela é descrita como "rosto descuidado", sua cor é pálida, seus seios são pêndulos. Eu poderia, eu suponho, ter interferido para fazê-la uma mulher mais atraente. Mas ela não era; o mundo está cheio de homens e mulheres que não são atraentes. Os personagens literários não são os brinquedos do escritor; eles não são um amontoado de argila para serem moldados em retratos idealizados. Se eles fossem verdadeiros, eles deveriam ser indivíduos, completamente, desenvolvidos com mentes e vidas próprias, existindo dentro do mundo criativo do escritor.

Os personagens literários devem ser verdadeiros só para eles mesmos e suas circunstâncias. Eles não devem fidelidade nem ao escritor nem ao grupo social ao qual pertencem. Eles são seres humanos que respiram, se realmente vivem, indivíduos com psicologia e biografia próprias, nem mais nem menos representativo ou simbólico de um grupo de qualquer espécie. O retrato, do qual Philip tem tal desgosto, não é considerado uma representação da feminilidade canadense; a personagem somente representa a si própria.

Obrigar os personagens a adotar uma postura predeterminada, é matar os personagens. É tirar a sua individualidade, remover sua liberdade de escolha. Quando as preocupações ideológicas são prioridade sob as artísticas, a arte - o conto, o romance, o filme - surge monótona e sem vida, o feito artístico é sacrificado ao documento político e, em particular, ao papel da ficção que é subvertido.

Assim como Timothy Findley não define sua escrita pelo seu gênero ou seu sexo, então eu não defino minha escrita pelo meu gênero e cor. A preocupação de um escritor vai além dessas caixas, extendendo-se a uma humanidade mais ampla. A romancista vencedora do prêmio nobel, Nadine Gordimer, uma mulher branca culpada de não escrever nem das perspectivas do branco nem da mulher, uma vez explicou sucintamente: "Quando isso surge para a faculdade essencial deles como escritores", Gordimer uma vez escreveu, "todos os escritores são seres andrógenos”. É por essa razão que a noção de apropriação cultural ou de voz é desprovida de legitimidade artística.

Mas há uma outra razão para essa falta de legitimidade e tem a ver com o papel da ficção, conforme eu a percebo.

Meu objetivo primário como escritor, conforme eu já afirmei, é contar uma boa história, entreter. Mas em parte ele é, também, o desafio de capturar tão precisamente como a língua representará um breve momento da experiência humana e compartilhar aquele sentimento, aquela percepção com outros. Eu, também, viso na minha escrita questionar realidades cruéis e desafiar verdades assumidas, para oferecer novos ângulos sobre verdades preestabelecidas.

Mas o desejo de escrever vai além disso, porque alguém também espera por um efeito grandioso. E o que poderia ser mais esplêndido que verter luz, na melhor das habilidades de alguém, sob o desconhecido? Essa é a razão por que eu sou atraído, na minha ficção, há personagens sugestivamente diferentes de mim. Escrever não é, para mim, nem autobiografia nem terapia. É, antes de mais nada, um ato de descoberta. Eu procuro, através da exploração literária, compreender vidas muito diferentes da minha própria, exercendo o que eu chamaria de desmistificação do Outro . É somente através da verdadeira compreensão dos outros que nós podemos sempre esperar fazer progresso real contra o racismo, sexismo e todos os outros males que nos afligem. Somente ao substituir ignorância por conhecimento - não a retórica da política, não as simplicidades dos estereótipos multiculturais, mas os detalhes íntimos de vidas únicas - nós podemos esperar para movermo-nos para além deles. É, precisamente, por isso que eu não tenho vivido a vida que eu procuro explorar e, eu espero, compreendê-la - e, com sorte, ajudar os outros a compreendê-la, também. É por isso que eu não escrevo sobre comunidades, racial ou étnica. Essa é a razão por que eu escrevo sobre os indivíduos. Na minha ficção, a humanidade não é a minha preocupação. Os humanos são.

Em junho de 1990, a dramaturga Joanna Glass escreveu em The Globe and Mail sobre a Segunda Conferência Internacional de Dramaturgas Femininas em Toronto. Ela escreveu com dor indisfarçada e raiva indissolvida ao encontrar um predomínio político. Ela contou com embaraço sobre a dramaturga soviética que viu o seu tradutor despejado por ser homem; sobre dois dramaturgos que foram, abertamente, ridicularizados depois de admitir a sua heterossexualidade. Ela descreveu várias "coleções" detendo sinais de identificação: "Mulheres de Cor" disse alguém; "Mulheres de Palidez" disse um outro. Lamentando a falta de dramaturgos sérios e a ausência de toda discussão sobre o artesão, Glass queria saber, lamentosamente, porque ela tinha que procurar tanto para achar as Mulheres de Talento. Isso era tanto com a Conferência de Mulheres Dramaturgas, como é nos debates sobre apropriação de voz e "Escrita Através da Raça”. As Mulheres de Talento, como se suspeita, estavam em suas mesas, trabalhando em seu ofício. "Eu acredito que seja importante salientar", Glass escreveu, "que os demagogos não são espancadores de mulheres do gênero que eles tanto desprezam. Eles são fanfarrões. O comportamento deles não deveria ser condenado por ninguém, de qualquer persuasão política ou sexual. Eles, severamente, impedem nossa causa”.

Os demagogos estimulam o povo a fim de obter atenção. É aconselhável sempre decifrar o que eles dizem, para julgar a legitimidade não só das suas reclamações, mas das suas propostas, para separar o sábio do tolo, o significante do insignificante, o genuíno do falso. A tarefa é determinar quem, ou quais, em outras palavras, são merecedores de atenção duradoura.

Na Brick , Dionne Brand considerou exceção a minha história The Cage e o retrato sobre uma jovem mulher japonesa buscando liberdade em uma nova terra. Isso só "revalida o mito da 'mulher oriental' no discurso eurocêntrico", ela escreve. Isso é crítica, embora, ela deva ser pesada contra a mais positiva reação de uma variedade de outras mulheres, mais notavelmente uma jovem mulher da Malásia que, depois de ler a história, comentou para um amigo próximo que embora nós nunca tivéssemos nos encontrado, ela sentia que eu havia compreendido algo vital sobre a sua própria vida.

Marlene Philip repreende o meu romance A Casual Brutality por causa do seu defeito político - e isso também é crítica que deva ser pesada contra as palavras de um jovem homem etíope que me procurou para dizer que o romance, estabelecido em Toronto e no Caribe, realizou ressonâncias assombrosas para ele.

E as objeções políticas perderam todo o significado antes da atitude perturbadora de uma jovem refugiada romena que, depois de ler em aula a história de um pretendente refugiado latino-americano, agradeceu-me por explicar aos seus colegas, mais claramente do que ela poderia, como era viver a vida de refugiado.

Se eu me satisfizer em alguns dos comentários positivos que meu trabalho recebeu, é só para contrastar a reação de leitores não-políticos contra as reclamações daqueles politicamente motivados. Ela é uma tentativa de mostrar onde se encontra a verdadeira importância da expressão artística.

Eu não confio em ninguém que exija falar no nome dos Povos. Os Povos têm sua própria voz. Os demagogos não representam o eleitorado, exceto suas próprias obsessões ideológicas. Sua mensagem é aquela da negação e divisão, procurando levantar o " multicultural ", o apartheid como paredes ao redor dos guetos de comunidades étnicas e culturais. Eles são barulhentos - mas isso não significa que eles sejam certos.

Política na pintura. Política na escrita. Política no teatro. É curioso que artistas, que raramente dão atenção às homilias de políticos, deveriam dar tal atenção às homilias daqueles que são políticos quase no nome. A psicologia e a política do multiculturalismo produziram discórdia em nome dos direitos étnicos e raciais, socialmente aceitáveis. Eles deram legitimidade, aqui, para o que era uma vez deplorado na racialmente segregada África do Sul. Conduzidos por um plano aparentemente benigno e traídos por nossas próprias sensibilidades, nós alcançamos um círculo completo e curioso.

Um tipo de coragem é exigida agora, a coragem para reconhecer a insensatez e dizer não para ela: a coragem do senso comum e a verdadeira sensibilidade exibida pelo editor de The Hockey Sweater que, ao recusar o pedido de deletar da história as referências a Deus, salientou que "uma das propostas de educação é adotar tolerância de variadas experiências e crenças de outros que compartilham este planeta.

Como escritor, continuarei a praticar o meu ofício. Continuarei, como continuarão muitos outros, a contar as histórias de homens e mulheres que se apresentam à minha imaginação, indiferentemente da raça, indiferentemente do gênero. Eu continuarei a perseguir, minha melhor habilidade, a desmistificação do Outro.