Recusa global - projeções liberantes

Paul Émile Borduas
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Comentário: Leonor de Abreu (ILV - Universidade de Lovaina)

Lugar de memória por excelência, o manifesto " surracional " Recusa global , de autoria do pintor e professor de desenho Paul-Emile Borduas, permanece, indubitavelmente, um dos pólos magnéticos mais significativos na história cultural do Quebec. Pedra inaugural da modernidade, vetor axial através do qual irrompe o conceito mesmo de vanguarda, na interface entre cosmopolitismo e localismo, o movimento em torno de Recusa global , designado por "automatismo", estabelece a ponte entre arte e conhecimento, entre arte e discurso, e encena as premissas fundamentais que culminam no processo conclusivo de desalienação e de autonomização da práxis literária e artística, inflectindo destarte na própria conformação do imaginário coletivo do então Canadá-francês.

Misto de poema, panfleto e ensaio, Recusa global é lançado a 9 de agosto de 1948, na livraria Tranquille de Montreal, na brochura coletiva epônima, juntamente com "objetos surracionais " de Claude Gauvreau, textos de Bruno Cormier, Françoise Sullivan e Fernand Leduc, e ilustrações de Jean-Paul Riopelle. Síntese das paixões e das reflexões de seu autor, endossadas pelos quinze signatários - a destacar sete mulheres ! -, pela primeira vez na história do Quebec um texto provoca tal fúria repressora; Borduas é sumariamente demitido do seu cargo na Escola do Mobiliário por razões de " conduta e escritos incompatíveis com a função de um professor numa instituição de ensino da província de Quebec " (BORDUAS, 1990: 57).

Recusa global irrompe num espaço onde predomina uma asfixiante " ideologia de conservação ", sob o regime de feição nacionalista e fascisante de Maurice Duplessis - conhecido como a " Grande Negridão " -, amplamente enfeudado à herança clérico-tradicional asfixiante, ao moralismo verboso e ao embrutecimento intelectual. O teor incendiário do manifesto mobiliza a imprensa, assanha os detratores de toda modernidade e os poderes constituídos, impermeáveis às mutações artísticas, sociais e políticas do restante do planeta. Inscrevendo-se numa tradição que remonta ao romantismo, o artista se sente investido de uma missão : proceder à descolonização dos territórios interiores e liberar as forças do desejo para a realização das necessidades mais abrangentes (psicológicas e sociais), associando neste movimento as culturas subjugadas e as classes oprimidas da sociedade, configurando para ambas o mesmo desejo de emancipação total. Promove-se uma história sincrônica, como forma de liberação de um passado opressor: " chega do assassinato maciço do presente e do futuro a golpes redobrados de passado ". A um projeto estético se soma um imperativo ético que se inscrevem num plano revolucionário. Uma das palavras de ordem emblemáticas do manifesto é justamente " Para o inferno a religião e tradição !". A fim de se exorcizar o medo paralisante - " refúgio habitual dos vencidos " - e de conjurar toda uma herança de recalque, conclama Borduas que " o reino do medo multiforme terminou ": " medo dos preconceitos ", " medo de si", "medo das relações novas", "medo das portas escancaradas sobre a fé no homem - na sociedade futura" . Ao grande medo, à angústia, à ignorância, ao aviltamento e à razão onipotentes, opõe o artista uma nova sensibilidade individual e coletiva. O propósito profanador de queimar todos os interditos em relação à ordem estabelecida da arte e da sociedade erige-se em paradigma crítico por excelência.

À semelhança da dialética hegeliana, com projeção para o futuro, o manifesto automatista estrutura-se em três movimentos (tese, antítese e síntese): 1° dissecação da sociedade canadense-francesa, vítima de traumas históricos com a passagem para o domínio britânico em 1760: " nosso destino se afigurou duramente fixado "; 2° descrição do movimento de tomada de consciência através de viagens ao exterior, da infiltração da leitura dos poetas malditos - porta-vozes dos silenciados - e de revoltas sociais e religiosas: " Lentamente a brecha se alarga, se estreita, se alarga ainda ", " as fronteiras de nossos sonhos não são mais as mesmas "; 3° apelo a mutações estruturais suficientemente poderosas, de forma a reterritorializar as camadas mais profundas do ser, reatar com as fontes vivas e o exercício do pensamento "selvagem" - mágico e intuitivo - e agir e insuflar as energias indispensáveis à consolidação de uma verdadeira "fraternidade humana" : " uma nova esperança coletiva nascerá ", " nossas paixões fabricam espontaneamente, imprevisivelmente, necessariamente o futuro ".

Como dinâmica interna do corpo textual - no qual sobressaem os aforismas secos e cortantes -, assiste-se ao agenciamento de uma lógica dicotômica, binária, na qual predomina a oposição de dois paradigmas - o eufórico e o disfórico, que reenviam ao antagonismo "positivo/negativo" -, que se erigem enquanto absolutos inconciliáveis: generosidade/fatalidade; ato de fé/ato intencional; servidão/liberdade; mistérios objetivos/ilusões: espontaneidade/estudo racional; intuição/razão; paixão/ação interessada. As marcas enunciativas do manifesto evidenciam igualmente a suspeição reiterada perante a solução científica e religiosa, bem como as reticências face às motivações (exclusivamente sociais) do Partido (comunista); atestam elas, sobretudo, as recusas parciais (romper com o utilitarismo, o racionalismo redutor, o confinamento estético, o rebaixamento moral, o silêncio, a recuperação institucional, a intencionalidade) e a ruptura global, de civilização, de desejos, de esperança, em suma, um projeto de liberação do homem sob todas as formas: não apenas transformar - na aparência -, mas mudar - na essência.

Inscritas sob o signo da negatividade, as asserções, peremptórias e exclusivas, suscitam, como contrapartida, a inversão geral das hierarquias. A positivação dos elementos recalcados - a restauração simbólica do oprimido - e o convite à "aceitação global " da vida e de suas riquezas expressam-se na reivindicação:

ESPAÇO À MAGIA! ESPAÇO AOS MISTÉRIOS OBJETIVOS!

ESPAÇO AO AMOR!

ESPAÇO ÀS NECESSIDADES !

À recusa global nós opomos a inteira responsabilidade.

O manifesto libertário Recusa global procede de um intenso ato de fé na emergência da liberdade. Assumindo plenamente o risco e a responsabilidade, Borduas e a geração automatista desfecham um golpe no pensamento cartesiano e dualista ocidental - e em seu sucedâneo, a lógica abstrata -, recusam a fratura ontológica configurada na dissociação entre o ser e sua expressão, entre o mundo da percepção e o mundo da representação. Defendem a unidade do pensamento ao reconhecer o papel crucial do inconsciente e da intuição no cerne da vida psíquica e os efeitos de interpenetração entre atividade consciente e atividade inconsciente num continuum ativo, convidando à prospecção do universo interior, esse " espólio mágico conquistado ao desconhecido ". Em sua démarche intelectual e plástica, apelam para a renovação das fontes emotivas das faculdades humanas e para o advento de uma civilização que tenha como espinha dorsal o amor, reencontrado pela mola mestra do desejo selvagem, e que se espraie na vertigem que provoca a embriaguês.

Para melhor se compreender a amplitude das operações discursivas deste "manifesto surrealista", como a imprensa o classifica e, insidiosamente, desqualifica, necessário se torna uma referência ao diálogo intertextual que este escrito estabelece com as vanguardas européias das três primeiras décadas deste século, ditas vanguardas históricas, como o futurismo , o cubismo , o expressionismo , o dadaísmo e o surrealismo . A despeito de uma forte atração dadaísta, Recusa global deve ser analisado na linhagem dos diversos manifestos e documentos do movimento surrealista francês desde a sua fundação em 1924 (primeiro Manifesto do surrealismo de André Breton) e, mais especificamente, na ambiência gerada em torno das declarações coletivas do imediato após-guerra, as quais reafirmam o seu corpus teórico: Liberdade é uma palavra vietnamita (abril de 1947 : denuncia a guerra colonial movida pela França em nome da " liberdade "), Ao nicho as carpideiras de deus! (junho de 1948: repele qualquer tentativa de recuperação cristã do movimento) e, sobretudo, Ruptura inaugural (21 de junho de 1947), subscrito por 47 signatários de diversos países, entre os quais Riopelle, e que o próprio Borduas fora convidado a endossar. Neste texto, como em Recusa global, são abominadas as ditaduras tanto de direita como de esquerda, a religião e a moral burguesa, resgatando-se as recusas fundamentais do surrealismo nos planos social e ideológico : o imperialismo, o stalinismo e o cristianismo. O movimento francês constitui, inegavelmente, o epicentro em torno do qual se posicionam e se demarcam os automatistas :

O surrealismo foi para nós a ocasião de nossa evolução sensível. Ele permitiu os contactos escaldantes dos escândalos generosos que sem ele não teríamos provavelmente conhecido, atolados que estávamos em preconceitos sem número. Ele [] nos revelou uma grande fatia de nós mesmos. Nós somos os filhos imprevisíveis, quase desconhecidos do surrealismo. Filhos ilegítimos, talvez, cuja filiação se fez à distância, não voluntariamente da nossa parte, mas pela força das coisas (BORDUAS, 1990: 268).

Não obstante as similaridades pertinentes às duas sensibilidades, os laços de parentesco reivindicados e a ascendência moral reconhecida, os automatistas receiam a diluição de suas reivindições no seio de um movimento mais amplo e optam por inscrever sua revolta coletiva na denúncia sistemática da realidade do Canadá-francês. De ordem essencialmente estética e tributárias da diferença de gerações, as reticências manifestadas por Borduas não impedem que o surrealismo se reconheça "como num espelho" (Breton) na publicação automatista. Pois, ao colocar no mesmo plano a escrita automática - experiência - limite do surrealismo - e a pintura "automática", Borduas pretendia descer ao grau zero do ser, alcançar uma espécie de zen da pintura/escritura, como forma de se eliminar toda a intenção, deixando o espaço liberto para a magia criadora, situando-se destarte numa perspectiva ética, de caráter premonitório, ao propugnar a liberdade absoluta. À semelhança dos signatários de Ruptura inaugural , os futuros quebequenses reivindicam para si a contribuição de Sade e de Lautréamont (e, implicitamente, a de Freud) para erigirem uma nova moral de fusão da arte com a vida, a ser instaurada sob o princípio do prazer, da paixão regeneradora, no desejo de fundir sonho e realidade e de superar o até hoje irreparável divórcio entre o mundo psíquico e o mundo da razão. "[D]estruir os malentendidos, ordenar na unidade elementos contraditórios" (BORDUAS, 1990 : 124) é a tarefa prometeica que se impõem, na tentativa de restaurar a unidade perdida, como refere Borduas em Projeções libertadoras (1949), ensaio que restitui o contexto de germinação de Recusa global . A confiança na perfectibilidade do destino do homem mantém-se intacta e a chave encontra-se à mão: "Não busquem a chave misteriosa, ela não existe. A porta que conduz ao pátio interior está aberta de par em par" (BORDUAS, 1990 : 257). Essa porta é o automatismo, prática fundamental do surrealismo - automatismo psíquico para Breton, automatismo surracional para Borduas - que permite adentrá-lo, é o método que se afigura capaz de desvendar o inconsciente e que proporciona um melhor conhecimento do homem ao possibilitar a prospecção existencial do homo quebequensis .

Assim como o surrealismo teve como premissa constante a necessidade de uma nova sensibilidade coletiva, também Recusa global resgata para si tal premência ao se impôr um dever " magnífico ", o de recuperar e conservar através da aventura poética o tesouro coletivo constituído pelo potencial " mágico " criador que permitirá ao homem libertar-se de suas " correntes inúteis, [e] realizar na ordem imprevista, necessária da espontaneidade, na anarquia resplandecente, a plenitude de seus dons individuais ". Toda a inspiração libertária de desalienação do espírito, toda a reivindicação de amor, poesia e liberdade acham-se expressas no grito de insurreição de Leduc em Recusa global , sintetizando as palavras de ordem do grupo: "Quer queiramos quer não: nossa justificação, o desejo, nosso método, o amor, nosso estado, a vertigem, isto permitiu e permite obras irmãs da bomba atômica, que chamam os cataclismos, desencadeiam os pânicos, comandam as revoltas, TODAS as revoltas" (JAGUER, 1982: 240). De natureza epistemológica, posto que pretende revelar o homem duplamente, a si mesmo e ao mundo, a trajetória inscrita aponta para a completitude ontológica com vistas a recriar "um mundo novo onde as paixões mais generosas possam se desenvolver numerosas, COLETIVAS" (BORDUAS, 1990: 125).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU, Leonor de. Recusa global : o despertar da identidade poética quebequense. In: PONGE, Robert (org.). Surrealismo e novo mundo . Porto Alegre: Editora da Universidade UFRGS, 1999. p. 187-200.

BORDUAS, Paul-Émile. Refus global et autres écrits . Montréal: L'Hexagone, 1990.

BOURASSA, André-G. Surréalisme et littérature québécoise . Montréal: Typo, 1986.

JAGUER, Edouard. Leduc, Fernand. In: BIRO, Adam ; PASSERON, René (dir.). Dictionnaire général du surréalisme et de ses environs . Paris : PUF, 1982.