Recusa global - projeções liberantes

Paul Émile Borduas

Tradução:

Francisca Heraud

BORDUAS, Paul Émile. Refus global: projections libérantes. Montreal: Parti Pris, 1977. p. 34 - 40.

Comentário: Leonor de Abreu (ILV - Universidade de Lovaina)

RECUSA GLOBAL - PROJEÇÕES LIBERANTES

A divisão entre os poderes psíquicos e os poderes do raciocínio está próxima do paroxismo.

Os progressos materiais, reservados as classes possuidoras, metodicamente moderadas, permitiram a evolução política com a ajuda de poderes religiosos (depois sem eles) mas sem mudar os fundamentos de nossa sensibilidade, de nosso subconsciente, sem permitir a plena evolução emotiva da multidão que teria podido nos tirar da profunda rotina cristã.

A sociedade nascida dentro da fé sucumbirá com a arma da razão: a INTENÇÃO.

A regressão fatal da força moral coletiva em poder estritamente individual e sentimental já construiu o substituto da fascinante tela do saber abstrato sob o qual a sociedade se dissimula para devorar comodamente os frutos de seus delitos.

As duas últimas guerras foram necessárias para a realização desta situação absurda. O terror da terceira guerra será decisivo. A hora H do sacrifício fatal se aproxima.

Os ratos europeus já procuram uma ponte perdida sobre o Atlântico para a fuga. Os acontecimentos se precipitarão sobre os ávidos, os suntuosos, os calmos, os cegos os surdos.

Eles serão derrubados sem misericórdia.

Uma nova esperança coletiva nascerá.

Já existe o ardor de excepcional lucidez, a união anônima na fé reencontrada no futuro, na coletividade futura.

O surpreendente espólio conquistado de uma forma extraordinária do inimigo, espera sua utilização. Ele foi reunido por todos os verdadeiros poetas. Seu poder transformador é medido pela violência exercida contra ele, em seguida à sua resistência às tentativas de utilização (há mais de dois séculos é impossível encontrar Sade nas livrarias, Isidore Ducasse, depois de mais de um século de sua morte, de revoluções, de carnificinas, apesar do hábito do pardieiro atual, continua o mais viril para as covardes consciências contemporâneas).

Todos os objetos do tesouro se revelam invioláveis pela nossa sociedade. Eles continuam a incorruptível reserva do amanhã. Eles foram ordenados espontaneamente fora e contra a civilização. Eles esperam tornar ativo (sobre o plano social) o desimpedimento das necessidades atuais.

Daqui até lá nosso dever é simples.

Romper definitivamente com todos os hábitos da sociedade, sem a dependência de seu espírito utilitário. Negação de estar cientemente abaixo de nossas possibilidades psicológicas e psíquicas. Recusar a fechar os olhos diante dos vícios, dos enganos cometidos sob o disfarce do saber, do serviço prestado, do conhecimento devido. Recusa de um acantonamento dentro da única aldeia plástica, espaço fortificado mas muito fácil de ser interditado. Recusa de calar-se - façam de nós aquilo que agrada a vocês mas vocês devem nos escutar - recusa da glória, das honras (o primeiro aprovado): marcas do prejuízo, da inconsciência, da servidão. Recusa de servir, de ser utilizado para tais fins. Recusa de toda INTENÇÃO, arma nefasta da RAZÃO. Abaixo todas as duas, ao segundo plano!

ESPAÇO À MAGIA! ESPAÇO AOS MISTÉRIOS OBJETIVOS!

ESPAÇO AO AMOR!

ESPAÇO ÀS NECESSIDADES!

À recusa global nós opomos a responsabilidade completa.

A ação interessada permanece ligada ao seu autor, ela é morte nascida.

Os atos passionais nos escapam em razão de seu próprio dinamismo. Nós aceitamos, de maneira alegre, a completa responsabilidade do amanhã. O esforço racional, uma vez voltado atrás equivale a liberar o presente das incertezas do passado.

Nossas paixões fabricam espontaneamente, imprevisivelmente, necessariamente o futuro.

O passado aceito com o nascimento não saberia ser inviolável. Nós estamos sempre quites com ele.

É ingênuo e prejudicial considerar os homens e as coisas da história dentro do ângulo amplificador da forma que lhes atribui qualidades inacessíveis ao homem presente. Certamente essas qualidades estão fora do alcance dos hábeis plágios acadêmicos, mas elas o são automaticamente a cada vez que um homem obedece às necessidades profundas do seu ser; a cada vez que um homem se consente a ser um homem novo, em um novo tempo. Definição de todo homem, de todo tempo.

Acabado o assassinato maciço do presente e do futuro com a violência do passado.

É preciso somente liberar do ontem as necessidades do hoje. O melhor amanhã será a consequência imprevisível do presente. Nós não nos preocupamos com o futuro antes da sua chegada.

ACERTO DE CONTAS FINAL

As forças organizadas da sociedade nos criticam por nosso entusiasmo à obra, pela profusão de nossas inquietações, nossos excessos como um insulto a sua fraqueza, a sua calma, ao bom gosto para o que é da vida (generosa, cheia de esperança e de amor pelo hábito perdido).

Os amigos do regime desconfiam que nós favorecemos a "Revolução". Os amigos da "Revolução" acreditam que nós somos revoltados: "…nós protestamos contra o que é, mas com o único desejo de transformá-lo e não de mudá-lo.

Se delicadamente assim é dito, nós pensamos entender.

Trata-se de classe.

Atribuem-nos a vontade ingênua de querer "transformar" a sociedade substituindo os homens do poder por outros semelhantes seus. Neste caso, certamente eles.

Mas eles não são da mesma classe! Como se mudança de classe implicasse mudança de civilização, mudança de desejos, mudança de esperança!

Eles se sacrificam a um salário fixo mais um lucro de vida cara, a organização do proletariado; eles tem razão. A preocupação é que uma vez a vitória bem estabilizada mais os salários atuais reduzidos, eles exigem do proletariado, sempre da mesma maneira um regulamento de custos suplementares e uma renovação a longo prazo, sem uma possível discussão.

Nós reconhecemos, mesmo assim, que eles estão na linhagem histórica. A salvação só virá depois da exploração excessiva.

Eles serão este excesso.

Eles o serão em toda a fatalidade sem que aí exista uma necessidade qualquer, em particular. A festança será abundante. De antemão nós recusamos essa partilha.

A vocês a avidez de lucros racionalmente ordenada (como tudo que está no seio afetuoso da decadência) a nós a imprevisível paixão, a nós o risco total na recusa global.

Está fora de dúvida que as classes sociais tenham-se sucedidas ao governo dos povos sem perseguir a irrevogável decadência.

Está fora de dúvida que nosso conhecimento histórico possa nos assegurar que somente um completo desabrochamento de nossas aptidões, primeiro lugar, e em seguida uma perfeita renovação das fontes emotivas possam nos tirar do impasse e nos colocar no caminho de uma civilização ansiosa por nascer.

Todos, cada um no seu lugar, concordam em nos tratar com indulgência, se pelo menos nós admitirmos considerar sob todos os aspectos suas possibilidades de alteração da realidade através de uma combinação sábia de nossas atividades.

Nós teremos fortunas se nós rebaixarmos nossas viseiras, obstruirmos nossos ouvidos, precisarmos nossas causas e atrevidamente traçarmos um caminho, aqui e ali, no meio da aglomeração.

Nós preferimos ser cínicos espontaneamente, sem malícia.

Pessoas amáveis riem do nosso pouco sucesso monetário com nossas exposições coletivas. Elas tem assim a agradável sensação de serem as primeiras a descobrir seu pequeno valor comercial.

Se nós mantemos exposições constantes não é com a ingênua esperança de ficarmos ricos. Nós conhecemos aqueles que estão na direção oposta de onde nós estamos. Eles não saberiam se expor a estes contatos revolucionários.

No passado, somente os equívocos involuntários permitiram tais vendas.

Nós esperamos que este texto seja capaz de dissipar estes equívocos do futuro.

Se nossas atividades tornam-se urgentes é porque nós sentimos de uma forma violenta a necessidade inadiável da união.

Com a união o sucesso manifesta-se.

Ontem nós estávamos sozinhos e indecisos.

Hoje um grupo existe com ramificações profundas e corajosas; elas já ultrapassam as fronteiras.

Nós delegamos também um magnífico dever: conservar o precioso tesouro que nos diz respeito. Ele também está na linhagem da história.

Objetos tangíveis, eles requerem uma relação constante renovada, confrontada, posta em questão. Uma relação impalpável e exigente que necessita de forças da ação.

Este tesouro é a reserva poética, a renovação emotiva que funcionará como fonte para os séculos vindouros. Para que ele possa ser transmitido, ele é transformado, senão é a deformação.

Aqueles que são tentados pela aventura que se juntem a nós.

A termo imaginável nós pressentimos o homem liberado de suas inúteis correntes, realizar na ordem imprevista, necessária da espontaneidade, na anarquia resplandecente, a plenitude de seus dons individuais.

Daqui até lá, sem descanso nem parada, em comunhão de sentimentos com os ávidos de uma melhora, sem medo dos longos prazos, no estímulo ou na tirania, nós perseguiremos na alegria nossa selvagem necessidade de libertação.