Cultura brasileira e culturas brasileiras

Alfredo Bosi
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O texto "Cultura brasileira e culturas brasileiras", capítulo do livro Dialética da Colonização (1) (1994), foi redigido por Alfredo Bosi entre 1979 e 1980. Modificações nos rumos da educação e da sociedade, não previstas pelo autor na época de sua escrita, fizeram-no elaborar o Post-scriptum 1992, inserido no mesmo livro. Este segundo texto não invalida nada do que foi dito no final dos anos 70, apenas acrescenta outros elementos à análise do mundo contemporâneo e da inserção do Brasil neste contexto.

O ensaio inicia colocando em questão o uso do termo "cultura" no singular, uma vez que não se pode assim falar em unidade, para aludir a um país tão híbrido culturalmente, uniformidade, aliás, que, como bem salienta o autor, não existe em nenhuma sociedade moderna, sobretudo em sociedades de classes. Já na primeira metade do século XX, a Antropologia Cultural já fazia uma caracterização do Brasil em várias culturas, aplicando-lhe o critério racial: raças negra, branca, indígena, mestiça. Os critérios de denominação podem mudar, segundo Bosi, mas o essencial é manter a idéia de pluralidade cultural.

Concebendo cultura como "uma herança de valores e objetos compartilhada por um grupo humano relativamente coeso", Bosi propõe outras formas de caracterização da cultura brasileira, que se afastam do critério, acima referido, para ressaltar alguns pólos culturais nitidamente afastados, tais como Academia e Folclore, Cultura criadora e Cultura de massas. O primeiro dualismo - Academia e Folclore - põe em contraste a produção e reprodução acadêmica do saber acumulado pela humanidade - objeto de estudo das instituições de ensino - e o saber popular, produto da cultura basicamente iletrada, que "corresponde aos mores materiais e simbólicos do homem rústico, sertanejo e interiorano, e do homem pobre suburbano" que ainda não assimilou bem as estruturas simbólicas da cidade moderna (p.309). O segundo dualismo dá conta do contraste entre a cultura criadora, realizada por escritores, artistas plásticos, músicos, dramaturgos, em resumo, por intelectuais que não produzem dentro do âmbito universitário e que juntos formariam, independentes das tendências e motivações ideológicas, um sistema cultural que Bosi rotula de alto, opondo-o à cultura de massas - chamada de indústria cultural ou cultura de consumo pela escola de Frankfurt. Trata-se da fabricação cultural em série, para as massas, explorando processos psicológicos como "sentimentalismo, agressividade, erotismo, medo, fetichismo, curiosida de", os quais envolvem os destinatários e os mantêm cativos (p. 321). Para o autor, estas dicotomias, quando articuladas, podem ser pensadas sob outra forma de agrupamento, assim organizada: de um lado, a cultura produzida nas instituições - a da universidade e a dos meios de comunicações -, de outro, a produzida fora dela - a cultura criadora e a cultura popular.

Detendo-se na reflexão da cultura universitária , Bosi denuncia o decréscimo progressivo do ensino humanístico tradicional (como sabemos, a Reforma posta em vigor em 1971 deu o arremate final), que incluía Grego, Latim, Filologia, Francês, disciplinas que estão hoje acantonadas no curso de Letras, mas anteriormente estavam presentes desde o ensino médio e constituíam a formação comum ao clero e magistratura.

O esvaziamento da formação clássica é seguido de uma tendência à abordagem estrutural e acrônica "da cultura lingüística, literária, jurídica e, até mesmo, religiosa" (p.311). Em conseqüência disso, os estudos literários ficam à mercê da sincronização das formas e dos significados, que são recortados como se fossem contemporâneos à nossa consciência estética e às nossas ideologias. O resultado é que se lê o que não poderia estar historicamente no texto e não se lê aquilo que nele está concretamente posto. Para Bosi, esse anti-historicismo tem um significado peculiar: assinala a "senescência da primeira visão de mundo apontada" (da tradição humanística) e, ao mesmo tempo, guarda um aspecto negativo da velha Retórica, dado o autor aponta como um ponto nevrálgico da transformação: " o ato de subtrair o texto à contingência dos tempos, sejam eles passados ou contemporâneos " (p.311). O que a Retórica fazia, absolutizando o texto, sem levar em conta o contexto de sua produção, o estruturalismo acrônico passa a fazer, negando-se a estudar o texto literário como expressão de um determinado momento social, mas focalizando-o com idéias e valores contemporâneos aos do analista. Conclui o autor que os extremos se tocam: "o espírito classificatório, aristotélico, da velha retórica tende a conciliar-se com o rigor das partições estruturais", assim como se aliaram, no séc. XIX, filologia e positivismo"(idem).

Em meados da década de 70, como o estruturalismo não consegue satisfazer à dinâmica real dos cursos universitários, começa a surgir, no Brasil, a busca de novos significados e valores, e os estudos literários passam a organizar uma cultura de resistência à visão tecnicista dominante, que coincide com a abertura política. No âmbito das Ciências Sociais, Bosi observa que a aliança entre a técnica neutra e a opressão ideológica provoca muita desconfiança entre os pesquisadores da área, motivo por que rejeitam as receitas positivistas e funcionalistas e associam a sociologia à dialética, pretendendo "fazer do seu conhecimento um instrumento eficaz de transformação" (p.313).

A este movimento de resistência ao tecnicismo e, ao mesmo tempo, de consciência da necessidade de transformação, a tecnoburocracia respondeu com medidas eficazes, das quais Bosi destaca cinco: 1) inserção, em todos os graus de ensino, de disciplinas de doutrina sócio-política sustentada por ideais neocapitalistas (OSPB; EPB), que apresentam uma Nação-Estado em plena fase melhoramento técnico e progresso social (ideologia do Brasil Grande e do Milagre Brasileiro); 2) substituição do estudo de História Geral, História do Brasil, Geografia Geral e Geografia do Brasil por uma disciplina mista, chamada Estudos sociais, com problemas metodológicos significativos, devido à amplitude programática e à indiferenciação entre as áreas de que se apropria; 3) eliminação da disciplina Filosofia dos cursos médios, que propiciava aos alunos o desenvolvimento da reflexão teórica e crítica; 4) gradual exclusão do ensino de francês nos ensinos médios e até superiores, que foi substituído por inglês, fato que acarretou a perda de um dos instrumentos de conhecimento mais importante para a área das ciências humanas; 5) implantação do vestibular unificado que, num primeiro momento, se estrutura sem redação e orienta o segundo grau na direção de uma linha informativa, em detrimento da formativa e axiológica, oportunizando também o crescimento dos cursinhos pré-universitários, multiplicadores de informações e técnicas de memorização.

Frente a todas essas medidas, Bosi observa que se desenvolve um campo de tensões entre o modo de ler a cultura em conformidade com os movimentos pragmáticos do neocapitalismo - visão de mundo dos tecnocratas - e o modo crítico, visando à desmistificação das ideologias - próprio dos estudiosos de cada área. Desta forma, cria-se a contradição entre as tendências que Bosi chama especulares e as tendências críticas . As especulares são assim chamadas porque "espelham a rede dos interesses dominantes, arrastando, portanto, consigo a força dos fatos" (p.316).

Com relação às dissidências, remetendo a reflexões de Adorno e Umberto Eco, Bosi observa muito bem que a sociedade de consumo sabe muito bem aproveitá-las, transformando as críticas em mercadorias e moda e, com isso, esvaziando o seu efeito de conscientização e de transformação do status quo . Segundo o autor, a neutralização das possíveis dissidências é um comportamento próprio das sociedades neocapitalistas, que só se valem do recurso da punição em relação a atitudes que consideram mais capazes de despertar a "consciência das contradições".

Lucidamente, Bosi conclui que o sistema tem uma certa margem de indulgência para com aquilo que não vem de encontro à sua auto-conservação econômica, motivo por que, no final dos anos 70, a liberalização de costumes e da linguagem estão dentro desta margem de tolerância 2 . Mas, na prática da coibição, a ausência de uma certa filosofia, embasada em uma escala de valores (afora a da auto-conservação), faz com que o sistema sofra de uma certa instabilidade e até mesmo incoerência, quando se trata de praticar a censura em vários âmbitos ou de estabelecer programas institucionais. Nestes, os discursos são permeados de falas, que pertencem a correntes antagônicas - críticas e especulares -, como se pode observar no excerto do Plano Setorial de Cultura (1975-9), citado pelo ensaísta.

Quando se volta para a cultura fora da universidade , Bosi considera que o que caracteriza a cultura extra-universitária é o seu caráter difuso, produto da mescla de toda a vida psicológica e social do povo brasileiro. Ao contrário da cultura acadêmica - feita de discursos marcados e tematizados, - na cultura descolada do circuito universitário, os símbolos e bens culturais não são objeto de análise, mas vividos e pensados (p. 320).

Neste âmbito, encontramos a indústria cultural, cujos bens simbólicos são consumidos, sobretudo, através dos meios de comunicação de massa. Esses bens são veiculados através da televisão, rádio, histórias em quadrinho e fotonovelas, revistas femininas, tratando-se, na verdade, como observa Bosi, de uma cultura para massas . O autor ressalta que, na década de 60, não houve mudanças essenciais na circulação e produção desses bens, e podemos até dizer o mesmo sobre as décadas seguintes. Contudo - assinala Bosi - a grande diferença diz respeito à posição crítica dos intelectuais que, nos anos 60, liam Marshall MacLuhan e viam com certo entusiasmo a mass communitation , mas, a partir dos anos 70, passam a ter uma atitude crítica, razão por que se produzem muitas dissertações e teses nas universidades que denunciam a ideologia conformista da indústria cultura , veiculada por programas de televisão e histórias em quadrinhos.

Ao lado da cultura para massas , Bosi identifica uma cultura popular, cuja fecundidade se manifesta através de inúmeros fenômenos simbólicos que exprimem o coração da vida brasileira. O imaginário popular se revela no rito indígena, no can domblé, no samba-de-roda, na festa do Divino, enfim em todas as manifestações religiosas do povo. São manifestações grupais e obedecem a cânones, mas sem o poder econômico, nem tampouco a força de expansão que têm a Universidade e as empresas de comunicação.

2 Essa margem de tolerância faz lembrar O castelo , de Kafka, cujo protagonista se insere em uma ordem tão solidamente edificada em seu absurdo, que a sua presença dissonante e perquiridora não altera o status quo , motivo por que pode ser "tolerado".

Na reflexão sobre a cultura popular, Bosi denuncia certas tendências em rotular de residuais as manifestações chamadas folclóricas, que se baseiam em um princípio evolucionista. Segundo essa visão, tudo o que estiver sob o limiar da escrita , inclusive os hábitos rústicos e suburbanos, é visto como sobrevivência das culturas indígena, negra, cabocla, escrava e mesmo portuguesa arcaica.

Incita, então, a que se reflita sobre toda essa cultura que viveu e vive à margem da escrita e se rejeite a visão elitista que estigmatiza a cultura popular como correspondente a estados de primitivismo, atraso, subdesenvolvimento e que se recuse, ao mesmo tempo, a visão romântico-nacionalista (romântico-regionalista ou romântico-populista) que toma como valores, sempre válidos, os transmitidos pelo folclore, ignorando as relações da cultura popular com a cultura erudita e a de massa, imbricações que ocorrem também entre a cultura popular e a cultura criadora dos artistas.

Um ponto capital do texto de Bosi é a sua proposição de abordagem da cultura brasileira, cuja fundamentação terá que tomar como matéria-prima o cotidiano físico e imaginário dos homens, para dele abstrair os valores e teores. Salienta que, no caso da cultura popular, não há distinção entre a esfera puramente material e a simbólica. Implica, portanto, modos de viver, tais como costumes alimentares, vestimentas, danças, jogos, crenças, linguagem, provérbios, formas de conhecer e transmitir conhecimentos, modos de olhar, sentir, agredir, consolar... enfim, todos aqueles aspectos que, reunidos, constituem o mundo simbólico e material do cotidiano do homem rústico. De acordo com Bosi, esta indivisibilidade entre o mundo material e simbólico na cultura popular é difícil de ser apreendida pelo homem letrado que, além de não a viver subjetivamente, está acostumado a tudo classificar, bem como a recortar em tópicos a experiência popular (p.324).

Para enfocar esta cultura popular, em que o simbólico e o material estão implicados, o autor propõe a expressão "materialismo animista", como uma filosofia subjacente a toda cultura radicalmente popular. Materialismo é a palavra que recobre o aspecto cotidiano do homem na sua ligação com o trabalho, através do uso da matéria, do trabalho com a terra ou a manipulação dos instrumentos mecânicos, enfim o lado prático da vida ou da sobrevivência. Mas este aspecto material não é absolutamente desencantado (Bosi utiliza aqui uma expressão de Max Weber através da qual ele qualificou o universo da racionalidade burguesa). Nesse universo cotidiano, há sempre uma relação com uma força superior, construída por conceitos como de sortes, simpatias, azares, maus-olhados, pés direitos e pés esquerdos, vinculados ao uso de talismãs, fotos, fitas, figas, medalhas, santinhos, etc. - objetos que a crítica racionalista designa de "superstições"(p.324). O materialismo-animista, fundado na oposição corpo/alma, transmitiu-se e continua a se transmitir, sobretudo nas comunidades rurais, segundo Bosi, mas certamente também presente nas urbanas, sendo responsável por todo um conhecimento difundido, de século a século, a respeito dos ciclos da natureza, das partes do dia, dos ciclos biológicos da mulher, fases da vida, etc. Trata-se de um acervo da memória coletiva, comumente chamada de sabedoria popular.

Feitas essas caracterizações das culturas, o texto de Bosi desencadeia uma reflexão sobre as relações entre as diferentes culturas brasileiras, mostrando que se cruzam e estão implicadas mutuamente.

Cultura de massas e cultura erudita se relacionam visivelmente em diversos aspectos, tais como, por exemplo, a fascinação dos profissionais, de nível superior, pelos produtos da indústria cultural, veiculados em objetos mecânicos e eletrônicos, e, ao mesmo tempo, o fato de que esses recursos só se tornam possíveis, graças às pesquisas desenvolvidas no campo universitário. Numa relação inversa, a cultura de massas se apropria dos objetos simbólicos e representações da cultura erudita para transformá-los em moda e consumo, fenômeno chamado de kitsch, estudado por Abraham Moles, "que consiste em divulgar, junto a consumidores das classes altas e médias, palavras, gostos, melodias, enfim bens culturais produzidos inicialmente pela chamada cultura superior" (p.327--8).

Cultura de massa e cultura popular se relacionam através dos meios de comunicação, já que em qualquer casa de caboclo a cultura de massa ocupa suas horas de lazer, através da televisão e do rádio, as quais poderiam ser gastas com "alguma forma criativa de auto-expressão"(p.328). Ao mesmo tempo, a cultura de massa explora aspectos da vida rústica, para devolvê-los através de emissões de televisão, em alta escala, transformando a manifestação espontânea em espetáculo, tal como o que se faz no carnaval para turista ou a reportagem sobre a macumba na televisão. Todavia - assinala Bosi - a cultura de massa não consegue anular a produção cultural popular. Esta, apesar da exploração, não interrompe o seu "dinamismo lento, mas seguro e poderoso da vida arcaico-popular", que continua existindo, de modo orgânico, na rede familiar, na comunidade, nos grupos religiosos (p.329). Para o autor, o povo tem um filtro que rejeita o que considera impertinente e adapta ao seu universo aquilo que lhe interessa, observação relevante porque anula a idéia, muito difundida, de que o povo assimila mecanicamente tudo aquilo que é veiculado pelos meios de comunicação.

Ninguém ignora, segundo Bosi, os laços que unem a cultura erudita e a cultura popular , que se manifestam, sobretudo, na criação artística, como na obra de Villa-Lobos, na literatura de Guimarães Rosa, na pintura de Portinari e em tantos outros. Segundo ele, a única relação fecunda entre o artista e a vida popular é a "relação amorosa", que ele traduz por uma empatia autêntica e profunda com a cultura popular, sem a qual o homem de cultura universitária corre o risco de "se enredar nas malhas do preconceito", na visão etnocêntrica, à européia, frente aos colonizados, ou poderá projetar suas próprias angústias e inibições na cultura do outro (p.331), A propósito do olhar etnocêntrico em relação à cultura do outro, Bosi o exemplifica com os textos de cronistas, viajantes e catequistas que escreveram sobre o Brasil no início da colonização, os quais estão eivados de preconceitos e equívocos.

Após o olhar que se lançou sobre os aborígines, por ocasião da Independência, utilizando-o como imagem e mito de uma ideologia nacional-conservadora, o final do século XIX demonstra um interesse pelo negro e pelo sertanejo, momento em que obras como O selvagem , de Couto de Magalhães (1877), L'animisme fétichiste des nègres de Bahia , de Nina Rodrigues e Os Sertões , de Euclides da Cunha dão importante testemunho desta mudança. Contudo, ainda persiste uma série de idéias preconceituosas, tais como a idéia do caráter pré-lógico do pensamento do negro, índio, mulato ou caboclo, postulando-se também problemas produzidos pela mestiçagem. Lendo os ensaios de Silvio Romero e de João Ribeiro, percebe-se um "misto de interesse, condescendência e atribuição de inferioridade cerebral", em relação a essa parcela da população, ficando subjacente é a idéia da superioridade do branco (p.332).

São os escritores modernistas que vão propor o entrecruzamento das culturas brasileiras, expresso, principalmente, em duas tendências: o "nacionalismo estético e crítico de Mário de Andrade" e no "antropofagismo de Oswald de Andrade". A primeira inclina-se a uma "fusão de perícia técnica supranacional com a sondagem de uma psicologia brasileira semiprimitiva, mestiça, fluida, romântica", enquanto a segunda, prega a incorporação "indiscriminada dos conteúdos e das formas internacionais pelo processo antropofágico brasileiro, que tudo devoraria e tudo fundiria no seu organismo inconsciente, entre anárquico e matriarcal" (p.333). Bosi salienta que a importância deste momento reside no fato de que a cultura erudita une-se à popular segundo um vetor mitopoético . Cultura popular é então entendida, por Mário de Andrade, como a expressão de uma sensibilidade tupi, articulada a mitos, lendas e ritos. Em um segundo momento de sua carreira, o escritor modernista dedica-se ao estudo do universo negro e mestiço.

O ensaísta observa que a continuidade da ruptura modernista de 22 revela-se nos romances regionais do sul e do nordeste que denunciam a realidade de um Brasil pobre e moderno ao mesmo tempo. Para o autor do ensaio, deve haver uma relação estreita entre os momentos históricos ultramodernizantes e a produção irracionalista ou, como se usa dizer hoje, contracultural, pois no final da década de 60, quando o Brasil vive um período de saturação tecnológica, o Tropicalismo repropõe a volta ao pensamento antropofágico.

O texto de Bosi convida a reflexões, ainda muito pertinentes e necessárias, a respeito das culturas brasileiras, sendo fundamentais as idéias de pluralidade e de relacionamento entre essas diferentes culturas, que não se fundem mutuamente, mas mantêm relacionamentos de tensão, troca, hibridismo e estão em constante transformação. Vale lembrar que a sociedade brasileira é também matizada por grupos de emigrantes, como os italianos e alemães que aqui chegaram no século XIX, japoneses no século XX, e outros povos estrangeiros que, radicando-se definitivamente aqui, trouxeram visões de mundo diferentes das do colonizador português e que hoje se constituem como comunidades que interagem com os demais grupos culturais, neste processo incessante de trocas, assimilações e diferenciações. Essas são reflexões que podem ser estendidas a todas as Américas, compostas de países que sofreram processos colonizadores muito semelhantes, nos quais os povos autóctones foram aniquilados ou menosprezados pelo olhar etnocêntrico dos europeus.

Com relação a um projeto educacional que contemplasse a multiplicidade cultural brasileira, de modo realmente democrático, Bosi preconiza que esse deveria penetrar de fato na riqueza da sociedade civil, promovendo tudo aquilo que na cultura erudita (universitária ou não) fosse um "dobrar-se atento à vida e à expressão popular" e, ao mesmo tempo, "uma reflexão sobre as possibilidades, ou as imposturas, veiculadas pela indústria e comércio cultural" (p.341). Tratar-se-ia, assim, de um projeto democrático-socializante, visando educar para trabalho junto ao povo, refletir sobre a tradição cultural, desenvolver valores de solidariedade. Enfim, o ensaísta propõe um projeto que se vincule à proposta de Paulo Freire: educar para a liberdade. Infelizmente, parece que ainda estamos longe da implementação de tal proposta ou de qualquer outra que se assemelhe, eis por que o texto de Alfredo Bosi permanece atual.


(1)In: BOSI, Alfredo. Dialética da colonização . São Paulo: Companhia das Letras, 1994. Obs: A partir de agora, nas citações, indicaremos apenas as páginas deste livro.