A criação do Novo Mundo

Gérard Bouchard
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Comentário: Bernard Andrès (UQAM)

Tradução do comentário: Zilá Bernd (UFRGS)

Gérard Bouchard é historiador e sociólogo. É também o fundador do Instituto Interuniversitário de pesquisas sobre as populações (IREP). É enfim, e antes de tudo, um comparatista, no sentido mais ambicioso e mais generoso do termo. Há mais de vinte anos, ele se interessa pela história demográfica de sua região natal, o Saguenay ( Quelques Arpents d'Amérique . Population, économie, famille au Saguenay, 1838-1917. Montréal, Boréal, 1996), mas também ao conjunto dos problemas relativos ao desenvolvimento das jovens nações do Novo Mundo. Pois sua visão do Quebec não é nada "umbilical" (1). Para ele, esta província do norte americano não é uma exceção no tabuleiro do que ele chama de "coletividades novas". Para Bouchard esta expressão remete ao conjunto dos países saídos de migrações intercontinentais provindas da Europa, países e estados que emergiram desde o século XVI, do norte ao sul das Américas, até a Africa do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Como todas estas coletividades novas, explica ele, o Quebec teve que se separar da pátria-mãe (ou das metrópoles de origem, pois, como o Brasil, por exemplo, o Quebec conheceu dois tipos de colonização). Como outras comunidades transplantadas, o Quebec acabou por se perceber como uma sociedade distinta, por se dar finalidades próprias, utopias de fundação e por apropriar-se física e simbolicamente do território.

Trabalhando sobre sociedades rurais, sobre as dinâmicas interregionais ou sobre a alfabetização, constituindo pacientemente um registro informatizado da população (a rede BALSAC), perscrutando a evolução das concepções pré-nupciais como indicador de mudança cultural ou analisando a relação à americanidade na elite ou no povo, Bouchard nunca perde de vista a dimensão comparatista. Efetivamente, o Quebec é uma das raras coletividades que não alcançou a independência política, quando, na virada do século XIX se fundavam nações novas no Novo Mundo. Isto não impede o pesquisador de apreender o Quebec em paralelo com seus vizinhos do sul que, se conseguiram romper antes os laços coloniais, nem todos conseguiram ainda acertar suas contas no plano cultural com a Europa. Desta questão da ruptura ou da continuidade nas filiações intercontinentais, Bouchard fez a espinha dorsal de sua pesquisa nos 10 últimos anos. No âmbito do "Fórum de história comparada dos imagináirios coletivos", mas também ao longo de seus trabalhos pessoais de demógrafo e de sociólogo em contato com geneticistas, ele forjou um modelo original de análise para explicar como uma comunidade passa "da entidade à identidade" : como esta coletividade transplantada ao acaso de uma colonização acede progressivamente a um duplo sentimento de pertença ao território e de distância em relação à pátria-mãe. Entre a reprodução de maneira idêntica do modelo original e a ruptura incondicional, toda uma gama de opções se apresenta, das quais Bouchard modula ao infinito as possibilidades de combinação. Pois sua visão da evolução identitária nada tem de uma grade fixa a ser usada de modo indiferenciado a qualquer tipo de corpus. Se todas estas comunidades devem, como ele afirma, "dar-se uma memória longa com uma história curta", cada uma delas adota suas próprias estratégias. Trata-se em alguns casos de opções híbridas simultaneamente abertas a mudanças e apegadas em uma memória nostálgica dos primeiros tempos. É que, na estratificação social de uma coletividade, o discurso das elites é, às vezes, contradito pelas práticas culturais da população (ver seus trabalhos sobre "As boas elites e o povo mau", ou "Uma nação, duas culturas"). Esta é a situação do Quebec, da história que a burguesia e o clero constroem até a metade do século XX (ideologia de conservação, voltada sobre os valores do antigo regime, a religião, a família e a terra, etc.), enquanto as camadas subalternas da população manifestam uma real abertura à mudança (mobilidade, exílio nos Estados Unidos ou em territórios da periferia das Laurêntidas, urbanização, novos comportamentos individuais e coletivos, etc.).

Imagina-se que esta releitura do Quebec o é também da historiografia sobre a qual Bouchard e seu cúmplice Yvan Lamonde lançam um olhar bastante crítico. Serve de testemunho sua última publicação La nation dans tous ses Etats; le Québec en comparaison (L'Harmattan, 1997). Duas obras recentes resumem o pensamento sempre em movimento de Gérard boucahrd. Uma, mais abordável aos não-iniciados, repousa sobre uma entrevista com Michel Lacombe: Dialogue sur les pays neufs (Montreal, Boréal, 1999). Nesta obra, Bouchard evoca de uma maneira descontraída seu caminho pessoal, institucional e teórico. O outro livro é uma soma de erudição e de reflexão que expõe e aprofunda os principais conceitos e as últimas hipóteses levantadas pelo pesquisador. Aí Bouchard defende ardentemente a epistemologia comparatista e ataca "os falsos determinismos". Ele se arrisca, no espírito de Lucien Febvre, a uma reflexào sobre "os não-acontecimentos" o que conduz a pesquisa histórica aos confins de uma ciência dos possíveis. Bouchard pretende assim causar estranhamento e estimular a imaginação do pesquisador. Este gosto do estranhamento nada tem de exotismo. Sua virtude hermenêutica não deixa dúvidas. É o sinal de uma curiosidade intelectual que agita incessantemente Bouchard e o leva a olhar para além de seu campanário… Ela o convida também a apegar-se apaixonadamente por espaços culturais novos, com os quais o historiador quebequense até hoje não se havia preocupado. Como do Canadá inglês, aos Estados Unidos, da Nova Zelândia, da Austrália, mas também da América latina. Suas páginas sobre o México, a Argentina e o Brasil são audaciosas. Quer se trate de definir a "americanidade crioula", ou a distinguir os sonhos dos predadores dos sonhos dos fundadores, as lendas, as narrativas e as utopias de recomeço, a língua como "vecteur d'arrimage", a "memória emprestada", ou "a americanidade inacabada", Bouchard instaura um diálogo real com os pensadores do continente notadamente com Octavio Paz, Arturo Uslar Pietri, J.V. Lombardi e Zilá Bernd. Seu trabalho representa toda uma nova via para a pesquisa comparada; toda uma nova voz entre os pesquisadores do continente.


(1)Expressão que deriva de nombril que significa umbigo. Nombrilisme remete, portanto, à atitude de voltar-se sobre si mesmo, nacionalismo estreito.