O Inuit branco fala: a contaminação como uma estratégia literária

Diane Brydon
- Comentários -

Comentário: Rubelise da Cunha (UFSC)

Em "O Inuit Branco Fala: A Contaminação como uma Estratégia Literária", Diana Brydon apresenta as diferenças entre o pós-modernismo e o pós-colonialismo, demonstrando como estratégias pós-modernistas podem contribuir para uma escrita pós-colonial. Para isto, a autora analisa as obras contemporâneas canadenses The Prowler , de Kristjana Gunnars, e Salomon Gursky Was Here , de Mordecai Richler.

Partindo de uma crítica ao texto da teórica pós-modernista Linda Hutcheon "Circling the Downspout of Empire", a autora explica como o discurso pós-modernista pode acabar reafirmando noções coloniais, como a de um modelo evolucionário europeu do desenvolvimento literário, a busca por uma síntese, e o culto da autenticidade. Através da análise dos textos literários de Gunnars e Richler, Brydon aponta para a validade de uma leitura pós-colonial que utilize recursos pós-modernistas. Nesta leitura, parte-se do reconhecimento da pluralidade cultural e da ambivalência, estratégia do pós-moderno, para valorizar e fazer prevalecer o poder recuperativo da obra literária, capaz de rever o passado e não hesitar em sugerir que algumas interpretações tenham mais validade que outras.

A importância deste texto da teórica Diana Brydon não advém apenas da repercussão que os estudos pós-coloniais têm apresentado nas últimas décadas. Em "O Inuit Branco Fala", a autora contribui para um questionamento das diferenças entre as teorias contemporâneas do pós-moderno e do pós-colonial e suas abordagens literárias. Para Brydon, enquanto o pós-modernismo sugere uma estetização do político, o pós-colonialismo coloca em primeiro plano o político, que inevitavelmente contamina o estético, mas permanece distinguível dele.

Reconhecendo e enfatizando o comprometimento político de uma abordagem pós-colonial, o texto de Brydon e sua análise das obras de Gunnars e Richler demonstram que é possível ouvir a voz do inuit branco quando, além de reconhecer-se a natureza híbrida e ambígua de sua condição pós-colonial no Canadá, propõe-se uma revisão de seu passado colonial, apresentando uma versão da história negligenciada pelo discurso dominante. Desta forma, a contaminação proporcionada pelo contato entre diferentes culturas, aqui a cultura do inuit e do branco, constitui uma estratégia de recuperação do passado e de resistência à história colonial.