Literatura e subdesenvolvimento

Antonio Candido
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Comentário e hipertextos: Célia Pedrosa (UFF)

Publicado pela primeira vez em 1970, o ensaio Literatura e Subdesenvolvimento propõe a compreensão de aspectos fundamentais na criação literária na América Latina a partir da distinção entre duas formas de pensar a situação de atraso e dependência cultural, econômica e política desse conjunto de países de colonização ibérica. A primeira estaria associada à noção de país novo e corresponderia a uma consciência amena do atraso, enquanto a Segunda à de país subdesenvolvido, correspondente a uma visão catastrófica do atraso. Segundo Candido, ambas se entrosam intimamente e orientam a atuação do intelectual latino-americano tanto no que diz respeito à natureza específica de sua produção quanto no que concerne à sua inserção social.

A noção de país novo seria, na verdade, um desdobramento da euforia e do deslumbramento provocados pela descoberta da América - sentimentos que se exprimem em projeções utópicas decisivas para os processos de conquista e civilização e, posteriormente, quando dos movimentos de separação política das metrópoles, para a consolidação da idéia do continente como pátria da liberdade, apta a consumar os verdadeiros e superiores destinos do homem ocidental. A pátria, sob tal perspectiva, é definida com estreita vinculação com a natureza exótica, percebida como grandiosamente bela e fértil e por isso capaz de justificar todo o sentimento de otimismo social. Daí decorre a opção por uma literatura celebratória, cuja linguagem, influenciada ainda pelas tendências românticas, se apoia no sentimentalismo, na hipérbole, na exotização - procedimentos configurados paradigmaticamente na Canção do exílio, de Gonçalves Dias, que segundo o crítico poderia ter sido assinada por qualquer um de seus contemporâneos latino-americanos entre o México e a Terra do Fogo.

A confluência desses valores vai explicar também a generalidade e a persistência de uma ficção de cunho regionalista. Funcionando como instrumento de descoberta, reconhecimento e incorporação da realidade do país ao cenário da literatura, ela vai se caracterizar inicialmente pela idealização de regiões remotas, distantes dos centros urbanos e europeizados, como a região amazônica, os altiplanos andinos, o sertão brasileiro. Tanto elas como seus habitantes, considerados representativos de uma especificidade natural e cultural própria das diversas nações americanas, passam a ser então objetos de uma tenaz ilusão compensatória. Vistos por uma ótica amena e curiosa, compõe uma imagem pitoresca e decorativa que mascara problemas humanos e sociais decorrentes do atraso e da incultura, enfatizando, ao contrário, uma riqueza potencial cuja valorização apontaria para a possibilidade de um futuro grandioso e autônomo.

Segundo Candido, essa forma de compreensão e representação literária e cultural começa a mudar a partir dos anos 30 deste século, à medida em que a ideologia do país novo começa a dar lugar à de país subdesenvolvido, num processo de conscientização radicalizada a partir da Segunda guerra mundial. Com ele, procede-se à desmistificação do gigantismo de origem paisagística, substituído então por uma visão problemática quanto ao presente e pessimista quanto ao futuro, baseada na evidência da miséria, da persistência das relações imperialistas de dominação e da conseqüente paralisia das forças produtivas - gritante inclusive no que dizia respeito às formas de ocupação e exploração da terra bela e fértil.

Nesse processo, a literatura exerce um papel fundamental, na medida mesmo em que mobiliza uma força crítica antecipadora da tomada de consciência de economistas e políticos. A partir do decênio de 30, essa força norteará uma parte substancial de nossa ficção narrativa, acarretando uma significativa mudança no discurso regionalista. Tanto a representação do espaço físico quanto dos personagens ganha densidade, integrando-se para desvelar uma situação dramática de miséria humana e social. Agora, enquanto lugar de encenação de uma vontade combativa, inevitável em escritores que se descobrem habitantes de um continente sob intervenção, a narrativa literária se torna muitas vezes presa de certo esquematismo ideológico, ao mesmo tempo de que se ressente de alguma irregularidade estilística, motivados ambos pela ênfase na indignação contra opressores e na identificação sentimental com oprimidos. Mas, em muitos casos, serve à busca de novas soluções para a representação da injustiça e da desigualdade, redimensionando as relações tradicionalmente distanciadas entre narrador culto e personagens populares, relativizando os limites entre discurso indireto e direto, incorporando a tristeza e a penúria ao próprio ritmo da sintaxe narrativa, em detrimento da mera descrição ou da deblateração indignada - como ocorre em Graciliano Ramos , Miguel Angel Asturias e Jorge Icaza, entre outros.

À substituição da amenidade exótica pela crítica social, Antonio Candido vai acrescentar ainda uma outra forma de renovação do regionalismo, para a qual propõe a definição de super-regionalismo, inspirada na de surrealismo ou super-realismo. Correspondendo a uma consciência dilacerada do subdesenvolvimento, ele se caracteriza pela ruptura com toda a referência naturalista, baseada numa visão empírica do mundo. A ela contrapõe uma inserção do mágico e do absurdo em meio à realidade mais cotidiana, o uso de técnicas como a do monólogo interior, a da fragmentação, da simultaneidade espaço-temporal, da elipse, aliadas ao descarte de toda a retórica, celebratória ou denunciadora. Com isso, alcançaria uma transfiguração universalizante da mesma substância de que se alimentaram antes o nativismo e o patriotismo, fazendo da região o móvel de um reflexão em que as especificidades locais e nacionais se imbricam numa problemática humana e social mais ampla - como nas obras de Guimarães Rosa, Juan Rulfo e Mário Vargas Llosa, por exemplo.

Embora fixe a atenção nessa linhagem regionalista, que possibilita a identificação mais imediata de semelhanças entre as diversas literaturas latino-americanas, Candido não deixa de ressalvar que ela não pode ser absolutizada. Assim lembra que em países como a Argentina e o Uruguai, a literatura regional, após a primeira etapa de afirmação romântica e exotizante, logo se tornou um anacronismo. Já em relação ao Brasil, observa que, muito peculiarmente, e apesar da resistência do regionalismo, as melhores obras ficcionais foram sempre urbanas, desprovidas de qualquer pitoresco constituindo uma outra sólida vertente de identificação nacional, anterior ao próprio indianismo, da qual Machado de Assis representaria um auge precoce, ainda em fins do século XIX. Tal peculiaridade é tematizada posteriormente com mais vagar no ensaio "Os brasileiros e a literatura latino-americana", no qual avalia que a coexistência dessas duas vertentes indica a importância histórica de um jogo dialético entre forças centrípetas e centrífugas, universalizantes e particularizantes.

Para Candido, na verdade, a compreensão dialética deve ser uma exigência de toda a crítica que se proponha a dar conta da complexidade e do dinamismo próprios tanto à atividade literária quanto às formas de sua relação com a vida sociocultural. O empenho em alcançá-la norteia toda a sua reflexão no processo de formação da literatura brasileira - processo esse, aliás, que nomeia e constitui o tema de sua mais alentada e importante obra, publicada ainda em 1959, cujas principais colocações são retomadas, de modo mais condensado, em ensaio significativamente intitulado "Literatura de dois gumes", de 1966. Nele, o jogo entre universalidade e particularidade das formas de expressão é associado à interação dialética entre mecanismos de imposição e adaptação cultural, identificável não só no Brasil, mas em todos os países que vivenciaram uma história de colonização.

É a adoção dessa perspectiva, motivada pelo que ele chama também de "sentimento dos contrários", que faz com que sua reflexão venha a se constituir em uma notavelmente inovadora contribuição para o estudo das questões ligadas ao fenômeno da hibridação literária e à redefinição de procedimentos comparativistas. Assim ocorre com o problema da influência exercida pela cultura de países colonizadores sobre a dos colonizados, por ele equacionado de modo a evitar a tradicional dicotomia entre utopias isolacionistas de originalidade e submissão absoluta a padrões metropolitanos. Considerando inegável o "vínculo placentário" que une as literaturas latino-americanas às européias, conclui que a capacidade de reconhecê-lo está paradoxalmente associada ao começo da capacidade estética de renovar esteticamente e também de lutar politicamente contra a dominação que o origina - ambas sendo sintomas de uma maturidade ainda impensável durante a fase regida pela consciência amena do atraso.

Ampliando o alcance da visão dialética, Candido ressalta que nessa fase convivem impulsos aparentemente opostos, mas na verdade complementares, de cópia servil e rejeição radical. Em decorrência do primeiro, a literatura tende ao requinte provinciano, à repetição anacrônica de modelos estrangeiros, à alienação face ao contexto real de sua produção. Do segundo, decorre uma literatura centrada nas peculiaridades locais, tendendo à exaltação acrítica e exotizante. Em ambas, igual e ironicamente, se configuram imagens de nossa realidade correspondentes, de ângulos diversos, à expectativa do leitor urbano europeu ou europeizado. No entanto, e de modo a evitar, novamente, toda a forma de simplificação, o crítico vai se recusar ao endosso ou ao anátema indiscriminado de qualquer uma dessas tendências. Pois na primeira, reconhece como intimamente ligada à cópia a possibilidade de afirmação e divulgação de uma linguagem culta, apta a representar problemas comuns a todos os homens e a inserir nossa literatura no contexto mais amplo da literatura ocidental erudita. Já quanto à Segunda, avalia que o nativismo e o regionalismo, através mesmo da ingênua ênfase no pitoresco, funcionam como força estimulante da vontade de conhecer a realidade particular e de representá-la de modo novo e específico.

Compreendidos desse modo, universalismo e particularização passam a ser vistos como tendências não necessariamente opostas. Ao contrário, a integração dos efeitos positivos próprios a cada uma delas seria responsável por uma atitude literária e crítica mais produtiva, capaz de reconhecer a imposição cultural e ao mesmo tempo empenhar-se em sua adaptação, de transformar a imitação em ponto de partida para a criação e a reflexão inovadoras e problematizantes. Apontando nessa direção, o trabalho de Candido prefigura, com bastante antecipação, os caminhos a serem trilhados por intelectuais e artistas contemporâneos, conscientes das vantagens e desvantagens de um inexorável processo de globalização, no interior do qual a dependência pode e deve se transformar em interdependência, e a imitação em assimilação recíproca, ao menos no que diz respeito ao campo da produção cultural.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFCIAS

1 - MELLO, Mário Vieira de. Desenvolvimento e cultura. O problema do estetismo no Brasil. São Paulo: Nacional, 1963. Segundo Antonio Candido, aí foi inicialmente definida distinção entre as fases históricas dominadas pelas noções de "país novo" e de "país subdesenvolvido".

2 - Cf. A revolução de 1930 e a cultura. In: CANDIDO, Antonio. A Educação pela noite e outros ensaios . São Paulo: Ática, 1987.

3 - In Revista Novos Estudos . São Paulo: CEBRAP, v.1, dezembro de 1981.

4 - Formação da literatura brasileira . São Paulo: Martins, 2 v., 1959.

5 - In A Educação pela noite & outros ensaios.