Consciência e identidade da América

Alejo Carpentier
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Comentário e hipertextos: Aimée González Bolaños (FURG)

Alejo Carpentier (1904 - 1980) com seus complexos mundos imaginários e reflexivos nos convida a transitar pela vida latino - americana. Narrador, ensaísta, de notável trajetória no jornalismo, excelente comunicador, intimamente vinculado à música e às diversas manifestações da cultura espiritual e também à ficção e à história deste Continente em busca de seus signos identificadores.

Nascido quase a princípios do século em uma cidade, Havana, que começava a desenvolver-se vertiginosamente, seu espaço cultural haverá de ser sempre vasto e diverso. Desde sua iniciação artística reconhece a vocação de mudar o mundo através da tarefa criativa no âmbito riquíssimo da prática social, contextos - praxis que anos depois será conceitualizado em ensaios magistrais. Sua formação nas vanguardas o unem com voz própria à renovação artística distintiva da modernidade. Deste modo a aspiração a uma arte integralmente nova, onde o circunscrito alcance uma dimensão universal, sucede-se uma constante da obra carpenteriana.

A partir dos primeiros textos narrativos estritamente vinculados à sua prosa reflexiva como cronista ( Ecue - Yamba - O e Historia de Lunas , 1933) até a plenitude criadora dos grandes ciclos narrativos ( El reino de este mundo , 1949; Los pasos perdidos , 1953; La guerra del tiempo , 1956; El siglo de las luces , 1962; El recurso del método e Concierto barroco , 1974; La consagración de la primavera , 1978; El arpa y la sombra , 1979) que também caminhavam unidos à sua madurez teórica. Carpentier integrou diversas experiências históricas e culturais. Entre elas se destaca não somente o percurso europeu (1928 - 1939), fundamentalmente francês surrealista e hispano, e sim também sua reapropriação de América que iniciada desde o Velho Continente, aprofunda-se em sua estância venezuelana (1945 - 1959) e à vivência da pátria depois do triunfo revolucionário.

Este descobrimento de seus contextos - praxis com a dupla perspectiva de lá e aqui, da proximidade contida e a distância analítica, da paixão e da crítica, o pensamento de Carpentier recorre que na escritura ensaística discute aspectos modulares de sua estética e poética, conceitualiza tendências principais da cultura latino-americana e afirma sua posição da época. Desde o homem histórico imerso em sua cultura, que luta e padece na guerra do tempo , ficcionaliza e medita. Poderia ser dito, então, que este humanismo cultural, este humanismo existencial (patente na imagem do autor, das temáticas, dos personagens e destinatários), provém do centro conceitual mais atrativo e determinante de toda a sua obra que integra uma visão do constante e variável do ser humano em sua existência social.

O texto que apresentamos: " Consciência e identidade da América " (1975) constitui uma peça chave nesta ordem de pensamento. Alejo Carpentier, que já tinha alcançado uma consagração literária, vai ao reencontro da realidade venezuelana que lhe presta uma homenagem, convidado pela Universidade Central da Venezuela. Homenageado o ano anterior em Cuba por seus setenta anos, titulado como doutor Honoris Causa de la Universidad de La Habana , ainda sob o impacto da publicação de duas novelas capitais ( El recurso del método e Concierto barroco ), o autor de El reino de este mundo , à semelhança do personagem de ficção Ti Noel, é carne transcurrida (1). Como seu protagonista está chegando a um saber introspectivo pessoal e genérico, pode pensar com amplitude, fazer recontagens e valorizações de longo alcance.

A natureza deste discurso que integra as funções históricas e críticas, do pensar teórico e artístico, às acusadamente autobiográficas, auto-reflexivas e confissionais de indagação em um processo vital e criativo próprio, pensando através de imagens que sustentam a ordem conceitual. Se também considerarmos o discurso em sua acepção genérica de peça oratória, haveríamos de constatar a intenção do diálogo enriquecedor, propósito que é reforçado ao revelar-se a figura autoral dentro do texto, sua temporalidade histórica e espaços culturais, sustentando todo ele uma proposta analítica que será compatilhada pelo autor e seus destinatários.

Esta estratégia de persuasão e participação é evidente desde o princípio do texto quando o escritor identifica o latino-americano com as cidades em crescimento que anunciam a entrada de nossa cultura em sua polêmica alta modernidade. Reciclando o sugestivo motivo barroco do "teatro" como representação simbólica do mundo da vida, Carpentier faz com que o autor-testemunha dessas tremendas transformações se pergunte quem sou eu, que papel serei capaz de desempenhar, e, além do mais, que papel me compete desempenhar, perguntas que remetem a uma busca de sentido.

Em função deste personagem dramático cujo conflito refere-nos diretamente como homem-História-do-século-XX , o ensaísta situa no centro de sua reflexão a um homem imerso na História com maiúscula, ponto de vista que articula a riqueza argumentativa do texto em sua integridade.

Como de maneira significativa anuncia seu título, " Consciência e identidade da América ", propõe uma interpretação ativa e consciente da história latino-americana. Não se trata, portanto, de reproduzir com maior ou menor acerto a história sacralizada - com suas crônicas militares e devoções acríticas de grandes personalidades - memorialista, voltada ao passado ideal e moralizante. Trata-se, neste caso, de recobrar as virtualidades transformadoras do conhecimento histórico como sujeitos "advertidos", capazes de assumir a história americana desde suas raízes autóctonas e hibridez, em seus entrecruzamentos e simbioses, considerando tanto suas dimensões históricas como míticas. Deste modo, Carpentier situa em um primeiro plano o "sensacional encontro étnico" que deu lugar à "mais tremenda mestiçagem que nunca foi podido ser contemplada...", apreciando justamente a diversidade de fontes e a riqueza desta constituição intercultural. Evidentemente que sua visão da história segue o fio vermelho da transculturação como um processo contraditório e aberto de componentes heterogêneos que acolhe uma multiplicidade ativa na progressiva definição de nosso peculiar gênero humano.

Por isso as necessárias citações de Carpentier, o primeiro das grandes culturas ameríndias representadas pelo complexo arquitetônico de Mitla com seus filetes de experimentação abstrata e as pinturas extremamente destras nos muros de Bonampak. Encontraremos também a menção da extraordinária (até há pouco praticamente desconhecida) poesia náhuatl de impressionante riqueza artística, assim como a alusão fulgás, mas esclarecedora, aos universos mitológicos destas culturas aborígenes nas quais se fundem os significados filosóficos, míticos e poéticos. Obra toda precursora também de maestria e culminação, pedra basilar de uma cultura ainda por vir, que oferecerá com o "senhor barroco americano", como uma vez o nomeou José Lezama Lima, notáveis realizações arquitetônicas e literárias por sua autenticidade cultural na apropriação crítica da cultura metropolitana.

Através destas imagens de fundação veremos desenvolver-se uma cultura original demonstrando sua potencialidade criadora no maior tempo da História americana e no seio de conflitivas relações de dependência colonial e neo-colonial cuja contrapartida histórica encontra-se nas tradições de rebeldia e luta que têm uma culminação primeira nas façanhas independentistas do século XIX, focalizadas com grande destaque no ensaio.

Carpentier apóia-se em exemplos eloqüentes, e a América Latina é configurada como um espaço privilegiado de integração cultural e desenvolvimento da consciência histórica. Nesta direção, a personalidade criadora de José Martí resultará determinante. Reinteradamente citado e aludido, Carpentier estabelece a trama argumentativa de seu ensaio no conceito ético e político, de máxima generalidade cultural, de "Nuestra América". Certamente Martí lhe entrega as categorias para pensar a América desde o sul do rio Bravo até a Patagônia. Universal e americano, continuador legítimo do ideal boliviano, Martí é também para Carpentier o revolucionário e o artista total, que, fundido ao seu povo e encarnando suas maiores tradições revolucionárias, encontrou o seu papel , pôde responder, na plenitude de sua teoria e prática transformadoras, à pergunta crucial de quem sou . Identidade ontológica e histórica que caminham juntas, enriquecendo-se mutuamente nas dimensões possíveis do ser e o fazer .

Desde esta perspectiva martiana, Carpentier destaca que não basta estudar a história de cada nação; é necessário interpretar, parte a parte, a história da América Latina em sua heterogênia unidade. Também nos estimula a uma releitura cultural da América reconstruindo as imagens de sua autoctonia e a fundamentando na originalidade de sua expressão, que receptiva da modernidade vai encontrando seus signos identificadores. Ao discurso colonialista incapaz de ver o variado e as diferenças, com suas constantes de dominação alienadora, opõe o discurso desalienante de uma história entendida como tarefa humana de auto-conhecimento, com suas alternativas de crítica da dependência, resistência e liberação, raciocinando com critério histórico desde nossas grandes comunidades culturais e sobre a base de perguntas capitais, que, abertas desde o início, ficam sempre gravitando no texto.

Desta forma, ao levar em conta as diversas séries do conhecimento, assim como a experiência de um sujeito em busca de seu sentido histórico, Carpentier está contribuindo ao conceito unamuniano da intra-história. Nesse universo da história menor que vai por dentro, da vida cotidiana e dos costumes, do espírito da época, a cultura será vista como o sistema de referência do viver das pessoas, como um esforço de realização humanista; por sua parte, a história pode ser entendida como um todo cultural onde o homem deixa sua marca e se forma.

O ensaísta postula uma compreensão integrada de cultura e história a partir da experiência das pessoas que vivem e pensam como instrumento de conhecimento auto-modelador e transformador, já que é preciso "tirar os profundos ensinamentos de um passado muito mais presente do que se costuma acreditar".

E é precisamente nesta praxis desalienante que o homem encontra sua razão de ser . Por isto, na visão concertada da história e da cultura americanas, Carpentier recorre ao contraponto autobiográfico que dota de sentido transcendente aos acontecimentos vividos. Distinguem também no texto a intensidade e persistência de um conjunto de determinações pessoais, de temporalidade histórica explícita que conectam o tempo da existência com o tempo da história, oferecendo a continuidade e coerência do exemplo de vida. O autor se descobre e mostra momentos fecundos de sua existência, mencionando as experiências capitais de formação e desenvolvimento, desde a influência de seus primeiros mestres revolucionários até o triunfo da Revolução cubana que lhe permite reconhecer seu mundo, "encontrar a si mesmo no contexto de um povo".

De maneira orgânica na seqüência final de " Consciência e identidade da América " se entrecruzam os grandes caminhos da história latino-americana e a trajetória pessoal. Através destas evocações, o ensaísta vai construindo um sujeito autobiográfico e estabelecendo em suas relações com o mundo e em seu auto-conhecimento, a possibilidade do encontro da própria identidade. Assim, ao fazer um exame de consciência e comunicar o descobrimento de um sentido vital, participa na consciência crescente de uma identidade transpessoal.

Em tal sentido e como mostra este ensaio, mas também toda a obra carpenteriana, sua proposta de identidade de modo algum supõe uma concepção metafísica, essencialista ou representativa. Concebida em sua inter-relação ativa com a temporalidade histórica, não pode ser, portanto, uma entelequia (2), um estado fixo e congelado, uma invariante que aponte em direção do acontecimento puro. Na escrita de Carpentier a identidade não é um espelho mimético onde nos contemplamos, e sim o espelho que nos reflete uma imagem contraditória e heterogênea. Semente, origem, raízes; mas também tendência, projeto. Nutrida pelo mito e ao mesmo tempo pela utopia, para que o escritor cubano refira-se a uma consciência patrimonial em desenvolvimento, aberta em direção ao futuro: é uma atitude histórica no seio da cultura.

Consciência histórica e temporalidade, no pensamento de Carpentier, manifestam dimensões essenciais da identidade humana, juntamente com um sentido integral de vida. Por isto despertou motivações artísticas e sócio-políticas profundas ao consagrar seu "ofício de Homem", na transição dos tempos da solidão aos tempos da solidariedade, expressando as aspirações mais altas de um humanismo anti-especulativo e real, de notável vigência no pensamento latino-americano contemporâneo.


(1) metáfora de Carpentier que quer dizer "carne que foi marcada pelo tempo, que foi sendo gasta ou consumida no decorrer da vida" (no sentido literal, corpo envelhecido).

(2) Coisa real que possui em si própria o princípio de sua ação e que tende por si mesma a seu próprio fim.