Poemas americanos

Mathias Carvalho
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Comentário: Jean Morisset (UQAM)

Tradução do Comentário: Zilá Bernd

Em 1886, um poeta brasileiro compõe "Poemas Americanos" em homenagem ao herói canadense Louis Riel, condenado e executado, em 1885, por ter lutado pela liberdade do Canadá contra a dominação inglesa.

Depois de terem dominado o Canadá, os sucessores do Império Britânico e seus mercenários (franco) canadenses e autóctones, prenderão Riel e acabarão com a única esperança de uma América do Norte mestiça, idéia que Riel incarnava, para pendurá-lo na ponta de uma corda. Realizarão, assim, o assassinato político fundador sobre o qual se apoiará o Ato da América do Norte britânica para impor-se a nós todos até hoje.

Ao lado de Pontiac, Tupac Amaru, Toussaint Louverture ou Emiliano Zapata, bem como Bolivar, San Martin e todos os outros, emerge a silhueta de Riel, como o primeiro herói da segunda vaga dos grandes libertadores do novo Mundo.

Foi o que captou Mathias de Carvalho, autor de Poemas americanos (1. Riel), consagrando a Riel uma homenagem que ficou até a presente tradução desconhecida dos canadenses e praticamente desconhecida também dos brasileiros por nunca ter sido reeditado. Associando, ao final de seu opúsculo, Riel a Tiradentes - o mártir de Minas Gerais que rebelou-se contra o jugo colonial do império português, no século XVIII - e a John Brown, o combatente da libertação dos escravos nos Estados Unidos, Carvalho inscreve a história do Canadá, isto é, do Quebec, no grande movimento de emancipação das Américas!

Pouco importa, finalmente, a verdade da história na qual se acredita aderir ou a falácia geopolítica da qual nos esforçamos para escapar, o que importa reter aqui é que, do fundo da baía de Guanabara, houve um olhar, uma confissão e um ato de coragem. E que tenha ficado um testemunho, embora único, desta aventura que, nascida às margens do São Lourenço, o grande rio do Canadá, soube projetar como eco do outro lado do hemisfério, a mesma longitude libertadora. Assim, Riel que sempre clamou pela ajuda das "Novas Espanhas", recebe como herança, do "País da brasa", a expressão e a emoção de uma solidariedade atingindo um espaço de lutas e de afirmação que atravessaram o tempo. O tempo dos "Mundos Novos" e de todos os povos em instância de libertação.

Possa Riel continuar a escapar a todos os perseguidores de sua biografia definitiva e de sua nacionalização póstuma a uma British America que se tornou falaciosamente Canadá, e incarnada por todos aqueles que, em Ottawa e em outros lugares,

ordenaram sua execução.

É ao livreiro Roger Auger, originário do Manitoba, que eu devo a informação da existência, nos anos 80, de Poemas Americanos (1.Riel). Em seguida, foi o escritor Affonso Romano de Sant'Anna, que foi diretor da biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que me conseguiu uma cópia a pedido de meu colega John Milton, da Universidade de São Paulo, em 1992. A todos, exprimo minha mais viva gratidão.

(.)

Riel, "ser híbrido percebido como meio-branco, meio selvagem e meio-demente", deixou por sua vez muitos escritos onde paira uma noção de panamericanidade. Com este conceito de panamericanidade , que retorna em seus escritos mais de uma vez, estamos a mil léguas do "pensamento branco", submetido e estritamente neocolonial de um Henri Bourassa ou de um Lionel Groux. Assim a obra de Riel modifica completamente as perspectivas políticas e identitárias nas quais sempre quiseram encerrar o Canadá francês.

Mas por que nos recusamos a ver isto nos intelectuais do Quebec contemporâneo? A resposta a esta questão é difícil. Através da exclusão sistemática de Riel e de seus textos fundadores, o que o Quebec rejeita, não será antes de tudo a própria essência de sua relação à americanidade e, portanto, de sua relação consigo mesmo? O que está em causa aqui não será a relação do Quebec com suas próprias origens, com sua própria criatividade literária, bem como com sua concepção política no Novo Mundo? Entre a síndrome crônica da genealogia que sempre prevaleceu, no Canadá francês, para bem verificar a validade das raízes européias fora de qualquer suspeita, de um lado, e o levante geográfico para o Oeste e o Norte aborígenes, de outro, Riel aparece como uma proposta impossível. Por quê?