Manifesto literário

Aimé Cesaire

Tradução:

Giselda Lima Andrade

CESAIRE, Aimé. En guise de manifeste littéraire. Tropique , Fort-de-France n.5 p. 7-12, avril, 1942.

MANIFESTO LITERÁRIO

É inútil endurecer em nossa passagem, mais rançosas que as luas, tuas faces de treponema pálida.

É inútil apiedar-te de nossa indecência com teus sorrisos de quistos purulentos.

Policias e agentes

Denunciem a grande traição louca, o grande desafio macabro, a impulsão satânica e a insolente deriva nostálgica das luas velhas, de vias livres, de vômitos negros...

Porque nós te odiamos, tu e tua razão, nós nos queixamos da demência precoce, da loucura flamejante, do canibalismo tenaz.

Consideremos:

A loucura que volta ao espírito

A loucura que clama

A loucura que vê,

A loucura que se desencadeia.

Basta deste gosto de cadáver insípido!

Nem naufragados. Nem limpadores de fossas. Nem hienas. Nem chacais.

E o resto tu sabes:

Que 2 mais 2 são 5

Que a floresta mia

Que a árvore se arrisca

Que o céu se

Quem somos nós? Admirável questão!

Detestáveis. Fundadores. Traiçoeiros. Feiticeiros. Feiticeiros, sobretudo. Pois nós queremos todos os demônios.

Aqueles de ontem, os de hoje

Aqueles dos grilhões, aqueles do arado

Aqueles da interdição, da proibição, da fuga

E não temos intenção de esquecer aqueles dos navios negreiros...

Então cantamos

Cantamos as flores venenosas que desabrocham no prado raivoso; os céus de amor cortados de embolia; as manhãs epilépticas; o branco abrasamento das areias abissais, as

descidas perdidas nas noites fulminadas por odores selvagens.

O que posso?

É preciso começar.

Começar o quê?

A única coisa no mundo que vale a pena começar.

O Fim do mundo, na verdade!

Tourte

Ô Tourte do terrível outono

Onde cresce o novo aço e o vigoroso cimento

Estúpido ô estúpido

Onde o ar enferruja grandes placas de maldosa alegria

Onde a água purulenta corta as grandes faces do sol

Eu te odeio

O moinho lento mói a cana

O boi muito lento não engole o moinho

Será suficientemente absurdo?

Os pés descalços se plantam no asfalto

O asfalto muito macio não acende os pinheirais

da floresta de pés desnudos

Na verdade, não se pode entender nada.

Ainda vemos lenços nas cadeiras de mulheres, argolas em suas orelhas. Sorrisos em suas bocas, crianças em seus seios, e basta:

CHEGA DESTE ESCÂNDALO!

Eis então os cavalheiros do a-

pocalipse.

Eis então sem pompa os empreendedores de funerais

Sem julgamento os homens do juízo final.

Em vão na frieza da tua garganta murmure vinte vezes a mesma pobre consolação, porque nós somos murmuradores de palavras.

Em vão: quando passa no céu aveludado

A resplandecente sentença poética,

Ô tolo

Tua febril sideração, tuas oclusões de olhos, tuas paralisias

Tuas contraturas

E teus pulsos a galope

Brilhantemente te desmentiram!

Palavras! Quando apalpamos pedaços deste mundo, quando abraçamos continentes em delírio, quando forçamos portas coléricas, palavras! Ah sim, palavras, mas palavras de sangue fresco, palavras avassaladoras, erisipélicas, maláricas, de lavas, de queimadas, de carnes e cidades em chamas.

Saiba bem:

Eu atuo somente se for no ano 1000

Eu nunca atuo se não for La Grande Peur

Molde-te a mim. Eu não me moldo a ti.

As vezes me vêem num grande gesto do cérebro, engolir uma nuvem

muito vermelha, ou uma carícia de chuva, ou um prelúdio do vento.

Não te tranqüilizes exageradamente:

Eu forço a membrana vitelina que me separa de mim mesmo.

Eu forço as grandes águas que me rodeiam de sangue

Sou eu, nada além de mim, que pára meu lugar sobre o último trem da última onda da última avalanche,

Sou eu, nada além de mim

Eu que falo com a última agonia

Sou eu, oh! Nada além de mim

Que me garante o cálamo

As primeiras gotas de leite virginal

Às vezes tu já encontraste sobre a lua, afinado, um grande latido de cachorro ladrão.

Não houve avisos dos bons das luzes cinzentas, mas simplesmente um grande faro, e um grande grunhido de tigre fortificado na espessura do ar. E tu foste repentinamente aprisionado em uma rede líquida de rendição sumária, naves não iluminadas, o fogo de pelotão, de escoamento de bálsamo. E tu tremeste inenarravelmente.

Então nosso inferno te agarrará pelo colarinho.

Nosso inferno fará vergar tuas magras ossaturas

Tuas graças de pássaro nada exorcizará.

Basta. Jamais os esquecerás.

Eu sou um cadáver, olhos fechados, que codifica morse frenético sobre o telhado estreito da

Morte

Eu sou um cadáver exuberante no rio adormecido de seus membros

Um grito de aço não confundido.

Tu

Oh tu que tapas as orelhas

É para ti, é para ti que eu falo, para ti que esquartejarás amanhã até as lágrimas a paz serena de teus sorrisos,

Para ti que numa manhã acumulas na sua sacola minhas palavras e as reterás na hora onde adormecem os defuntos do medo;

Oblíquo caminho das fugas e dos monstros.