Elogio da crioulidade

Patrick Chamoiseau
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Comentário: Euridice Figueiredo (UFF)

Patrick Chamoiseau, em um pequeno artigo publicado em 1990 na revista Carbet , rende uma homenagem a Edouard Glissant, afirmando que, desde a publicação de seu primeiro livro, ele não tem cessado de apontar que a fonte de inspiração de sua obra está em Glissant, numa filiação jamais contestada. Como afirma em Eloge de la créolité (1989) que a literatura antilhana ainda não existe, tratando-se ainda de uma pré-literatura, ele confirma nesse artigo que Glissant é o "pai de sua literatura futura, que nascerá de seu real profundo" (CHAMOISEAU, 1990, p.143). Ao reconhecer a paternidade a Glissant, naturalmente Chamoiseau está retirando-a de Césaire, criador e mentor da negritude, embora no Eloge de la créolité ele, o lingüista crioulista Jean Bernabé e o romancista Raphaël Confiant afirmem ser para sempre filhos de Aimé Césaire. Ele explica que a sua descoberta de Glissant se dá a partir da publicação de Malemort (1975), pois até então estava perdido, buscando ser mais um epígono de Césaire.

Essa reflexão autobiográfica, retomada no Eloge e desenvolvida no livro Ecrire en pays dominé (1997), mostra o marco que foi para o autor a leitura do romance em que Glissant muda a sua linguagem, deixando-se contaminar, hibridizar pela língua crioula, ao mesmo tempo em que cria personagens bem populares, que têm de exercer uma grande criatividade para sobreviver devido à pobreza, acentuada pela escassez provocada pela guerra. Como se pode ver, essa descoberta de Glissant, que aparece em textos pessoais bem como no Eloge , assinado por mais dois autores, é particular a Chamoiseau. Diva Damato mostra no artigo publicado em Horizons d'Edouard Glissant (1992) que Jean Bernabé e Raphaël Confiant não têm a mesma afinidade eletiva com Glissant, pelo menos na época descrita (1975), já que Confiant se manifestou publicamente contra a poética proposta por Glissant (revista Antilla , 1988), enquanto Bernabé diz só ter compreendido as propostas teóricas de Glissant após a leitura de Solibo Magnifique (1988). Assim, quando Chamoiseau afirma na revista Carbet de 1990 que, com sua notoriedade, pretende reconciliar a Martinica com Glissant, pode-se dizer que ele conseguiu tornar menos opaca, até mesmo para seus amigos e co-signatários do texto que causaria tanto furor, a Poética da Relação. No Eloge e em outros textos teóricos ele consegue explicar e vulgarizar o pensamento de Glissant, enquanto coloca em prática nos seus romances a estética da oralidade desenvolvida e praticada por Glissant desde Malemort . Ele não teme afirmar, por exemplo, que "antes de escrever, para [se] colocar em condição, abria um livro de Glissant e lia algumas páginas"(CHAMOISEAU, 1990, p.150), deixando-se impregnar por seu pensamento e pelas volutas de suas frases.

No Eloge de la créolité o conceito de crioulidade é sinônimo de mestiçagem, fato (ou conceito) sempre problemático, historicamente recusado ou depreciado, até porque indelevelmente associado à bastardia. Assumir a mestiçagem/crioulida-

de, eis a grande originalidade do manifesto e provável causa da enorme repercussão que o manifesto teve. A abertura do Eloge é clara: "Nem europeus, nem africanos, nem asiáticos, nós nos proclamamos crioulos" (BERNABÉ, CHAMOISEAU, CONFIANT, 1989, p.13). No entanto, o termo crioulo é também problemático, porque ele designou, historicamente, ora os brancos nascidos nas colônias, ora os negros, não sendo, portanto, marca de mestiçagem. Na Martinica, especificamente, Josephine de Beauharnais, primeira mulher de Napoleão, representa a sociedade crioula da época. Atualmente, é verdade que o termo, por força da reivindicação da língua crioula e da literatura oral, pode-se referir à cultura amalgamada do Caribe. A crioulidade seria uma "visão interior" da antilhanidade proposta por Glissant em Le discours antillais (1981), ou seja, se a antilhanidade é uma concepção geo-política, a crioulidade visa a acentuar o aspecto mais cultural, mais antropológico, fundamentando-se nessa cultura popular tradicional crioula (contos, provérbios, ditos, cantos, adivinhas, expressos em língua crioula), que se quer resgatar através de uma escrita irrigada por ela. No entanto, como Diva Damato já sublinhou no artigo citado, a explicação dada para o sentido de antilhanidade não é muito feliz, revelando, talvez inconscientemente, um "lapso", já que a designa como "uma província da americanidade, a exemplo da canadianidade ou da argentinidade" (BERNABÉ, CHAMOISEAU, CONFIANT, 1989, p.32), ou seja, "antilhanidade" como sinônimo de uma "americanidade" branca. É claro que, embora Glissant não tenha desenvolvido nos textos anteriores a 1989 a questão da mestiçagem, essa idéia está implícita em seu pensamento, sobretudo quando faz a crítica do essencialismo da negritude e quando analisa a tensão das populações transplantadas entre a volta ao país natal (África) e os desvios necessários para se enraizar no novo solo. No glossário do Discours Antillais , Glissant define a crioulidade como uma teoria que se baseia no uso exclusivo da língua crioula, monolingüismo que ele, naturalmente, rejeita. O Eloge faz a apologia do crioulo, "veículo original de nosso eu profundo, de nosso inconsciente coletivo, de nosso gênio popular" (BERNABÉ, CHAMOISEAU, CONFIANT, 1989, p.44), sem, entretanto, defender o monolingüismo. "A crioulidade é a anulação da falsa universalidade, do monolingüismo e da pureza" (BERNABÉ, CHAMOISEAU, CONFIANT, 1989, p.28).

Assim, a crioulidade, diferentemente da americanidade, em que imigrantes europeus transplantam para a América sua cultura original, nasce do ambiente das plantações, com a mistura de diferentes culturas, que se sincretizam. No fundo, a crioulidade não difere muito da mestiçagem, descrita por Gilberto Freyre em Casa grande e senzala (1933) e da transculturação, que Fernando Ortiz concebeu no seu livro Contrapunteo del tabaco y del azúcar (1940).

O Eloge postula como cerne da crioulidade a descoberta de uma linguagem no uso especial do francês e a inspiração na oralidade tradicional. Em relação à língua, Glissant tem clareza sobre isso desde L'intention poétique (1969), quando escre-

via que "a era das línguas orgulhosas de sua pureza deve acabar para o homem: começa a aventura das linguagens (das poéticas do mundo difratado mas recomposto)"(GLISSANT, 1969, p.47). Ou ainda: "A poética não exige mais a adequação da língua mas o fogo preciso da linguagem. Em outras palavras: eu te falo em tua língua e é em minha linguagem que eu te compreendo" (GLISSANT, 1969, p.53).

Além da questão da linguagem, o outro viés da poética com a marca da crioulidade seria a retomada das tradições populares de literatura oral. Justamente por ter como postulação escrever romances que dêem prosseguimento à literatura oral dos contadores de histórias do passado - gênero ameaçado pela nova sociedade dominada pela mídia e pelo francês - os signatários do Eloge têm uma postura ambígua em relação a Césaire, cuja linguagem poética não passa pelo crioulo, embora a negritude seja saudada como o "batismo, o ato primal de nossa dignidade restituída" (BERNABÉ, CHAMOISEAU, CONFIANT, 1989, p.18). O curioso, considerando-se que Césaire escreve desde os anos 1930, é afirmar-se que a literatura antilhana ainda não existe. No entanto, Chamoiseau e Confiant, em Lettres créoles , fazem um percurso de todos os autores antilhanos do passado (sobretudo do século XIX) para mostrar que, apesar de todos os defeitos (os principais deles sendo o mimetismo e a exterioridade), eles formam espécies de balisas, marcos, vestígios, para os atuais escritores. Eles consideram que haja uma "pré-literatura: a de uma produção escrita sem audiência no país, desconhecendo a interação autores/leitores pela qual se elabora uma literatura" (BERNABÉ, CHAMOISEAU, CONFIANT, 1989, p.14). Esta concepção de literatura está muito próxima da de Antonio Candido, que vê a tradição literária como um sistema em que interagem escritor-público-linguagem, quando, na Formação da literatura brasileira ele delimita o momento em que começa a existir "literatura brasileira". A pré-literatura seria sinônimo do que Candido chamou de "manifestações literárias"? Glissant também considera não existir uma literatura antilhana. No entanto a intertextualidade das duas referências talvez seja a contraprova para afirmar que existe uma literatura antilhana, na medida mesma em que há uma interlocução entre os diferentes autores que estão produzindo. Haveria, naturalmente, o argumento, usado por Maryse Condé numa entrevista, de que ninguém a (os) lê. Este dado -inexistência de público leitor - é concebível? Esta seria, aliás, uma longa questão para debate: qual é a dimensão do público leitor mesmo num país continental como o Brasil? Assim, acredito que, desde Césaire, tem havido um diálogo profícuo entre os escritores, que estão continuamente se citando e colocando novos marcos identitários a fim de afirmar uma Diversidade que os liberte das imagens universalizantes impostas pelo etnocentrismo francês. Em ilhas tão exíguas, com pouca densidade demográfica, e ainda mais, tuteladas pelo governo francês na forma de Departamentos de Ultra-Mar, trata-se de uma luta acirrada para não se deixar assimilar. A crioulidade é uma marca identitária, uma afirmação com sua negação correlata: "Trata-se de uma descida em si, mas sem o Outro, sem a lógica alienante de seu prisma"(BERNABÉ, CHAMOISEAU, CONFIANT,1989, p.42).

Um ano depois do Eloge , Glissant publica Poétique de la Relation (1990), no qual critica o conceito de crioulidade, preferindo usar crioulização, que daria uma idéia de processo, sem pretender cair no essencialismo.