A literatura das Américas na época colonial

Afrânio Coutinho
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Comentário: Jaime Ginzburg (UFSM)

A contribuição de Afrânio Coutinho aos estudos literários no Brasil é monumental. Conhecido como organizador da consagrada série A literatura no Brasil , que reuniu uma série de especialistas para expor em um painel as principais bases do cânone da literatura brasileira, Coutinho publicou dezenas de livros, que em seu conjunto caracterizam um dos maiores casos de dedicação à reflexão acadêmica da história do país. A filosofia de Machado de Assis (1940), Por uma crítica estética (1953), Machado de Assis na literatura brasileira (1960), Conceito de literatura brasileira (1960), A polêmica Alencar-Nabuco (1965), Caminhos do pensamento crítico (1974), Notas de teoria literária (1976), Universidade, instituição crítica (1977) e O erotismo na literatura (1979) são alguns entre os muitos títulos que resultaram de seu trabalho.

A influência de Afrânio Coutinho na pesquisa universitária ainda está por ser avaliada, considerando o porte de sua produção. Tendo centrado seus interesses em Teoria, Crítica e História da Literatura, com especial ênfase em Literatura Brasileira , desenvolveu estudos em diversas áreas de conhecimento, cabendo destacar Educação e História. Duas grandes linhas condutoras podem ser observadas como constantes em seu universo de atuação. A primeira é a intenção de firmar, analisar e divulgar o cânone da literatura brasileira, buscando para isso, freqüentemente, a reflexão conceitual capaz de dotar essa intenção de rigor. A segunda é discutir, tendo um campo bastante amplo de interlocutores, o papel da crítica literária, em especial seu estatuto acadêmico no Brasil. As duas linhas freqüentemente se cruzaram em favor da coerência de ambas, de modo que, em Coutinho, as ponderações com relação ao papel dos estudos críticos podiam sempre ser consideradas como pontos de inflexão motivados dentro do processo de investigação crítica que ele mesmo colocava em prática.

Machado de Assis, com seu artigo O ideal do crítico , é considerado um referencial decisivo para o autor, pois teria defendido idéias, como a de que é necessária a análise atenta dos textos literários, que antecipariam, em sua opinião, preocupações com relação ao rigor intelectual e à postura da crítica contemporânea (COUTINHO: 1986, v.III, 344). Afrânio Coutinho esteve preocupado em defender uma produção crítica de caráter acadêmico, fundamentada em metodologia sistemática, dotada de racionalidade científica. Além disso, priorizou sempre a crítica voltada para a interioridade da obra, a leitura que se dedica a investigar elementos formais e estruturais.

Duas estratégias de trabalho crítico foram objeto de sua contestação. A crítica de jornal, em que não existe comprometimento com o estudo acadêmico ou com qualquer fundamentação metodológica, não atingia, para ele, um padrão de competência adequado ao papel intelectual que a crítica de fato deveria assumir (COUTINHO: 1969, 82-3). A crítica sociológica, por sua vez, era incômoda por, na opinião de Coutinho, estabelecer relações de causalidade entre sociedade e literatura, e converter o texto literário em documento, sendo afastada a relevância de sua especificidade, isto é, sua literariedade (COUTINHO: 1969, 52-3; Idem, 103; Idem, 182).

Em diversos estudos, o autor procurou deixar clara e firme sua posição, valorizando a crítica acadêmica e o esforço pela leitura intrínseca do texto. Considerou que conhecimentos históricos, sociológicos, psicológicos e econômicos poderiam ser levados em conta no estudo de textos, desde que fossem apenas referências complementares, não interferindo na prerrogativa do estudo intrínseco (PAES: 1987, 124). Enfatizou também a necessidade de pensar a História da Literatura como uma história propriamente literária, em que categorias e fases fossem formuladas não por critérios políticos, mas puramente estéticos. A própria noção de autonomia , por exemplo, era um caso importante: a cronologia da autonomia política, concebida por Coutinho como passagem da colônia ao império, nada tem em comum com a busca da autonomia literária, que teria iniciado muito antes.

Em 1983 a editora Civilização Brasileira lançou uma coletânea de estudos de Afrânio Coutinho, intitulada O processo da descolonização literária (COUTINHO: 1983). O livro se divide em três segmentos, Temas de literatura, Temas de educação e Temas de história . Sua variedade de assuntos exemplifica a pluralidade de caminhos do trabalho do autor ao longo de décadas. Coutinho avalia o ensino de literatura no país, registra lembranças sobre a criação da Faculdade de Letras da UFRJ, reflete sobre problemas de historiografia, articula literatura e comunicação de massa, discute telenovela, examina a possibilidade de pensar a presença do surrealismo no Brasil, elabora uma reflexão teórica sobre literatura comparada, e retorna a dois de seus temas preferenciais - José de Alencar e Machado de Assis.

Apesar da ampla diversidade, o próprio Coutinho propõe como elemento integrador do livro a reflexão sobre "a autonomia da cultura e da própria nação brasileira" (p.11). Na Introdução que abre o livro, o autor faz referência à dominação européia no período colonial, e situa a busca da identidade nacional como um movimento do processo de tentativa de superação da dependência resultante da exploração. A idéia de "descolonização", que dá título ao livro, corresponde ao processo de estabelecimento de autonomia com relação às matrizes européias. Entre os focos de realização desse processo, estaria, sobretudo no século XIX, a formulação de uma oposição entre a Europa e a "América tomada em sentido global" (p.12).

Dentro do livro, provavelmente o texto que cumpre de maneira mais explícita a finalidade de examinar afinidades profundas entre os diversos territórios americanos é A literatura das Américas na época colonial, painel erudito em que encontramos referências à "América inglesa" (p.47), às nações que tiveram colonização espanhola e sobretudo ao Brasil (**). O estudo tem uma estruturação racional, orgânica, em que é possível discernir os passos dados por Afrânio Coutinho para obter suas conclusões.

Podemos delimitar um primeiro segmento, composto por seis parágrafos, que consiste em uma elaboração teórica sobre periodização literária. Coutinho explica, com base em René Wellek , como devemos compreender um período literário. Afirma que períodos não são unidades temporais, mas "unidades tipológicas" (p.39). Para compreender um período, é necessário observar a percepção de mundo que ele expressa:

" O centro de uma época ou um período estilístico é ocupado por uma idéia do homem ou o conjunto de concepções que o homem faz de seu destino, de si próprio, da vida futura, de Deus. O melhor estilo para um período é aquele que se mostra mais adequado a dar expressão estética a essa visão do mundo e do homem (p.40) . "

Tal como nesse caso, a reflexão sobre periodização apresentada em Introdução à literatura brasileira (COUTINHO: 1980, 8-31) também leva em conta René Wellek e, de modo mais geral, as idéias do New Criticism. Procurando fugir dos esquemas da crítica naturalista, Coutinho, segundo João Alexandre Barbosa, utilizou os princípios dessa corrente para desenvolver um trabalho fundado em "critérios de ordem estético-estilística" (BARBOSA: 1990, 58). O interesse de Afrânio Coutinho pelas idéias de Wellek é bastante ostensivo, tendo dedicado espaço à divulgação do livro Teoria da Literatura , escrito com Austin Warren (COUTINHO: 1975, 19-20).

A concepção de História da Literatura adotada por Wellek foi divulgada no Brasil (WELLEK: 1978), e defende que forma e conteúdo de uma obra devam ser tratados de maneira integrada, levando em conta as finalidades estéticas do texto. De acordo com Keith Cohen, em sua reflexão sobre o New Criticism, René Wellek se destacou como um dos teóricos mais importantes de seu tempo nos Estados Unidos. Wellek e os outros estudiosos dessa linha, estavam ocupados com a abordagem de aspectos estruturais. A leitura intrínseca deveria ser o eixo fundamental da análise, sendo a História da Literatura responsável pela conciliação desse eixo com a consideração da História propriamente dita (COHEN: 1983).

Voltemos ao artigo sobre o qual nos centraremos aqui, A literatura das Américas na época colonial , que sintetiza algumas das principais teses defendidas por Coutinho ao longo de sua produção. Após explicar a periodização, o segundo passo do autor é situar seu objeto de estudo, "a literatura produzida nas Américas" (p.40). De acordo com sua caracterização, a produção literária colonial é marcada pela presença de elementos do Renascimento, do Barroco e do Rococó Neoclássico. O autor distingue três regiões: "as Américas Inglesa, Espanhola e Portuguesa" (p.40). Tendo apresentado esses dados, estabelece combinações, traçando especificidades. A cultura renascentista teria sido mais presente na América Espanhola do que nas demais. O Barroco, por sua vez, prolongou-se em território brasileiro, para além das convenções gerais.

Coutinho examina a presença da cultura renascentista na literatura de viagens em torno do período inicial da colonização. De acordo com seu juízo, comparando a Prosopopéia de Bento Teixeira e La Araucana , de Alonso de Ercilla Y Zuniga, o êxito da presença do humanismo renascentista na cultura hispânica é superior.

Logo depois, o autor lança uma das principais teses do artigo, a de que a melhor contribuição da literatura colonial das Américas é dada pelo barroco. Metodicamente, anuncia que deve "tentar fixar a definição e caracterização do fenômeno do barroco" (p.42), de modo a buscar clareza em suas proposições. Boa parte do artigo é dedicada à recuperação de fatores históricos, fundamentos epistemológicos, exposição de elementos estéticos e marcas expressivas importantes para a compreensão do período. Cabe destacar, dentre os elementos recuperados por Coutinho, o confronto entre idéias da Contra-Reforma e princípios do Renascimento (p.43-5), e a revolta contra os modelos ciceronianos presentes na cultura renascentista (p.46).

Após a apresentação do barroco, Afrânio Coutinho retorna à reflexão sobre a literatura das Américas. Enumera escritores da América Inglesa que se destacaram no período, chamando a atenção para o modo como interiorizaram temas religiosos. Inclui poetas e prosadores, deixando claro que, em sua opinião, nesse período, "a literatura norte-americana (...) não se mostra de grande relevo" (p.48).

Coutinho entende que na América Hispânica há um desenvolvimento intenso do barroco, que se torna "estilo de vida" no processo de urbanização da colônia (p.48). Também no Brasil encontra um "estilo barroco de vida", associado a "peculiaridades de nossa psicologia coletiva e de nossa fisionomia artística" (p.48).

O autor defende a tese de que o barroco "provocou a aproximação entre os valores da cultura européia e os elementos indígenas", em que o processo de mestiçagem é a base de um "americanismo nascente", com um "novo sistema de convivência social" (p.48). De modo similar, em Conceito de literatura brasileira , Coutinho defende que desde o início do processo de colonização já temos uma "fala brasileira" (COUTINHO: s.d, 10). Para ele, podemos compreender o Brasil como extensão do ocidente, ou como dotado de cultura peculiar, em razão das misturas realizadas (COUTINHO: 1983, 258). Benedito Nunes resume com clareza a percepção de Afrânio Coutinho.

" Se a literatura se identifica como brasileira é porque desde o início expressa a nova experiência de um homem novo. O europeu nos trópicos terá começado a mudar segundo o princípio da "obnubilação" do crítico Araripe Júnior (1848-1911): ofuscado pela luz, cercado pela Natureza, estonteado pelo clima, o europeu esquece a situação passada” (NUNES: 1998, 240).

Nos termos de Coutinho, o europeu

" ressuscitou como outro homem, a que vieram agregar-se outros homens novos aqui nascidos e criados. Esse homem novo, americano, brasileiro, gerado pelo vasto e profundo processo aqui desenvolvido de miscigenação e aculturação, não podia exprimir-se com a mesma linguagem do europeu, por isso transformou-a, adaptou-a, condicionou-a às novas necessidades expressionais” (COUTINHO: s.d., 15).

Com relação aos modelos europeus, artistas brasileiros e da América Hispânica elaboram formas diferenciadas, o que, para Coutinho, é explicado pela mudança de contexto de produção: "Como não compreender que não seria possível permanecer idêntica, se a situação histórica, social e geográfica era tão profundamente diferente?" (p.50). A partir de então, Coutinho se dedica a uma comparação entre Brasil e América Hispânica, para ressaltar a profunda afinidade existente, identificando semelhanças em gêneros literários dominantes, traços estéticos constantes, bem como, de modo mais geral, linhas de pensamento afins.

Após essa percepção geral, o autor elege alguns nomes importantes e comenta suas respectivas produções. Na América Hispânica, elege Juan del Valle Caviedes e Sor Juana Inés de la Cruz. No Brasil, Coutinho situa o início do barroco na literatura jesuítica do século XVI, argumentando que a produção voltada para a catequese procurava propor uma visão pessimista da vida terrena, calcada na sugestão de medo "da morte, da decadência, do inferno, da passagem do tempo" (p.52).

Defendendo que, em suma, "a literatura colonial é literatura barroca" (p.51), Afrânio Coutinho indica como autores maiores do período Antônio Vieira e Gregório de Matos, respectivamente "ponto alto em prosa" e "expressão individual mais forte da poesia" (p.53). O barroco estaria presente também em textos políticos, jurídicos, administrativos e historiográficos.

Quase no final do estudo, o autor defende ainda uma tese decisiva. Para ele, o conceito de "literatura colonial" deveria ser riscado da terminologia crítica e historiográfica. O argumento é o seguinte:

" O qualificativo "colonial" tem um sentido político, inteiramente inadequado à caracterização do fenômeno literário. Em literatura, nada ele diz que caracterize e defina a produção que pretende enquadrar. É uma simples etiqueta para designar o período em que as regiões do Continente novo faziam parte do império colonial das nações européias. Em historiografia literária moderna, procuram-se termos de conteúdo estético para definir os períodos. É o que pretende a periodização estilística ao propor os conceitos de Maneirismo, Barroco, Impressionismo, Rococó, para figurar ao lado dos antigos de Classicismo, Romantismo, Realismo (p.54) ".

Essa idéia é desenvolvida também em Conceito de literatura brasileira , em que Coutinho propõe que "literatura colonial" é um conceito absurdo (COUTINHO: s.d., 14), e que "colonial" é um termo político, e não estético (idem, p.16).

A finalização procura sintetizar os elementos expostos anteriormente, defendendo que "a produção literária das Américas no período colonial pertence aos estilos renascentista e barroco". Em poucas linhas, trata do neoclassicismo arcádico e menciona Tomás Antonio Gonzaga. No entanto, não pretende com isso defender que o predomínio do barroco é substituído pelo árcade. Ao contrário, mantém a idéia de presença do barroco em uma extensão abrangente que vai atingir "as primeiras manifestações românticas" (p.54). Essa idéia também aparece em Conceito de literatura brasileira (COUTINHO: s.d, 26), formulada com a mesma abrangência.

Os três últimos parágrafos são dotados de teses importantes. Por essa razão, vale a pena reproduzi-los na íntegra.

" Por tudo isso, podemos considerar o Barroco, durante os três séculos da Colônia, o principal veículo de expressão do novo espírito americano.

No Brasil, o Barroco, ainda teve, a meu ver, um aspecto digamos político de não menor significado. É que, sendo um fenômeno de marcado colorido espanhol, pela origem e influências, o espírito português, possivelmente em relação à dominação espanhola, foi-lhe sempre infenso, não havendo em Portugal grandes manifestações barrocas. Ao contrário, o Brasil teria encontrado no Barroco uma motivação para reforçar as suas tendências nativistas. Daí, a sua maior autenticidade entre nós e as expressões do estilo no Brasil de maior valor que em Portugal.

Por tudo isso, o Barroco constitui a essência da cultura brasileira, ainda hoje com efeitos profundos em nossa alma (p.54-5) ".

Cabe observar que, embora generalize no último parágrafo e admita a influência atual do barroco, Afrânio Coutinho discordou de Severo Sarduy justamente pelo fato de este ter vinculado o barroco setecentista com a cultura contemporânea (COUTINHO: 1983, 28).

O percurso desenvolvido, em suma, obedece a seguinte trilha: reflexão teórica sobre periodização literária; caracterização do objeto de estudo, a literatura das Américas; demarcação da presença do Renascimento nessa literatura; reflexão teórica sobre o conceito de barroco; análise da presença do Barroco nessa literatura, com maior desenvolvimento para a América Hispânica e principalmente o Brasil; apresentação de conclusões referentes à literatura do período colonial. O método é importante para a consistência da argumentação, e segue o princípio de estabelecimento de uma "ciência da literatura" (COUTINHO: 1980, 62). Para o autor, a crítica deve ser sempre racional, dotada de raciocínio lógico-formal (COUTINHO: 1983, 152). A fundamentação teórica deve sustentar as análises; estas, por sua vez, são distribuídas de modo a deixar claras as articulações, por semelhança e/ou diferença, entre as três regiões da América, e entre estas e a Euopa; as conclusões são apresentadas, em procedimento dedutivo, como generalizações cuja base de demonstração é encontrada nas análises anteriores. A ordenação das partes do estudo é lógica e pertinente. A erudição necessária para as poucas páginas é vasta e rara, incluindo conhecimentos de documentação literária, religiosa e histórica em vários idiomas. Para realizar seu trabalho, Afrânio Coutinho se vale de sólidos conhecimentos de literatura brasileira, hispano-americana, norte-americana, inglesa, espanhola, portuguesa, artes plásticas, arquitetura, filosofia e religião, entre outras áreas. Articula fundamentação teórica, discussão conceitual e análise de autores, e se mantém, constantemente, em perspectiva comparatista.

De acordo com Keith Cohen, o New Criticism , corrente que marcou profundamente o pensamento de Coutinho, foi alvo de diversas controvérsias, centradas principalmente no modo de a corrente lidar com a História e as questões sociais. O fato de a análise intrínseca ser considerada prioritária, em razão da necessidade de afastar a sociologia da literatura, que trazia o risco definido por Coutinho como tratar a literatura como documento, levou à possibilidade de entender o trabalho acadêmico do crítico de modo independente da atribuição de um papel social (COHEN: 1983, 29). A terminologia dos teóricos, em um ambiente como o norte-americano, carregado de fortes tensões ideológicas, envolvendo ações de guerra, racismo e forças autoritárias, "permitia a qualquer um esconder suas verdadeiras cores" e contribuir para perpetuar ideologias conservadoras (Idem).

O problema exposto por Cohen está na raiz da crítica de Afrânio Coutinho dirigida ao livro Formação da literatura brasileira , de Antonio Candido. Para Coutinho, os critérios sociológicos adotados por Candido constituem um equívoco, e desconsiderariam a importância da produção literária anterior ao arcadismo. A literatura brasileira teria emergido do barroquismo. Coutinho chega a sugerir que Candido adota a perspectiva do colonizador, ao formular seu trabalho (COUTINHO: s.d, 38-56). Certamente Antonio Candido não representa a tendência de reduzir a literatura a um mero documento, ele procurou articular o estudo do externo e do interno, das relações entre contexto e texto, levando em conta elementos formais. Embora a metodologia de Antonio Candido não caia em redução, Afrânio Coutinho discorda de seus pressupostos, defendendo que "A visualização do barroco brasileiro põe por terra toda a tese de Antonio Candido" (idem, p.41).

A posição de Afrânio Coutinho é hostil não apenas à redução da obra a um documento mas, de modo mais geral, ao que ele chamou de "tirania sociológica" e "tirania política" (COUTINHO: 1980, 34). Contrário ao marxismo, Coutinho demarcou com clareza sua discordância das preocupações da crítica voltada a questões sociais e políticas, estando sempre em favor da leitura intrínseca (COUTINHO: 1969, 52-3). Ao avaliar a herança de Sílvio Romero, considera que "a tradição naturalista da crítica sociológica prolongou-se por toda a primeira metade do século XX, produzindo ainda, depois do Modernismo, a vertente marxista, com Nelson Werneck Sodré" (COUTINHO: 1986, v.IV, 61), o que representaria a continuidade de problemas que afastariam o estudo da literatura da análise intrínseca e do respeito à sua autonomia. De acordo com Flora Sussekind, "para ele, o processo social se apresenta como fator eminentemente 'externo', 'moldura' para o que se desenrola na produção cultural", sendo o estudo "baseado nesta separação entre fatores intrínsecos e extrínsecos e na autonomia para o literário" (SUSSEKIND: 1993, 22).

Uma de suas afirmações mais representativas, nesse sentido, é de que "a evolução de nossa literatura foi uma luta entre uma tradição importada e a busca de uma nova tradição de cunho local ou nativo (...) O conflito entre as duas tendências - a que arrasta para a Europa e a que busca estabelecer uma tradição local, nova - constitui os pólos de nossa consciência literária, gerador de um drama em meio do qual ainda agora vive o país" (COUTINHO: 1980, 35-6). O fato de Coutinho formular o conflito como luta entre tradições é significativo.

Na introdução ao livro de 1983, Coutinho apresenta a indicação de que os colonizadores foram exploradores da terra (COUTINHO: 1983, 253) e utilizaram medidas "violentas ou sub-reptícias" para reprimir a autonomia nacional (COUTINHO: 1983, 11). Ele admite a necessidade de considerar textos de ciências sociais de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque para a reflexão sobre o Brasil (COUTINHO: 1980, 47-8). E observa que no país freqüentemente o homem de letras está envolvido com a política (Idem, 52). Apesar de tudo isso, o que prevalece em sua produção é a idéia de que o "conflito", o "drama", se desenvolve no plano cultural , de maneira específica, independentemente do plano político. A razão disso é que

" A autonomia literária não deve ser colocada em termos políticos, não tem conteúdo e significado político (...) É de natureza estética. É a marcha ou conquista, por parte de um povo, de sua auto-expressão nacional. (...) A busca da auto-expressão literária é de caráter estético (...) E ela deve ser seguida nos elementos literários, na evolução das formas (...)" (COUTINHO: s.d, 64-5) .

A pressuposição de que cultura e política podem ser separadas autoriza a tese de que a autonomia literária deve ser pen sada como problema estético, e investigada em termos formais. De modo correlato, Coutinho se mostra indignado com a proximidade entre as letras e a política, preferindo pensar em um conceito de "homem de letras puro" (COUTINHO: 1980, 52), desvinculado de interesses em ações políticas.

As teses desenvolvidas em A literatura das Américas na época colonial, nesse sentido, devem ser compreendidas dentro do enquadramento teórico-metodológico proposto firmemente por Afrânio Coutinho ao longo de sua produção. O barroco é considerado expressão central da cultura da América, e em especial do Brasil, em razão de que, em seu caráter tenso e contraditório, expressaria, de acordo com os termos expostos pelo autor e aqui anteriormente mencionados, a formação dos americanos, pela mestiçagem. O drama da luta entre as tradições européia e nativa estaria representado na força de busca de autonomia literária, que pode ser, pela análise intrínseca, verificada na expressão barroca

Coutinho acredita que o fato de as telenovelas brasileiras serem transmitidas com sucesso em Portugal caracteriza um processo anti-colonizador, revertendo o processo anterior (COUTINHO: 1983, 178). Ao formular uma proporção em que o movimento de séculos de colonização exploratória e a telenovela participam de um mesmo parâmetro, essa idéia distorce o impacto real das experiências a que se refere, e não leva em conta o fato de que essa transmissão ocorre hoje em razão de existência de condições econômicas e sociais de produção e recepção cultural, concretamente situadas no tempo e no espaço. Essa afirmação contribui para enfatizar o princípio geral, descrito por Flora Sussekind. A produção cultural é considerada de modo independente das relações sociais e políticas.

O conceito de mestiçagem de Coutinho, articulado com a noção de drama de luta entre as tradições, é de caráter formal. A violência do período colonial, a coerção, a escravidão, a obtenção inconseqüente de lucro para a metrópole, os relacionamentos humanos baseados em opressão, a inquisição, os abusos corporais de escravos, as mutilações, os massacres, todos esses elementos da vida política e social que participaram da formação da sociedade brasileira estão desconsiderados na construção dos principais argumentos.

A Contra-Reforma e o Renascimento aparecem em A literatura das Américas na época colonia l como fenômenos histórico-culturais cujas implicações sócio-políticas são desconsideradas. O fato de que as idéias barrocas foram introduzidas no Brasil dentro da lógica de circulação de idéias própria do sistema colonial, de acordo com a vontade das lideranças responsáveis pela dominação exploratória, não é levado em conta nas condições de produção literária.

O conceito de homem americano, como homem novo, resultante da composição peculiar de culturas, e sustentado na idéia de que o europeu, vindo aqui, teria mudado de postura, é um conceito inteiramente pautado em uma desconsideração intencional da violência colonial, dos fatores políticos que estavam articulados com a produção literária. Esse conceito e a noção de "fala brasileira" apresentam a pressuposição de que entre as culturas que participam do processo social fosse possível estabelecer uma síntese estética. Na verdade, o que ocorria não era uma síntese como conciliação de interesses conflitos, mas um impasse, em razão dos antagonismos que moviam a formação social.

A interpretação de que o barroco, por ter sido desenvolvido no Brasil em maior extensão do que em Portugal, teria um valor nativista, distorce a percepção da realidade indígena como nativa, e atribui à circulação e ao aproveitamento de idéias espanholas um valor libertário que certamente, se fosse considerado o campo sócio-político, seria relativizado. Mais do que todas as anteriores, a idéia mais delicada é a do "homem de letras puro", desvinculado dos interesses políticos. Antônio Vieira comentando as armas holandesas e Gregório de Matos lamentando a tristeza da Bahia no universo mercantil, nesse caso, fugiriam ao ideal do letrado de Afrânio Coutinho.

Resguardado o enorme valor da contribuição de Afrânio Coutinho para as Letras no país, examinando especificamente sua forma de compreender a literatura americana e as teses mencionadas, é necessário, em perspectiva adorniana, levar em conta que o autor não considerou os antagonismos sociais articulados aos antagonismos formais presentes na produção barroca que tanto prestigiou. Tendo em conta a especificidade da linha de trabalho de Coutinho, a reflexão sobre sua produção teórica, crítica e historiográfica é essencial para a discussão de temas centrais na atualidade dos Estudos Literários, como as relações entre literatura e identidade nacional, e a especificidade da cultura brasileira com relação à hispano-americana, à norte-americana e à européia.

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(**) Os números de página indicados isoladamente se referem sempre a este artigo, na edição indicada. A edição disponível não identifica o ano exato de redação do artigo, o que seria relevante para a compreensão de suas condições de produção e recepção. Outros capítulos contêm essa identificação, e por isso sabemos que no livro estão contidos desde textos redigidos na década de 60, até estudos dos anos 80.