Considerações gerais sobre o caráter que a poesia deve assumir no novo mundo

Ferdinand Denis

DENIS, Ferdinand. Resumo da história literária do Brasil. Tradução e notas de Guilhermino César. Porto Alegre: Lima, 1968. p.29-39: Considerações sobre o caráter que a poesia deve assumir no novo mundo.

Comentários: Maria Helena Rouanet (UERJ)

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O CARÁTER QUE A POESIA DEVE ASSUMIR NO MUNDO

A América Meridional, durante longo tempo submetida ao jugo de duas potências européias, parecia condenada a fornecer-lhes riquezas, sem partilhar de sua glória. Com a privação da liberdade, sentiu-se vivo desejo de maiores conhecimentos do Novo Mundo. Não estamos mais na época em que se podiam manter os americanos em sujeição, por meio dos laços políticos e da ignorância. Nos lugares de onde extraímos ouro, deixamos escapulir o germe de todos os conhecimentos; veremos o que produzirá essa troca, feita muitas vezes à nossa revelia, dado que na maioria dos países da América do Sul os livros eram proibidos, ou se ocultavam na biblioteca dos clérigos, e lá, muitas vezes, eram desdenhados pela ignorância ociosa.

Contudo, é preciso convir em que Portugal foi bem menos rigoroso em tais medidas do que os países limítrofes, e que o antigo governo, transferindo sua sede para o Rio de Janeiro, levou-lhe também o gosto das ciências e das artes, e facilitou mesmo a sua cultura; o Brasil deixou então de ser colônia; o odioso sistema caía por si mesmo: alguns anos mais tarde, os brasileiros viriam a destruí-lo por completo.

Entretanto, no começo do século, o vasto império do Brasil tomava ainda emprestados a Portugal alguns débeis raios de sua velha glória literária, para com eles se engalanar; os êxitos que os brasileiros houvessem adquirido contavam pouco, como as riquezas da terra, iam opulentar o tesouro da metrópole: ignorava-os o resto do mundo, e os próprios Americanos quase não se apercebiam de que deviam exaltá-los; contudo, o amor infeliz, o descobrimento desta bela região, as conquistas dos Europeus, haviam já inspirado aos homens do Novo Mundo; sem o perceber, deixavam-se seduzir por um ambiente delicioso; poetas da natureza, haviam celebrado seus encantos; dominados por paixões nobres e ardentes, cantavam o seu poder.

O Brasil, que sentiu a necessidade de adotar instituições diferentes das que lhe havia imposto a Europa, experimenta já a necessidade de ir beber inspirações poéticas a uma fonte que verdadeiramente lhe pertença; e, na sua glória nascente, cedo nos dará as obras-primas desse primeiro entusiasmo que atesta a juventude de um povo.

Se essa parte da América adotou uma língua que a nossa velha Europa aperfeiçoara, deve rejeitar as idéias mitológicas devidas às fábulas da Grécia: usadas por nossa longa civilização, foram dirigidas a extremos onde as nações não as podiam bem compreender e onde deveriam ser sempre desconhecidas; não se harmonizam, não estão de acordo nem com o clima, nem com a natureza, nem com as tradições. A América, estuante de juventude, deve ter pensamentos novos e enérgicos como ela mesma; nossa glória literária não pode sempre iluminá-la com um foco que se enfraquece ao atravessar os mares, e destinado a apagar-se completamente diante das aspirações primitivas de uma nação cheia de energia.

Nessas belas paragens, tão favorecidas pela natureza, o pensamento deve alargar-se como o espetáculo que se lhe oferece; majestoso, graças às obras-primas do passado, tal pensamento deve permanecer independente, não procurando outro guia que a observação. Enfim, a América deve ser livre tanto na sua poesia como no seu governo.

O Novo Mundo não poderá passar sem tradições respeitáveis; dentro de alguns séculos, a época presente, na qual se fundou a sua independência, nele despertará nobres e comovedoras evocações. A sua idade das fábulas misteriosas e poéticas serão os séculos em que viveram os povos que exterminamos e que nos surpreendem por sua coragem, e que retemperaram talvez as nações saídas do Velho Mundo: a recordação de sua grandeza selvagem cumulará a alma de orgulho, suas crenças religiosas animarão os desertos; os cantos poéticos, conservados por algumas nações (1), embelezarão as florestas. O maravilhoso, tão necessário à poesia, encontrar-se-á nos antigos costumes desses povos, como na força incompreensível de uma natureza constantemente mutável em seus fenômenos: se essa natureza da América é mais esplendorosa que a da Europa, que terão, portanto, de inferior aos heróis dos tempos fabulosos da Grécia esses homens de quem não se podia arrancar um só lamento, em meio a horríveis suplícios, e que pediam novos tormentos a seus inimigos, porque os tormentos tornam a glória maior? Seus combates, seus sacrifícios, nossas conquistas, tudo apresenta aspecto esplendoroso. À chegada dos europeus, pensaram, na sua simplicidade, que se confiavam à proteção de deuses; mas, quando perceberam que deviam combater contra homens, morreram sem conhecer a derrota. A voz de seu deus era o raio; seu templo, o deserto; para eles, mil gênios fantásticos animavam a natureza, ajudavam os homens ou destes se faziam temidos. Estudados que sejam os leves vestígios remanescentes de três séculos de destruição, aí se acharão todos os pensamentos primitivos que excitam fortemente a imaginação; mas, para que se nos deparem tais pensamentos em toda a sua energia, não será preciso buscá-los às hordas que a civilização destruiu lentamente, as quais ocultam as desgraças da raça americana nas plagas em que foram confinadas: e penetrando-se no seio das florestas, interrogando-se as nações livres, ver-se-ão os campos ainda vivificados por pensamentos verdadeiramente poéticos.

Por outro lado, todo o heroísmo da Idade Média, todo o espírito ardente e aventuroso dos tempos da cavalaria, não se insinuam com um colorido particular nessas viagens dos primeiros exploradores, corajosamente penetrando no âmago das florestas virgens, enfrentando audaciosamente animais desconhecidos, visitando nações que poderiam destruí-los? Não ambicionavam senão o ouro; mas alguma glória irrecusavelmente lhes cabe; a poesia pode senhorear-se de suas correrias distantes.

Que se pretende venha o Americano a fazer de nossas comparações, sugeridas por uma natureza já esgotada pelo trabalho de séculos? Na floresta virgem, experimenta o homem as mesmas mente devastados pelo lenhador? Não tem mais força a liberdade, os animais que vivem na campanha? Não arroja o oceano suas vagas contra um litoral mais impressionante? A aurora da Grécia, com seus róseos dedos, abrirá aquele céu ofuscante de esplendor, cujo brilho faria empalidecer o mesmo Apolo? Se os poetas dessas regiões fitarem a natureza, se se penetrarem da grandeza que ela oferece, dentro de poucos anos serão iguais a nós, talvez nossos mestres. Essa natureza, muito favorável ao desenvolvimento do gênio, esparze por toda a parte seus encantos, circunda os centros urbanos com os mais belos dons; e não é como em nossas cidades, onde a desconhecem, onde muitas vezes não a percebem.

Celebre desde já o poeta dessas belas regiões os magnos acontecimentos do século; mas não esqueça também os erros do passado; suspenda a sua lira por instantes nos galhos dessas árvores antigas cujas sombrias ramadas ocultam tantas cenas de perseguição; retome-a, após haver lançado um olhar de compaixão aos séculos transcorridos; lamente as nações exterminadas, excite uma piedade tardia, mas favorável aos restos das tribos indígenas; e que este povo exilado, diferente na cor e nos costumes, não seja nunca esquecido pelos cantos do poeta; adote uma nova pátria e cante-a ele mesmo; console-se à lembrança de outros infortúnios, rejubile-se com a radiosa esperança que lhe dá um povo humano.

Não temo dizê-lo, o Americano, no qual tantas raças se misturam, o Americano, orgulhoso de sua terra, de sua riqueza, de suas instituições, virá um dia visitar a Europa, assim como dirigimos nossos passos na direção das ruínas do antigo Egito. Pedirá então lembranças poéticas a esta terra que brilhara com tamanho fulgor; pagar-lhe-á justo tributo de reconhecimento. A Europa fundamentou a grandeza do Novo Mundo, e este será talvez, um dia, seu mais belo título de glória.

Quer descenda do europeu, quer esteja ligado ao negro ou ao primitivo habitante da América, o brasileiro tem disposições naturais para receber impressões profundas; e para se abandonar à poesia não precisa da educação citadina; afigura-se que o gênio peculiar de tantas raças diversas nele se parenteia: sucessivamente arrebatado, como o africano; cavalheiresco, como o guerreiro das margens do Tejo; sonhador, como o Americano (2), quer percorra as florestas primitivas, quer cultive as terras mais férteis do mundo, quer apascente seus rebanhos nas vastas pastagens, é poeta: o viajante depara também, freqüentemente, no centro das povoações, ou nas campinas, grupos formados para ouvir um conto de fada, uma canção merencória, um relato de longas terras; à beira d'água, nas florestas, no coração das cidades, vereis essa ânsia de dar pasto à imaginação. Não é jamais completamente indolente o descanso do brasileiro: canta, ou os acordes do violão acompanham os devaneios da sua meditação; se mergulha, porém, no descanso, liberto de pensamentos, talvez chegue a contemplar o que de opulento a natureza desatou em torno dele. Que espetáculo, e como não admirá-lo! Nas bordas do mar, no seio das baías profundas, onde as débeis ondas morrem na praia, quase sempre os coqueiros se balançam docemente, a pervinca-rosa ou a ipoméia recobrem as areias nuas do litoral, o mangueiral forma labirintos de verdura; e se os olhos se dirigem para alguma ilha longínqua, ao panorama dessas florestas verdejantes, dessas praias amenas, dessas férteis colinas que se desdobram diante dos olhos, a imaginação colabora com a idéia do mais tranqüilo retiro, da solidão que ninguém viria quebrar. Muitas vezes, juntam-se à brisa do oceano os aromas da terra, e se a rajada fresca dobra o laranjal, espelha-se pelo ar um leve perfume que acaricia o olfato, desfaz-se por momentos, volta a impor-se, e perde-se no espaço. Tudo se reúne para nos encantar, nessa deliciosa paragem; e o estio quebra por alguns meses apenas a beleza da paisagem. Mas, no interior, à margem dos extensos rios que banham a região, a umidade benfazeja assegura quase sempre o esplendor da vegetação. Nesta exuberância da natureza, no tumulto de suas produções, nessa fertilidade selvagem que se exibe ao lado da fertilidade da arte, na esperança suscitada pela abundância da terra, ao rugir das florestas primitivas, ao fragor das quedas d'água que se lançam de rochedo em rochedo, ao bramido dos animais selvagens, que parecem desafiarem o homem no sertão, a mente do brasileiro ganha outra energia; e tanto isso é verdade que o viajante vê-se naturalmente atraído a povoar as florestas com os seus cantos, e quantas maravilhosas histórias da fase do descobrimento encantam o lazer das caravanas. Segundo a maneira de contar, de escutar e de compreender, reconhecereis esses homens tão diversos nos costumes e no caráter, separados outrora, entre si, por espaços imensos, e agora reunidos pela Providência para formar um povo de irmãos. O americano ouve com melancolia, uma tristeza imensa lhe transluz no olhar; se fala, é em voz baixa, com um acento lastimoso nas palavras; raramente se anima, retendo a energia no fundo da alma, que é toda pela independência, pela liberdade que reina nas florestas. O negro necessita abandonar-se ao calor de sua imaginação, precisamos acompanhar-lhe o pensamento; a rapidez de suas palavras não lhe basta à abundância das idéias; com os gestos, excita os espectadores, a voz se lhe dispara numa gargalhada, os olhos acesos denunciam o calor que vai n'alma. Inconstante nos sentimentos, mas sempre crédulo, o sobrenatural embeleza-lhe as narrativas; dá vida, com as tradições poéticas da terra natal, à nova pátria. Sem dúvida, geme ainda à lembrança dos infortúnios passados, mas, apesar das dores da escravidão, o presente, arrebatando-lhe o ardor da imaginação, o conduz e desvia-lhe os olhos do futuro; e o branco, que partilha amiúde o trabalho daqueles dois homens, orgulhoso de pertencer à raça dos dominadores, cria-se tradições novas, mas retém as dos velhos tempos; o seu pensamento vagueia algumas vezes sobre os tempos; o seu pensamento vagueia algumas vezes sobre as bordas daquele Tejo por ele jamais visto; sua imaginação pertence à pátria: nas suas narrativas, nos seus cantos, mistura-se a história de ambos os países. Quanto ao filho de mãe indígena, possui não sei que impulso de independência, que o leva a sentir a necessidade de exaltar, antes de tudo, a sua pátria; busca aventuras no meio da floresta; tem a perseverança do branco e a coragem do homem acobreado: sua alma é enérgica e seu espírito melancólico; desta raça sairão grandes coisas (3).

O filho de pai europeu e mãe negra, o mulato, recorda o árabe nos traços, na cor e no caráter: o amor, exaltando-lhe a alma, torna-o entusiasta; pensa com rapidez, tem a imaginação colorida, o coração arrebatado. É poeta, tal como a natureza o criou.

Parece-me que, no tempo em que uma luta heróica desenvolveu todos os caracteres, na época em que a Holanda foi vencida pelo Brasil, a natureza deste ofereceu ao mundo um espetáculo desconhecido, que fez com que se lhe compreendessem os desígnios. Fernandes Vieira (4) cheio de heroísmo cavalheiresco, deu um exemplo de energia moral em que os europeus tiveram de meditar. O negro Henrique Dias teve a bravura impetuosa que desdenha a ponderação. Calabar, nado de mãe africana e pai branco, com admirável perseverança, teria sido tão notável quanto os outros, se não fora um traidor; e por fim o Camarão, afamado chefe indígena, após socorrer os colonos, aos quais se igualara, quis sempre viver retirado: foi um paradigma da raça americana, por sua coragem temível, por sua fleugmática perseverança. Perdoem-me a longa digressão, mas pareceu-me que antes de tudo conviria tornar conhecidos aqueles traços característicos que distinguem as raças, os quais modificar-se-ão um dia, mas que é importante não esquecer (5) Nesse país, onde a natureza manifesta tanta pompa, onde os espíritos são arrebatados, nada, pois, permanece débil, tudo cresce rapidamente.

Mas, o fato verdadeiramente notável é a influência que nossa literatura exerce presentemente sobre a dos brasileiros. Orgulham-se estes dos autores que fixaram a sua língua; mas lêem os poetas franceses, conhecendo-os a quase todos. O papel que nos cabe desempenhar nesse país é ainda muito significativo, e se os ingleses têm, mais do que nós, a influência comercial que em toda a parte lhes caracteriza a atividade, devemos contentar-nos com ver uma ação esplendente de juventude e de engenho afeiçoar-se às nossas produções literárias, por causa destas modificar suas próprias produções, e estreitar através dos liames espirituais os que devem existir na ordem política. (6)

O início da literatura brasileira não data de época muito recuada; entretanto, é muito difícil determinar-lhe a verdadeira origem, já que a separamos, por alguns instantes, da literatura portuguesa. É certo que ela começou com alguns imperfeitos relatos do século XVI, os quais se refugiaram, em grande parte, nos arquivos da Torre do Tombo.

Contemporaneamente com os historiadores, surgiram nessa literatura os poetas, e é provável que os primeiros exploradores, cheios de entusiasmo pela aprazível região que contemplavam, reiteradamente a exaltassem. Presta-se a língua portuguesa, como a italiana, às inspirações súbitas. Os vagares das viagens casam-se à meditação: os camponeses do Brasil nos dão hoje uma idéia do que era essa poesia primitiva, jamais escrita, e que nem por isso nos deixa de oferecer menos belezas de primeira ordem. No campo, não é nada raro escutarem-se consumados repentistas. Consoante já se notou, convém distinguir o lavrador brasileiro de raça branca do da Europa; são-lhe estranhos muitos recursos industriais, e sua ignorância é em alguns casos profunda; a superstição tem-no preso, mas o seu pensamento é veloz como o relâmpago, suas reflexões justas, suas idéias se alteiam, o entusiasmo facilmente lhe domina a alma, e se a educação nas cidades vier a desenvolver semelhantes boas disposições, grandes vantagens resultarão para a literatura.


(1)Refere-se às nações aborígenes. - N. do T .

(2)Neste passo, o termo americano refere-se ao aborígene, como ocorre também em muitos outros deste livro. - N. do T .

(3)V. O que diz Koster na Viagem ao Brasil ; o Mameluco é geralmente o herói das histórias poéticas compostas no país.

(4)Denis grafa assim: "Fernand". A seguir, neste mesmo parágrafo, escreve corretamente os dois nomes próprios seguintes, mas erradamente o de Camarão (Cameran). No geral, tais desfigurações aparecem em toda a obra; só as indicaremos, daqui por diante, quando necessário. - N. do T .

(5)A redação do A. é freqüentemente monótona; repisa muito as idéias, ao ponto de cair em tautologia. Respeitamos , quase sempre, como nos parágrafos anteriores, esta marca do seu estilo. - N. do T .

(6)Veja-se o que digo, em Cenas da Natureza sob os Trópicos , relativamente ao gosto que demonstra pela poesia a sociedade brasileira.