Considerações gerais sobre o caráter que a poesia deve assumir no novo mundo

Ferdinand Denis
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Comentários: Maria Helena Rouanet (UERJ)

· Comentário às "Considerações gerais sobre o caráter que a poesia deve assumir no Novo Mundo", trecho inicial do Resumo da História Literária do Brasil , de Ferdinand Denis, por Maria Helena Rouanet (UERJ).

· Palavras-chave: independência política; independência literária; nacionalidade; caráter nacional; literatura nacional; natureza; história; tradição; pitoresco; exótico; privilégio do visual.

O Resumo da História Literária do Brasil , publicado por Ferdinand Denis no ano de 1826, é sem dúvida considerado um dos textos capitais quando se considera a primeira metade do século XIX como o período de fundação de uma literatura nacional brasileira. O privilégio que lhe é atribuído fica patente, por exemplo, na grande quantidade de referências feitas a esta obra nas Histórias da Literatura Brasileira e em vários outros textos que tratam da produção literária no Brasil oitocentista. Creio, porém, que não basta limitar a visão que se possa ter desta obra à constatação da importância que lhe concedem tantos e tantos autores; acima de tudo, interessa analisar as razões que estariam por trás de semelhante destaque.

As páginas que se seguem constituem a parte introdutória do Resumo composto de outras sete partes dedicadas a diversos temas que, supostamente, deveriam configurar esse conjunto que Denis denominava "a poesia do Novo Mundo". A primeira delas propõe uma "Visão sumária de alguns poetas dos séculos XVII e XVIII, e inclui referências a obras de Bento Teixeira Pinto, Botelho de Oliveira e ao dramaturgo Antônio José, entre outros. A segunda, mais extensa que as demais, é dedicada exclusivamente a "José de Santa Rita Durão, Caramuru , poema épico" e, além das apreciações de Denis, inclui a transcrição de mais de uma dezena de estrofes do poema em questão. As terceira e quarta partes da obra trazem por subtítulo, respectivamente, "Basílio da Gama, O Uraguai , poema épico; Quitúbia . Cardoso, Trípoli , poema latino" e " Marília de Dirceu , cantos elegíacos de Tomás Antônio Gonzaga - Metamorfoses do Brasil , de Diniz da Cruz; Caldas, Alvarenga, Poesias de M.B., etc. [sic]". Finalmente, as três últimas partes apresentam um caráter mais geral, referindo-se à "Propensão dos brasileiros para a música", "Oradores e historiadores brasileiros: Manuel de Morais, Rocha Pita, Azeredo" e "Geografia, Viagens, etc.".

Mas é sobre as "Considerações" que pretendo deter minha observação. Afinal, segundo Heron de Alencar, essas páginas "pode[m] e deve[m] ser considerada[s] como o manifesto do Romantismo brasileiro" (1955: 848), afirmação bastante categórica à qual faz eco a expressão usada por Jamil A. Haddad para definir o Resumo como um todo: "o Prefácio de Cromwell do Romantismo brasileiro" (1955: XV). Ora, através da associação com a proposta programática de Victor Hugo (1827) ou da simples menção à palavra "manifesto", esta obra de Ferdinand Denis fica devidamente instalada na linha de frente daqueles que teriam trabalhado no sentido de construir uma realidade que, daí por diante, passou a ser designada como a Literatura Brasileira.

Em sua apresentação à tradução do texto de Denis aqui parcialmente reproduzida, Guilhermino César ratifica o caráter fundador atribuído a esta obra ao escrever: "Que rumos seguirão as letras no Brasil? - parece perguntar, ansioso, o nosso amigo francês" (1978: 29). A leitura que faço da função do Resumo diverge, porém, dessa perspectiva adotada por seu tradutor. São duas, a meu ver, as razões fundamentais que sustentam a posição privilegiada que os estudos sobre o XIX brasileiro conferem a esse texto, e nem uma nem outra assumem o tom interrogativo sugerido por César. Retomo, pois, aqui, de forma bastante sucinta, a análise que delas fiz em trabalho anterior (1991: 175-196).

Por um lado, há o fato de ela ter sido a primeira a separar a literatura que se fazia no Brasil daquela que era produzida em Portugal, e isto apenas quatro anos depois da declaração de Independência. Na verdade - e vale destacar que a íntegra do título do livro de Denis é freqüentemente omitida por autores brasileiros, inclusive por Guilhermino César -, a obra do velho bibliotecário francês se intitula Resumo da História Literária de Portuga l, seguido do R esumo da História Literária do Brasil . Ou seja: ao introduzir o adjetivo "seguido", Ferdinand Denis estava efetuando, no campo das letras, aquilo que Pedro I havia realizado no plano político, o que lhe valeu a entusiasmada admiração dos brasileiros expressa de forma exemplar por Joaquim Manuel de Macedo e outros membros do IHGB: "[...] apenas roto o grilhão que nos prendia ao jugo da velha Lusitana [ sic ], solto o grito de liberdade, [...], Mr. Ferdinand Denis patenteava à face da Europa essa literatura nascente" (1851: 444).

É precisamente este aspecto que Antonio Candido vai sublinhar quando afirma que o Resumo "traça uma linha de Bento Teixeira Pinto a Borges de Barros, Aires do Casal, Azeredo Coutinho, reconhecendo [ajudando a construir, diria antes] a existência de uma literatura brasileira" (1959, v. I: 305). Segundo Candido, proceder assim "significava dar carta genealógica aos jovens, amparando no passado as suas tentativas" (Id.: 304).

Mais, porém, do que o corte das amarras culturais entre ex-colônia e ex-metrópole, é sem dúvida a uma formulação proposta por Denis nesta sua introdução que se pode atribuir todo o destaque que o Resumo tem merecido por parte dos brasileiros desde a primeira metade do século XIX. Pode-se dizer que este é um dos trechos mais citados e repetidos quando se faz referência ao período que teria representado o momento inaugural de uma literatura brasileira: " L'Amérique enfin doit être libre dans sa poésie comme dans son gouvernement ". Estava assinalada, assim, de forma bem mais incisiva do que no adjetivo "seguido" que compõe o título desta obra, a possibilidade de existência de uma literatura propriamente brasileira, independente, "livre" porque separada da que se produzia em Portugal. E , tendo sido proferida por um europeu, esta afirmação equivale a um atestado de legitimação, exatamente como ocorre ainda hoje em termos políticos, quando um país poderoso reconhece a independência de uma ex-colônia ou de um ex-componente de um conglomerado que durante alguns anos tenha funcionado como uma nação única.

Importa assinalar, antes de concluir esta apresentação, a importância que o verbo "dever" assume nestas páginas. Se no título da parte introdutória, ele bem pode ser lido como a formulação de um prognóstico (provavelmente o que explica a interpretação de Guilhermino César, citada mais acima), na oração transcrita no parágrafo anterior fica patente a sua conotação compulsória. Uma outra passagem do Resumo - aqui não incluída por já fazer parte do capítulo dedicado ao Caramuru , de Santa Rita Durão -, talvez seja o melhor exemplo da carga didática que Ferdinand Denis confere a este verbo por ele tantas vezes usado ao longo deste seu texto:

"Os Americanos", escreve ele, "não têm feito sempre sentir em suas produções, o influxo da natureza que os inspirou; antes da Independência, parecia até pretenderem olvidar a própria pátria para pedir à Europa um quinhão de sua glória. Agora, que têm necessidade de fundar sua literatura, repito: ela deve ter caráter original" (1826: 47).

Referências bibliográficas

Alencar, H. de. "José de Alencar e a ficção romântica". In: Coutinho, A. (org.) A Literatura no Brasil . RJ: Editorial Sul-Americana, 1995, 2 v., pp. 837-948.

Candido, A. Formação da literatura brasileira , 5a. ed. BH/SP: Itatiaia/Edusp, 1975, 2 v. (1a. ed. 1959).

Denis, F. "Resumo da história literária do Brasil" (1926). In: César, G. (org.) Historiadores e críticos do Romantismo, I - A contribuição européia: crítica e história da literatura . SP: Edusp, 1978, pp. 35-82.

Haddad, J.A. "Introdução" a Wolf, F. O Brasil literário , Col. Brasiliana, v. 278. SP: Cia. Ed. Nacional, 1955.

Macedo, J.M. de & outros. "Parecer da Comissão de História sobre o opúsculo: Une Fête brésilienne... ". In: Revista do IHGB, t. XIV, Rio de Janeiro, 1851, pp. 443/449.

Rouanet, Mª.H. Eternamente em berço esplêndido : a fundação de uma literatura nacional. SP: Siciliano, 1991.