O letrado norte-americano

Ralph Waldo Emerson

EMERSON, Ralf Waldo. Ensaios . Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix. p. 11 - 33: O intelectual americano.

Comentário: Pierre Monette (CEGEP - Montreal)

Tradução do comentário: Zilá Bernd (UFRGS)

O Letrado Norte-Americano

Discurso pronunciado perante a Sociedade Phi Beta Kappa, em Cambridge, a 31 de agosto de 1837.

Senhor Presidente, Cavalhei - ros: Saúdo-vos no reinicio de nosso ano literário. Nosso aniversário é uma data de esperança e, quiçá, de trabalho insuficiente. Não nos reunimos para competições de força ou destreza, para recitação de histórias, tragédias ou odes, como os antigos gregos; para côrtes de amor e poesia, como os Trovadores; nem para o avanço da Ciência, como nossos contemporâneos na Capital da Inglaterra e em outras capitais européias. Até agora, nosso dia festivo tem sido simplesmente um signo amistoso da sobrevivência do amor às letras num povo excessivamente ocupado para dar-lhes mais. Nessa condição, é precioso como signo de um instinto indestrutível. Talvez já tenha chegado o tempo em que deva ser, e há de ser algo mais; em que o intelecto preguiçoso deste continente olhará por sob suas pesadas pálpebras e satisfará a adiada expectativa do mundo com algo melhor que os esforços da habilidade mecânica. Nossos dias de dependência, nosso longo aprendizado do saber de outras terras, chegam ao fim. Os milhões de seres humanos que, à nossa volta, ingressam impetuosamente na vida, não podem ser sempre alimentados com os restos murchos de messes estrangeiras. Surgem acontecimentos e feitos que devem ser cantados e que se cantarão a si mesmos. Quem pode duvidar de que a Poesia reviverá e conduzirá a uma nova idade, como a estrela da constelação de Harpa, que ora resplandece em nosso zênite, um dia há de ser, segundo anunciam os astrônomos, a estrela polar durante mil anos?

Com tal esperança, aceito o tema que não apenas o costume, mas a própria natureza de nossa associação, parecem recomendar para o dia de hoje - O Letrado Norte-Americano. A cada ano nos aproximamos mais do momento de ler outro capítulo de sua biografia. Tratemos de inquirir que luz os novos dias e os novos acontecimentos projetaram sobre seu caráter e suas esperanças.

Uma dessas fábulas de ignorada antigüidade, que transmitem imprevista sabedoria, conta que os deuses, no começo dos tempos, dividiram o Homem em homens, para que ele pudesse ser mais útil a si próprio; de igual modo, foi a mão dividida em dedos, para melhor atender ao seu fim.

A antiga fábula encobre uma doutrina perenemente nova e sublime: a de que só há Um Homem, presente em todos os homens particulares apenas parcialmente, ou através de uma única faculdade; e de que tendes de considerar a sociedade inteira para ter o Homem inteiro. O Homem não é um granjeiro, um professor ou um engenheiro; é todos. O Homem é sacerdote, letrado, estadista, produtor, soldado. No estado dividido ou social, essas funções são repartidas por indivíduos, cada um dos quais busca realizar sua parcela do trabalho conjunto, enquanto os demais realizam as suas. A fábula implica em que o indivíduo, para se possuir a si mesmo, deve, por vezes, sair do seu trabalho para abranger todos os outros trabalhadores. Mas, infelizmente, essa unidade original, essa fonte de poder, foi de tal modo distribuída por multidões de operários, foi tão miudamente subdividida e retalhada, que se entornou em gotas não mais pode ser reconstituída. O estado social é aquele em que os membros foram amputados do tronco e saíram a caminhar empertigadamente, como monstros ambulantes - um dedo, um pescoço, um estômago, um cotovelo, perfeitos mas nunca o Homem completo.

Dessarte, o Homem é metamorfoseado numa coisa, em muitas coisas. O agricultor, que é o Homem enviado ao campo para recolher alimento, raras vezes o anima qualquer idéia da verdadeira dignidade de seu mister. Vê seu alqueire, sua carroça e nada mais; some-se na sua profissão de agricultor, em vez de ser o Homem na agricultura. O mercador dificilmente atribui um valor ideal ao seu trabalho; domina-o a rotina do ofício, sua alma está sujeita ao dinheiro. O sacerdote se torna um ritual; o advogado, um livro de leis; o mecânico, uma máquina; o marinheiro, um cabo náutico.

Nessa distribuição de funções, o letrado é o intelecto delegado. No estado certo, é o Homem Pensante . No estado degenerado, de vítima da sociedade, ele tende a tornar-se um mero pensador, ou, o que é ainda pior, um papagaio a repetir o pensamento de outros homens.

Nessa visão do Homem Pensante , está contida a teoria do seu ofício. A Natureza o solicita com todas as suas imagens plácidas, admonitórias; o passado o instrui e o futuro o convida. Pois, em verdade, todo homem não é um estudante? E não existem todas as coisas para proveito do estudante? E, finalmente, não é o verdadeiro letrado o único mestre verdadeiro? Mas o antigo oráculo disse: "Todas as coisas têm duas pegadeiras: cuidado com a errada:" Amiúde na vida, o letrado equivoca-se com a Humanidade e perde o direito ao seu privilégio. Vejamo-lo em sua escola e consideremo-lo com referência às principais influências que recebe.

I. A primeira, por ordem de tempo e importância, das influências sobre a mente, é a da Natureza. Todo dia, o Sol; e, depois do crepúsculo, a Noite e suas estrelas. Constantemente sopra o vento; constantemente cresce a relva. Todo dia, homens e mulheres a conviverem, a contemplarem e a serem contemplados. Entre todos os homens, o letrado é aquele a quem tal espetáculo mais atrai. Cumpre-lhe estabelecer o valor dele em sua mente. Que é a Natureza para ele? Nunca há começo nem fim para a inexplicável continuidade dessa trama de Deus, mas sempre um poder circular a regressar a si mesmo. Nisso, ela se parece ao espírito dele, cujo princípio e cujo fim ele não alcança descobrir, tão íntegro e ilimitado é. Outrossim, por onde fulgurem os seus esplendores - sistema sucedendo-se a sistema, como raios projetados para o alto, para baixo, sem centro nem circunferência, tanto na massa quanto na partícula -, a Natureza se apressa a justificar-se a si mesma perante a mente. Principia a classificação. Para a mente jovem, tudo é individual e existe por si mesmo. Aos poucos, ela aprende a juntar duas coisas e a ver em ambas uma mesma natureza; depois, três; depois, três mil; e assim, tiranizada pelo seu próprio instinto unificador, continua a vincular as coisas umas às outras, reduzindo anomalias, descobrindo raízes a correrem subterrâneas, mercê das quais coisas contrárias e remotas se unem e florescem no mesmo tronco. Acaba por aprender que, desde o despontar da História, tem havido constante acumulação e classificação de fatos. Mas que é classificação senão a percepção de que tais objetos não são caóticos nem adventícios; de que possuem uma lei, que é também a lei da mente humana? O astrônomo descobre que a Geometria, uma pura abstração da mente humana, é a medida do movimento planetário. O químico encontra proporções e método inteligível por toda a matéria; e a Ciência nada mais é que a descoberta de analogia, identidade, nas partes mais remotas. A alma ambiciosa assedia todo fato refratário; uma após outra, reduz todas as constituições estranhas, todos os novos poderes, à sua classe e à sua lei, e prossegue incansavelmente, a animar, com seu discernimento, a derradeira fibra de organização, as fímbrias da Natureza.

Dessa maneira, ao colegial postado sob a curva abóbada do dia, é feita a sugestão de que ele e ela procedem da mesma raiz; um é flor, outro é folha; relação, simpatia, se agita em cada veia. E que é essa Raiz? Não é a alma de sua alma? Pensamento audacioso demais; sonho impetuoso demais. E, no entanto, quando essa luz espiritual tiver revelado a lei de naturezas mais terrestres; quando ele tiver aprendido a cultuar a alma e a ver que a filosofia natural que ora existe é apenas o primeiro tateio de sua gigantesca mão, ficará na expectativa de um conhecimento sempre a se expandir, como um criador conveniente. Verá que a Natureza é o oposto da alma, correspondendo-lhe ponto por ponto. Uma é o sinete e a outra a impressão. A beleza dela é a beleza de sua própria mente. Suas leis são as leis de sua própria mente. A Natureza então se torna para ele a medida de seus conhecimentos. A parte de Natureza que ele ignora é a parte de sua mente que ele ainda não possui. E, por fim o antigo preceito, "Conhecei-vos a vós mesmos", e o moderno preceito, "Estudai a Natureza", se tornam uma só máxima.

II. A seguinte grande influência sobre o espírito do letrado é a mente do Passado - qualquer que seja a forma em que essa mente esteja inscrita: literatura, arte, instituições. Os livros são o melhor exemplo da influência do passado, e talvez cheguemos á verdade - conheçamos de forma mais conveniente o teor dessa influência - considerando tão-somente o valor deles.

A teoria dos livros é nobre. O letrado dos primeiros tempos recebeu em si o mundo circundante; meditou nele; deu-lhe o novo arranjo de sua própria mente; e exteriorizou-o novamente. Nele entrou como vida; dele saiu como verdade. Veio a ele como ações efêmeras; dele saiu como pensamentos imortais. Veio a ele negócio; dele saiu poesia. Era fato inanimado; é agora pensamento vivaz. Pode ficar imóvel e pode caminhar.

Agora resiste, voa, inspira. Exatamente em proporção á profundeza da mente que o produziu é a altura em que paira, o tempo em que canta.

Eu poderia dizer, também, que tudo depende de quão longe foi o processo de transmudar vida em verdade. A pureza e durabilidade do produto são proporcionais à inteireza da destilação. Mas nenhum produto é totalmente perfeito. Assim como nenhuma bomba pode produzir vácuo perfeito, tampouco pode nenhum artista excluir inteiramente de sua obra o convencional, o local, o perecível, nem escrever um livro de puro pensamento, que seja de igual modo eficaz para a remota posteridade como para os coetâneos, ou melhor, para uma segunda idade. Verificou-se que cada época deve escrever seus próprios livros; ou a sucede. Os livros de um período mais antigo não servirão para este período.

Todavia, disso resulta um grave dano. A santidade ligada ao ato de criação - o ato de pensar - é transferida para o registro. O poeta a cantar era considerado como um homem divino; desde então, o canto passou a ser divino também. O escritor era um espírito justo e sábio; assentou-se então que o livro é perfeito; assim, o amor pelo herói se corrompe em adoração de sua estátua. No mesmo momento o livro se torna nocivo; o guia é um tirano. A mente preguiçosa e pervertida da multidão, lenta no abrir-se às incursões da Razão, abrindo-se uma vez e recebendo um determinado livro, nele se firma e faz um alarido se for desacreditado. Colégios são edificados sobre ele. Livros são escritos acerca dele por pensadores, não pelo Homem Pensante; por homens de talento, vale dizer, por homens que partiram de um principio errôneo, que começaram de dogmas aceitos, não de sua própria visão dos princípios. Jovens submissos crescem em bibliotecas acreditando seja seu dever aceitar as opiniões que Cícero, que Locke, que Bacon manifestaram, esquecidos de que Cícero, Locke e Bacon eram apenas jovens em bibliotecas quando escreveram seus livros.

Dessarte, em vez do Homem Pensante, temos ratos de biblioteca. Daí, pois, à classe letrada, que estima os livros não por estarem relacionados com a Natureza e a constituição humana, mas como se constituíssem uma espécie de Terceiro Estado, a par do mundo e da alma. Daí, também, os restauradores de leituras, os emendadores, os bibliomaníacos de todos os graus.

Bem usados, os livros são a melhor das coisas; mal usados, uma das piores. Qual é o uso correto deles? Qual o único fim a que se destinam todos os meios? Para nada mais servem senão para inspirar. Preferiria nunca ver um livro a ser desviado, por força de sua atração, de minha própria órbita e convertido em satélite, em vez de o ser em sistema. A única coisa de valor no mundo é a alma ativa. A ela todo homem tem direito; todos os homens a contêm dentro de si, embora, na maioria deles, ela esteja obstada e ainda por nascer. A alma ativa vê a verdade absoluta e formula ou cria a verdade. Nessa ação, é genial; o gênio não é privilégio deste ou daquele protegido, mas o estado rígido de todo homem. Na sua essência, é progressivo. O livro, o colégio, a escola de arte, a instituição de qualquer espécie, se detêm em alguma manifestação pretérita do gênio. Isto é bom, dizem, vamos apegar-nos a isto. Eles me imobilizam. Olham para trás, não para diante. Entretanto, o gênio olha avante; os olhos do Homem estão na parte dianteira, não na parte traseira de sua cabeça. O homem tem esperança; o gênio cria. Quaisquer que sejam os talentos que possua, se o indivíduo não criar, não terá o puro eflúvio da Deidade: haverá cinzas e fumaça, mas não ainda flama. Há maneiras criativas, há ações criativas e palavras criativas; maneiras, ações e palavras que não indicam costume ou autoridade, mas que nascem espontaneamente do senso do bem e do justo da própria mente.

Por outro lado, se o homem, em vez de ser seu próprio vidente, receber de outra mente sua verdade, ainda que seja em torrentes de luz, mas sem períodos de solidão, indagação e reconquista de si mesmo, ter-lhe-á sido prestado um fatal desserviço. O gênio é sempre inimigo figadal do gênio por influência exterior. A literatura de todas as nações serve-me de testemunho. A esta altura, os poetas dramáticos ingleses já shakespearizam há mais de duzentos anos.

Indubitavelmente, existe uma maneira correta de ler, pelo que deveria haver rigorosa subordinação. O Homem Pensante não deve ser escravizado pelos seus instrumentos. Os livros servem para as horas de ócio dos letrados. Se podemos ler em Deus diretamente, o tempo é precioso demais para que o percamos com transcrições feitas por outros homens de suas próprias leituras. Mas quando chegam os intervalos de escuridão, como lhes cumpre chegar; quando o Sol se oculta e as estrelas recusam seus lampejos, corremos para as lâmpadas que foram acendidas em seus raios, a fim de guiar novamente nossos passos até o Oriente, onde está o amanhecer. Ouvimos para poder falar. Diz o provérbio árabe: "Com olhar para outra figueira, uma figueira se torna frutífera."

É notável o caráter do prazer que nos propiciam os melhores livros. Incutem-nos a convicção que os lê a mesma natureza que os escreveu. Lemos os versos de um dos grandes poetas ingleses - Chaucer, Marvell, Dryden - com o mais moderno dos delites, com um prazer, quero dizer, que é em grande parte causado pela abstração de todo tempo de seus versos. Há um certo respeitoso temor misturado à alegria de nossa surpresa quando esse poeta, que viveu num mundo pretérito, de duzentos ou trezentos anos atrás, diz algo que fala de perto à minha alma, algo que eu também quase poderia ter pensado e dito. Todavia, pela evidência assim aportada à doutrina filosófica da identidade de todas as mentes, deveríamos supor a existência de alguma harmonia preestabelecida, alguma antevisão das almas por vir, e alguma preparação de provisões para suas futuras necessidades, como o fato observado com os insetos, que antes da morte armazenam alimento para a jovem larva que jamais verão.

Nenhum amor de sistema, nenhum exagero de instintos me levaria a subestimar o Livro. Sabemos todos que, assim como o organismo humano pode nutrir-se de qualquer alimento, ainda que seja relva fervida e caldo de sapatos, assim também a mente humana pode alimentar-se de qualquer conhecimento. E existiram homens grandes e heróicos, que não dispuseram praticamente de outra informação que não fosse a da página impressa. Digo apenas que é preciso uma cabeça vigorosa para suportar tal dieta. Tem-se de ser inventor para ler bem. Como diz o provérbio: "Aquele que traz a riqueza das Índias, deve levar a riqueza das Índias." Existe, portanto, leitura criativa, tal como há escrita criativa. Quando a mente é estimulada pelo trabalho e pela invenção, a página de qualquer livro que lemos se ilumina de múltiplas alusões. Cada sentença tem duplo significado e a compreensão de nosso autor é tão ampla quanto o mundo. Verificamos, dessarte, aquilo que é sempre verdadeiro: que, assim como o instante de visão do profeta é breve e de rara ocorrência em meio a dias e meses obtusos, assim também seu registro, quiçá, constitui a menor parte de seu volume. As pessoas de discernimento lerão, em Platão ou Shakespeare, apenas essa menor parte - apenas as manifestações autênticas do oráculo -, rejeitando o restante, como se não fosse, tantas vezes, de Platão e Shakespeare.

Existem, evidentemente, muitas leituras indispensáveis ao homem sábio. Cumpre-lhe aprender a História e as ciências exatas através de leitura laboriosa. De igual maneira, os colégios têm uma função perspícua - a de ensinar rudimentos. Mas só nos podem servir em grau elevado quando visam, não a adestrar, mas a criar; quando congregam, em seus edifícios hospitaleiros, todos os remotos raios de gênios vários, e, mercê de concentrados, incendeiam o coração de seus jovens. O pensamento e o conhecimento são naturezas ás quais de nada aproveitam o aparato e a pretensão. Becas e dotações pecuniárias, embora de cidades de ouro, jamais poderão contrabalançar a mínima sentença ou sílaba de sabedoria. Esqueça-se isso, e nossos colégios norte-americanos perderão sua importância pública, conquanto se tornem mais ricos a cada ano.

III. É corrente, no mundo, a idéia de que o letrado deve ser um recluso, um valetudinário, tão incapaz de executar qualquer trabalho manual ou serviço público quanto um canivete de fazer as vezes do machado. Os chamados "homens práticos" escarnecem dos homens especulativos, como se, pelo fato de especularem ou verem , se tornassem incapazes de realizar o que quer que fosse. Tenho ouvido dizer que aos clérigos - que são sempre, mais universalmente do que qualquer outra classe, os letrados de sua época - cumpre falar como às mulheres; que não dão ouvidos, a conversação rude, espontânea dos homens, mas somente às falas amaneiradas e diluídas. Eles são, amiúde, virtualmente desaforados; e, na verdade, há quem lhes advogue o celibato. No que respeita à verdadeira condição das classes estudiosas, isso não é justo é secundária, mas essencial. Sem ela ele não chega a ser homem. Sem ela, o pensamento jamais logra amadurecer em verdade. Enquanto o mundo nos paire diante dos olhos como uma nuvem de beleza, não lhe podemos sequer enxergar a beleza. A inação é covardia, e não pode haver letrado carente de mente heróica. O preâmbulo do pensamento, a transição por que passa, do inconsciente para o consciente, é ação. Isso é quanto sei, pelo que vivi. Sabemos, desde logo, de quem são as palavras pejadas de vida e de quem não o são.

O mundo - essa sombra da alma, ou outro eu - se estende, vasto, em derredor. Suas atrações são as chaves que me abrem o pensamento e me fazem conhecer-me a mim mesmo. Corro, avidamente, para esse tumulto ressonante. Agarro as mãos dos que me estão perto e tomo lugar no círculo para sofrer e trabalhar, guiado por um instinto, a fim de que o abismo mudo adquira voz e fala. Perscruto-lhe a ordem; dissipo-lhe o temor; utilizo-o dentro do circuito de minha vida em expansão. O quanto de vida conheço por experiência, o tanto de deserto que venci e plantei ou por cuja extensão dilatei meu ser, meu domínio. Não posso conceber que um homem, por amor de seus nervos ou de sua sesta, se poupe a qualquer ação de que possa participar. São pérolas e rubis para o seu discurso. Lida insana, calamidade, exasperação, penúria, eis os instrutores em matéria de sabedoria e eloqüência. O verdadeiro letrado lamenta toda oportunidade de ação não aproveitada como uma perda de potência.

A ação é a matéria-prima com que o intelecto molda seus esplêndidos produtos. Estranho processo, também, esse pelo qual a experiência se converte em pensamento, como a folha de amoreira se converte em cetim. A manufatura prossegue o tempo todo.

As ações e eventos de nossa infância e juventude são agora objeto da mais calma observação. Pairam no ar como belos quadros. Já isso não acontece com nossas ações recentes, com a ocupação que ora temos em mãos. No tocante a ela, sentimo-nos incapazes de fazer especulações. Nossas afeições ainda circulam nela. Sentimo-la ou a conhecemos tanto quanto sentimos os pés, a mão, o cérebro ou outra parte de nosso corpo. A nova ação é, por enquanto, componente da vida, e permanece, durante algum tempo, imersa em nossa vida inconsciente. A certa hora contemplativa, destaca-se da vida como um fruto maduro para tornar-se um pensamento da mente. Instantaneamente, alça-se e transfigura-se: o corruptível vestiu-se de incorruptibilidade. Doravante, é um objeto dotado de beleza, por mais vil que seja sua origem e cercanias. Observai, outrossim, a impossibilidade de antedatar tal ato. No seu estado larval, ele não pode voar, não pode fugir, é um verme obscuro. Mas subitamente, sem que o percebamos, a dita coisa desdobra lindas asas e se converte num anjo de sabedoria. Dessarte, não há fato, não há acontecimento em nossa história privada que não venha a perder, mais cedo ou mais tarde, sua forma inerte, adesiva, e maravilhar-nos ao alçar-se, de nosso corpo, até o empíreo. Berço e infância, escola e pátio de recreio, o medo a meninos e cães e férulas, o amor por meninas e amoras silvestres, e tantos outros fatos que outrora enchiam todo o céu, já se foram; amigo e parente, profissão e partido, cidade e campo, nação e mundo, devem também alçar-se e cantar.

É claro que aquele que aplica toda a sua energia em ações apropriadas obtém a mais rica retribuição de sabedoria. Não me exilarei deste globo de ação nem transplantarei um carvalho a um vaso de flores para ele ali esfaimar-se e definhar. Tampouco confiarei no rendimento de uma única faculdade individual nem cuidarei de exaurir um filão de pensamento, à semelhança daqueles saboianos que, obtendo sua subsistência de esculpir em madeira pastores, pastoras e holandeses de cachimbo para a Europa toda, foram certo dia à montanha em busca de matéria-prima e descobriram que haviam consumido o último pinheiro. Temos bom número de autores que esgotaram o veio de sua inspiração e que, movidos de louvável prudência, velejaram para a Grécia ou para a Palestina, seguiram o caçador pelas pradarias, ou vaguearam por Argel a fim de reabastecer seu estoque negociável.

Mesmo que fosse apenas por amor de um vocabulário, o letrado ambicionaria a ação. A vida é nosso dicionário. Os anos são bem gastos nos labores do campo; na cidade, a familiarizar-nos com ramos de comércio e manufatura; em franco intercâmbio com muitos homens e mulheres; na ciência; na arte - com o fito único de extrair, de todos esses fatos, uma linguagem com que ilustrar e corporificar nossas percepções. De qualquer orador, sei imediatamente quanto já viveu, através da pobreza ou esplendor de sua elocução. A vida jaz à nossa retaguarda como a pedreira da qual extraímos telhas e cumeeiras de pedra para a alvenaria de hoje. Essa é a maneira de aprender Gramática. Os colégios e os livros limitam-se a copiar a linguagem criada pelo campo e pela oficina.

Mas o valor final da ação, como o dos livros, e mais ainda que o deles, é o de ser um recurso. O grande princípio da Ondulação na Natureza, que se revela no inspirar e expirar da respiração, no desejo e na saciedade, no fluxo e refluxo do mar no dia e na noite, no calor e frio, e que está ainda mais profundamente arraigado em cada átomo e fluido, é nos conhecido pelo nome de Polaridade; esses "surtos de fácil transmissão e reflexão", conforme Newton os chamava, são a lei da Natureza porque são a lei do espírito.

A mente ora pensa, ora age; e cada um desses impulsos reproduz o outro. Quando o artista exauriu seus materiais; quando a fantasia não pinta mais; quando os pensamentos não mais são apreendidos, e os livros se convertem num aborrecimento - resta-lhe sempre o recurso de viver . O caráter é mais alto do que o intelecto.

Pensar é a função. Viver é o funcional. O arroio regressa á fonte. Uma grande alma será forte para viver, assim como para pensar. Falta-lhe órgão ou meio com que comunicar suas verdades? Ela sempre pode recorrer à força elementar de vivê-las. Esse é o ato total. Pensar é um ato parcial. Que a grandeza da justiça refulja nos assuntos de cada homem. Que a beleza da afeição lhe alegre o teto humilde. Aqueles "distantes da fama", que vivem e agem a seu lado, sentirão a força de sua constituição nos feitos e passagens do dia, melhor que na que possa ser medida por qualquer demonstração pública e deliberada. O tempo lhe ensinará que o letrado não perde nenhuma hora que o Homem viva. Nisto, ele desenvolve o sagrado germe de seu instinto, resguardado das influências. O que se perde em conveniência ganha-se em vigor. Não é daqueles a quem os sistemas de educação exauriram a cultura que procedem os prestimosos gigantes capazes de destruir o velho ou construir o novo; das naturezas selvagens impressentidas, dos terríveis druidas e dos furiosos guerreiros nórdicos foi que vieram, por fim, Alfred e Shakespeare.

Ouço, por isso, com alegria, o que começa a ser dito acerca da dignidade e necessidade de trabalho para todo cidadão. Há virtude na enxada e na pá tanto para as mãos doutas como para as que não o sejam. E o trabalho é bem-vindo em toda parte; somos sempre convidados a trabalhar, respeite-se apenas esta limitação: um homem não deve, por amor de atividade mais ampla, sacrificar qualquer opinião aos critérios populares e modos de ação populares.

Falei, até agora, da educação do letrado pela Natureza, pelos livros e pela ação. Resta dizer algo acerca de seus deveres.

São aqueles que convenham ao Homem Pensante. Podem todos ser compendiados na confiança em si próprio. A função do letrado é estimular, incitar e guiar os homens, mostrando-lhes os fatos em meio às aparências. Ele se aplica à morosa, inglória e não paga tarefa de observar. Flamsteed e Herschel, em seus observatórios envidraçados, podem catalogar os astros com o aplauso de todos os homens, e, sendo os resultados esplêndidos e úteis, a glória é certa. Mas o letrado, em seu observatório particular, catalogando obscuros e nebulosos astros da mente humana, em que, até então, homem algum pensara como tais; ficando á espera, durante dias e meses, por vezes, de uns poucos fatos; corrigindo constantemente seus velhos registros - tem de renunciar á notoriedade e á fama imediata. No longo período de sua preparação, deve amiúde trair ignorância e inépcia no tocante às artes populares, incorrendo assim no desdém dos proficientes, que o empurram com os ombros. Deve, por longo tempo, falar em linguagem gaguejada; trocar amiúde os vivos pelos mortos. E o que é ainda pior: deve aceitar - quão freqüentemente! - a pobreza e a solidão. Em vez do sossego e prazer de trilhar o velho caminho, compartilhando as modas, a educação, e a religião da sociedade, assume a cruz de abrir seu próprio caminho, e com ela, evidentemente, a auto-acusação, o coração opresso, a incerteza freqüente e a perda de tempo, que são as urtigas e lianas na senda dos que confiam em si mesmos e se governam a si mesmos; e, a par disso, o estado de virtual hostilidade em que parece situar-se perante a sociedade, especialmente a sociedade educada. Para toda essa perda e menosprezo, qual a compensação? O letrado tem de achar consolo no exercício das mais altas funções da natureza humana. É aquele que se coloca acima das considerações privadas para respirar e viver pensamentos públicos e eminentes. É o olho do mundo. É o coração do mundo. Cumpre-lhe resistir á prosperidade vulgar, que retrograda sempre á barbárie, preservando e comunicando sentimentos heróicos, nobres biografias, versos melodiosos e as conclusões da História. Quaisquer oráculos que o coração humano pronunciou, em todas as emergências e horas solenes, como seu comentário ao mundo das ações, a ele cumpre receber e participar. E qualquer novo veredicto que a Razão, de seu inviolável assento, enuncie sobre os homens e eventos passageiros do dia, ele haverá de ouvir e promulgar.

Sendo tais as suas funções, cabe-lhe sentir inteira confiança em si próprio e jamais submeter-se ao clamor popular. Ele, e somente ele, conhece o mundo. O mundo de qualquer momento não passa de mera aparência. Uma grande formalidade, um fetiche de governo, um tráfico efêmero, ou guerra, ou homem, é exaltado por meia humanidade e denegrido pela outra metade, como se tudo dependesse de tal exaltação ou denegrimento particulares. A probabilidade é de que toda a questão não valha o menor dos pensamentos que o letrado malbaratou dando ouvidos à controvérsia. Que ele não renuncie à crença de que uma pistola de estalo é apenas uma pistola de estalo, embora os veneráveis e os ilustres da Terra sustentem ser o estrondo do Juízo Final. Que no silêncio, na firmeza, na severa abstração, ele se apoie em si mesmo; que some observação a observação, paciente em relação ao esquecimento e ao reproche; que aguarde sua vez, feliz se puder satisfazer-se de que, naquele dia, viu verdadeiramente algo. O êxito acompanha todo passo certo. É infalível o instinto que o impele a dizer a seu irmão o que pensa. Aprende ele então que, com descer aos segredos de sua própria mente, penetrou nos segredos de todas as mentes. Aprende que aquele que dominou qualquer lei de seus pensamentos privados é senhor, em tal medida, de todos os homens cuja linguagem fala e de todos em cuja linguagem. a sua própria pode ser traduzida. O poeta que, em completa solidão, recorda seus pensamentos espontâneos e os registra, constata que registrou aquilo que os homens, nas cidades populosas, consideram também verdadeiro para si. O orador suspeita da justeza de suas francas confissões - de sua falta de conhecimento das pessoas a quem se endereça - até o momento em que descobre que é o complemento de seus ouvintes e que estes lhe bebem as palavras porque ele lhes realiza as próprias naturezas. Quando mais lhes penetra o mais privado, o mais secreto pressentimento, maravilha-se de constatar que é o mais aceitável, o mais público, o mais universalmente verdadeiro. A gente se deleita com isso; a melhor parte de cada homem sente: "Esta é a minha música; isto sou eu."

Todas as virtudes estão compreendidas na confiança em si próprio. Livre deve ser o letrado - livre e bravo. Livre segundo a definição de liberdade: "sem qualquer impedimento que não resulte de sua própria constituição". Bravo, porque o medo é coisa que um letrado, por sua mesma função, deixa atrás de si. O medo nasce sempre da ignorância. Será uma desonra para ele se sua tranqüilidade, em tempos de perigo, advir da presunção de que, como as crianças e as mulheres, a sua seja uma classe protegida; ou se buscar uma paz temporária desviando os pensamentos da política ou das questões controversas, escondendo a cabeça, como um avestruz, entre os arbustos floridos, espiando pelo microscópio, e torneando rimas, como um menino que, para manter a coragem, põe-se a assobiar. Assim, o perigo continuará a ser perigo e o medo ficará pior. Que ele se torne viril e afronte o perigo. Que o olhe nos olhos e lhe perscrute a natureza, inspecione-lhe a origem; que veja a cria desse leão, que não está muito atrás. Descobrirá então, em si mesmo, uma perfeita compreensão da natureza e extensão do perigo; terá feito com que suas mãos se encontrem no outro lado e poderá doravante desafiá-lo e, superior, prosseguir caminho. O mundo lhe pertence, a ele que pode enxergar através das presunções mundanas. Qualquer surdez, qualquer cego costume, qualquer erro demasiado que contempleis, existe apenas por tolerância - por vossa tolerância. Considerai-o uma mentira e já lhe tereis desfechado golpe mortal.

Sim, nós somos os acovardados - nós, os descrentes. É uma noção daninha a de que chegamos tarde à Natureza; de que o mundo estava acabado havia muito tempo. Assim como o mundo era plástico e fluido nas mãos de Deus, assim o é, sempre, para muitos dos atributos que a ele trazemos. Para a ignorância e o pecado, é pedra. Estes se lhe adaptam como podem; todavia, na proporção em que um homem tenha em si algo de divino, o firmamento flui diante dele e toma-lhe o sinete e a forma. Não é grande aquele que possa alterar a matéria, e sim aquele que possa alterar o meu estado de espírito. São reis do mundo os que comunicam a cor do seu pensamento presente a toda a Natureza e a toda a Arte, e persuadem os homens, pela jovial serenidade com que conduzem o assunto, que o que fazem é o fruto que todas as idades desejaram colher e que agora, por fim, está maduro, convidando as nações à colheita. O grande homem realiza as grandes coisas. Onde se senta Macdonald, ali é a cabeceira da mesa. Lineu torna a Botânica o mais sedutor dos estudos e conquista-o ao granjeiro e à herborista. O mesmo faz Davy com a Química e Cuvier com os fósseis. O dia pertence sempre àquele que nele trabalha com serenidade e altos propósitos. O instável apreço dos homens vai, todo, para aquele cuja mente esteja habitada por uma verdade, assim como, acumuladas, as vagas do Atlântico seguem a Lua.

Para tal confiança em si próprio, a razão é profunda demais para que possa ser compreendida, obscura demais para que possa ser aclarada. Talvez eu não possa aliciar os sentimentos de minha audiência ao formular minha própria crença. Mas já mostrei o fundamento da minha esperança, ao aludir à doutrina de que o Homem é uno. Acredito que o Homem tem sido injustiçado; injustiçou-se a si próprio. Quase perdeu de vista a luz que pode guiá-lo de volta às suas prerrogativas. Os homens se tornaram coisa sem importância. Os homens na História, os homens no mundo de hoje, são insetos, são produtos, e recebem o nome do "massa" ou "rebanho". Num século, num milênio, restará um ou dois homens; isto é, uma ou duas aproximações ao verdadeiro estado de todo homem. Os restantes contemplam no herói ou no poeta seu próprio cru e imaturo ser amadurecido; sim, e ficam contentes por serem menores, para que aquele possa atingir sua plena estatura. Que testemunho, cheio de grandeza e de piedade, não é dado, às demandas de sua própria natureza, pelo membro de um clã, pelo pobre partidário que se rejubila com a glória de seu chefe! Os pobres e os inferiores encontram certas compensações para a sua imensa capacidade moral de aceitar uma inferioridade política e social. Contentam-se com serem varridos, como moscas, do caminho de uma grande pessoa, a fim de que ela faça justiça à natureza comum, que todos desejam ver engrandecida e glorificada. Eles se aquecem à luz do grande homem e a sentem como seu próprio elemento. Transferem a dignidade de homem, de seus ombros espezinhados, para os ombros de um herói, e morrerão para dar uma gota de sangue que faça bater aquele grande coração, aqueles tendões gigantescos combaterem e conquistarem. Ele vive por nós, e nós vivemos nele.

Tais como são, os homens muito naturalmente buscam dinheiro ou poder; e o poder, porque é tão bom quanto o dinheiro - os chamados "benefícios do cargo". E por que não? Aspiram ao mais alto, e sonham, no seu sonambulismo, que isso o é. Despertai-os; eles abandonarão o falso bem e se lançarão sobre o verdadeiro, deixando os governos a amanuenses e escrivaninhas. Tal revolução deverá ser forjada pela gradual aclimação da idéia de Cultura. A empresa principal do mundo, no tocante a esplendor e amplitude, é a construção de um homem. Eis os materiais espalhados pelo chão. A vida privada de um homem será uma monarquia mais ilustre - mais formidável para seu inimigo, mais amável e serena, em sua influência, para seu amigo - do que qualquer reino da História. Pois um homem, devidamente considerado, compreende as naturezas particulares de todos os homens. Cada filósofo, cada bardo, cada ator, fez apenas por mim, como delegado, aquilo que um dia poderei fazer por mim mesmo. Os livros que uma vez estimamos mais do que a menina dos olhos, já os exaurimos totalmente. Isso equivale tão-somente a dizer que alcançamos o ponto de vista que a mente universal assumiu através dos olhos de um escriba; fomos esse homem e passamos adiante. Primeiro uma, depois outra, esvaziamos todas as cisternas e, fortalecidos por esses suprimentos, almejamos alimento melhor e mais abundante. Ainda não apareceu homem que nos possa alimentar perenemente. A mente humana não pode ser entesourada numa pessoa que ponha barreiras, de qualquer lado, nesse ilimitado e ilimitável império. É um fogo central que, ora flamejando nas orlas do Etna, ilumina os cabos da Sicília; ora flamejando na garganta do Vesúvio, ilumina as torres e vinhedos de Nápoles. É uma luz que irradia de um milheiro de estrelas. É uma alma que anima todos os homens.

Mas demorei-me talvez tediosamente nesta abstração do Letrado. Não devo atardar-me mais no acrescentar o que tenha a dizer que mais de perto se relacione com o tempo atual e com nosso país.

Historicamente, acredita-se exista uma diferença nas idéias que predominam em épocas sucessivas, e há caracteres a distinguir o gênio da época clássica, da romântica e, agora, da reflexiva ou filosófica. Com as concepções que aduzi acerca da unidade ou identidade da mente através de todos os indivíduos, não insisto muito em tais diferenças. Na verdade creio que todo indivíduo atravessa as três épocas. O menino é grego; o moço, romântico; o adulto, reflexivo. Não nego, contudo, que uma revolução na idéia diretiva possa ser traçada com bastante clareza.

Nossa época é deplorada como a época da Introversão. Tem isso de ser necessariamente um mal? Ao que parece, somos críticos; embaraçam-nos reflexões; posteriores; não podemos desfrutar coisa alguma porque ansiamos saber de que consiste o prazer; estamos cobertos de olhos; vemos com os pés; nosso tempo é infectado pela desdita de Hamlet:

Empalidecido do pálido matiz do pensamento.

É tão mau assim, então? A visão é a última coisa a ser deplorada. Deveríamos acaso ser cegos? Receamos exaurir a Natureza e Deus, e beber a verdade até a última gota? Considero o descontentamento da classe letrada mera indicação do fato de que seus membros não se encontram no mesmo estado de espírito de seus pais e lamentam o vindouro estado por não experimentado, assim como um menino receia a água antes de ter aprendido que pode nadar. Se existe algum período em que uma pessoa desejaria ter nascido, não é a idade da Revolução, quando o velho e o novo se põem um ao lado do outro e admitem ser comparados; quando as energias de todos os homens estão penetradas de medo e de esperança; quando as glórias históricas da antiga era podem ser compensadas pelas ricas possibilidades da nova? Este tempo, como todos os tempos, será esplêndido, se soubermos o que fazer dele.

Leio com júbilo alguns dos auspiciosos signos dos dias vindouros, que já cintilam através da Poesia e da Arte, da Filosofia e da Ciência, da Igreja e do Estado.

Um desses signos é o fato de que o mesmo movimento que afetou a elevação da que foi chamada a classe mais inferior do Estado, assumiu, na Literatura, aspecto tão acentuado quão benigno. Em vez do sublime e do belo, o próximo, o vulgar, o comum, foi explorado e poetizado. Aquilo que havia sido negligentemente espezinhado pelos pés dos que se estavam preparando e aprovisionando para longas jornadas a países distantes revelou-se, de súbito, mais rico do que todas as terras estrangeiras. A literatura dos pobres, os sentimentos da criança, a filosofia da rua, o significado da vida doméstica, são os tópicos da época. É um grande avanço. É um sinal, pois não?, de novo vigor: as extremidades são ativadas, correntes de vida cálida fluem para as mãos e os pés. Não exijo o grande, o remota, o romântico; o que se está fazendo na Itália ou na Arábia; o que seja arte grega ou poesia trovadoresca provençal; aproveito o comum, exploro e sento-me aos pés do familiar, do vulgar. Dai-me o vislumbre de hoje e ficai com o mundo antigo e o mundo futuro. De que realmente queremos compreender o significado? A farinha no barrilete, o leite no recipiente, a balada na rua, as novas do barco, o relance de o1hos, a forma e o porte do corpo - mostrai-me a razão final desses fatos; mostrai-me a sublime presença da mais alta causa espiritual, oculta, como sempre ocorre, nesses subúrbios e extremidades da Natureza; deixai-me ver as mínimas coisas eriçando-se à polaridade que as ordena instantaneamente segundo uma lei eterna; e a oficina, o arado e o livro razão referidos à mesma causa que faz a luz ondular e o poeta cantar. Então, o mundo deixa de ser insípida miscelânea, quarto de despejo, e adquire forma e ordem; não há mais ninharia, não há mais confusão: um mesmo plano une e anima o mais distante pináculo e o mais fundo valo.

Essa idéia inspirou o gênio de Goldsmith, Burns, Cowper, e, em tempo mais recente, de Goethe, Wordsworth e Carlyle. Tal idéia, eles a seguiram de maneiras diferentes e com diferente êxito. Comparado à maneira de eles escreverem, o estilo de Pope, de Johnson, de Gibbon, parece frio e pedante. Essa maneira de escrever tem o calor do sangue. Os homens se surpreendem de constatar que as coisas próximas não são menos belas ou prodigiosas do que as coisas remotas. O próximo explica o distante. A gota é um pequeno oceano. Um homem se relaciona a toda a Natureza. Essa percepção do valor do vulgar é frutífera em descobertas. Goethe , neste particular o mais moderno dos modernos, mostrou-nos, como ninguém jamais mostrara, o gênio dos antigos.

Há um homem de gênio que fez muito em prol desta filosofia de vida e cujo valor nunca foi devidamente estimado; refiro-me a Emanuel Swedenborg. Sendo o mais imaginativo dos homens, e escrevendo, contudo, com a precisão de um matemático, buscou ele enxertar uma Ética puramente filosófica no Cristianismo popular de seu tempo. Semelhante tentativa envolveria certamente dificuldades que gênio algum poderia vencer. Mas ele viu, e mostrou, a conexão entre a Natureza e as disposições da alma. Aprofundou o caráter emblemático ou espiritual do mundo visível, audível, tangível. Em particular, essa musa amante das sombras adejou sobre e interpretou as partes inferiores da Natureza; mostrou o vínculo misterioso que alia o mal moral às formas materiais hediondas, e anunciou, em parábolas épicas, uma teoria da insanidade, dos brutos, das coisas imundas e medonhas.

Outro sinal de nossos tempos, assinalado também por um movimento político análogo, é a nova importância dada ao indivíduo. Tudo quanto tenda a isolar o indivíduo - a cercá-lo de barreiras de respeito natural, de modo que cada homem sinta que o mundo é seu, e homem trate com homem como um Estado soberano com outro Estado soberano - tende à verdadeira união, bem como à grandeza. "Aprendi", disse o melancólico Pestalozzi, "que homem algum, no vasto mundo de Deus, está disposto ou em condições de ajudar qualquer outro homem." A ajuda deve vir somente do íntimo. O letrado é o homem que deve condensar em si toda a proficiência do tempo, todas as contribuições do passado, todas as esperanças do futuro. Deve ser uma universidade de conhecimentos. Se tem de haver uma lição que, acima das outras, lhe deva penetrar os ouvidos, é a de que o mundo é nada, e o indivíduo tudo; em vós mesmos está a lei de toda a Natureza, e não sabeis ainda como um glóbulo de seiva ascende; em vós mesmos dormita a totalidade da Razão; cabe a vós saber tudo, atrever-se a tudo. Sr. Presidente e cavalheiros: essa confiança no inescrutado poder do Homem pertence, por todos os motivos, por todas as profecias, por toda preparação, aO Letrado Norte-Americano. Ouvimos por tempo demasiado longo, as musas elegantes da Europa. Já se suspeita que o espírito do cidadão norte-americano seja tímido, imitativo, domesticado. A avareza pública e privada torna o ar que respiramos espesso e gorduroso. O letrado é decente, indolente, complacente. Vede, desde logo, as trágicas conseqüências. A mente deste país, ensinada a aspirar a objetivos inferiores, devora-se a si própria. Não há trabalho para quem não seja decoroso e complacente. Jovens extremamente prometedores, que começam a vida em nossas costas, arejadas pelos ventos montanheses, iluminadas por todas as estrelas de Deus, verificam que a terra cá em baixo não está em uníssono com isso, e são impedidos de agir pela aversão que os princípios por que os negócios se norteiam lhes inspiram; tornam-se então servis ou morrem de desgosto - alguns pelo suicídio. Qual o remédio? Não vêem eles - e milhares de jovens igualmente esperançosos, apinhando-se junto às barreiras para participar da carreira, não o vêem ainda - que se o homem individual apegar-se indomitavelmente aos seus instintos e neles permanecer, o mundo lhe virá ao encontro. Paciência, paciência; com as sombras de todos os que foram grandes e bons por companhia; e por conforto, a perspectiva de vossa própria vida infinita; e por trabalho, o estudo e comunicação de princípios, o tornar tais instintos preponderantes, a conversão do mundo. Pois não é a principal desgraça, no mundo, não ser uma unidade, não ser reconhecido como um caráter, não produzir aquele fruto peculiar, que todo homem foi criado para produzir? Ser incluído no grosso, na centena ou no milhar, do partido, da seção a que pertencemos; ter a nossa opinião prognosticada geograficamente, como o norte ou o sul? Não será assim, irmãos e amigos - queira Deus que a nossa sorte não seja essa. Caminharemos com os nossos próprios pés; trabalharemos com nossas próprias mãos; enunciaremos nossas próprias idéias. O estudo das Letras não mais será sinônimo de piedade, dúvida ou complacência sensual. O temor do Homem e o amor do Homem serão uma muralha de defesa e uma grinalda de alegria à volta de tudo. Pela primeira vez, haverá uma nação de homens, porque cada qual se acredita inspirado pela Alma Divina, que inspira também a todos os homens.