De rosto colado

G. Perez Firmat

 Tradução:

Sigrid Renaux

FIRMAT, Gustavo Pérez. Do the Americas have a common literature? Durham and London : Duke University Press, 1990. p.1 - 5: Introduction: cheek to cheek.

Comentário: Rita De Grandis (UBC)

Tradução do comentário: André Rossano T. Camargo (UFRGS)

INTRODUÇÃO: DE ROSTO COLADO

Há alguns anos, o conjunto musical "nuyorican" Los Amigos e os Bad Street Boys lançaram um disco de sucesso chamado "Bailando pegaíto". O título da canção em espanhol pretendia ser uma tradução idiomática de "Cheek to Cheek", pois os Bad Street Boys usaram o velho modelo de Irving Berlin, revisaram e atualizaram algumas das canções e colocaram tudo em ritmo de salsa. O resultado foi uma versão transculturizada, latinizada da melodia (cujo título os Bad Street Boys pronunciaram, naturalmente, "chik to chik") na qual um rapaz de bairro tenta convencer uma jovem e sofisticada americana a dançar com ele. As novas canções incluem linhas memoráveis como : "It feels like heaven dancing with you tonight; /

take off your shoes, I know they are getting tight"; ou, "Tighter and tighter as we can get; / your hips are moving like a speeding jet". Em razão da baixa qualidade de poesia dessas linhas, não é de surpreender (apesar de poder ser ofensivo) que a capa do álbum de discos consistia em uma fotografia das nádegas de diversas moças posicionadas "cheek to cheek".

Inicio com esta anedota maliciosa porque ela resume os objetivos deste volume, tanto em intenção quanto em conteúdo. O assunto de "Bailando pegaíto" é o contato - e talvez o choque - entre algumas das culturas das Américas. Este também é nosso assunto. "Cheek to Cheek" começa "Heaven, I'm in heaven". O que os Bad Street Boys fizeram foi trazer o céu até a terra ao alojar o bairro no texto de Berlin, ao misturar melodias da Broadway com ritmos do ghetto. Na canção, norte e sul, anglo e latino, dançam de rosto colado. Por esta razão, o modelo latinizado de Berlin pode servir aqui como um modelo crítico: o objetivo dos ensaios neste livro também é dançar juntos; eles pretendem acoplar as literaturas e culturas deste hemisfério - particularmente seus setores norte-americano e latino-americano - a fim de achar áreas de concordância ou comunalidade . Assim, os contribuintes, como os Bad Street Boys, movimentam-se na fronteira, na junção entre norte e sul .

"Bailando pegaíto" também sugere a novidade e mesmo a irreverência de tais movimentos. O fato é que o campo de estudos literários interamericanos é algo como uma terra incógnita. Além de alguns poucos estudos pioneiros de influência, as incursões eruditas neste campo foram poucas e na maioria das

vezes muito recentes (1). Ao contrário da literatura contemporânea do hemisfério, cujo alcance de interesse e ambição são bem conhecidos, a crítica da literatura americana (usando o adjetivo em seu sentido genuíno, hemisférico) permanece em grande parte con- finada a fronteiras disciplinares bem demarcadas e há muito prevalentes, com o resultado de que os contatos entre estudiosos trabalhando com diferentes áreas do Novo Mundo foram raros e ocasionais.Talvez o exemplo mais flagrante deste isolamento insti- tucional e erudito seja a falta de diá- logo entre " americanistas " e " lati- no-americanistas ". Por um lado, os estudiosos de literatura norte-ameri- cana, enquanto estiveram muito preo- cupados com a "americanidade" de seu domínio, geralmente negligencia- ram considerar esta noção em qual- quer outro sentido que não o de um nacionalismo e anglofonismo estreitos, no qual a América se torna sinônimo de Estados Unidos. Por outro lado, es- tudantes de literatura latino-americana não procuraram, na maioria das vezes, olhar em direção norte à procura de contextos significantes para seus textos. As barreiras óbvias de língua, como também as igualmente óbvias diferenças econômicas e polí- ticas entre as diferentes partes do hemisfério, foram fatores decisivos em desencorajar os latino-americanistas a se engajar em textos norte-ameri- canos. É proposital, portanto, que neste livro alguns dos contribuintes es- tejam escrevendo "fora" de seu cam- po: o leitor vai achar americanistas escrevendo sobre Borges e latino- americanistas escrevendo sobre Hawthorne ou Cooper.

Mesmo os comparatistas trabalhando com a literatura do Novo Mundo mostraram relativamente pouco interesse em investigações interamericanas . Já que no estudo acadêmico as linhas de comparação literária geralmente correram de leste a oeste, as discussões comparativas das literaturas das Américas consideraram principalmente a relação entre o Novo Mundo e o Velho Mundo. Escreveu-se muito, por exemplo, sobre as raízes européias do transcen- dentalismo da Nova Inglaterra ou da nueva novela hispano-americana. En- tretanto, a dívida cultural das Américas para com a Europa é na realidade apenas uma das características que as literaturas do Novo Mundo têm em comum. E ainda não foi dito o su- ficiente sobre esta comunalidade, so- bre as intersecções e tangências entre as diversas literaturas do Novo Mundo consideradas separadamente de seus antecedentes e análogos extra-hemis- féricos.

O objetivo dos ensaios neste livro é participar na correção deste desequilíbrio adotando uma orientação norte-sul e olhando para a literatura do Novo Mundo num contexto pan-americano ou interamericano. É desnecessário dizer que o assunto é grandiosa e até demasiadamente amplo e que cada contri- buinte dedicou-se apenas a um aspec- to limitado do mesmo. Além disso, o volume como um todo não tenta a abrangência e mesmo que se tenha feito um esforço para representar tanto as literaturas "maiores" como as "menores" (e outras línguas além do espanhol e inglês), as exclusões foram inevitáveis. Mesmo assim, conside- rados em conjunto, os ensaios procu- ram lançar as bases para mais discus- sões sobre a literatura do Novo Mundo num contexto hemisférico .

Os próprios ensaios adotam quatro abordagens distintas, que podem ser classificadas como genérica , genética , aposicional e mediativa . A abordagem genérica procura estabelecer um contexto hemisférico usando como ponto de partida uma noção ampla, abstrata, de extensa aplicabilidade. Um exemplo é a demonstração de Lois Parkinson Zamora de que existe uma consciência histórica do Novo Mundo que atravessa fronteiras nacionais. Outro exemplo é a discussão de Eduardo González so- bre miscigenação racial e cultural; en- focando o que ele denomina "teromor- fia americana" - isto é, a figuração de cruzamentos raciais e culturais como a mulatice (termo derivado de "mula") - González consegue estabelecer cone- xões entre escritores tão diferentes como CiriloVillaverde, José Lezama Lima, Melville e Hawthorne. Da mesma maneira, a investigação de José Piedra sobre uma "lógica neo-africana de desempenho" permite-lhe estabelecer relações entre os "blues" norte-ameri- canos com o son cubano. O ensaio de David T. Haberly é genérico no sentido literário: estuda as mutações ameri- canas do gênero romântico da lenda em textos de escritores norte-ameri- canos, hispano-americanos e brasilei- ros do século passado.

Uma segunda abordagem seria aproximar-se de casos e examinar relações genéticas reais ou relações causais entre autores e textos. O objetivo aqui não é tanto descobrir fontes ou influências - se bem que ambos os empreendimentos são mais úteis do que algumas teorias contemporâneas querem reconhecer - do que registrar os usos aos quais um determinado autor ou texto foram colocados por seus sucessores. Ilustrativos deste método são o ensaio de Doris Sommer sobre Faustino Domingo Sarmiento e James Fenimore Cooper, o ensaio de Enrico Mari Santí sobre a complicada história das leituras e falsas leituras latino-americanas de Whitman e o exame de John T. Irwin sobre a reescrita que Borges faz de "A Carta Roubada" de Poe.

Os ensaios que focalizam afinidades não-genéticas são complementares aos estudos genéticos. Chamei esta abordagem aposi- cional pois envolve colocar as obras lado a lado sem postular conexões causais. Sob esta perspectiva a con- fluência tem precedência sobre a influência e as relações causais, mes- mo quando existem, são consideradas menos relevantes que as continui- dades formais ou temáticas. Podemos incluir neste grupo a discussão de Wendy B. Faris sobre a problemática de apropriação textual e territorial em Carpentier e Faulkner, o mapeamento de áreas de concordância nas poéticas de Severo Sarduy e Nicole Brossard por René Prieto e a leitura conjunta que Jonathan Monroe faz de poemas de Adrienne Rich e Aimé Césaire. Juntos, os métodos genéticos e aposicionais são valiosos não apenas por esclarecer textos individuais, mas também por ajudar a criar um sentido de uma tradição literária distintamente americana.

A quarta abordagem, que podemos chamar mediativa , concentra-se em textos que já têm embutidos uma dimensão interamericana ou comparativa . Neste caso, as aposições trans-países ou trans-culturais são intrínsecas às próprias obras; assim, em vez de justapor textos ou autores, o crítico volta-se para textos que se colocam nas intersecções entre línguas, literaturas ou culturas. Como exemplos desta abordagem temos a discussão de José David Saldívar sobre a significação hemisférica do pensamento de José Martí ou minha própria exposição da poética pan-americana de José Lezama Lima. Neste grupo poderíamos também incluir a discussão de Antonio Benítez-Rojo sobre cultura caribenha, que argumenta que o Caribe é uma "ponte de ilhas" que liga os segmentos norte e sul do hemisfério. Este volume como um todo também pertence a esta última categoria, já que também pretende mediar ou transpor distâncias geográficas e culturais.

Estas quatro abordagens ao assunto da comunalidade literária hemisférica - genérica, genética, aposicional e mediativa - não são mutuamente exclusivas nem aparecem (por esta razão) necessariamente em forma pura. Além disso, elas podem ser colocadas a serviço de diferentes agendas críticas, como a diversidade ideológica dos ensaios a seguir irá testemunhar. Estas abordagens, entretanto, realmente delineiam as opções metodológicas à disposição do comparatismo interamericano e o leitor deste livro deveria ser capaz de formar uma idéia das vantagens e limitações de cada abordagem.

O título desta coleção foi inspirado pelo de uma outra coleção, Do the Americas Have a Common History? de Lewis Hanke (1964). O volume de Hanke foi devotado à discussão da controvertida tese de Herbert Eugene Bolton, apresentada primeiramente em 1932, de que a experiência de fronteira dá uniformidade à história do Novo Mundo (2). Muitos dos contribuintes ao volume de Hanke não concordam com Bolton, argumentando que as circunstâncias históricas específicas são tão diversas que não tem sentido falar de uma "história comum". De acordo com o filósofo mexicano Edmundo O'Gorman, por exemplo, a unidade das Américas não é mais do que uma "linda e capciosa ilusão", uma "alucinação geográfica" (109). Argumentos semelhantes podem ser feitos contra o título e intenção da presente coletânea. Na realidade, já foram feitos: Roberto Fernández Retamar, o conhecido poeta e ensaísta cubano, acredita que as histórias dos Estados Unidos e do resto do hemisfério são tão diferentes que as literaturas correspondentes são, conseqüentemente, incomensuráveis (3). Fernández Retamar está sem dúvida certo em apontar para as imensas diferenças históricas e políticas entre os Estados Unidos e a América Espanhola (seus principais pontos de referência); mesmo assim, a posição histórica não é sempre idêntica à posição cultural e os ensaios neste volume tendem a demonstrar que mesmo quando a comparação envolve autores e textos do Primeiro e Terceiro Mundos é possível achar consideráveis áreas em comum.

Havendo dito isto, devo apontar que a intenção do título do livro não é uma pergunta à qual seu conteúdo dá uma resposta. De fato, os próprios ensaios geram perguntas que sugerem quão difícil seria responder ao título, tanto por causa do alcance da pergunta quanto por causa dos termos nos quais está enunciado. A idéia de uma literatura em comum, como a de uma história em comum, pode não ser uma "linda ilusão" (apesar de lindas ilusões também terem seu valor), mas também não é uma proposição auto-evidente. Dada a novidade do comparatismo interamericano , a pesquisa nesta área deve ser especulativa e suscetível de revisão. Por esta razão, os ensaios coletados aqui deveriam ser entendidos assim como as canções em "Bailando pegaíto". Eles pretendem ser um convite ou um passo adiante, como uma proposição no outro sentido; editor e contribuintes podem apenas esperar que o leitor fique suficientemente intrigado por essas proposições para enfrentar a música e dançar.


(1) As obras recentes mais interessantes nesta área são: José Ballón, Autonomía cultural de América : Emerson y Martí (Madrid: Pliegos, 1986); Bell Gale Chevigny and Gari Laguardia, eds., Reinventing the Americas: Comparative Readings of Literature of the United States and Spanish America (Cambridge: Cambridge University Press, 1987); Vera Kutzinski, Against the American Grain: Myth and History in William Carlos Williams, Jay Wright, and Nicolás Guillén (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1987); Alfred MacAdam, Textual Confrontations: Comparative Readings in Latin American Literature (Chicago: University of Chicago Press, 1987); Lois Parkinson Zamora, Writing the Apocalypse: Historical Vision in Contemporary U.S. and Latin American Fiction (Cambridge: Cambridge University Press, 1989).

(2) Herbert Eugene Bolton, "The Epic of Greater America", reeditado em Do the Americas Have a Common History? ed. Lewis Hanke (New York: Alfred A. Knopf, 1964), 67-100.

(3) Roberto Fernández Retamar, Para una Teoría de la Literatura Hispanoamericana , 3rd. ed. (Mexico City: Nuestro Tiempo, 1977), 135.