De rosto colado

G. Perez Firmat
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Comentário: Rita De Grandis (UBC)

Tradução do comentário: André Rossano T. Camargo (UFRGS)

Têm as Américas uma Literatura em Comum? é uma coleção de treze ensaios que desafiam o leitor a descobrir as múltiplas formas nas quais as manifestações culturais mais diversas das Américas se interconectam. É revitalizante ler a crítica literária que reavalia as literaturas e culturas da América do Norte e do Sul, da América Latina e da Anglo-América de uma perspectiva interamericana comparada. A singularidade desse volume pode ser atribuída a uma abordagem inovadora: um sincretismo de correntes atuais em teoria literária. A multiplicidade de perspectivas está efetivamente organizada pelo editor, Pérez Firmat, nas abordagens metodológicas do genérico , do genético , da aposição e do mediato . Na tentativa de harmonizar as multifacetadas Américas geográficas e culturais, esse volume se interconecta com a categoria mediata completamente abrangente. À medida que os colaboradores desta antologia se afastam das teorias pós-estruturalistas, feministas e marxistas, eles dão início a uma ampla metodologia de análise; e, embora preocupados com reflexão hipotética, eles deixam de lado a contemplação meramente especulativa para concentrar seus interesses nas constatações subseqüentes dessas teorias. A aplicação resultante dessas descobertas gera infinitas possibilidades combinatórias para os elementos deste corpus heterogêneo, enfatizando, assim, sua diversidade e interconexão simultaneamente.

Têm as Américas uma Literatura em Comum? ao proporcionar venturosamente novas leituras a textos consagrados, incorpora trabalhos não canonizados e transgenéricos com um corpus rico de trabalhos canonizados. Uma prova desta combinação empreendedora está no ensaio exemplar de José Saldívar, "The Dialetics of Our America". Saldívar ultrapassa os limites institucionais da historiografia literária, ousando relacionar textos adversos. Mais especificamente, ao propor um modelo para uma história literária correlata contrastiva da Américas, ele ingenuamente faz a conexão com um cartum político, "O Mundo de Ronald Reagan", "O Discurso de Gabriel García Márquez" na entrega do Prêmio Nobel de 1982, a "Nueva narrativa" latino-americana e a etno-literatura pós-modernista americana (Ronaldo Hinojosa e Ntozake Shange).

O esquema classificatório de Pérez Firmat explora mais minuciosamente as características de ramificação da interamericanidade em uma multiplicidade de formas. (Para sustentar e acrescentar ao jogo inovador de palavras utilizado neste texto, proponho o termo interamericanidade , para resgatar a interconetividade das Américas). Por exemplo, a categoria genérica pode ser aplicada em um nível mundial. Isso se torna explícito na tentativa de Luis Parkinson Zamora de estabelecer um contexto hemisférico como um meio de explicar a ansiedade histórica típica da auto-definição das Américas em seu artigo "The Usable Past: The Idea of History in Modern U.S. and Latin American Fiction". Ele repensa a consciência histórica em relação à suposição de Hegel sobre a excepcionalidade da América. Em um outro nível, "Form and Function in the New World Legend" de David T. Haberly vem elucidar a função instrumental da lenda na investigação sobre o passado das Américas. Haberly isola lendas dentro dos textos de Rip Van Winkle , Iracema e La fiebre amarilla para demonstrar a qualidade homogênea e não a qualidade heterogênea sustentada pela natureza e as obrigações da forma. Em ainda outro nível, a noção genérica pode ser usada para expressar a mulatez ao considerar as literaturas do norte e do sul pela condição da miscigenação racial no Novo Mundo. Em "American Theriomorphia: the Presence of Mulatez in Cirilo Villaverde and Beyond", Eduardo Gonzales analisa a mulatez cubana implícita em Cecelia Valdez , comparando esse trabalho a Pudd'nhead Wilson de Mark Twain, a Light in August de Faulkner, a Cemitério dos Anjos de Reinaldo Arena e a La consagración de la primavera de Alejo Carpentier. Segundo González, a figura literária do mulato é uma construção e não uma representação no sentido de que "a questão da mulatez entra na história e na biografia encrostada em um complexo racista cujas fontes mais profundas na fantasia são difíceis de compreender sem praticar uma forma de racismo parasitário e erótico".

As conexões genéticas entre textos e autores dão lugar a uma família textual que ultrapassa as fronteiras geográficas e culturais. Em "Plagiarized Authenticity: Sarmiento's Cooper and Others", Doris Sommer revela que "a imitação geralmente vai além do modelo mesmo quando a própria imitação constitui o modelo". Assim, o texto-produto não só estabelece a origem do texto mas também o reforça e, de certo modo, o qualifica ainda mais. "The Accidental Tourist: Walt Whitman in Latin America" de Erico Mario Santí demonstra que a influência de Whitman na poesia latino-americana, longe de ser simples e direta, tem, de fato, gerado resultados contraditórios e às vezes irregulares. Logo, sua presença indica não só a heterogeneidade das origens da poesia latino-americana mas também a reprovação de um produto sintético. Em "Mysteries we Reread, Musteries of Rereading: Poe, Borges and the Analytic Detective Story; Also Lacan, Derrida e Johnson", John T. Irwin oferece uma análise comparativa das interpretações de "The Purloined Letter" de Jacques Lacan, Jacques Derrida, Barbara Johnson e Jorge Luis Borges. Embora Irwin fundamente suas análises na chamada estrutura numérica/geométrica da história, ele acrescenta uma quinta dimensão à figura hermenêutica. Conseqüentemente, Irwin esboça uma progressão infinita de interpretação dentro do gênero analítico do romance policial.

A interamericanidade não só surge através das conexões genéticas entre textos e autores mas também através de superfícies em distribuição de aposição , isto é, organizar trabalhos um ao lado do outro em uma tentativa de obter conexões temáticas estruturais. Em "Making Space, Charting Time: Text and Territory in Faulkner's "The Bear" e Los passos perdidos de Carpentier, Wendy B. Faris faz a análise do mito edênico como uma poderosa força propulsora com a cultura americana. O apelo ao mito do paraíso compartilhado por Faulkner e Carpentier é neutralizador no que, por um lado, é rejeitado por ambos. Dessa forma, apesar dos vários papéis desempenhados pelo mito edênico nos termos das tradições anglo-saxônicas e hispânicas, ele persiste como a ferramenta temática chave da literatura americana. Fundamentando seus estudos nas reflexões teóricas do grupo Tel Quel , "In-Fringe: The Role of French Criticism in the Fiction of Nicole Brossard and Severo Sarduy" de Rene Prieto, incorpora o idioma francês nas literaturas das Américas. Desse modo, ele relaciona o pensamento franco-europeu à tradição literária franco-americana e compara as conexões teóricas do Tel Quel à tradição literária da América Latina. De acordo com a tradição literária franco-americana, Jonathan Monroe explora uma nova visão da abordagem de aposição . Em "Mischling e Metis: Common and Uncommon Languages in Adriene Rich and Aimé Cesaire", Monroe utiliza os trabalhos desses poetas para demonstrar uma associação entre a condição da "incapacidade pessoal" e a linguagem.

No encontro de diferentes línguas, literaturas e culturas, surge uma dimensão mediata , complementando a perspectiva singular tomada por esses autores. A bacia caribenha é considerada como sendo o lugar de infinitas possibilidades, um arquipélago sem fronteiras, uma explosão dos logotipos, um centro desprovido de centro, na essência, um "meta-arquipélago". Por isso, sua cultura requer objetos de sincretismo distinto; os produtos combinatórios de uma variedade de práticas semióticas. Em "The Repeating Island" Antonio Benítez Rojo apresenta uma síntese do tríptico Atabey-Nuestra Señora-Oshun, o culto cubano de La Virgen de la Caridad del Cobre , como um objeto originário eclético cujo significado omite o do Orehu, a mãe das águas de Guyana Arawaks. Enquanto em um nível essa prática pode ser interpretada como um ritual eclético cubano, em outro nível, uma interpretação do meta-arquipélago leva a conceituar uma "metamáquina de fluxos marítimos [conectando] o Orinoco ao Hellespont, o Niger ao Canal das Bahamas, o Olympus a uma rua em Kinston".

Além disso, essa noção nos leva a interpretar a singularidade da cultura caribenha como metarítmica ; o ritmo que é realizável através de uma combinação de não só música mas também de linguagem corporal e texto. Ao explorar as origens lingüísticas comuns e ontológicas da salsa, o son e o blues, José Piedra define a lógica do desempenho do son nos termos de uma "revitalização sistemática dos significados". Em "Through Blues", Piedra desenvolve uma relação entre o blues e o son , demonstrando a forma pela qual cada um "adotou" e "adaptou" com sucesso as Modernas noções de significado do Ocidente e tradicionais da África.

Talvez seja em "The Strut of the Centipede: José Lezama Lima and New World Exceptionalism" de Pérez Firmat, estrategicamente situado no final da coleção, que é dado ao leitor a oportunidade de decifrar a interconecção desses estudos. Embora Pérez Firmat empregue o aforisma de Lezama Lima, "El gozo del cienpiés es la encrucijada" (O gozo da centopéia é a encruzilhada), ele use a metáfora de encruzilhada e pampa para denotar a singularidade da cultura americana. Assim o fazendo, Pérez Firmat fortalece La expressión americana de Lezama Lima, optando pela múltipla justaposição dessas metáforas como a condição sin qua non da interamericanidade .

De uma forma similar, toda a antologia surge como uma notável contribuição erudita em sua justaposição e balanceamento das seguintes polaridades. Primeiramente, essa coleção cria uma perspectiva única que é norte/sulista e anglo-latina. Além disso, o detalhe labiríntico é tratado habilidosamente enquanto se mantém um contexto completo que se estende por todas as culturas das Américas. Globalmente, ao se adotar uma orientação norte-sul e se observar as literaturas do Novo Mundo em um contexto pan-americano ou interamericano, os contribuidores desse volume participam na correção e na descontinuidade do estudo comparativo.