A interação de história, ficção e linguagem no desenvolvimento da literatura colonial nas Américas: Quebec e América Latina

Earl Fitz

Tradução:

Gisele M. Fernandes e Diva C. de Camargo

FITZ, Earl E. The interplay of history, fiction and language in the development of colonial literature in the Americas : Quebec and Latin America . In: BOUCHARD, Gerard, LAMONDE, Yvan (Orgs.). La nation dans tous ses états: Le Québec en comparaison. Montréal: Harmattan, 1997. p.133 - 142.

Comentário: Maria Heloisa M. Dias (UNESP - SJRP)

A INTERAÇÃO DE HISTÓRIA, FICÇÃO E LINGUAGEM NO DESENVOLVIMENTO DA LITERATURA COLONIAL NAS AMÉRICAS: QUEBEC E AMÉRICA LATINA

Para um comparatista, o lugar da Literatura Canadense de Expressão Francesa no contexto maior das Américas é um assunto fascinante, uma vez que é ainda lamentavelmente pouco explorado. Conforme observado na minha obra de 1991 (E.E. FITZ, 1991, p.234), o Canadá de Língua Francesa continua, junto com o Brasil, sendo, na verdade, negligenciado mesmo pelos especialistas nas Literaturas das três Américas. É uma situação deplorável e cabe-nos, como especialistas interessados no Quebec, em sua história, cultura e literatura, a responsabilidade de mudar este quadro, a fim de divulgar a própria Literatura Canadense e começar a considerá-la como uma das principais literaturas do Novo Mundo (que, como se sabe, já era complexo e diversificado antes da chegada dos primeiros europeus no final do século XV e começo do XVI). (1)

Com referência ao método, o problema para o comparatista é como evitar a "homogeneização" de uma literatura nacional específica, e como assegurar que, ao compará-la com outra, não se estaria minimizando ou ignorando as diferenças, acabando por fazê-la parecer igual às outras na sua essência. Uma das possibilidades para evitar este dilema seria discutir não apenas as similaridades que unem uma literatura a outra ou um escritor a outro, mas também destacar as particularidades que tornam única cada literatura nacional. Com relação ao Canadá de Língua Francesa, este assunto se intensifica, como Charles LeMoyne e outros demonstraram (2), devido ao fato da complexa relação do Quebec com as demais províncias do Canadá, sua herança francesa, e a presença dos Estados Unidos.

No entanto, gostaria de deixar claro desde o início que não sou uma autoridade em Literatura Quebequense. Sou comparatista por experiência e especialista em América Latina. Neste contexto, algumas observações e questões serão propostas. Todavia, como estudioso das relações interamericanas, passei aproximadamente vinte anos lendo tanto Literatura como Crítica Canadense de Expressão Francesa e Inglesa; por essa razão, sinto-me, pelo menos num plano rudimentar, habilitado a sugerir uma comparação da Literatura do Quebec no contexto das Américas.

Portanto, serão colocadas, nas páginas seguintes, questões ligadas ao lugar da Literatura Quebequense nas Américas. Desse modo, o raciocínio desenvolvido por meio destas questões poderia trazer uma conscientização mais apurada do Canadá de Língua Francesa no seu contexto dentro do hemisfério norte sem comprometer sua singularidade. De fato, sua especificidade pode ser acentuada significativamente, tornando-a mais conhecida.

Tendo em vista a complexidade do problema, envolvendo questões estreitamente relacionadas com a história literária e tradições, estruturas sócio-políticas e assuntos econômicos ¾ que influenciaram direta e indiretamente o desenvolvimento da literatura no Novo Mundo ¾ este capítulo será dividido em duas partes. Na primeira, serão apresentadas algumas perguntas que tenho proposto a mim e aos meus alunos no curso sobre Literatura Colonial do Novo Mundo, que ministro na universidade. Estas questões, fundamentais para um completo entendimento da Literatura Colonial do Novo Mundo e do lugar em que as Letras Quebequenses se encontram inseridas, podem gerar discussões que resultarão numa integração mais explícita e organizada do Quebec no contexto interamericano. Na segunda parte,

serão elaborados alguns comentários sobre autores cujas obras, ao unir História e ficção, contribuíram para o estabelecimento das Literaturas do Canadá de Expressão Francesa e Latino-americana.

São as seguintes as perguntas a serem tomadas em consideração:

1. Quais eram os principais motivos por trás das primeiras viagens dos europeus para o Novo Mundo? As razões que trouxeram os primeiros exploradores franceses para o Novo Mundo eram substancialmente diferentes das que trouxeram os primeiros espanhóis, portugueses e ingleses? Seria válido considerar os motivos dos primeiros franceses como mais voltados para a exploração e comércio enquanto que os dos espanhóis, por exemplo, seriam direcionados mais para a conquista e colonização? E como os portugueses e ingleses se encaixariam neste esquema? Numa posição intermediária? Sabe-se que o relato de Cartier sobre a conhecida viagem de 1534 menciona freqüentemente o comércio extensivo que fora iniciado entre os exportadores franceses e os nativos, mas teriam essas relações mercantis sido realizadas regularmente? E poderia ser que em 1492 a própria Espanha se encontrasse numa situação muito diferente, vis-à-vis sua conjuntura política e intenções a respeito das futuras relações com o Novo Mundo? O que se quer dizer é que, embora por volta de 1492 Ferdinando e Isabel tivessem finalmente vencido a prolongada guerra para reconquistar a Espanha tomada pelos Mouros, eles tinham um exército experiente e acostumado a guerrear, agora inativo, sem nenhum inimigo para atacar. Que melhor alternativa haveria para tal energia potencialmente destrutiva do que descartá-la para o Novo Mundo em busca de riqueza e poder? Isso não se sucedeu com a França em 1534, donde se poderia pensar que, em 1492, os conquistadores espanhóis chegaram ao Novo Mundo com espadas em riste e com um sentido claro de dever missionário que lhes daria tanto sanção como direcionamento para sua agressividade.

2. Há alguma pertinência em se considerar o comércio de peles no Canadá de Língua Francesa como o equivalente à corrida do ouro e prata na América Espanhola ou ao cultivo da cana-de-açúcar no Brasil? Ou seria esta uma comparação que levaria a uma interpretação errônea? O historiador, J.A. LOWER (1967), por exemplo, escreveu que: "A corrida para o monopólio das peles começou em fins do século XVI e, pelos próximos duzentos anos, a história do Canadá resume-se principalmente à história do comércio de peles de castor" (p.15). Porém, se o comércio de peles e a corrida do ouro forem considerados como o eixo principal do desenvolvimento econômico no Novo Mundo, quais teriam sido as suas repercussões sócio-políticas para a formação das respectivas sociedades coloniais?

3. As relações entre os primeiros exploradores franceses e os nativos teriam sido mais amigáveis do que entre os nativos e os espanhóis, portugueses e ingleses? Caso isso tenha ocorrido, como se poderia avaliar esta diferença marcante? Seria devido à natureza do comércio de peles que requereria uma maior relação cooperativa?

4. Uma outra questão seria a seguinte: comparando-se a América Inglesa, Espanhola e Francesa, como os primeiros exploradores franceses se relacionaram com as mulheres nativas? Além disso, o relacionamento dessas mulheres com os franceses diferiu do das nativas encontradas pelos primeiros ingleses, espanhóis e portugueses? Levantando-se uma hipótese, a partir de uma história agora longínqua para nós (a qual foi provavelmente oriunda de relatos orais), o que as mulheres nativas teriam dito aos franceses? E qual teria sido a receptividade delas comparada com as experiências e as histórias de outras nativas como aquela protagonizada por La Malinche e seu relacionamento com Cortês? Como V.S. NAIPAUL (1994) demonstrou recentemente em A Way in the World : é a literatura ¾ e não a História (limitada por fatos verídicos) ¾ que pode nos contar a história perdida, embora não verdadeira.

5. A experiência dos jesuítas no Quebec foi análoga ou diferente da dos jesuítas (ou membros de outras ordens religiosas, como a dos Franciscanos) na América Espanhola ou Brasil? Existe algum ponto de comparação entre as outras regiões das Américas que seja equivalente em natureza e impacto às Relações Jesuíticas ? Se não houver, qual a razão? Qual sua significância? Esta questão poderia ser sustentada por um contexto que compararia implicações econômicas, culturais, sócio-políticas provenientes do impacto causado pelo catolicismo e jansenismo no Novo Mundo (isto é, no Quebec, América Espanhola e Brasil) com o impacto causado pelo protestantismo, especialmente puritanismo e calvinismo, na América Inglesa (3).

6. Quais foram as estruturas sócio - político - econômicas predominantes na França no começo do século XVI e como se comparam com as das Espanha, Portugal e Inglaterra? Diz-se freqüentemente, por exemplo, que a Nova Espanha (e, em menor escala, o Brasil) foi colonizada sob a égide do medievalismo que era ainda a norma vigente na Espanha no final do século XV. Na época da primeira viagem de Jacques Cartier, em 1534, a França tinha superado o sistema medieval de organização social e, por isso, estaria mais propensa a uma forma diferente de governo no Novo Mundo? Quais as influências para as explorações e colonizações francesas nos séculos XV e XVI no que se transformaria na Nova França? Tal comparação torna-se complexa pelo fato de que, enquanto a Espanha se conservava ainda profundamente medieval quanto à perspectiva e organização social (implantando-as no Novo Mundo), Portugal, de acordo com muitos especialistas (4), encontrava-se fortemente influenciado pelo Humanismo italiano. Então se poderia concluir que, em termos de organização sócio-política trazida para o Novo Mundo, Portugal se aproximaria mais da França que da Espanha? Caso este argumento tenha alguma validade, seria este raciocínio mais relevante em termos da Literatura Colonial Brasileira do que de suas estruturas coloniais sócio-político-econômicas?

7. Ao que tudo indica, o conceito do "bom selvagem" aparece pela primeira vez no Novo Mundo na produção escrita da Nova França? Como Marc Lescarbot esclarece, este assunto se apresenta com bastante freqüência em vários textos iniciais do Canadá de Língua Francesa (5) , ao passo que não se encontra nas demais regiões das Américas até bem mais tarde. Somente no século XIX, sob a influência de Rousseau, irá tornar-se um tema recorrente da literatura do Novo Mundo. (Certamente, ocorreu nos Estados Unidos e na América Latina, mas seria também aplicável ao Canadá de Língua Francesa? Ou ao Canadá de Língua Inglesa? Em outras palavras, por volta do século XIX, o "bom selvagem" já seria um anacronismo no Canadá? Ou continuaria, como ocorreu nas demais Américas?).

8. Quais os papéis que as mulheres desempenharam no início do Canadá de Língua Francesa? Sabe-se, é claro, a respeito de Marie de l'Incarnation e suas cartas surpreendentemente expressivas e também de Elisabeth Bégon e suas cartas de amor, tristes e muitas vezes contundentes, mas, além destas, quais outras mulheres que se destacaram no período inicial ou colonial do Canadá de Língua Francesa? E como compará-las com a situação das mulheres no período inicial das Américas Inglesa, Espanhola e Portuguesa? Como Pierre LESCHEMELLE demonstrou (1992, p.75-92), a França, com todo o brilhantismo indiscutível de sua revolução humanística voltada para o mundo exterior durante o século XVI, estava ainda submersa na intolerância, superstição e ignorância, que se manifestaram num violento fanatismo religioso que incluía a queima de bruxas e a repressão e repúdio profundo às mulheres. Esta atitude foi trazida para o Novo Mundo ou algum tipo de mudança ocorreu na mentalidade dos "viajantes" no tocante às relações de sexo e gênero na medida em que se espalharam pelo continente norte-americano?

9. O "noveau roman" quebequense dos anos sessenta, ainda bastante subestimado, pode ser comparado legitimamente com a emergência do "novo romance/nueva novela" da América Latina do mesmo período? (Acredito que possa sê-lo; por esta razão, estou pesquisando este tópico para publicá-lo num livro).

10. Finalmente, num cenário mais contemporâneo, seria interessante saber se o conceito e prática do "realismo mágico" (de modo questionável, o primeiro "ismo" literário a ser exportado da América Espanhola para o mundo) teve a mesma recepção no Canadá de Língua Francesa do que no Canadá de Língua Inglesa. Em caso contrário, por quê?

Como Linda Hutcheon afirmou em vários estudos (6), o "realismo mágico" exerceu uma influência profunda em diversos romancistas canadenses de Língua Inglesa. Uma pergunta lógica, ainda não discutida, seria se este mesmo "realismo mágico" apresentou impacto semelhante na narrativa quebequense. Se assim se sucedeu, como compará-lo com sua presença ativa nas cartas canadenses de Língua Inglesa? Caso não tenha ocorrido, qual o motivo? Por que o "realismo mágico" não encontrou terreno fértil na Literatura e Cultura do Quebec? Caso exista, como se explicaria tal discrepância?

Na segunda parte deste artigo, será, dentro da história da narrativa na América Latina e no Quebec, considerada a possibilidade de que o momento decisivo em cada ocorrência nas crônicas, cartas e relatos dos primeiros exploradores se apresentasse deturpado, subvertido por dois escritores que ¾ pensa-se que tenha sido deliberadamente ¾ misturaram fatos com ficção de forma muito hábil. Usaram a aparente veracidade (ou pelo menos assim atribuída) da História para embelezar consideravelmente os eventos históricos que, na sua reconstrução textual, passaram de uma visão da História para o domínio da ficção. Em tendo assim procedido, seria possível afirmar (e, de fato, diz-se no contexto da narrativa da América Espanhola) que se formou a base para um tipo de escrita ficcional, não-mimética, imaginativa e exótica, mais conhecida como "realismo mágico", que emergiria na América Latina muitos anos depois. Este assunto foi primeiramente abordado pelo falecido crítico uruguaio, Emir Rodríguez MONEGAL (1984), na época professor da Universidade de Yale. Sua alegação parte do ponto de que Colombo, com seu pensamento inflamado pelas figuras expressivas e tropos dos romances de cavalaria e ainda por ser o representante oficial da coroa nessa grande empreita, sentia a necessidade de "vender" a "América", de comercializá-la como um empreendimento comercial viável. Para alcançar seu intento, Colombo precisou exagerar seu relato (sua carta para os soberanos espanhóis sobre o que tinha encontrado) e transformar sua "descoberta" numa potencialidade mais lucrativa do que realmente era; dessa forma, introduziu trovas de riquezas fabulosas. Monegal, referindo-se ao maior impacto causado pela carta de Colombo, afirma: "Um completo estereótipo do fabuloso Novo Mundo estava sendo criado ... A América como assunto poético e literário fora inventada por este genovês hiperbólico" (vol. 1, p.4-5).

Pode-se, assim, apresentar o seguinte questionamento: aconteceu fato semelhante no Canadá? Houve um escritor que, por qualquer razão, de modo análogo, uniu fato com fantasia, História com ficção? As histórias literárias da Literatura Quebequense sugerem que houve tal escritor, alguém que deliberadamente fundiu História e ficção para produzir, quer intencionalmente ou não, um novo tipo de narrativa colonial que poderia ser considerado como uma dimensão única do Canadá de Língua Francesa sendo, portanto, possível demonstrar pelo menos as origens de uma literatura distinta e identificável do Novo Mundo. Trata-se de Louis-Armand de Lom d'Arce, barão de Lahontan, cujos três volumes de narrativas de viagem exibem o que Jack WARWICK (1983) denominou de uma: "...mistura flagrante de fato e ficção ..." (p.555). D'Arce, um militar com experiência considerável no Novo Mundo, passou pelo dissabor de enfrentar sérias desavenças com o oficial superior, sendo forçado a deixar o posto em Newfoundland. Do incidente resultou que d'ARCE (1703a, 1703b, 1703c) sentiu-se aparentemente livre para criticar a administração colonial nas suas três principais obras Nouveaux voyages ..., Mémoires de l'Amérique septentrionale , e Supplément ... où lón trouve des dialogues curieux ... Porém, em contraste com Colombo, que exagerou sua carta naquilo que queria ¾ e esperava ¾ encontrar no Novo Mundo e porque necessitava do apoio contínuo dos reis da Espanha (mesmo quando precisou da renovação das concessões!), d'Arce apresentou uma tendência para misturar descrições exatas da fauna, flora e cultura locais com pura ficção com o presumível intuito de satirizar o governo colonial e seus administradores. Pode-se fornecer, como exemplo, a criação de interlocutores ficcionais, como o prolixo e corajoso índio da tribo dos Hurons, chamado Adário, o qual confunde, de forma humorística, o inquiridor europeu e suas tentativas toscas de preservação da suposta honra e superioridade da civilização francesa. Como uma personagem literária em oposição a uma personagem histórica, Adário aproxima-se bastante do cerne do conceito do "bom selvagem", uma idealização dos nativos do Novo Mundo que apareceria, explícita ou implicitamente, nos escritos de vários dos primeiros exploradores e colonizadores canadenses de Língua Francesa (7). Caso se possa considerar a possibilidade de que tanto Colombo quanto Lom d'Arce juntaram História com ficção, deveriam também ser consideradas outras duas obras que apresentam estilo diferente, consideravelmente menos hiperbólico e imaginativo. Trata-se de Pero Vaz de Caminha (8), o escrivão do capitão português, Pedro Álvares Cabral, responsável pelo desembarque no Brasil em 1500. Pode-se citar também Jacques Cartier que, em 10 de maio de 1534, avistou a terra hoje conhecida como Cabo da Boa Vista, após ter navegado cuidadosamente por entre numerosos icebergs que bloqueavam sua rota (um problema não enfrentado por Cabral ao navegar pelos trópicos!). Cartier, o sempre prudente navegador, registrou meticulosamente a flora, a fauna e cultura dos povos que encontrava.

Semelhantemente a Caminha, Cartier escreve num estilo claro e inovador, o qual não deixa evidências de uma predisposição por parte do autor de distorcer intencionalmente os fatos ou de embelezar História com ficção (9).

A questão de ser possível chamar os primeiros escritores como Lom d'Arcy ou Cartier de franceses ou canadenses de Língua Francesa é um ponto discutível na história da Literatura Canadense de Expressão Francesa. No entanto, num contexto maior, interamericano, pode-se perceber que é também um problema típico que todos nas Américas têm-se perguntado acerca de suas origens literárias. Até que ponto nos seus escritos os franceses, espanhóis, portugueses ou ingleses recém-chegados deixam de ser europeus para começarem a ser canadenses de Língua Francesa, americanos de Língua Espanhola ou brasileiros? Culturalmente falando, o que significaria deixar de ter uma identidade cultural e psicológica e passar a uma outra, nova e, talvez, sedutora e exótica, e até que ponto suas histórias refletem tais mudanças? Na Literatura Brasileira, os críticos vêm apontando há muito tempo a obra do poeta Gregório de Matos e sua sátira colonial que, na sua melhor produção, incorpora, de acordo com Massaud MOISÉS (1993): "uma dicção poética brasileira" (p.46).

É válido notar que Massaud Moisés, ao apontar a singularidade da dicção de Gregório de Matos, destaca a importância da linguagem na emergência de uma sensibilidade distintiva quer americana, quer do

Novo Mundo. Gregório de Matos merece este reconhecimento como provavelmente o primeiro escritor brasileiro (em oposição a um nascido em Portugal que escreva no e sobre o Brasil), principalmente devido à linguagem que emprega, a qual, no caso deste poeta, está eivada de palavras de origem indígena e africana, expressões e usos gramaticais que passaram logo a caracterizar a Língua Portuguesa como aquela que estava sendo falada no Brasil e não em Portugal, a sua pátria-mãe. Desse modo, um desafio ao escritor do Novo Mundo, ou americano, deve certamente ser a linguagem que usa, a qual passa a constituir uma linguagem nova e diferente daquela da metrópole (10). A esse respeito, pode-se estabelecer uma comparação interessante no caso de Marc Lescarbot com o de Gregório de Matos. Os fatos da vida de Lescarbot são bastante conhecidos. Era um advogado parisiense de sucesso e escritor, lembrado mormente num contexto interamericano por ser "... o primeiro escritor em Francês a visualizar o Novo Mundo como uma fuga desejável do Velho" (J. WARWICK, 1983, p.552). No entanto, mais do que isso, Lescarbot, como Gregório de Matos, logo começou a integrar palavras, cenas e personagens nativas nos seus escritos. O mais provável na sua obra mais famosa "Le théâtre de Neptune" cuja primeira apresentação se deu em 1606), Lescarbot, por exemplo (e talvez seguindo a liderança de d'Arcy), vale-se de quatro "selvagens" no seu breve enredo (somente duzentos e quarenta e três linhas). O "Troisième Sauvage", por exemplo, oferece "matachiaz" (itens de adorno) para o "Sagamos" (Capitão ou líder) (11) e, explicando que estes representam as chamas de Cupido, diz:

Ce n'est seulement en France

Que commande Cupidon,

Mais en la Nouvelle-France ,

Comme entre vous, son brandon

Il allume, & de ses flammes

Il rotit nos pauvres ames,

Et fait planter le bourdon.

Estes "selvagens" classicamente inspirados, articulados e positivamente apresentados ajudam a formar a base do mito do bom selvagem na suposta pureza do Novo Mundo que seria tema para os escritores das gerações vindouras. Como um viajante infatigável e escritor de literatura de viagem, Lescarbot parece, do mesmo modo que Colombo, ter apoiado a colonização francesa no mundo. Sua conhecida Histoire de la Nouvelle-France (1609; 1611-1612; 1617-1618) continua com o tema do índio americano, celebrando-o por meio da inserção no contexto das alusões clássicas e imbuindo-o de um sentido de superioridade quer potencial quer real. Neste particular, o Livro VI da Histoire que compara favoravelmente os "índios do oeste da Nova França" com personagens selecionadas do passado clássico do Velho Mundo enquanto também estabelece comparações com grupos distintos de "pessoas da Virgínia", "pessoas da Flórida" e os "brasileiros" (Lescarbot: History of New France , XII). Esta tática, enquanto estabelece um contexto interamericano definitivo para os comentários diversificados de Lescarbot, também lhe permite sugerir que o Novo Mundo não é apenas um paraíso para aqueles que procuram fugir do Velho Mundo, mas é também um lugar de redenção e regeneração, um tipo de paraíso edênico anterior ao pecado original, no qual, como J. WARWICK sugere (1983, p.552-553), um recém-chegado pode não somente escapar do vício e da corrupção da sociedade européia, mas também encontrar purificação e retidão moral.

Concluindo, seria possível dizer que, como o estudo da literatura interamericana continua a crescer e a desenvolver, o lugar da Literatura Quebequense irá se tornar mais conhecido e mais visível. Juntamente com a Literatura Brasileira, a Literatura Quebequense continuará a emergir de seu longo isolamento e tomará a posição devida dentro das literaturas das Américas ¾ e do mundo. Rica nas suas diversas tradições e dinamismo, a Literatura do Quebec tem muito a oferecer ao estudioso de literatura interamericana. Conforme Linda HUTCHEON demonstra (1988a, b, 1989), o modo de pensar conhecido como pós-modernismo reivindica serem ambas, a ficção e a História, sistemas de representação. O mais importante para as pessoas que vão interpretá-las não são os eventos narrados, se "ficcionais" ou "reais", mas preferencialmente como tais eventos são narrados, e o emprego de estratégias narrativas específicas. Numa instância conceitual ou numa estrutura interpretativa, este tópico tem significância considerável para todas as literaturas das Américas, porém mais especialmente ainda para as Literaturas do Quebec e da América Latina.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 - CAMINHA Pêro Vaz de (l943). A Carta de Pero Vaz de Caminha . com um estudo de Jaime Cortesão, Rio de Janeiro, Livros de Portugal.

2 - FITZ Earl E. (l991). Rediscovering the New World : lnter-American Literature in a Comparative Context . lowa City , University of lowa Press, 275 pages.

HULET Claude L. (l974). Brazilian Literature . Washington , Wash. , Georgetown University Press, 3 vol.

- HUTCHEON Linda (l976). "Fiction", dans Carl F. Klinck, Alfred G. Barley, Literary History of Canada : Canadian Literature in English, Toronto , University of Toronto Press , 4 vol.

5 - HUTCHEON Linda (l988a). The Canadian Postmodern: A Study of Contemporary English-Canadian Fiction . Toronto , Oxford University Press, 230 pages.

6 - LAFITAU Joseph-François (l724). Murs des sauvages amériquains comparés aux murs des premiers temps . Paris , Chez Saugrain l'aîné.... Charles-Estienne Hachereau, 270 pages.

7 - LEMOYNE Charles (l973). "The ideology of comparative canadian literature", Ideology & Literature , no 15, p. 7-16.

8 - LESCARBOT Mark (1606). Théâtre de Neptune en Ia Nouvelle-France (published in his Muses de Ia Nouvelle-France, Paris, 1609; this text also includes twelve poems by Lescarbot).

9 - LESCARBOT Mark (Paris, 1609; 1611-12; 1617-18). Histoire de Ia Nouvelle-France . LESCHEMELLE Pierre (l992). "Montaigne et les femmes", Montaigne et Ia révolution philosophique du XVIe siècle, Jacqucs Lemaire (dir.), Bruxellcs, Éditions de l'Université de Bruxelles, p. 75-92.

10 - LOM D'ARCE LOUIS- ARMAND DE (l703a). Nouveaux voyages... The Hague .

11 - LOM D'ARCE LOUIS- ARMAND DE (l703b). Mémoires de l'Amérique septentrionale . The Hague .

12 - LOM D'ARCE LOUIS-ARMAND DE (1703c). Supplément... oú l'on trouve des dialogues curieux... The Hague .

13 - LOWERJ.A. (l967). Canadian History at a Glance: From Earliest Exploration to the Present . New York, Barnes and Noble, 248 pages.

14 - MOISÉS Massaud (l993). A Literatura Brasileira através dos Textos . São Paulo , Editora Cultrix, 510 pages.

15 - MONEGAL Emir Rodríguez (l984). The Borzoi Anthology qf Latin American Literature: From Columbus to the Twentieth Century. 2 vols, New York , Knopf, 982 pages.

16 - NAIPAUL V.S. (l994). A Way in the World . New York , Viking.

17 - SUTHERLAND Ronald (l971). Second Image . Don Mills, Ontario , New Press, 189 pages.

18 - WARWICK Jack (l983). "Writing in New France", dans William Toye, general editor, The Oxford Companion to Canadian Literature , Toronto, Oxford University Press, p. 552-558.


(1) Consciente da divergência, em geral, pertinente, quanto à opinião que envolve os uso de termos como "Novo Mundo" e "Canadá de Língua Francesa", o emprego destes deu-se tão somente por razões estilísticas. Sem dúvida, de minha parte não houve nenhuma intenção ofensiva, mas caso tenha ocorrido, peço desculpas antecipadamente.

(2) Ver, por exemplo, Charles LEMOYNE (1973, p.7-16).

(3) Este tema foi abordado por Ronald SUTHERLAND (1971).

(4) Ver, por exemplo, Claude L. HULET (1974, vol. 1, p.1-5).

(5) Ver, por exemplo, M. LESCARBOT: "Le théâtre de Neptune", 1606, e talvez sua obra mais famosa: Histoire de la Nouvelle-France , com três edições (1609; 1611-1612; e 1617-1618).

(6) Ver Linda HUTCHEON (1988a, 1976, vol. 4).

(7) Vários dos escritores ou cronistas que cultivaram este tema incluem o já mencionado Marc Lescarbot (que, com seu épico de 1606: " La défaite des sauvages armouchiquois ", distingue-se por ter escrito as primeiras produções teatrais a aparecerem na América do Norte), Gabriel Sagard, Louis-Armand de Lom d'Arce, e especialmente Joseph-François LAFITAU, um padre jesuíta que, em seis anos de Canadá, escreveu Murs des sauvages amériquains comparées aux murs des primiers temps (1724), uma obra que procura fornecer uma base para discussão do "natural", ou do "inerente" ou da "bondade" dos nativos que encontrou.

(8) Uma diferença crucial em relação à carta de Caminha e o impacto que teria ou não causado na Europa deve-se ao fato de nunca ter sido publicada durante a vida do autor (como foi a de Colombo). Na verdade, esta carta só apareceu em 1817; por isso, o relato de Caminha quase não exerceu nenhuma influência na Europa em comparação com os de Colombo e de Cartier.

(9) Embora não se tenha certeza absoluta de que Cartier tivesse realmente escrito esta obra, presume-se que seja o autor principal de The Voyages of Jacques Cartier (Otawa, 1924), H.P. Biger, editor.

(10) O problema da "legitimidade" do espanhol falado na América Espanhola e do português falado no Brasil não seria oficialmente resolvido, no caso da América Espanhola, até que Ruben Darío liderasse os "modernistas" até a última década do século XIX; já, no Brasil, este mesmo assunto não foi consolidado até que Mário de Andrade e os "Modernistas" conseguissem finalmente estabelecer um Português do Brasil como uma forma válida de expressão literária.

(11) Sobre este termo M. LESCARBOT escreve: "C'est un mot de Sauvage, que signifie Capitaine" (1618, vol. III, p.473).