A interação de história, ficção e linguagem no desenvolvimento da literatura colonial nas Américas: Quebec e América Latina

Earl Fitz
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Comentário: Maria Heloisa M. Dias (UNESP - SJRP)

Se a perspectiva comparatista destaca-se de imediato, não apenas na formulação proposta pelo título do ensaio de Earl Fitz, mas também em suas primeiras linhas, essa preocupação se soma a outras de interesse para o estudo da literatura.

Na verdade, o texto de Fitz apresenta uma multiplicidade de áreas interligadas, compondo o que vem sendo denominado de cultural studies , característico do tecido pós-moderno que marca nossa época. Assim, a contextualização histórica, a tomada das estruturas sócio-político-econômicas como matrizes para a produção literária, a interação de História e ficção, a recepção e a intertextualidade se oferecem como instrumentos para a abordagem da literatura - universo que se amplifica graças a essa perspectivação múltipla.

O foco para o qual se volta o olhar crítico de Earl Fitz é a literatura quebequense e seu lugar nas Américas. Entretanto, mais do que focalizar esse objeto em si mesmo, o Autor equaciona suas possibilidades de estudo e discussão, e é isso que torna seu texto instigante. Mais do que resultados ou reflexões concluídas, o ensaio se caracteriza por uma série de propostas para a reflexão acerca da literatura do Quebec, o que lhe confere uma natureza "didática", digamos funcional; como declara o próprio Autor, seu texto é fruto de estratégias e posicionamentos apresentados em seu curso de Literatura Colonial do Novo Mundo, ministrado na universidade. E é por conta dessa praticidade que divide sua exposição em dois momentos, o primeiro contendo questões relacionadas à situação das letras quebequenses no contexto colonial do Novo Mundo, e o segundo fornecendo comentários sobre autores em cujas obras unem-se História e ficção.

Consciente das dificuldades (e das questões polêmicas, acrescentaríamos) que envolvem os estudos comparativos, principalmente no que diz respeito ao método utilizado pelo comparatista, o Autor faz algumas considerações para justificar sua abordagem e situar melhor o estudo das relações interamericanas, assunto complexo, que engloba aspectos contraditórios e pouco nítidos. A própria expressão "Novo Mundo", bem como outra, "Canadá de Língua Francesa", suscitam divergências e questionamentos devidos às suas conotações (nem sempre positivas), mas não é isso que interessa a Earl Fitz e sim a maneira lúcida com que se coloca diante do problema para redimensioná-lo, repensando e movimentando pontos que a História "resolveu" a sua maneira e os sedimentou.

Lidar com diferenças e semelhanças - processo inerente a toda visão comparativa - é uma atitude que envolve diversas implicações, nem sempre tratadas com pertinência e sensibilidade críticas. No caso do estudo de uma literatura nacional específica, como a do Quebec, cujo intuito é valorizar sua singularidade, tais dificuldades se tornam ainda maiores. É então que despontam relações tensivas como fechamento e abertura, identidade e alteridade, nacional e estrangeiro, uno e diverso, etc.

Para Earl Fitz, a comparação de uma literatura com outras não deve nem comprometer a sua especificidade nem homogeneizá-la, perdendo-se de vista suas diferenças internas. Perceber as particularidades que singularizam uma literatura nacional é perceber não só as suas diferenças em relação às outras como também as suas próprias diferenças. Trata-se, na realidade, de uma visão dialética dos fenômenos, aplicável não apenas à literatura, mas a outros campos da cultura e da História. Sabemos, desde Marx (aliás, fonte de referência utilíssima,, mas nem sempre lembrada, para o comparativismo), o quanto essa prática metodológica é necessária para uma interpretação crítica madura. Já em Miséria da filosofia , obra publicada em 1847 e dirigida contra Proudhon, Marx alertava para a necessidade de se atentar tanto às diferenças quanto às semelhanças do processo histórico. Somente por meio da percepção da pluralidade e das contradições que envolvem as relações sócio-culturais é que se torna possível superar o que é privado para se atingir a emancipação e a conquista da totalidade. A abertura para o outro ou a consciência da alteridade, a necessidade de troca, a práxis utilitária, a efetivação das forças produtivas são comportamentos imprescindíveis para a construção do tecido histórico. Evidentemente Earl Fitz não fala dessa dinâmica dialética, mas deixa-a implícita em suas reflexões, o que nos permite dialogar mais intensamente com tal perspectiva a fim de estendê-la.

Das dez longas indagações propostas por Fitz na primeira parte de seu ensaio podem ser recolhidos alguns pontos comuns, permitindo-nos entrelaçá-las. O que impulsiona o Autor em suas inquietações sobre o contexto colonial do Novo Mundo são os interesses e motivos que teriam trazido os diferentes exploradores (franceses, espanhóis, portugueses, ingleses) para esse espaço e, a partir daí, os aspectos implicados nessa aventura/empresa histórica. Sempre tomando o Canadá como contraponto para os outros lugares-alvo de colonização, o Autor vai se interrogando sobre possíveis relações analógicas entre os diferentes casos.

Seria possível, por exemplo, associar os franceses à exploração e comércio e os espanhóis à conquista e colonização? O objeto cobiçado, seja ele ouro e prata, cana-de-açúcar ou peles, teria despertado reações equivalentes e semelhantes estratégias para sua exploração? Que diferenças poderiam existir entre as relações dos diversos exploradores com os respectivos nativos? Quanto à receptividade das mulheres nativas, há possibilidade de comparação entre os diversos casos de colonização? Pode-se estabelecer alguma analogia entre a ação dos jesuítas no Quebec e na América Espanhola ou no Brasil? Enfim, o que fica patente no questionamento do Autor é que ele assenta, em grande parte, em motivações de cunho histórico, e somente em suas perguntas finais é que a questão literária aflora.

A partir da problematização do conceito do "bom selvagem" (seria válido considerar sua aparição pela primeira vez no Canadá de língua francesa?), Fitz direciona suas perguntas para preocupações mais propriamente literárias, como o papel das mulheres escritoras no período colonial, o "nouveau roman" quebequense dos anos sessenta e o "realismo mágico".

Há um brusco salto temporal na colocação dos problemas, sobretudo quando das duas últimas questões, as quais reportam a uma realidade moderna e a um "cenário mais contemporâneo", segundo o próprio Autor, época em que florescem os gêneros narrativos mencionados. Como foi selecionado o período colonial para discussão sobre o desenvolvimento da literatura nas Américas, as duas colocações finais parecem ficar deslocadas, desvinculadas das anteriores, pois pressupõem outro recorte histórico-temporal. No entanto, como o texto de Fitz oferece-se como um levantamento de problemas sem sua necessária articulação e desenvolvimento, compreende-se que as questões sobre "nouveau roman" e "realismo mágico" fiquem apenas como sugestões para reflexão. Aliás, aproveitando a abertura dos parênteses pelo Autor para uma observação um tanto ambígua, podemos indagar sobre seus possíveis sentidos: em relação ao "realismo mágico", o que realmente seria questionável, para o Autor, o fato dessa prática narrativa ser exportada da América espanhola para o mundo ou o fato de ser o primeiro "ismo" literário a ser exportado? E teria havido outros? Que conotações, negativas ou positivas, poderia haver nessa exportação?

Escolhendo a forma narrativa como base para sua discussão, Earl Fitz defende a tese de que o próprio estilo dos primeiros relatos históricos sobre o Novo Mundo contribuiu para que se desenvolvesse um tipo de escrita ficcional que iria se caracterizar pela incorporação de componentes não realistas, abrindo-se uma vertente que marcaria a produção narrativa da América espanhola: o gênero fantástico. Essa espécie de fuga do realismo estaria, assim, nas origens de uma narrativa em que História e ficção se oferecem corno realidades com funções intercambiáveis. O que está na raiz da problemática levantada pelo Autor é que, ao contrário do que poderia parecer, a História é que funciona como estímulo para a criação de procedimentos de construção literária, como se estes surgissem em função de interesses ou de uma "motivação" que extrapola o meramente literário. Desse modo, o "realismo mágico", por exemplo, teria nascido do desejo de ficcionalizar a verdade, em atendimento a disposições político-ideológicas para construir uma verdade outra, transformando-a num objeto idealizado e sedutor. O exemplo clássico citado por Earl Fitz é a carta de Colombo aos reis espanhóis, relato em que a hipérbole atua como instrumento de operacionalização fabulosa do real; mais que um fato histórico, a América é um "fato" literário, dotado de dimensões que convêm à determinada óptica. O procedimento pode ser estético, mas o resultado atende a outros fins: o exagero e a deformação encobrem o que é necessário e fazem despontar o que é conveniente. Seja como for, essa reconstrução textual da História, filtrada pelo viés da pessoalidade, serve como documento literário, na medida em que cria/funda uma modalidade estética que tomará corpo ao longo da história. Como se vê, a importância do tratamento dado à matéria observada (verídica ou não), mais do que esta em si mesma, atitude necessária a todo operar artístico, já figura num texto como o de Colombo. Um tratamento, aliás, que conta com diversos procedimentos, dentre os quais se destaca a hipérbole, no caso analisado.

Estabelecendo uma relação analógica entre essa situação da América espanhola e o cenário canadense, o Autor se reporta às narrativas de viagem de Louis-Armand de Lom d'Arce, militar que também se sentiu instigado a pessoalizar seus relatos, misturando fato e ficção. Entretanto, Fitz aponta uma diferença entre os dois autores: se Colombo hiperboliza o real, introduzindo o fabuloso, d'Arce satiriza o real, mesclando exatidão e invenção para atingir criticamente o alvo desejado. Podemos dizer que em ambos os casos o que está em jogo é o poder imaginativo que possibilita ao sujeito construir semioticamente a História. Por outras palavras, o que ganha relevo são os signos ou as formas de representação da História encenadas pela linguagem. Dentro dessa perspectiva inovadora de construção do documento histórico, figuram ainda Pedro Álvares Cabral e Jacques Cartier, cujos textos também correspondem a essa ficcionalização da História, embora com estilos distintos.

Já no tocante ao contexto brasileiro, de que destaca o escritor Gregório de Matos, Earl Fitz aborda questões de outra natureza, as quais apontam para problemas mais complexos, geradores de dúvidas. O fato de se passar a incorporar outra identidade cultural e de se criar uma nova ou diferente linguagem, como é o caso do poeta brasileiro citado, precisaria ser examinado com mais cuidado, pois "a singularidade da dicção de Gregório de Matos" está menos na incorporação de termos de origem nativa e de um modo de falar brasileiro, distintivo do português, como o Autor sustenta, do que numa sensibilidade literária que buscou resoluções poéticas em meio a um código estético vigente. Sua tendência satírica, por exemplo, revela a maleabilidade de uma linguagem que não se amolda inocentemente a padrões fixos, ao contrário, procura driblar a seriedade convencional para enveredar por novos caminhos de realização poética.

Mais pertinente e interessante como sugestão de estudo comparativo é a analogia, criada pelo Autor, entre Gregório de Matos e Marc Lescarbot, escritor parisiense, autor de obras em que lida com motivos e mitos (o do bom selvagem, por exemplo) e sugere possíveis comparações entre o Velho e o Novo Mundo, elementos que servem como referência (inspiração?) para escritores posteriores.

Destaque-se, ainda, a importância de questões contidas no texto de Fitz relacionadas à investigação intercultural, como o confronto entre o nativo e o estrangeiro, origem e assimilação, autenticidade e inautenticidade, aspectos úteis à formação de uma consciência histórica, principalmente se voltada ao estudo das relações intertextuais no contexto da literatura interamericana.

Ao trazer as noções de Linda Hutcheon sobre o pós-modernismo para seu campo de discussão, ao final do ensaio, Earl Fitz acaba levando o leitor a, no mínimo, repensar sobre o direcionamento dado a seu texto. Se, como ele próprio reconhece, para a perspectiva pós-moderna o que importa não são os eventos narrados, "ficcionais" ou "reais", mas as "estratégias narrativas específicas" que os recuperam, isto é, o modo de construir, pela linguagem, uma realidade que exibe forte consciência de seu próprio poder de representação, por que então buscar explicações em estruturas históricas e nos elementos sócio-econômicos? Não estariam estes funcionando apenas coma pretextos (e pré-textos) para a criação de outros textos, estes sim preocupados com uma construção que desestabiliza a própria noção de realismo? Não se trata de apagar ou ignorar o pano de fundo histórico que emoldura as literaturas das Américas, mas de tratá-lo também como "sistema de representação" (como quer Hutcheon), ou seja, como um conjunto de signos cuja significação só se desvela pelo trabalho de reinvenção operado pelo olhar interpretativo. Somente por meio de uma óptica desestabilizadora é possível embaralhar os planos que separam o texto ficcional do documento histórico, tomando a ambos como matéria criativa, portanto, produtora do real.

Digamos que o texto de Earl Fitz põe em cena uma metodologia socrática, graças à atitude dialógica que mantém com seus leitores e ao aguçamento de seu espírito crítico, convidando-os a indagar mais que a responder ou a não se satisfazerem com respostas imediatas. Não seria esta uma das funções da literatura?