Manifesto regionalista

Gilberto Freyre
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Comentário: Antônio Dimas (USP)

Na direção oposta de Mário de Andrade, que desenhou um herói sem nenhum caráter , Gilberto Freyre determinou um "ethos" brasileiro, mesmo que restrito a uma região específica, como o Nordeste litorâneo. Em vez de se preocupar com uma reflexão que o empurrasse a pensar o país em sua continentalidade heterogênea, Gilberto preferiu limites geográficos mais modestos, seja porque ainda estivesse sob o forte impacto de movimentos congêneres europeus e norte-americanos, seja porque, segundo seu ponto de vista, a segmentação do país em regiões era mais fecunda, de um ponto de vista cultural. Um Brasil regionalista , afirma ele em artigo de 7 de fevereiro de 1926, dia em que se inaugurava o Congresso Regionalista, seria um Brasil não dividido , mas respeitado nas suas diversidades , que seriam, por sua vez, coordenadas num alto sentido de cultura nacional . Um Brasil livre de tutelas que tendem a reduzir a feudos certas regiões (1).

Apegado a esse princípio regionalista, em cuja essência aninhava-se um tradicionalismo às vezes perigoso, quando não francamente reacionário ou pitoresco, Gilberto levou adiante o seu projeto e bem mais tarde, já em 1952, deu-lhe forma definitiva através deste documento que se chama Manifesto Regionalista , do qual se conhecem várias edições e uma sacudida polêmica. Quem a levantou com estardalhaço foi Joaquim Inojosa e quem a sistematizou de modo sereno foi Neroaldo Pontes de Azevedo em trabalho obrigatório sobre o Modernismo e Regionalismo , voltado para os anos 20 em Pernambuco.

Em resumo, deu-se o seguinte: logo que saiu a primeira edição desse manifesto, em 1952, Gilberto Freyre garantia que só então pudera retomar para publicação um texto que já estava pronto em 1926, por ocasião do Congresso Regionalista. Em 1965, Wilson Martins desconfiou da autenticidade dessa afirmação e em 1968 Joaquim Inojosa provocou um "J'accuse" através de uma obra farta de documentação, mas mal estruturada e desengonçada, cujos três volumes se chamam O movimento modernista em Pernambuco . Depois destes volumes, Inojosa voltou à carga de novo, com dois outros libelos tão desajeitados quanto o primeiro: Pá de cal (1978) e Sursum corda! (1981) (2).

Tudo indica que, de fato, Gilberto maquilara seu passado, no caso deste Manifesto , e que Inojosa tem razão. No entanto, não são as peças acusatórias de Inojosa, de indisfarçável desordem e alta promiscuidade documental, que haverão de golpear a inteireza e a pertinência da proposta de Gilberto, mesmo que tradicionalista e/ou retocada. Como muito bem lembra Wilson Martins, jamais poderemos exagerar o valor histórico e documental (3) do livro de Inojosa, cujor ardor reivindicativo acabou por empaná-lo.

A obsessão cronológica e nominalista de Inojosa faz sentido quando a percebemos dentro de um contexto de vaidades ofendidas e modeladas em jargão provinciano. Inojosa ofende-se porque lhe embaçaram a glória de ter sido embaixador intelectual junto à corte modernista em 1922, quando visitou São Paulo por ocasião do Centenário da Independência e teve, portanto, a oportunidade de ver de perto os próceres da renovação literária em curso na capital: Menotti, Mário, Oswald, Tarsila, Guilherme, Rubem Borba e outros. Inojosa reclama prioridade, porque o primeiro número de sua Mauricéia é de novembro de 1923. Inojosa se injuria porque sua carta sobre A arte moderna , embora publicada em julho de 1924 na revista Era Nova da Paraíba, não conseguiu a repercussão que o Manifesto de Gilberto conseguiria mais tarde, mesmo que sob efeito retroativo.

Por outro lado, incorreu em erro Gilberto quando falseou a datação deste Manifesto , sem dúvida. Não era preciso lançar mão desse expediente, quem, anos antes, já tinha criado uma das obras fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira, reconhecida por intelectuais de vários espectros ideológicos e de várias latitudes, nacionais e internacionais. Comprove-se isto através de sua vasta bibliografia passiva, na qual se salienta Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte , ensaios sobre os 25 anos de Casa Grande . Não era preciso retocar o passado quem já dera provas sobejas de reestruturá-lo em termos tão amplos e com retaguarda científica tão atualizada, atiçando-nos, de quebra, a imaginação por causa de estilo tão trabalhado e tão sedutor. Não era preciso recorrer a esse expediente quem já fora capaz de habilitar a cultura negra, devolvendo-lhe a dignidade e dobrando a crista da branca, arrogante e racista. Por fim, não era preciso, porque, desde que fora publicado Casa Grande & Senzala , em 1933, Gilberto construíra uma carreira que só fizera consolidar seu prestígio intelectual. Não haveria de ser o retoque de um manifesto que iria comprometê-la.

Ao contrário do que se espera normalmente de um manifesto, dirigido, de preferência, ao intelecto, área onde deverá provocar e estimular reflexões demoradas e graves, este de Gilberto mexe com o estômago e com as papilas. Seu destino é outro e faz do cérebro caixa de ressonância secundária. Seu processo, inequívoco, mas implícito, de desconstrução assenta-se, portanto, em funções pedestres: os da digestão. E, ao mesmo tempo em que opera essa decepção voluntária, ele também desconstrói a frase feita quando reconhece que não só do espírito vive o homem , mas também do pão comum, do pão de ló, do pão-doce, do bolo que ainda é pão (4). Nesse momento, seu espírito zombeteiro e materialista puxa mais pra baixo ainda o intuito desidealizador da frase, alterando-lhe a seqüência e nela enfiando dados de realidade cotidiana. Assim, desmancha-se, de vez, a expectativa normalmente poética de um manifesto que não aponta para as alturas, mas para os baixos e, quando muito, para os lados. Nesse enquadramento, o Manifesto Regionalista é pantagruélico, rabelaisiano e carrega, portanto, na direção oposta à do sublime. Pouco promete, é nada utópico, não ilude. Foge daquela sociologia messiânica e salvacionista que se implantou em outros setores do país. Talvez porque Gilberto conhecesse bem o lugar em que vivia.


(1)Apud Neroaldo Pontes de Azevedo: Modernismo e Regionalismo (Os anos 20 em Pernambuco) . João Pessoa: Secretaria de Educação e Cultura da Paraíba, 1984. p. 231. Em 1996 as editoras da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade Federal de Pernambuco publicaram um 2ª ed. deste texto valioso sobre o modernismo local.

(2)Joaquim Inojosa - O movimento modernista em Pernambuco . Rio de Janeiro: Guanabara, s. d. [1968-1969]. 3 vols.

Idem - Pá de cal! - Rio de Janeiro: s.e., 1978.

Idem - Sursum corda! - Rio de Janeiro: Olímpica Editora, 1981.

(3)Wilson Martins - Pontos de vista (Crítica literária) 1968/1969/1970. São Paulo: T. A. Queiroz, 1994. Vol. 8. p. 102.

(3)Utilizei a 6ª edição do Manifesto Regionalista , publicada pelo IJNPS do Recife em 1976, com introdução de Manuel Diègues Jr. Para eventuais comparações, usei também a 1ª edição de 1955, publicada no Rio de Janeiro pelo Ministério da Educação e Cultura, na coleção "Os cadernos de cultura".