A mulher no século dezenove

Margaret Fuller

Tradução:

Eliane T. A. Campello

FULLER, Margaret. Women in the nineteenth Century and other writings . Oxford: Oxford University Press, 1994. p.1-119: A mulher no século dezenove.

Comentário e Hipertexto: Eliane T. A. Campello (FURG)

A MULHER NO SÉCULO DEZENOVE

Prefácio

Este ensaio é a reprodução, modificada e expandida, de um artigo publicado em ´ The Dial , Boston, julho, 1843', sob o título de ´O grande processo' - homem versus homens; mulher versus mulheres'.

Este artigo provocou muita simpatia e, mais ainda, interesse. É em conformidade com desejos expressos de muitos que está sendo preparado para publicação na presente forma.

Foram feitas objeções ao título anterior, por não ser suficientemente fácil de ser entendido, por isso o presente é um substituto que expressa o propósito principal do ensaio; embora, por mim, o outro seja preferido, em parte pelas razões por os outros não gostam dele, - isto é, porque ele requer alguma reflexão para se entender o que significa, e pode assim preparar o leitor para encontrar-me em meu próprio terreno. Além disso, ele oferece um horizonte mais amplo, e está, dessa forma, mais ajustado ao meu desejo. Com esse título, eu quis insinuar o fato de que, enquanto o destino do Homem é, no curso dos tempos, determinar e cumprir a lei natural, podendo assim sua vida ser percebida como um todo, seja ela a de um anjo ou a de um mensageiro, o efeito de preconceitos e paixões que acompanham, diuturnamente, o desenvolvimento do indivíduo, está continuamente obstruindo a sagrada tarefa de fazer da terra uma parte do paraíso. Por Homem eu quero dizer ambos, homem e mulher; esses são as duas metades de uma idéia. Eu não dou nenhuma ênfase especial ao bem-estar de um ou outro. Acredito que o progresso de um não pode ser efetivado sem o do outro. Meu maior desejo é que essa verdade deva ser apreendida clara e racionalmente, e as condições da vida e da liberdade reconhecidas igualmente para as filhas e para os filhos do tempo; expoentes gêmeos de uma idéia divina.

Solicito uma atenção sincera e paciente por parte daqueles que, pelo menos, abrirem as páginas que seguem. Solicito às mulheres que se esforcem em constatar o que é, para elas, a liberdade da lei. É por isso, e não por qualquer outra coisa, que eu procuro a mais ampla extensão de privilégios parciais. Eu lhes pergunto se, estando interessadas nestas sugestões, irão procurar o melhor de suas próprias experiências e intuições, e preencher com materiais adequados os valos que as confinam. Dos homens, eu peço uma atenção nobre e obstinada a tudo que possa ser oferecido sobre este assunto importante e ainda obscuro, como os que encontrei por parte de muitos com quem mantenho relações íntimas.

E possa a verdade, não poluída pelo preconceito, vaidade ou egoísmo, ser a cada dia mais e mais garantida como a herança devida, e a única conquista valiosa para todos nós!

Novembro, 1844.

(p. 3-4)

A MULHER NO SÉCULO DEZENOVE

'Fragilidade, teu nome é MULHER`.

` A Terra espera por sua Rainha ´.

A conexão entre essas citações pode não ser óbvia, mas é estreita. No entanto, ninguém nos contradiria, se as fizéssemos aplicáveis para o outro lado, e começássemos também:

Fragilidade, teu nome é HOMEM.

A Terra espera por seu Rei.

Todavia o homem, se ainda não totalmente investido em seus poderes, muito lutou por suas aspirações. Frágil, ele na verdade é, quão frágil! quão impuro! Não obstante, seguidamente o veio de ouro mostrou-se por entre os minérios menos nobres, e o Homem apareceu diante de nós numa promessa principesca digna de seu futuro.

(p. 5)

(...)

Eu agora vejo meu próprio lugar e tempo, e, enquanto escrevo, fatos que ameaçam o frágil tecido tocado por tão longo percurso estão ocorrendo. Há duas semanas, foi solicitado que o cristão auxiliasse o judeu a retornar para a Palestina, pois o milênio, o reinado do Filho de Maria, estava próximo. Agora mesmo, em missa solene, foram alcançados agradecimentos à Virgem por ter libertado O'Connell da prisão injusta, em retribuição por ele ter consagrado a ela a liga formada em favor da liberdade em Tara's Hill. Mas a semana passada trouxe notícias ameaçadoras de que uma causa idêntica à emancipação de judeus, irlandeses, mulheres, sim, e de americanos em geral, também, está em perigo, porque a escolha do povo ameaça fixar as correntes da escravatura e a lepra do pecado permanentemente nesta nação, por meio da anexação do Texas !

Ah! se isso vier a acontecer, quem ousará de novo sentir o pulsar da esperança divina, quanto ao destino deste país? O pensamento nobre que deu unidade a todo o nosso conhecimento, harmonia a todos os nossos desígnios; - o pensamento que o progresso da história trouxe para a época o tecido de profecias que apontou o lugar onde a humanidade iria, finalmente, ter uma oportunidade justa de se conhecer, e onde todos os homens nasceriam livres e iguais para o vôo da águia, bate suas asas como se fosse deixar o seio, o qual, se dele fosse privado, não haveria mais nação, nem mais um lar sobre a terra.

Mulheres de meu país! - Exaltadas ! se preciso for, - Mulheres da nobreza inglesa, da velha nobreza inglesa, que compreendem a coragem de Boudicéia, o sacrifício de Godiva, o poder da rainha Emma ao caminhar sobre o ferro vermelho e quente sem se machucar. Mulheres que compartilham a natureza da senhora Hutchinson, Lady Russell e as mães de nossa própria revolução: vocês não têm nada a ver com isso? Vejam os homens, como eles estão propensos a vender, desavergonhadamente, a felicidade de incontáveis gerações de compatriotas, a honra de seu país, e suas almas imortais, por um preço de mercado e poder político. Vocês não sentem dentro de vocês que podem censurá-los, que podem controlar, que podem convencê-los? Vocês não estariam falando em vão; seja cada uma em sua própria casa, ou agrupadas em uníssono.

Digam a esses homens que vocês não aceitarão o brilho de bugigangas, casas espaçosas e abundantes serviços domésticos, que eles pretendem lhes oferecer através desses meios. Digam a eles que o coração das mulheres exige nobreza e honra num homem, e que, se eles não têm pureza, não têm misericórdia, eles não mais são pais, amantes, maridos, filhos de vocês.

Esta causa é de vocês , pois, como eu já disse anteriormente, há uma razão por que os inimigos da escravatura africana procuram mais liberdade para as mulheres ; mas não ponham o assunto nesses termos, mas em termos de direito.

Se vocês têm um poder, é um poder moral. As camadas de interesse não estão tão perto de vocês como estão dos homens. Se vocês apenas pensarem, não podem deixar de desejar salvar o país dessa desgraça.

Vocês ouviram as mulheres engajadas no movimento abolicionista serem acusadas de audácia, porque elas levantaram a voz em público, e levantaram o chicote da oposição. Mas eram esses atos, realizados sabiamente ou não, tão audazes a ponto de desafiar Deus e o homem, para colher os frutos de semelhante ofensa?

Vocês ouvem muito sobre a modéstia de seu sexo. Preservem-na, preenchendo a mente com desejos nobres que desviarão as corrupções da vaidade e da preguiça. Uma mulher devassa, que deixou seu antro habitual e foi trabalhar numa pensão em New York , disse `que ela nunca ouviu uma linguagem tão baixa em Five-Points , como a das senhoras na pensão'. E por que? Porque elas estavam ociosas; porque, nada tendo para fazer que valesse a pena, deixavam-se ficar a cogitar, com curiosidade incomum, sobre a enfermidade que não tinham coragem de olhar.

Não vai prejudicar tanto a modéstia de vocês terem seus nomes associados, pelos insensatos, à culpa pela omissão, quanto terem sobre suas almas o peso de não tentar salvar toda uma raça de mulheres do menosprezo que é posto sobre a modéstia delas .

Pensem bem nisso! Eu suplico, eu imploro, antes que seja tarde demais. Acredito que alguma coisa efetiva poderia ser feita pelas mulheres, se elas apenas considerassem o assunto, e o abordassem em seu verdadeiro espírito, um espírito gentil, mas firme, e que não temessem ninguém, exceto Aquele, cujos olhos são muito puros para contemplar a iniqüidade!

E agora eu mostrei em esboço, se não no todo, a torrente que está constantemente fluindo das alturas do meu pensamento.

No tratado anterior , disseram-me, não deixei minha mensagem suficientemente clara. Neste, consequentemente, tentei ilustrá-la de várias formas, e posso ser culpada por muitas repetições. No entanto, como estou ansiosa em não deixar espaço para a dúvida, arriscarei repassar, mais uma vez, o objetivo de meu plano em tópicos, como era feito em antigos sermões .

O homem é um ser de relações bipartidas, para a natureza abaixo, e para as inteligências acima dele. A terra é sua escola, senão seu lugar de nascimento; Deus, seu objeto: vida e pensamento, seus meios de interpretar a natureza e aspirar por Deus.

Apenas uma fração desse propósito é consumada durante a vida de qualquer homem. Sua realização completa é esperada apenas a partir da soma das vidas dos homens, ou do homem considerado como um todo.

Como esse todo tem uma alma e um corpo, qualquer ofensa ou obstrução a uma parte, ou ao menor de seus membros, afeta o todo. O homem nunca pode ser perfeitamente feliz ou virtuoso, até que todos os homens o sejam.

Para dirigir-se ao homem sabiamente, vocês não podem esquecer que a vida dele é parcialmente animal, sujeita às mesmas leis da natureza.

Mas vocês não podem dirigir-se a ele sabiamente, a não ser que o considerem mais como alma, e apreciem as condições e o destino da alma.

O desenvolvimento do homem tem dois aspectos, masculino e feminino.

Até onde esses dois processos possam ser diferenciados, eles são como

Energia e Harmonia.

Poder e Beleza.

Intelecto e Amor.

Ou, de acordo com essa classificação grosseira, porque não temos uma linguagem pura e primitiva o suficiente para expressar essas idéias com precisão.

Esses dois lados devem estar evidentes no homem e na mulher, isto é, como o mais e o menos, porque as faculdades não foram dadas puras para cada um, mas apenas em preponderância. Há também exceções em grande número, como os homens de muito maior beleza do que poder, e o inverso. Mas como regra geral, parece que houve a intenção de dar uma preponderância de um lado, ao que é chamado masculino, e de outro, ao que é chamado feminino.

Não pode haver dúvida de que, se esses dois desenvolvimentos estivessem em perfeita harmonia, eles iriam corresponder e preencher um ao outro, como hemisférios, ou o tenor e o baixo em música.

Mas não há harmonia perfeita na natureza humana; e as duas partes respondem uma à outra apenas de vez em quando, ou, se houver uma consonância persistente, ela só pode ser seguida a longos intervalos, ao invés de emitir uma melodia óbvia.

Qual é a causa disso?

O homem, na ordem do tempo, foi desenvolvido primeiro; assim como a energia vem antes da harmonia; como o poder, antes da beleza.

A mulher ficou, em conseqüência, sob seus cuidados, como se ele fosse mais velho. Ele teria sido seu guardião e professor.

Mas, como a natureza humana não anda em linha reta, mas por excessiva ação e reação num curso sinuoso, ele não compreendeu e abusou de suas vantagens, e tornou-se seu mestre temporal ao invés de senhor espiritual.

Sobre ele recaiu a punição. Ele educou a mulher mais como serva do que como filha, e tornou-se um rei sem uma rainha .

As crianças dessa união desigual mostraram naturezas desiguais, e, mais e mais, os homens pareciam filhos da criada do que da princesa.

No fim, havia tantos israelitas que o resto cresceu assustado e indignado. Eles puseram a culpa em Agar , e a expulsaram para a floresta.

Mas nem por isso houve menos ismaelitas.

No fim, os homens tornaram-se um pouco mais sábios, e viram que o infante Moisés era, em todas as ocasiões, salvo pelos instintos puros do seio da mulher. Porque, como muita adversidade é melhor para a natureza moral do que muita prosperidade, a mulher, nesse sentido, reduziu-se menos do que o homem, embora, em outros sentidos, fosse ainda uma criança para conduzir destinos.

Então o homem fez mais e mais justiça a ela, e tornou-se mais e mais bondoso.

No entanto, com seus hábitos e sua vontade corrompidos pelo passado, ele não viu claramente que a mulher era a sua outra metade, que os interesses dela eram idênticos aos seus, e que, pela lei natural, ele nunca poderia alcançar suas verdadeiras proporções, enquanto ela permanecesse de alguma forma despojada das suas.

E assim tem sido até os nossos dias; ambas idéias progredindo, mas mais vagarosamente do que deveriam, sob um reconhecimento mais claro da verdade e da justiça, o que teria permitido aos sexos as devidas influências de um sobre o outro, e melhoramentos mútuos a partir de relações mais dignas.

Onde quer que tenha havido amor puro, as influências naturais foram eventualmente restauradas.

Onde quer que o poeta ou o artista tenha dado livre curso ao seu gênio, ele viu a verdade, e expressoua em formas valiosas, porque especialmente esses homens compartilham e necessitam do princípio feminino. Os pássaros divinos necessitam ser incubados para a vida e ninados pelas mães.

Onde quer que a religião (eu quero dizer a sede pela verdade e pelo bem, não o amor pela seita e pelo dogma) tenha seguido seu curso, o projeto original foi apreendido em sua simplicidade, e a pomba pressagiou suavemente a partir do carvalho de Dodona .

Tenho tentado mostrar que nenhuma era foi deixada inteiramente sem uma testemunha da igualdade dos sexos em função, obrigação e esperança.

Também que, quando havia falta de vontade ou ignorância, o que impedia que assim fosse feito, as mulheres não tinham o menor poder sobre sua aspiração à luz e a uma nobre liberdade. Mas era o poder que as machucava, tanto quanto àqueles contra quem elas faziam uso das armas dos subservientes: astúcia, lisonja e emoção irracional.

Que agora chegou o tempo em que uma visão mais clara e uma ação melhor são possíveis. Quando o homem e a mulher podem olhar um para o outro como irmão e irmã, como os pilares de um pórtico, como os sacerdotes de um culto.

Acreditei e anunciei que essa esperança receberia uma fruição mais ampla do que nunca antes, em nossa própria terra.

E assim será, se esta terra sustentar os princípios de onde brota nossa vida nacional.

Acredito que, no presente, as mulheres são as melhores auxiliares umas das outras.

Deixem-nas pensar; deixem-nas agir; até que elas saibam o que precisam.

Nós apenas solicitamos aos homens que removam barreiras arbitrárias. Alguns gostariam de fazer mais. Mas eu acredito que, para a mulher mostrar-se em sua dignidade nativa, é necessário ensiná-los como ajudá-la; suas mentes estão tão entravadas pela tradição.

Quando o lorde Edward Fitzgerald viajou com os índios, seu coração de homem obrigou-o imediatamente a pegar os fardos das mulheres peles-vermelhas e carregá-los. Mas nós não lemos que os homens peles-vermelhas seguiram seu exemplo, embora eles estivessem prontos o suficiente para carregar os fardos da mulher branca, porque ela lhes parecia um ser superior.

Que a mulher apareça na majestade moderada de Ceres , e os plebeus grosseiros estarão desejosos de aprender com ela.

Vocês perguntam: que uso ela fará da liberdade, quando ela tem sido sustentada e reprimida por tanto tempo?

Eu respondo: em primeiro lugar, isso não será dado de repente. Eu li ontem um debate deste ano sobre a questão de ampliar os direitos das mulheres sobre a propriedade. Era uma página do livro-texto que prepara para a instrução fundamental. Os homens aprendiam visivelmente enquanto falavam. Os defensores da mulher viram a falácia dos argumentos do lado oposto, e ficaram surpresos com suas próprias convicções. Com suas mulheres em casa, e os leitores do documento, deu-se o mesmo. E assim o rio corre; o pensamento reclamando ação, e ação conduzindo à evolução de um pensamento ainda melhor.

Mas, se essa liberdade viesse de súbito, eu não teria medo das conseqüências. Os indivíduos podem cometer excessos, mas não é apenas no sexo que há uma reverência ao decoro e aos limites herdados e intensificados de geração para geração, os quais podem não ser apagados por muitos anos de uma outra vida, exceto por um amor natural, na mulher como mulher, de proporção, da `simples arte do pouco', uma moderação grega, a qual iria criar imediatamente um grupo reprimido, os legisladores e instrutores naturais do resto, e iria gradualmente estabelecer as normas que são necessárias para proteger, sem impedimentos, a vida.

As Graças conduziriam a dança coral, e ensinariam às outras a regular seus passos na medida da beleza.

Mas, se vocês me perguntarem que tarefas elas podem realizar, eu respondo - qualquer uma. Não me importa o argumento de vocês; deixem-nas ser capitães de mar, se vocês quiserem . Não duvido que haja mulheres bem preparadas para tal serviço, e, se assim for, ficarei contente de vê-las nele, tanto quanto de dar as boas vindas à donzela de Saragoça, ou à donzela de Missolonghi, ou à heroína de Suliote , ou a Emily Plater .

Penso que as mulheres precisam, especialmente nesta conjuntura, de um leque muito maior de ocupações do que elas têm, para revelar seus poderes latentes. Um grupo de viajantes visitou, ultimamente, uma cabana solitária em uma montanha. Lá eles encontraram uma velha que lhes disse que ela e o seu marido tinham vivido lá por quarenta anos. `Por que', eles disseram, `vocês escolheram um lugar tão ermo?' Ela `não sabia; foi vontade do marido'.

E, durante quarenta anos, ela foi feliz em agir, sem saber por que, de acordo `com a vontade do marido'. Eu não teria feito isso.

Em famílias que conheço, algumas meninas gostam de serrar madeira; outras, de utilizar ferramentas de carpinteiro. Nos lugares em que esses gostos são cultivados, alegria e bom humor são promovidos. Em lugares em que são proibidos, porque `essas coisas não são próprias para meninas', elas crescem mal-humoradas e maliciosas.

Fourier observou esses desejos das mulheres, como ninguém que observa os desejos de meninas pode deixar de fazer, ou conhece o tédio que assombra as mulheres adultas, exceto quando elas constroem para si mesmas um mundo pequeno e sereno por meio de algum tipo de arte. Ele, em conseqüência, ao propor uma grande variedade de empregos, na manufatura ou no cuidado de plantas e animais, permite a um terço das mulheres desenvolver o gosto pelos interesses masculinos, e a um terço dos homens, pelo feminino.

Quem não observa o brilho e a serenidade imediatos que se difundem sobre a vida das mulheres, sobrepujando a ansiedade e o medo, ao se envolver em jardinagem, construção, ou no mais humilde gênero de arte. Aqui há algo que não é rotina, alguma coisa que empurra a vida em direção ao infinito.

Não tenho dúvida, entretanto, de que uma grande proporção de mulheres se entregariam aos mesmos empregos de hoje, porque há circunstâncias que devem conduzi-las. As mães se deliciam em fazer o ninho fofo e morno. A natureza cuida disso; não é necessário prender as asas de nenhum pássaro que quer voar alto e cantar, ou encontrar em si mesmo a força da asa para um vôo migratório estranho à sua espécie. A diferença seria que nem todas devem ser forçadas a profissões para as quais algumas são inadequadas.

Tenho insistido sobre a auto-subsistência do sexo em suas duas formas de autoconfiança e de auto-impulso, porque acredito que esses são os meios necessários à presente conjuntura.

Tenho insistido na independência da mulher com relação ao homem, não que eu não pense que os sexos precisem mutuamente um do outro, mas porque na mulher esse fato tem levado a uma devoção excessiva, a qual esfriou o amor, degradou o casamento e impediu cada sexo de ser o que deveria ser para si mesmo ou para o outro.

Desejo que a mulher viva, primeiro por Deus. Assim, ela não fará de um homem imperfeito seu deus, e então afundar na idolatria. Assim, ela não tirará o que não é adequado para ela do sentido de fraqueza e de pobreza. Assim, se ela encontrar o que precisa corporificado no homem, saberá como amar, e será digna de ser amada.

Por ser mais uma alma, ela não será menos mulher, pois a natureza atinge a perfeição através do espírito.

Agora não há nenhuma mulher, apenas uma criança superdesenvolvida.

Para que a sua mão possa ser dada com dignidade, ela deve ser capaz de levantar sozinha. Eu desejo ver homens e mulheres capazes de tais relações como são retratadas por Landor em seu Péricles e Aspásia , em que a graça é a veste natural da força, e as afeições são calmas, porque profundas. A suavidade é de tecido tão firme, quanto quando

`Os deuses aprovam

A profundidade, mas não o tumulto da alma,

Um amor fervente, não desgovernado '.

Um pensador profundo disse: `nenhuma mulher casada pode representar o mundo feminino, porque ela pertence a seu marido. A idéia da mulher deve ser representada por uma virgem'.

Mas esse é o grande defeito do casamento, e da relação atual entre os sexos, esse de que a mulher pertence ao homem, ao invés de formar um todo com ele. Fosse de outra forma, não haveria tal limite à idéia.

A mulher, egoísta, jamais será absorvida por qualquer relação; será apenas uma experiência tanto para ela quanto para o homem. É um erro vulgar pensar que o amor, um amor para a mulher seja a sua existência completa; ela também nasceu para a energia universal da Verdade e do Amor. Se ela apenas assumisse sua herança, Maria não seria a única mãe virgem. Nem somente Manzoni celebraria em sua esposa a mente virgem com a sabedoria maternal e afeições conjugais. A alma é sempre jovem, sempre virgem.

E ela não aparecerá em breve? A mulher que reivindicará os direitos inatos de todas as mulheres; que lhes ensinará o que exigir, e como usar o que elas obtêm? Não será seu nome para sua era Vitória, para seu país e vida Virgínia? No entanto, predições são erupções superficiais; ela mesma deve nos ensinar a lhe dar o nome adequado.

Uma idéia, não desconhecida nos tempos antigos, que tem sido revivida ultimamente, é de que nas metamorfoses da vida a alma assume a forma, primeiro do homem, depois da mulher, e aproveita as oportunidades, e colhe os benefícios de cada porção. Por que então, dizem alguns, dar essa ênfase aos direitos ou necessidades da mulher? O que ela não ganhar como mulher virá a ela, como homem.

Isso não faz diferença. Não é a mulher, mas a lei do direito, a lei do crescimento, que fala em nós, e requer a perfeição de cada ser em sua espécie, maçã como maçã, mulher como mulher. Sem adotar sua teoria, eu sei que eu, uma filha, vivo através da vida do homem; mas o que me diz respeito agora é que minha vida seja linda, poderosa, numa palavra, uma vida completa em sua espécie. Tivesse eu apenas mais um momento para viver, desejaria o mesmo.

Suponha, ao final de seu ciclo, de sua grande era, que tudo estará completo, empenhe-me eu ou não (e a suposição é falsa ), mas suponha-a verdadeira, que eu seja indiferente sobre isso. Não mesmo! Devo bater meu próprio pulso verdadeiro no coração do mundo; porque isso é virtude, excelência, saúde.

Tu, Senhor do Dia! nos deixaste esta noite tão tranqüilamente gloriosas, sem consternação porque o inverno se aproxima, sem transferir tua benevolência para o verão frutífero! Tu sorriste quando o teu dia de trabalho findou, e adornaste teus altos e baixos, porque és leal, e é a tua natureza dar a vida, se puderes, e brilhar em todos os eventos!

Eu levanto no meio-dia ensolarado da vida . Os objetos não mais brilham no sereno da manhã, nem estão ainda suavizados pelas sombras da noite.

Todo ponto é visto, toda fenda revelada. Subindo a colina de terra, algumas efígies formosas que uma vez representaram os símbolos do destino humano foram quebradas; as que eu ainda tenho comigo mostram defeitos sob esta luz intensa. No entanto, restou o suficiente, mesmo pela experiência, para apontar distintamente as glórias deste destino; fracas, mas sem serem tomadas como traços enganosos dos dias futuros. Eu posso dizer com o bardo:

` Embora muitos tenham naufragado, corações nobres ainda batem'.

A alma sempre diz a todos nós: Acalente suas melhores esperanças como uma fé, e seja fiel a elas em ação. Esse será o meio fervoroso eficiente para alcançá-las,

Porque o Poder ao qual nos curvamos Deu garantias de que, se não agora,

Os que têm mente pura e firme,

Enaltecidos pela fé, refinados pela verdade,

Ouvirão toda a música alta e clara,

Cujas primeiras notas eles experimentaram aqui.

Assim, não tenhas medo de soprar a trompa,

Embora o elfo e o gnomo escarneçam de tua coragem;

Pergunta pelo Rei e a Rainha do Castelo;

Embora a plebe desbaratada possa correr pelo meio,

Atirar-te desmaiada ao chão,

No escuro, perseguir-te por todos os lados;

Persiste em perguntar e ele virá,

Não procura descanso em lar mais humilde;

Assim verás o que poucos viram,

O palácio onde moram o Rei e a Rainha .

15 de novembro, 1844.

(p. 110-119)