A mulher no século dezenove

Margaret Fuller
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Comentário e Hipertexto: Eliane T. A. Campello (FURG)

Sarah Margaret Fuller (1810-1850) nasce em Cambridgeport, estado de Massachusetts, e torna-se jornalista, crítica literária e feminista pioneira. Seu pai, advogado, político e legislador, esperava por um filho, por isso dá a Margaret, filha mais velha de nove irmãos, uma educação masculina. Aos três anos e meio, inicia-a, com lições diárias, no estudo de matemática, gramática, história e línguas clássicas. Aos seis anos, ela pode ler fluentemente Ovídio, Virgílio e Horácio em latim, e aos doze envolve-se com Shakespeare, Cervantes e Molière. Ela também aprecia Platão e a metafísica de Locke.

Dos doze aos quatorze anos freqüenta escolas da região, e em 1824 é enviada para o 'Seminário de Jovens Senhoras' da Senhorita Prescott, a fim de que se inicie na aprendizagem de padrões adequados ao comportamento feminino: o pai considera sua tendência para o feminino insuficiente. A lição mais importante que ela aprende lá, no entanto, é "o impulso pela ambição e a crença de que nada, nem mesmo a perfeição, é inatingível" (Von Mehren apud Hirschfeld [Internet]).

Em 1835, quando da morte do pai, é ela quem assume as responsabilidades financeiras da casa - trabalha como professora, a única profissão permitida às mulheres, na época, em Boston e Providence -, bem como a educação de seus irmãos. Em 1836, é admitida, juntamente com Sarah Alden Ripley, Elizabeth Hoar e Lidian Emerson (esposa de R.W. Emerson), como membro do Clube Transcendentalista de Boston.

Por essa época, Fuller e Emerson iniciam uma amizade íntima, auxiliando-se mutuamente no crescimento intelectual: enquanto ela é versada nas literaturas alemã, francesa e italiana, ele tem maior conhecimento da literatura americana. Assim, trocam sugestões de leituras e mantêm debates sobre as mesmas. Fuller vê em Emerson o mentor, o amigo e o herói. Ele lhe dá suporte emocional e amizade.

Em 1839, Fuller organiza as famosas "Conversações" em sua própria casa e na livraria de Elizabeth Peabody (cunhada de Nathaniel Hawthorne). São reuniões de mulheres, com a duração de duas horas, que têm por objetivo combater o mito de que a mente feminina é deficiente. Planejadas para mulheres instruídas, os tópicos variam de 'educação' a 'mitologia grega'. As "Conversações" fazem grande sucesso e duram quatro anos, e muito do material usado por Fuller em seus escritos vêem dessas discussões.

Em 1840, torna-se a primeira editora do jornal transcendentalista, The Dial, por dois anos, o qual, com o tempo, alcança mais e mais sucesso. A sociedade passa a reconhecê-la como editora e líder das "Conversações". Em 1843, imersa, em companhia de Emerson e dos demais transcendentalistas (Thoreau, entre eles), na filosofia que esposa a fé na inspiração individual, no poder da vontade e no direito inato de todos ao bem universal, contribui para The Dial com um artigo que muda sua vida e a vida de todas as mulheres depois dela: "The Great Lawsuit. Man versus Men. Woman versus Women" ("O grande processo. Homen versus Homens. Mulher versus Mulheres"). Esse é o único número do jornal a esgotar completamente, e, em última análise, esse ensaio transforma-se no livro publicado em 1845, Woman in the Nineteenth Century ( A mulher no século dezenove ).

A publicação de "O grande processo" e do seu livro Summer on the Lakes (1844) - esse último exigiu pesquisa em Harvard, o que fez dela a primeira mulher a estudar lá -, são fatos decisivos na vida de Fuller. Por um lado, fazem surgir o convite de Horace Greeley, editor do New York Daily Tribune , para ela participar do jornal como crítica literária; por outro, favorecem a possibilidade do exercício de sua liberdade transcendentalista - Fuller ousa, até mesmo na visão de seus associados emancipados, mudar-se de Boston para New York. Mais do que isso: torna-se a primeira jornalista profissional estadunidense. Suas principais peças críticas estão reunidas em Papers on literature and art , obra publicada em 1846.

Inicialmente, ela encontra muita hostilidade por parte dos nova-iorquinos aos transcendentalistas de Boston. A grande metrópole não consegue compreender sua metafísica ‘nublada' e desdenha de seu paganismo transcendental. Para Emerson e seus seguidores, aos nova-iorquinos falta intelecto. Em pouco tempo, porém, mais devido às suas idéias inovadoras e princípios elevados, bem como à sua audácia em torná-los públicos, do que propriamente à qualidade literária de seu texto, Margaret Fuller transforma a hostilidade em admiração. Afinal , o transcendentalismo é um credo revolucionário.

Desse modo, antes de ir para a Europa, antes de conhecer George Sand, Fuller torna-se a porta-voz da liberalidade do século na América, ao publicar A mulher no século dezenove . Isso, porém, não quer dizer que sua aceitação seja unânime. Ela encontra opositores, como Hawthorne, por exemplo. Esse, entretanto, apesar de considerá-la uma ‘vigarista', muito provavelmente desenha sua Zenóbia, de The Blithedale Romance (1853), com as cores fortes da ‘força passionária' de Margaret (exceto, como afirmam alguns, no que tange aos seus traços de beleza). Ele a conhece bem, pois convivem em Brook Farm , a comunidade experimental transcendentalista, que tem início em 1841 e é extinta em 1847, e em Concord, como ele mesmo registra em seus Notebooks (publicados em 1868, 1932 e 1941, sendo o primeiro por sua esposa Sophia Peabody e os outros dois por Randall Stewart), em muitas passagens distintas. Larzer Ziff nota ainda que Hawthorne, quando chega na Europa, "acredita em todas as fofocas maldosas que ouve sobre ela" ( Literary Democracy , Penguin, 1981, p. 147). O preconceito de Hawthorne com relação a Fuller, se podemos identificar seu sentimento dessa forma, encontra repercussão na sua família. Ao saber da publicação de A mulher , Sophia escreve para sua mãe, afirmando não ter o menor interesse no movimento pelos direitos das mulheres.

A rusga entre Hawthorne e Margaret vai ainda mais longe, na pena de críticos tanto da época quanto da modernidade, principalmente, quando se trata de definir posições de atitudes, isto é, o lado masculino e o feminino em cada um deles. Quando o feminino nos textos de Hawthorne é notado, surge como um cumprimento à sua capacidade criativa. Mas quando, ao contrário, o masculino em Fuller é exposto, fica por conta de sua esquisitice. Porém, ela não se furta de lembrar: "Que não seja dito, onde quer que haja energia ou gênio criativo, ‘Ela tem uma mente masculina'" ( A mulher , p. 24).

É lamentável que, em algumas ocasiões, ela seja lembrada somente como um estereótipo da época - o da sufragista feiosa -, quando o voto é um assunto acidental em seu grande projeto. Ela, assim como Thoreau, não se submete, não mais do que ele se renderia à lógica imposta pelo poder (haja vista seu "Desobediência civil"). Em 1839, Fuller já desafia os pensadores da época, ao publicar a tradução de "Conversations with Goethe in the last years of his life", de Eckermann, num momento em que há um sentimento misto sobre a figura daquele que iria se tornar o maior nome do romantismo alemão (universal, quiçá!). Muitos não acreditam em seus escritos, mas Fuller, na ‘Introdução' dá-lhe todo o apoio, mostrando sua força e independência.

Em contrapartida, no início da década de 40, Margaret já estava sendo chamada de "A Corina ianque", conforme nos informa Ellen Moers ( Literary women , Anchor, 1977, p. 269), ou "A Corina da Nova Inglaterra", no dizer de Donna Dickenson, em notas a A mulher , p. 236. Isso porque, assim como Corina - a heroína-artista de Madame de Staël, no romance com esse nome, publicado em 1806 -, Margaret Fuller tentou recriar e direcionar para si mesma o mesmo nível intelectual de discurso social que Staël empresta à sua protagonista. Emerson e muitos outros a reconheceram como uma intelectual proeminente em seu tempo.

Em mais de uma ocasião, Edgar Allan Poe também presta sua homenagem a Fuller, valendo citá-lo, pois Fuller e Poe são apontados como os dois críticos literários mais importantes do século XIX. Diz Poe: "O juízo mais favorável do gênio da senhorita Fuller (porque elevada genialidade, ela inquestionavelmente possui) será obtido, talvez, a partir de sua contribuição ao The Dial , e de seu Summer on the Lakes " e " A mulher no século dezenove é um livro que poucas mulheres neste país poderiam ter escrito, e nenhuma mulher neste país teria publicado, com exceção da senhorita Fuller" ("Sarah Margaret Fuller", Godey's Lady's Book , 1846, 72-75).

Provavelmente, não só as informações inéditas sobre os nativos da América contidas no texto de Summer on the Lakes , entrelaçadas com a história (ficcional ?) de Mariana (um outro self de Fuller?) tenham sido o objeto de apreciação de Poe. A própria história da escrita desse livro traz em si material suficiente para causar espanto e admiração, considerando-se a época e as condições de sua produção. Fuller, inicialmente, viaja com James Clarke, Sarah, sua esposa, e Rebecca Hull Clarke, sua mãe, para a região dos lagos, território ainda inexplorado pelos dominadores brancos. Depois de certo tempo, eles abandonam a expedição, mas Fuller continua por conta própria. Sozinha, ela consegue aproximar-se dos índios, a quem demonstra profundo respeito.

É como jornalista do Tribune (ela é a primeira mulher a desempenhar a função de correspondente estrangeira) que Fuller viaja para a Europa em 1846. Visita a Inglaterra, a França e a Itália, onde encontra Carlyle, Wordsworth, De Quincey, Elizabeth Barrett Browning (de quem se torna amiga íntima) e George Sand, sobre quem escreve: "Ela bravamente representou sua natureza". Além disso, faz amizade com o revolucionário Giuseppe Mazzini, o que a leva a participar intensamente, como mensageira e enfermeira-chefe de um hospital, na revolução pela república italiana. Em Roma, conhece o marquês d'Ossoli, de quem tem um filho (em 1848) e com quem vem a casar-se secretamente, em 1849, enquanto escreve a história da revolução. Em 17 de maio de 1850, a marquesa d'Ossoli, seu marido e Ângelo, de dois anos, deixam a Europa a bordo do "Elizabeth". No dia 19, devido a uma tempestade, o navio afunda na costa de Fire Island, a uma hora do porto de New York, e todos morrem afogados. Somente o corpo do menino é encontrado na praia.

No memorial de Margaret Fuller há uma placa onde se pode ler:

Por nascimento, uma criança da Nova Inglaterra; por adoção, uma cidadã de Roma; por genialidade, pertencente ao mundo. Na juventude, uma estudante insaciável, procurando a cultura mais elevada; nos anos de juventude, professora, escritora, crítica da literatura e da arte; na idade madura, companheira e ajudante de muitos reformistas sérios na América e na Europa " (cf. Hirschfeld. Internet. Maio,1997).

A morte de Fuller, no entanto, não encerra seus feitos, isto é, não condena suas idéias ao esquecimento. Ela gera conseqüências. Não é por rara coincidência que muitos estudiosos de sua vida e obra a consideram 'a mulher mais importante do século dezenove'. Tampouco é aleatória a afirmativa de que A mulher no século dezenove é um dos principais textos que vêm a embasar, consistentemente, argumentos de movimentos feministas, na prática social e na literária do século vinte. Não é demais afirmar que Margaret Fuller faz a ponte entre a Europa e a América e, na América, torna-se um modelo a ser seguido e multiplicado pelas demais Américas.

Com certeza, Fuller lê Wolstonecraft , Martineau, Sand, Browning, entre outras escritoras que usam de sua pena em prol dos direitos das mulheres, como bem o demonstram as alusões a elas ao longo de A mulher . Seu discurso, como o de suas antecessoras européias, visa à crítica da cultura opressiva patriarcal, fato que leva muitos críticos a condená-las. Julgamento injusto, porém. Se tomarmos em consideração o pano de fundo cultural de seu tempo, verificamos que, para que essas mulheres e Fuller, principalmente, dado seu pioneirismo no país, pudessem romper as barreiras erigidas pela intelligentsia , uma posição radical se impunha. E Fuller consegue ser mais radical do que todas elas.

Se na primeira parte de A mulher ela imprime uma visão bíblica, discutindo o caminho da perfeição para o homem e a mulher construírem uma sociedade perfeita, bem cedo no texto Fuller introduz as "circunstâncias dos americanos" (p. 9), situando sua nacionalidade e identificando o espaço de onde fala.

Seus principais argumentos desenvolvem-se a partir da noção de que o objetivo da intelectualidade americana, em prosa e verso, pauta-se pela ambição de representar o caráter do povo. Ela toma como o paradigma a ser desconstruído "Orphic sayings - Orphics", de Amos Bronsom Alcott, que lhe garantiu a reputação de ser um filósofo com a cabeça nas nuvens. É a partir da reversão do mito de Eurídice e Orfeu, em que Eurídice é que chamará por Orfeu, que Fuller passa a discutir a relação homem versus mulher.

a erudição conduz a Autora a passeios pela história dos povos, desde a Grécia mitológica, à Revolução Francesa, "esse anjo estranhamente disfarçado" (p. 11), a comentários sobre a depravação, crueldade e fraude (na América como em outros lugares) contra os índios e os negros. Para ela, se a Europa estava destinada a promover a cultura mental do homem, os Estados Unidos, por sua vez, deveriam elucidar a grande lei moral. Nesses parâmetros, a idéia de liberdade opõe-se à realidade, representada pela África escrava.

A mulher no século dezenove , no seu todo, está amarrada à tendência transcendentalista de ver a realidade através de símbolos, por isso contém alguns conceitos vagos e idealizados, carentes de uma análise sistemática e prática. Apesar disso, a estrutura do texto, somada às inúmeras imagens, paradoxos e livre associação de idéias, evidencia-se pelo tom de manifesto, o que confere organicidade ao discurso e o caracteriza como um sermão aos moldes arcaicos. Os seus contemporâneos, no entanto, recebem-no como poderoso e inovador.

Em todos os escritos de Fuller, há temas similares: igualdade para os sexos, reforma e, até certo ponto, a natureza. Em A mulher , ela enfoca mais a autoconfiança, com vistas ao desenvolvimento do indivíduo. Fuller tenta provar que a mulher, especialmente, merece o direito de se descobrir como sujeito, em vez de contar com o homem para isso. Ela parte do princípio de que "...há na mente dos homens [brancos] um tom de sentimento em relação às mulheres igual àquele em relação aos escravos..." (p. 17). No clima dos idos de 1840, essa afirmativa é chocante, principalmente, porque externada pela voz de uma mulher.

A mulher é anterior à Guerra Civil americana (1860-65). Surge quando os emancipacionistas e as feministas estão trabalhando num "concerto esperançoso" (Moers, p. 23). Porém, após a guerra, a emancipação política é estendida aos homens negros, mas não às mulheres de qualquer cor. E, embora Margaret não esteja mais lá para ver isso acontecer, esse fato confirma sua visão precoce e perspicaz: o "teto todo seu", que Virginia Woolf estará ainda reivindicando para as mulheres no século XX, é percebido no século XIX como o paralelo à cabana do Pai Tomás.

Hoje, há mais de um século e meio da publicação de A mulher , imbuídos, todos nós, homens e mulheres, da expectativa em mudanças radicais, que só uma passagem de milênio é capaz de provocar, ouvimos as reverberações desafinadas desse "concerto esperançoso", de que nos fala Moers.

O tom mais sombrio é gerido pelo diapasão do debate que aproxima grupos subjugados, como o faz Fuller nos paralelos entre mulheres e escravos (e índios). O seu eco destoante, frente a uma cultura hegemônica ainda moldada por uma ideologia patriarcal, se faz ouvir por todo o continente americano e sustenta as questões de colonialismo, determinadas pela raça, pela classe e pelo gênero.