A descoberta da América (que ainda não houve)

Eduardo Galeano
- Comentários -

Comentário e Hipertexto: Renata Fraga dos Santos (UFRGS)

Yo no sé dónde nací,

Ni sé tampoco quién soy.

No sé de dónde he venío

Ni sé para dónde voy.

 

Soy gajo de árbol caído

Que no sé dónde cayó.

¿ Dónde estarán mis raíces?

De qué árbol soy rama yo?

(versos populares de Boyacá, na Colômbia)

Identidade, raízes, outro, literatura. Estas e outras palavras compõem o repertório crítico e artístico de Eduardo Galeano. Partindo de um ponto de vista deslocado do centro, Galeano traz sempre em seus textos uma defesa da palavra do "outro". O escritor uruguaio se preocupa não só com as questões referentes ao seu próprio país, mas à América como um todo de norte a sul. Suas obras se apresentam como uma mistura de culturas, lendas e literaturas. Em Galeano se questiona tudo, principalmente a história. Seus textos brincam com as "verdades", problematizando o caráter autoritário da história oficial.

A descoberta da América que ainda não houve nos faz refletir sobre a importância da busca de caminhos mais próprios, da busca da verdadeira face das políticas marginalizantes e castradoras instaladas na América Latina. Galeano procura nos desvelar esse mundo das máscaras, no qual a história é contada por poucos para submeter muitos. Através deste texto crítico de Galeano, mas principalmente de seus escritos literários, percebemos o quanto a identidade coletiva se revela na arte, e o quão mais fiel aos fatos que a história é essa arte que se mascara de ilusão e de ficção. Quão mais realista consegue ser, as vezes, uma obra de arte, com todas as suas emoções e deformações, que a própria fotografia, ou que uma notícia de jornal?

Nas obras de Eduardo Galeano as palavras têm vida. Ele faz questão de deixar bem claro ao leitor que as palavras são um forte meio de ação e uma maneira de preservação da identidade, que fortalece suas raízes no passado. Para o autor é preciso que se faça história, que se rompa com o silêncio que nos foi imposto durante tanto tempo. É preciso que se deixe o "outro" falar, que se permita que o "outro" mostre o seu ponto de vista, por mais marginal que possa parecer. Galeano só quer com isso marcar e fortalecer a diversidade de raças, culturas, religiões existentes em nosso continente, que, por vezes, não é levada em conta diante da cultura da globalização.

Para Galeano é importante que a literatura, que a cultura da América seja valorizada, que se reconheça o seu valor por sua diferença do cânone. A América, assim como sua literatura, se caracteriza pela heterogeneidade, pela diversidade, pela impureza. Suas raízes são, portanto, "rizomáticas". Sendo assim, a literatura que se faz nas Américas, com toda a sua dose de magia e encantamento, é deveras impura, híbrida.

Essa impureza, essa diferença sempre contrariou muito os interesses dos colonizadores. A visão de exotismo dos europeus sobre a América e seus índios permanece de certa forma até hoje. Ora, civilizado é o que vem de fora, é a cultura importada para homogeneizar as mentes, o nacional é bárbaro. No entanto, sabemos que não podemos nos preservar puros, longe da cultura externa, já que nascemos híbridos e a cultura de massa é só mais uma cultura dentre aquelas que já possuímos. Assim, Galeano é critico em relação a toda e qualquer cultura, mas para isso as insere todas em suas brilhantes ficções. O rompimento de fronteiras e a hibridização dos gêneros literários é uma constante em sua obra. Tudo isso resulta em textos literários que contemplam desde o popular e o massivo, até outros códigos de arte, como xilogravuras.

Galeano critica sobretudo as imposições que o capitalismo selvagem nos faz. Tudo é dinheiro, e o que não é material de troca, com valor monetário, não é necessário, por mais belo e tocante que possa parecer. Assim, a arte é considerada luxo, quando deveria ser vista como essencial para a vida, para a sobrevivência de um povo e de sua cultura. Dessa forma, há muita arte escondida por aí, há muitas pessoas silenciadas, há muitos enigmas a decifrar. Temos, pois, ainda muito chão pela frente nesse "descobrimento" de uma América que cresce e faz sua história a cada minuto, a cada palavra contada, a cada parede pichada, a cada livro escrito e lido.

Janela sobre a palavra (II)

No Haiti, não se pode contar histórias de dia. Quem conta de dia merece desgraça: a montanha jogará uma pedra em sua cabeça, sua mãe só conseguirá andar de quatro.

Os contos são contados de noite, porque na noite vive o sagrado, e quem sabe contar conta sabendo que o nome é a coisa que o nome chama.

(Eduardo Galeano, As palavras andantes )