Culturas híbridas, poderes oblíquos

Néstor García Canclini
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Comentário: Heloísa Costa Milton (UNESP/Campus de Assis)

Néstor García Canclini, com sua premiada obra Culturas híbridas , traz à cena instigantes reflexões em torno do eixo tradição/modernidade/pós-modernidade na América Latina, em que ressalta, como aspecto preponderante, a falta de uma política cultural moderna. Entende por Modernidade toda uma etapa de desenvolvimento que, apesar de histórica, ainda permanece; por Modernização, os processos sociais, econômicos, políticos e culturais que constróem a Modernidade; e por Modernismo, os programas culturais de renovação, experimental e crítica, das práticas simbólicas disponíveis nas sociedades.

Importante contribuição para os debates teóricos sobre a cultura do continente, este estudo orienta-se pela seguinte indagação: quais as estratégias para se sair de uma modernidade que, na América Latina, não acaba nunca de chegar, uma vez que as tradições ainda se mantêm ativas, configurando-se assim um quadro de perspectivas múltiplas, fragmentadas e combinadas de diversas formas? Tal indagação enseja uma dúvida, com a qual se defronta o autor ao expandir suas reflexões: a modernidade seria realmente o caminho para os impasses latino-americanos, como apregoam políticos, economistas, agentes da propaganda e tecnologia?

Canclini, ao longo dos sete capítulos da obra, além da introdução (denominada "Entrada") e da conclusão (denominada "Saída"), recobre um universo cultural abrangente, orientando suas proposições para as infindáveis relações produzidas e impulsionadas pelas culturas híbridas, vistas sob ângulos que conjugam sociologia, antropologia, história da arte e comunicação. Questões como a cultura erudita, a popular e a de massa; políticas culturais e mercado; estado e poder; o artista e o público; modernismo sem modernização; família e a escola; desafios da educação; processos simbólicos e bens artísticos; valor e uso de museus e monumentos permitem ao autor a inserção no debate sobre o que se deve fazer para entrar e sair de uma condição de modernidade que, problemática, gera crises e impõe certas radicalizações.

Nesse sentido, radicalizar sem ser "fundamentalista" é o que Canclini sugere em suas conclusões, ressaltando que possíveis saídas ocorreriam em função de quatro movimentos que considera definidores da modernidade na América Latina: emancipação, renovação, democratização e expansão. Articulados de maneira irregular, representam uma modernidade insatisfatória, causadora de conflitos na interação com as tradições vigentes. O hibridismo resultante pontifica o dilema de entrar ou sair de uma modernidade repleta de incertezas, cujo desafio debe concebirse ahora como la capacidad de interactuar con las múltiples ofertas simbólicas internacionales desde posiciones propias (p.332).

O capítulo VII da obra, intitulado "Culturas híbridas, poderes oblíquos", é emblemático das reflexões do autor e tem como objetivo o estabelecimento das diferenças e intersecções envolvendo a cultura erudita e a popular urbana, bem como a absorção de ambas pela cultura de massa.

Destacando como agentes preponderantes das transformações da cultura popular urbana fenômenos como as migrações, os processos simbólicos de jovens dissidentes, o desemprego e subemprego que geram os mercados informais, Canclini estima que a questão do popular, nestes casos, demanda outros instrumentos conceituais. Indaga, em decorrência, como analisar as manifestações híbridas, oriundas do cruzamento entre o culto e o popular e que não se enquadram nos paradigmas das ciências sociais sob o rótulo de cultura urbana? Exemplifica o problema perguntando si el lenguaje discontinuo, acelerado y paródico del videoclip es pertinente para examinar las culturas híbridas, si su fecundidad para deshacer los órdenes habituales y dejar que emerjan las rupturas y yustaposiciones, no debiera culminar - en un outro discurso interessado en el saber - en outro tipo de organización de datos (p.264).

Propõe então, como via de análise para as manifestações híbridas, a discussão sobre os modos de nomeá-las e sobre os estilos com que são representadas. Para tanto, aborda três processos considerados fundamentais para o estudo do fenômeno do hibridismo, no tocante às articulações entre modernidade e pós-modernidade, cultura e poder: a quebra das coleções que antes organizavam os sistemas culturais, a desterritorialização dos processos simbólicos e a expansão dos gêneros impuros, dentre os quais destaca o grafite e a história em quadrinhos como manifestações críticas de desordem urbana, descrença nas instituições políticas e desencanto utópico .

Tendo presente que a expansão urbana é fator de intensificação do hibridismo e que a oferta cultural das comunidades rurais, tradicionais e homogêneas, transformou-se em contato com a oferta heterogênea das grandes cidades, originando-se daí a mistura do regional com redes nacionais e transnacionais de comunicação e a desestabilização dos limites entre uma e outra ocorrência, Canclini salienta que os meios de massa se converteram nos grandes mediadores das interações coletivas, em função da subordinação da chamada cultura urbana às tecnologias eletrônicas.

Em conseqüência, ao analisar os usos modernos e pós-modernos da história, questiona o significado dos monumentos, expressões de impulsos históricos, no processo urbano contemporâneo latino-americano, em oposição à caótica trama vi sual das cidades modernas que, repleta de publicidade, grafites e mensagens políticas, transgride os monumentos e os influenciam, às vezes até com grande carga de irreverência. Esse exemplo ilustra a desorganização das coleções simbólicas, como resultado da desarticulação da ordem antes expressa nas noções de culto, popular e massivo, ou, em outras palavras, ilustra a ruptura das coleções especializadas e orientadas por uma história dos saberes, sua desterritorialização geográfica e social e posterior realocação parcial, com a mistura de velhas e novas produções.

La agonía de las coleciones es el síntoma más claro de cómo se desvanecen las clasificaciones que distinguían lo culto de lo popular y en ambos de lo masivo. Las culturas ya no se agrupan en conjuntos fijos y estables, y por tanto desaparece la posibilidad de ser culto conociendo el repertorio de las 'grandes obras', o ser popular porque se maneja el sentido de los objetos y mensajes producidos por una comunidad más o menos cerrada (una etnia, un barrio, una clase) (p.283), afirma Canclini, ponderando, em seguida, que outro fator de desorganização das coleções são os dispositivos tecnológicos de reprodução dos bens simbólicos, tais como xerox, vídeocassete, vídeoclipe e videojogo, que possibilitam apropriações múltiplas, muitas vezes mais criativas e mais democráticas.

Além disso, o autor enfatiza a necessidade de se considerar, no tocante à produção, investimentos e usos de tecnologias culturais, as desigualdades existentes entre os países hegemônicos e os dependentes, além daquelas que dizem respeito às diferentes classes sociais. Na América Latina, argumenta, o aproveitamento e adequação das inovações tecnológicas ficam limitados e concentrados em determinados grupos, dentre outros fatores, devido ao montante de dívidas acumuladas, políticas de austeridade, investimentos congelados, imigração de cientistas e técnicos e exiguidade de verbas disponíveis para novos projetos.

A modernidade latino-americana organizou-se, a partir do período colonial e subseqüente fases de industrialização e urbanização, em função do estabelecimento de antagonismos econômicos, sociais e políticos (colonizadores e colonizados, cosmopolitismo e nacionalismo, por exemplo), culminando na teoria da dependência, que alude ao enfrentamento entre o imperialismo dos centros internacionais de produção científica, artística e comunicacional e as culturas nacional-populares. No entanto, Canclini assevera que essa teoria não explica o funcionamento, em rede planetária, de todo um sistema industrial, tecnológico, financeiro e cultural, que interfere na produção, uso e avaliação dos bens simbólicos, e nem dá conta da necessidade que têm os países hegemônicos de flexibilizarem suas fronteiras e integrarem suas economias e sistemas educativos, tecnológicos e culturais, tal como vem ocorrendo na Europa e Estados Unidos.

Assim, qualquer tipo de maniqueísmo resulta insatisfatório como explicação social, já que os novos processos mundiais de interação tornam cada vez mais complexa a delimitação de territórios simétricos. Canclini enumera alguns eventos que atestam a iniqüidade das visões polarizadas: a descentralização das empresas, a simultaneidade planetária das informações, a adequação de saberes e imagens internacionais aos conhecimentos e hábitos de cada povo, a deslocalização dos bens simbólicos pela eletrônica e a telemática e o uso de satélites e computadores na difusão cultural.

Por outro lado, as migrações em múltiplas direções constituem outro fator de relativização das oposições, no tocante às relações interculturais e à dominação imperialista. La internacionalización latinoamericana se acentúa en las últimas décadas cuando las migraciones no abarcan sólo a escritores, artistas y políticos exiliados, como ocurrió desde el siglo pasado, sino a pobladores de todos los estratos (p.290). Nesse sentido, Canclini pondera ser difícil limitar ao esquema unidirecional, que explica o imperialismo, os novos fluxos de circulação cultural suscitados pela imigração de latino-americanos aos Estados Unidos e Europa, ou no âmbito dos países do próprio continente, ou das regiões mais pobres aos centros urbanos. Esses fluxos transformam as noções convencionais de comunidade e de fronteira entre centro e periferia.

Não obstante a relativização de identidades e culturas propiciada pelos intercâmbios entre os bens simbólicos tradicionais e os circuitos internacionais de comunicação, as indústrias culturais e as migrações, não se eliminam as discussões políticas e culturais referentes aos elementos constitutivos do nacional, à defesa da soberania e à desigual apropriação do saber e da arte. Não desaparecem os conflitos, tal como proposto pelo que Canclini chama de pós-modernismo neoconservador, mas eles são estudados, agora, sob outros registros, menos radicais e de múltipla focalização.

Postulando que o hibridismo é uma das marcas históricas das culturas latino-americanas, Canclini indaga qual seria a novidade dos processos de quebra das coleções, desterritorialização e hibridismo pós-moderno, assinalando, como resposta, a carência de paradigmas consistentes, como os que ensejaram os debates sobre a modernidade. O autor assevera que o posmodernismo no es un estilo sino la copresencia tumultuosa de todos, el lugar donde los capítulos de la historia del arte y del folclor se cruzan entre sí y con las nuevas tecnologías culturales (p.307), o que não deixa de representar perdas significativas para as práticas artísticas, num mercado em que tudo se dissemina, se refigura e se torna intercambiável..

Em síntese, no capítulo "Culturas híbridas, poderes oblíquos", Néstor García Canclini descreve e analisa formas de hibridismo na América Latina, em face das contradições do convívio social urbano e do contexto internacional, para concluir que todas as culturas são de fronteira e que as artes, devido ao fenômeno da desterritorialização, articulam-se em relação umas com as outras e, com isso, têm ampliado seu potencial de comunicação e conhecimento. De maneira oblíqua, as práticas culturais passam a ocupar um lugar proeminente no que diz respeito ao desenvolvimento político, pois constituem vias de expressão simbólica com ação e atuação efetivas, quando se fecham ou se enrijecem as vias político-sociais. A eficácia dos processos de hibridismo reside principalmente na sua capacidade de representar o que as interações sociais têm de oblíquo e simulado, permitindo repensar os vínculos entre cultura e poder, vínculos que, sem dúvida, não são verticais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS :

CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas . Estrategias para entrar y salir de la modernidad. México: Grijalbo, 1990.