O mesmo e o diverso

 Edouard Glissant

 Tradução:

Normélia Parise

GLISSANT, Edouard. Le discours antillais . Paris: Seuils, 1981. p.190-201: Le Même et le Divers.

Comentário: Graciela Ortiz (UFRGS)

O MESMO E O DIVERSO

Consideramos os avatares da história contemporânea como episódios desapercebidos de uma grande mudança civilizacional, que é passagem: do universo transcendental ao Mesmo, imposto de maneira fecunda pelo Ocidente, ao conjunto difratado do Diverso, conquistado de modo não menos fecundo pelos povos que conquistaram hoje seu direito à presença no mundo. O Mesmo, que não é uniforme nem estéril, pontua o esforço do espírito humano em direção a essa transcendência de um humanismo universal sublimando os particulares (nacionais). A relação dialética de oposição e de ultrapassagem compreendeu, na história ocidental, o nacional como obstáculo privilegiado, que era preciso conquistar ou vencer. Neste contexto, o indivíduo, considerado como veículo absoluto da transcendência, pôde afirmar de maneira subversiva seu direito a contestar o acidente particular, embora nele se apoiando. Mas, para nutrir sua pretensão ao universal, o Mesmo requisitou (teve necessidade de) a carne do mundo. O outro é sua tentação. Não ainda o outro como projeto de acordo, mas o outro como matéria a sublimar. Os povos do mundo foram então presa da cobiça ocidental, antes de encontrarem o objeto das projeções afetivas ou sublimantes do Ocidente.

O Diverso, que não é o caótico nem o estéril, significa o esforço do espírito humano em direção a uma relação transversal, sem transcendência universalista. O Diverso tem necessidade da presença dos povos, não mais como objeto a sublimar, mas como projeto a por em relação.O Mesmo requer o Ser, o Diverso estabelece a Relação. Como o Mesmo começou pela rapina expansionista no Ocidente, o Diverso nasceu através da violência política e armada dos povos. Como o Mesmo se eleva no êxtase dos indivíduos, o Diverso se expande pelo ela das comunidades. Como o Outro é a tentação do Mesmo, o Todo é a exigência do Diverso. Não é possível nos tornarmos trinidadianos ou quebequenses, se nós não o formos; mais é, contudo, verdadeiro que se Trinidad ou Quebec não existissem como componentes aceitos do Diverso, faltaria algo à carne do mundo - e hoje nós conhecemos esta falta. Dito de outra forma, se era desejável que o Mesmo se revelasse na solitude do SER, permanece imperioso que o Diverso passe pela totalidade dos povos e das comunidades. O Mesmo é a diferença sublimada; o Diverso é a diferença consentida (1). Se não retivermos os aspectos fundamentais desta passagem (do Mesmo ao Diverso) que são a luta política, a sobrevida econômica, e se não contabilizarmos os episódios centrais (esmagamento dos povos, emigrações, deportações, talvez o mais grave dos avatares que é a assimilação), e se nos mantivermos em uma visão global, perceberemos que o Mesmo, imaginário do Ocidente, conheceu um enriquecimento progressivo, um estabelecimento harmonioso do mundo, como pôde "passar", sem ter que confessar, da idéia platônica à nave lunar. Os conflitos nacionais marcaram do interior o clã do Ocidente para uma única ambição, que era impor ao mundo como valor universal o conjunto de seus valores particulares. É assim que o slogan circunstanciado da burguesia francesa de 1789, "Liberdade, Igualdade, fraternidade", tendeu durante muito tempo a significar de maneira absoluta um dos fundamentos do humanismo universal. O mais belo sendo o que efetivamente ele significou. Foi ainda assim que o positivismo de Augusto Comte tornou-se realmente uma religião na América do Sul para uma elite "descentrada".

O que se chama em toda parte a aceleração da história, que provem da saturação do mesmo, como de uma água que transborda de seu continente desbloqueou em toda parte a exigência do Diverso. Esta aceleração, levada pelas lutas políticas, fez com que os povos que ainda ontem povoavam a face escondida da terra ( como houve durante muito tempo uma face escondida da lua) tiveram que nomear-se diante do mundo totalizado. Se não se nomeassem, amputariam o mundo de uma parte de si mesmo. Esta nomeação assume formas trágicas (guerra do Vietnam, esmagamento dos palestinos, massacres na África do Sul), mas passa também pelas expressões político-culturais: salvamento dos contos tradicionais africanos, poemas engajados dos militantes, literatura oral (oralitura) do Haiti, consenso difícil dos intelectuais antilhanos, revolução tranqüila no Quebec. (Sem contar os avatares insuportáveis: "impérios" africanos, "regimes" sul americanos, auto-genocídios na Ásia, dos quais poderíamos pensar que eles constituem o "negativo" - que não pode ser possuído - de um movimento planetário). Chamo de literatura nacional esta urgência para cada um de nomear-se diante do mundo, isto é, esta necessidade de não desaparecer da cena do mundo e de contribuir, ao contrário, à sua ampliação.

Consideremos a obra literária em seu alcance mais amplo; podemos convencionar que ela satisfaz a dois usos: existe função de dessacralização, de heresia, de análise intelectual, que consiste em desmontar as engrenagens de um sistema dado, em pôr a nu os mecanismos escondidos, em desmistificar. Mas existe também função de sacralização, função de agrupamento da comunidade em torno de seus mitos, de suas crenças, de seu imaginário ou de sua ideologia. Digamos, parodiando Hegel e seu discurso sobre o épico e a consciência comunitária, que a função de sacralização seria o fato de uma consciência coletiva ainda ingênua, e que a função de dessacralização é o fato de um pensamento politizado. O problema contemporâneo das literaturas nacionais, tais como as concebo aqui, é que elas devem aliar o mito à sua desmitificação, e a inocência primeira à inteligência adquirida. E que, por exemplo, no Quebec, as inquietações de Jacques Godbout são tão necessárias quanto os enlevamentos inspirados de Gaston Miron. É que estas literaturas não tiveram tempo de evoluir harmoniosamente, do lirismo coletivo de Homero ao dissecamento de Breckett. É necessário que assumam de uma só vez, o combate, o militantismo, o enraizamento, a lucidez, a desconfiança de si mesmo, o absoluto do amor, a forma da paisagem, o nu das cidades, as ultrapassagens e as fixações. É o que eu chamo de nossa irrupção na modernidade.

Contudo, uma outra passagem tem lugar hoje, contra a qual nós nada podemos. É a passagem do escrito ao oral (2). Eu não estaria longe de acreditar que o escrito é o vestígio (trace) universalizante do Mesmo, onde o oral seria o gesto organizado do Diverso. Existe hoje uma vingança de muitas sociedades orais que, do próprio fato de sua oralidade, isto é, de sua não-inscrição no campo da transcendência, suportaram, sem poder defender-se o assalto do Mesmo (3). Hoje o oral pode se preservar ou se transmitir, de povo a povo. Parece que o escrito poderia transformar-se cada vez mais à medida do arquivo e que a escritura estaria reservada à arte esotérica e alquimia de alguns. É o que se manifesta na proliferação poluente de obras de livraria, que não são o símbolo da escritura, mas a reserva sabiamente orientada da pseudo-informação.

O escritor não deve velar a face diante de tal constatação. Pois a única maneira, na minha opinião de preservar a função da escritura (se cabe fazê-lo), isto é, de separá-la de uma prática esotérica ou de uma banalização informativa, seria de irrigá-la com as fontes do oral. Se a escritura não for preservada das tentações transcendentais, por exemplo, inspirando-se nas práticas orais, teorizando-as se for o caso, acredito que ela desaparecerá como necessidade cultural das sociedades futuras. Como o Mesmo não será extinto nas vivacidades surpreendentes do Diverso, a escritura se fechará no universo fechado e sagrado do signo literário. Aí poderá realizar-se o sonho de Mallarmé, que também é o de Folch-Ribas, velho sonho do Mesmo, de abrir-se ao Livro (com um L maiúsculo). Mas não será o livro do mundo.

Uma literatura nacional apresenta todas estas problemáticas. Ela deve significar a nomeação dos povos novos, o que chamamos seu enraizamento, e que é hoje sua luta.

É a função de sacralização épica ou trágica. Ela deve significar - e se ela não o fizer (e apenas se ela não o fizer) ela permanecerá regionalista, isto é, folclorizada e caduca - a relação de um povo com o outro no Diverso, o que contribui para a totalização. É a função analítica e política, a qual não existe sem questionamento de si próprio.

Vê-se que se as literaturas ocidentais não precisam mais solenizar sua presença no mundo, operação fútil depois deste pesado processo histórico do ocidente, operação pela qual elas se demarcariam como mediocremente nacionalistas, elas têm, em compensação, o dever de meditar esta nova relação com o mundo, por onde elas assinalariam não mais seu lugar preeminente no Mesmo mas sua tarefa dividida no Diverso. É o que compreenderam os escritores franceses que, de maneira caricatural como Loti, trágica como Segalen, católica como Claudel, estética como Malraux, pressentiram que, depois de tanto terem caminhado em direção ao Oeste, que era enfim chegada a hora do Conhecimento do Leste. Hoje o Diverso abre os países. Quando examino a produção literária na França hoje, fico surpreso com o desconhecimento de tal clã, de tal falta de novas relações com o mundo, isto é, de sua falta de generosidade (4). E não estou longe de pensar que nos encontramos em presença de uma espécie de periferia provisória do mundo.

Mas o Diverso é teimoso. Ele nasce em toda parte. As literaturas ocidentais reencontrarão esta função de inserção e se tornarão, dividindo o mundo, um sinal das nações, isto é um feixe do Relatado.

II.

Propus em outro lugar que a língua nacional é a língua na qual um povo produz. Pode-se também observar que a língua materna dos povos que apareceram recentemente à luz do planeta são, por situação histórica, línguas do oral.

Estas duas informações nos permitem esclarecer os subterrâneos das novas literaturas nacionais.

Lá onde um contexto cultural preexistia ao assalto do Mesmo, e onde a autonomização do circuito de produção se desenhou, o problema é relativamente "simples": será preciso recobrir a língua e a cultura nacionais submetendo-as à crítica criadora do pensamento político. É, suponho, o que se pode fazer na Algéria. A unanimidade (o sagrado) da nação não está por fazer, o pensamento crítico desmistifica uma ordem social, e o multilingüismo (se o mesmo se mantiver) não é alienante.

Lá onde um contexto cultural não preexistiu ao assalto do Mesmo, mas onde um sistema de produção permitiu "interiorizar" sem alienação grave a língua de importação, só existem combates culturais e políticos claros senão fáceis. É o que podemos encontrar, creio eu, em Cuba onde a língua espanhola é realmente a língua nacional cubana. A unanimidade da nação não encontra obstáculo, o monolingüismo não é redutor.

Lá onde uma alienação do sistema de produção se exerce contra uma comunidade que, contudo, se apóia em um contexto denso (seja que esta densidade cultural tenha preexistido ao assalto colonizador como nos países da África negra, ou que ela tenha podido de reorganizar após como no Haiti), o povo não se desagrega. Ele sofre a Relação (talvez seus recursos naturais estejam em vias de desaparecer, condenando-o à nudez das nações pobres), mas sua palavra permanece (através do multilingüismo se houver) e seu combate continua. Acontece que faça de sua língua ameaçada o instrumento de seu combate, como os porto-riquenhos para o espanhol contra o anglo-americano.

Lá onde a ausência de um contexto cultural preexistente não permite a um povo penetrar em um "maquis" cultural e onde um sistema autônomo de produção não se manteve, o drama começa. A língua materna oral é determinada ou oprimida pela língua oficial, sobretudo quando esta tende a tornar-se língua natural. Trata-se do que eu chamo de comunidades "presas" (5). Um povo não suporta muito tempo uma alienação brutal ou insidiosa de seu contexto cultural e uma redução sistemática de seu circuito de produção. Isto é um dos teoremas de base da Relação. A literatura nacional, é, neste caso, a evidenciação desta dupla alteração. Pois, na ausência de produção nacional e na imposição cultural global um povo volta-se contra si próprio, no que vive (e sofre) suas pulsões sem poder elucidá-las coletivamente. Sua força de comunhão volta-se, por exemplo, à prática supersticiosa, e sua força de crítica à mania de maldizer. É o que se observa, bem o sei, na Martinica onde o processo de assimilação a uma civilização (francesa) exógena desencadeia uma das maneiras mais ameaçadas, talvez a mais exemplar, de inserção no Diverso.

À margem dos combates políticos, o escritor tenta demonstrar as engrenagens de sua inserção, mesmo se sua prática corre o risco de introduzir por um tempo uma forma de desespero, que não é demissão. Esgotar este desespero, do qual terminamos, no cotidiano, por não mais ter consciência, é reavivar a ferida e escapar às anestesias do mesmo. Não há nisso nenhum pessimismo, mas a reserva última de quem escreve e quer bater-se em seu terreno.

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Técnicas

Diz-se que há literatura nacional quando uma comunidade contestada em sua existência coletivatenta reunir as razões desta existência.

A produção literária que participa de tal consciência coletiva em busca de si mesma não é apenas exaltação da comunidade mas também reflexão sobre (e preocupação de ) sua expressão específica. O discurso não se contenta em dizer, mas exprime ao mesmo tempo a razão pela qual ele diz desta maneira e não de outra.

Assim como uma comunidade pode ser constituída em estado independente e sofrer contudo uma alienação cultural fundamental, também um indivíduo pode gritar que ele quer reencontrar sua identidade, embora venha a sofrer uma falta irremediável na própria forma pela qual ele articula seu grito.

A alienação cultural cresce então para além das deliberações conscientes. E a despersonalização prevalece neste caso sobre as estruturas de produção "literária" que pomos em prática sem pensar.

Uma das primeiras dificuldades que enfrenta um escritor diz respeito à maneira pela qual ele dá conta do real. Ora, o realismo, teoria e técnica da reprodução literal ou "total", não está inscrito no reflexo cultural dos povos africanos ou americanos. Seguidamente me constranjo à leitura de obras que dão conta da realidade miserável de nossos países, e isto porque tenho a impressão de me encontrar em um sucedâneo, por sua vez miserável, de Balzac ou de Zola. O realismo ocidental não é uma técnica "rasa", sem profundidade, mas se torna quando é adotado sem crítica por nossos escritores. A miséria de nossos países não é apenas presente mas patente. Ela comporta uma dimensão de história (de história não evidente) da qual apenas o realismo não dá conta. É por isso que as obras de que falo se afundam freqüentemente na folclorização simplificada que anula seu esforço de investigação.

Jacques Stéphen Alexis compreendeu esta necessidade de não utilizar sem desvios as técnicas do realismo quando desenvolveu uma teoria do realismo maravilhoso na literatura haitiana, e Garcia Maequez ilustrou esta ultrapassagem do realismo, escrevendo Cem anos de solidão.

Uma conseqüência imediata de tal apreciação se encontra na função da paisagem. A relação com a terra, a relação tanto mais ameaçada quanto a terra da comunidade estiver alienada, torna-se de tal modo fundamental ao discurso, que a paisagem na obra deixa de ser decoração ou confidente para se inscrever como constituinte do ser. Descrever a paisagem não basta. O indivíduo, a comunidade, o país são indissociáveis no episódio constitutivo de sua história. A paisagem é um personagem desta história. É preciso compreendê-la em suas profundezas.

Estas observações estão ligadas ao problema da estrutura rítmica da obra literária. A cadência das situações talvez tenha influenciado, nas obras da literatura ocidental, sobre um movimento balanceado entre zonas de escritura neutra que vêm periodicamente atravessar fulgurâncias, brilhos que transportam e "revelam". Um exemplo comprobatório desta técnica é o soneto europeu, com sua ponta final que, ao mesmo tempo, resume e ultrapassa o conteúdo manifesto do poema. Parece que as expressões das culturas negras não assimilam esta estrutura astuciosa entre momentos neutros e momentos fortes na estrutura das obras. A estação única (a ausência de um ritmo sazonal) introduz uma monotonia lancinante que funda uma nova economia das estruturas de expressão. Correr atrás de aberturas, de surpresas de escritura, de "achados", é talvez para o escritor de nossos países perpetrar em nível das técnicas de escritura uma submissão inconsciente e não-justificada a tradições literárias das quais ele não participa verdadeiramente. A vigilância técnica não é aqui uma argúcia.

Igualmente - e quantas vezes já o repeti em meu discurso - nosso tempo poético ou romanesco (6) não expressa esta impressionante harmonia que, por exemplo, Proust conseguiu reconstituir.

Muitos dentre nós nunca freqüentaram seu tempo histórico; nós apenas o provamos. É o caso das comunidades antilhanas que acedem somente hoje a uma memória coletiva. Nossa busca da dimensão temporal não será, pois nem harmoniosa nem linear. Ela caminhará em uma polifonia de choques dramáticos, tanto ao nível do consciente como do inconsciente, entre dados e tempos disparatados, descontínuos, cuja ligação não é evidente. A harmonia majestosa não prevalece aqui, mas (enquanto para nós a história a ser feita não tiver reencontrado o passado até aqui desconhecido) a busca inquieta e quase sempre caótica.

Compreende-se que a literatura nestas condições pode não ser um objeto de deleite, nem de tranqüilidade. Ora isto coloca o problema daquele para quem a obra é escrita. Uma tendência generosa de nossas produções é de colocar-se de saída "à mão" dos que sofrem a alienação social ou cultural. Tendência legítima na medida em que agir sobre concretamente sobre os dados desta alienação. Mas a constatação quase elementar das carências, se é preciosa em um combate quotidiano, pode também impedir que se perceba estruturas mais profundas de opressão, que contudo é preciso revelar. Esta exposição, paradoxalmente, não se faz a cada vez na evidência e na clareza. É um dos avatares do pensamento ocidental pretender que uma obra deva sempre se dar sem hábitos, e eu conheço muitos contos de nossos países cujo poder de impacto sobre seu auditório não se deve à clareza de seu sentido. Acontece que a obra não seja escrita para alguém, mas para desmontar os mecanismos complexos da frustração e das variedades infinitas da opressão (7). Exigir que neste caso ela seja imediatamente compreensível significa cometer o mesmo afastamento de tantos visitante que, depois de passar dois dias na Martinica, pretendem explicar aos martiniqueses os problemas de seu país e as soluções que aí devem ser introduzidas (8).

Enfim talvez não devamos esquecer que podemos servir à conjunção complexa da escritura e da oralidade; trazer assim nossa parte à expressão de um homem novo, liberado dos absolutos da escrita e dominando uma nova audiência da voz.

Mas é aqui que precisamos marcar um dos limites da literatura. Epilogando, em 1979, com o historiador haitiano Leslie Manigat, ressaltamos como a intervenção dos Rastafari no Caribe - droga, orgulho na recusa do trabalho, radicalidade em rejeições selvagens - correspondia a um momento em que sua "passagem ao ato" consagra a obra da Negritude. Leslie Manigat opunha o que ele chamava da necessária invasão dos bárbaros no sonho intelectual dos letrados, que se sentirão sempre incomodados e até hostilizados diante destes extremos, paralelos de sua teoria.

A invasão dos bárbaros é contudo necessária, é através dela que o reequilíbrio dos valores se pratica: a afirmação no real da igual dignidade dos componentes de uma cultura. Mas o intelectual bem posto que teorizou a Negritude poderá aceder ao Rasta que o impõe no mundo concreto? Podemos também ver neste fenômeno um dos avatares da passagem do escrito ao oral. O reggae no audiovisual substitui aqui a poesia. Poetas anlgófonos como Braithwate (Barbados) ou Walcott (Santa Lúcia) tentam talvez conjurar (a drum poetry) esta composição. Lá onde tenho a impressão que Braithwate retoma trinta anos mais tarde o discurso de Aimé Césaire, na verdade ele lhe confere um novo estatuto; a concretização e a variedade do vivido. Braithwate junta-se ano apenas à poética de Césaire mas os ritmos quebrados de Nicolás Guilles ou de Léon Gontran Damas.

O escrito se oraliza. A literatura recupera assim um "real" que parecia determiná-la e limitá-la. O discurso antilhano se articula tanto sobre o vigor do grito original quanto sobre a paciência da paisagem reconhecida pela imposição dos ritmos vividos.)


(1) Retomamos a questão, em 1979, sob o ângulo da atualidade : o " direito à diferença "não poderia ancorar-se em uma partição biológica - ver Louis Pawels e a " nova direita "francesa - que desembocaria em uma hierarquia de naturezas. O Diverso introduz a Relação : é a implicação moderna das culturas, em suas errâncias, sua reivindicação estrutural de uma igualdade sem reserva.

(2) No momento em que nós martinicanos efetuamos a passagem frequentemente alienada da oralidade à escritura.

(3) Esta vingança de direito não pode ocultar o afastamento cada vez maior que de fato discrimina países ricos e países pobres. Toda teoria da passagem do Mesmo ao Diverso, do escrito ao oral seria ingênua, se ocultasse por menos que fosse, o assustador poder de alienação e de dominação operacionalizados pelos países ricos e sua emanação última: as multinacionais. Se é supérfluo dizê-lo, seria ainda pior esquecer.

(4) A ingenuidade do discurso de certos representantes franceses nos encontros culturais internacionais é impressionante. Seu etnocentrismo não conhece nuances e se revela mesmo impermeável à ironia questionadora.

(5) Comunidades apoiadas em um contexto economias de subsistência não puderam ser reduzidas (os curdos contudo divididos em 5 países), senão pela exterminação e a dispersão (os armênios). Por outro lado, culturas ancestrais puderam ser erradicadas pela pulverização da ordem econômica, onde a sobrevida (a economia de subsistência) não se organizou em resistência global (certas comunidades da Oceania).

(6) Ainda seria preciso confessar que estas dimensões (o poema, o romance) só se manifestam para nós através de uma intelectualidade (ou apenas entre os intelectuais) que ainda não encontrou a poética da coletividade. São apenas os signos prováveis de orientação, e que se transformarão sem dúvida em sua eclosão. Nem o romance nem o poema são nossos gêneros. Algo mais está por vir.

(7) Para desencavar o caos da história imposta. Lá onde as técnicas de expressão não são inocentes. Explorar o caos da memória (ofuscada, alienada ou reduzida a um repertório de referências naturais) não pode se fazer na clareza da exposição consecutiva. A produção de textos deve ser por sua vez produção de história, não enquanto desencadeia um acontecimento mas enquanto ressuscita ao nível da consciência um panorama esquecido. A exploração não é analítica mas criadora. A exposição tremula diante desta criação opaca, deste conteúdo contraditório cuja convergência não é dada de saída.

(8) Acontece que uma obra atinja diretamente seu objetivo, que é neste caso o de esclarecer, no limite, de esquematizar para melhor fazer compreender. É sem duvidas o que explica o impacto de Racines, de Alex Haley, cujo projeto era esclarecer um continuun histórico obliterado. A simplicidade dos meios técnicos operacionalizados, que se assemelham ao aumento da visão televisiva, é aqui preciosa. Qualquer reserva que possamos fazer sobre uma tal simplificação (penso, por exemplo, que o quadro convincente, mas muito calmo da viagem no navio negreiro não apresenta o caráter demencial, suspenso, de tal universo onde nem mais um indivíduo é ele próprio) ou sobre as tendências da obra que se referem demasiadamente à ideologia do autor. (Toda esta história leva à emergência de uma família bem estabelecida, bem conforme, que venceu), não poderíamos aqui negar a equivalência das técnicas simples utilizadas e do objetivo buscado e atingido. Livrarias foram roubadas por negros americanos com a única finalidade de obterem exemplares de Raízes. O roubo como meio de cultura. Extraordinária lógica histórica de um livro no ambiente que é assumido pelo autor.