O mesmo e o diverso

 Edouard Glissant
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Comentário: Graciela Ortiz (UFRGS)

Mesmo. O conceito do Mesmo relaciona-se com o de identidade quando a identidade é fechada sobre si mesma, a partir de um discurso homogêneo que se torna hegemônico por se considerar o único possuidor da verdade, negando assim o outro ao negar toda diferença. Glissant afirma que o pensamento hegemônico do Ocidente se enraíza neste conceito de identidade que chama de identidade-raiz, expressão tomada de Deleuze e Guattari, porque a raiz mata tudo o que está ao redor dela.

Bibliografia: GLISSANT, Édouard. Le discours antillais , Paris: Seuil, 1981. GLISSANT, Édouard. Poétique de la Relation , Paris: Gallimard, 1990.

Diverso. O Diverso, que se opõe ao conceito do Mesmo, é próprio da identidade-rizoma, conceito tomado de Deleuze e Guattari, pois o rizoma é uma raiz múltipla que se propaga sem prejudicar as outras plantas. O Diverso é a aceitação das diferenças e a possibilidade de relacionamento com o Outro sem pretender impor verdade nenhuma.

Bibliografia GLISSANT, Édouard. Le discours antillais , Paris: Seuil, 1981. GLISSANT, Édouard. Poétique de la Relation , Paris: Gallimard, 1990.

Oralitura. Maximilien Laroche salienta que a palavra "oralitura" foi forjada por Ernst Mirville em 1971. Para Chamoiseau e Confiant a oralitura tem como figura central o contador crioulo, aquele que vai transmitir os contos, provérbios, adivinhações, que se constituíram, no passo do tempo, no lugar de inscrição do imaginário. Na época da escravidão, durante a noite, o contador relatava essas histórias feitas dos vestígios do passado. Palavras noturnas que diziam dos sofrimentos dos escravos e conformavam uma contra-cultura oposta ao sistema de escravidão. A oralitura foi assim o lugar que representou a forma estética da resistência, da cimarronagem na plantação mesma. Ela foi também o lugar onde se misturaram elementos diversos, da África, animais como o tigre ou o elefante, da Europa, personagens como o Diabo, Deus e ainda elementos vindos dos Caraíbas, dos Indianos, dos Chineses.

Bibliografia: CHAMOISEAU, Patrick; CONFIANT, Raphaël. Lettres créoles , Paris: Hatier, 1991. LAROCHE, Maximilien. La Double Scène de la Représentation . Oraliture et Littérature dans la Caraïbe , Québec: GRELCA, coll. Essais, n.8, Université de Laval, 1991.

Revolução tranqüila. Os franco-canadenses resistiram-se sempre à assimilação britânica, desde que em 1763, passaram a ser uma colônia dependente da Inglaterra. As relações entre o Quebec e o Canadá inglês foram desde então complexas e muitas vezes difíceis. Em 1960 o partido liberal, de tendência nacionalista, ganhou as eleições, o que permitiu o surgimento de partidos independentistas e separatistas. Para muitos, esses anos, que vão desde 1960 até meados dos anos 70, período que abrange o que se chamou de Revolução tranqüila, foram uma época de procura de uma nova identidade. Em 1969 o Parlamento federal reconheceu o bilingüismo do Canadá, segundo um pedido feito em 1965 pela Comissão de Biculturalismo e de Bilingüismo. Em 1976 o partido autonomista quebequense conseguiu o triunfo eleitoral, contudo ele perdeu o referendum feito em 1980 que propunha a condição de soberania-associação para o Quebec. Essa proposta foi considerada como um passo prévio para a independência do Quebec. Gaston Miron considera que o fracasso da Revolução tranqüila deveu-se à falta de uma identidade política. Para Jean-Marc Léger a perda daquela extraordinária oportunidade de renovação deveu-se à tentativa de destruir o passado todo com a justificativa dos erros cometidos naquela época.

Bibliografia Enciclopedia Hispánica. Kentucky: Encyclopaedia Britannica Publishers, 1991. Vol.3 DION, Léon. Une identité incertaine. Internet: www.bibl.ulaval.ca/doelec/pul/dumont/fdchap29.html

Literatura nacional. Segundo alguns critérios a literatura nacional abrange os textos produzidos na língua da comunidade. Segundo outros a literatura nacional é a manifestação artística do projeto de uma comunidade dada.

Bibliografia. CORREA, Alamir Aquino. Para uma história do conceito de literatura nacional . In 5to. Congresso Abralic, 1996.

Função de dessacralização. Trata-se da leitura crítica que a literatura faz dos mitos fundantes. A literatura transgride o discurso homogêneo-hegemônico construído durante a etapa de sacralização para fazer ouvir os outros discursos que foram silenciados e mostrar assim a sua heterogeneidade. A quebra do hegemônico permite de um lado, a percepção das diferenças, de outro, o relacionamento com os Outros, como forma de entrar no Diverso.

Bibliografia: BERND, Zilá. Littérature brésilienne et identité nationale (Dispositifs d'exclusions de l'Autre), Paris: L'Harmattan, 1995. GLISSANT, Édouard. Le discours antillais, Paris: Seuil, 1981.

Função de sacralização . Recuperação dos mitos fundantes com o fim de construir um discurso no qual a comunidade possa se identificar. A sacralização é produto de uma consciência coletiva ainda ingênua ao carecer de uma distância crítica necessária, o que implica o risco de erigir uma concepção da identidade fechada no Mesmo e a elaboração de um discurso homogêneo e também hegemônico por ele estar convencido que é o único que possui a verdade.

Bibliografia: BERND, Zilá. Littérature brésilienne et identité nationale (Dispositifs d'exclusions de l'Autre), Paris: L'Harmattan, 1995.

Escrito ao oral. Glissant alude nesta passagem ao fato do escrito estar se oralizando como ele o demonstra no final desse artigo O mesmo e o diverso com os exemplos da poesia de Braithwate ou de Walcott. De outro lado, Glissant, cuja língua materna é o crioulo, língua oral, salienta que sua produção literária intenta se construir no limite entre o escrito e a fala. Não se trata de reproduzir no texto escrito as formas cotidianas da oralidade mas atravessar o escrito pelo ritmo da expressão oral: repetições, justaposições, acelerações.

Bibliografia GLISSANT, Édouard. Le discours antillais , Paris: Seuil, 1981.

Vestígio. O "migrante nu", como o chama Glissant, é aquele que, trazido pela força, arrancado da sua terra, é implantado num outro espaço e submetido como escravo. Esse migrante perde tradições familiares, ferramentas, religião, tudo o que fazia parte do seu cotidiano. Mas o mais importante é a perda da língua porque os navios negreiros não transportavam pessoas que falassem a mesma língua. O mesmo acontecia nas plantações. Tentava-se com essa prática evitar toda comunicação entre os escravos para evitar possíveis rebeliões. Espoliados das suas línguas maternas, é com os vestígios da memória que os escravos compõem a língua crioula. No passo do tempo, formas de arte como o jazz surgem da mistura dos ritmos africanos executados com instrumentos que não o são, formas artísticas válidas para todos.

Bibliografia GLISSANT, Édouard. Introduction à une Poétique du Divers , Montréal: Presses de l'Université de Montréal, 1995.

Relação. A poética da Relação é uma maneira do imaginário de freqüentar o mundo, levando em consideração a diversidade de todos os povos. Só a aceitação da multiplicidade garante a todas as comunidades um lugar no mundo, nessa totalidade-mundo imaginada por Glissant. Assim a poética da Relação se tece no encontro dinâmico de todas as problemáticas das humanidades, da mistura de todas as histórias particulares que são sempre diferentes. Só a diferença assegura a energia e a preservação do Diverso. Os elementos heterogêneos em contato devem se valorizar sem nenhuma hierarquia.

Bibliografia GLISSANT, Édouard. Introduction à une Poétique du Divers, Montréal: Presses de l'Université de Montréal, 1995. GLISSANT, Édouard. Le discours antillais , Paris: Seuil, 1981. GLISSANT, Édouard. Poétique de la Relation , Paris: Gallimard, 1990.

Segalen. Victor Segalen (1878-1919). Escritor francês que como médico viajou no Taiti, na China, no Tibet. Glissant o considera como um dos primeiros poetas da Relação. No seu texto póstumo "O ensaio sobre o exotismo", Segalen ataca a idéia que a literatura, e acima de tudo o pensamento dominante do Ocidente, tem construído sobre o exotismo. Segalen define a sensação do exotismo como a noção do diferente; a percepção do Diverso sem clichês deformantes. O exotismo é para Segalen, segundo os termos de Glissant, uma Estética do Diverso. Publicou entre outras obras Les Immemoriaux (1907), Stèles (1912). Glissant colocou o título de Introduction à une Poétique du Divers a um dos seus livros, em homenagem a Segalen pelas suas reflexões sobre o Diverso.

Bibliografia: SEGALEN, Victor. Essai sur l'exotisme , Paris: Fata Morgana, 1978. Prefacio. GLISSANT, Edouard. L'intention poetique , Paris: Gallimard, 1997.

Multilingüismo. A coexistência de várias línguas faladas num mesmo espaço-nação. Pensar o multilingüismo é aceitar a multiplicidade das línguas e a sua intercompreensão sem estabelecer hierarquias entre elas. Contudo, no convívio entre as línguas se dá, na maioria dos casos, o fenômeno de disglossia, isto é, uma língua domina a(s) outra(s), o que faz que esta(s) seja(m) inferiorizada(s). É o que ocorre entre o francês e o crioulo na Martinica onde o risco para o crioulo é maior dado seu caráter de língua oral. De outro lado, para existir um verdadeiro multilingüismo, a comunidade não deve sentir que uma das línguas é imposta, pelo contrário, deve existir um livre consentimento no seu uso.

Bibliografia GLISSANT, Edouard. L'intention poetique , Paris: Gallimard, 1997. GLISSANT, Edouard. Le discours antillais , Paris: Seuil, 1981.

J acques Stephen Alexis (1922-1961) escritor haitiano, um dos teorizadores do realismo maravilhoso. Sua vida foi um constante deslocamento entre o Haiti e Paris. Nessa cidade Alexis conheceu Alejo Carpentier, Nicolás Guillén, Jorge Amado assim como Senghor e Aimé Césaire. Em 1955 publicou seu primeiro romance Compère Général Soleil, obra que atingiu um grande sucesso. Nos anos posteriores, sua atividade literária foi acompanhada de uma imensa atividade política. Les arbres musiciens (1957), L'espace d'un cillement (1959), Romancero aux étoiles (1960) o situam num lugar de destaque na literatura do Caribe e no que se chama a "literatura negra". Em 1961 ao regressar clandestinamente ao Haiti é tomado prisioneiro e assassinado pelas forças de Duvalier.

Bibliografia CHAMOISEAU, Patrick; CONFIANT, Raphaël. Lettres créoles , Paris: Hatier, 1991.

Realismo maravilhoso. Alejo Carpentier, na palestra "Lo barroco y lo real maravilloso" pronunciada em Caracas em 1975, afirma que o termo "maravilhoso" deve ser compreendido em relação com o extraordinário, e não em relação com o belo, assim como muitos o entendem. Estabelece também uma diferença entre o realismo maravilhoso e o realismo mágico, termos estes cunhados pelo alemão Franz Roth na década de 20 para definir certo tipo de pintura como a do Douanier Rousseau o a de Chagall. Carpentier considera que o realismo mágico definido nesses termos evoca um certo tipo de pintura onde os elementos reais estão representados através de formas que não remetem à realidade cotidiana. Assim o escritor cubano define o realismo maravilhoso como aquele que "achamos em estado bruto, latente, onipresente em tudo o latino-americano. Aqui o insólito sempre foi cotidiano".

Bibliografia: CARPENTIER, Alejo. Ensayos , La Habana : Editorial Letras Cubanas, 1984.

Rastafari. Marcus Garvey, político da Jamaica, é considerado o ideólogo do rastafarismo. A partir de algumas passagens da Bíblia, Garvey indicou a Etiópia como a Terra Prometida e como o lugar de repatriação dos rastafaris. Ao sustentar a reivindicação da África e de seus valores ancestrais, Garvey tem contribuído à afirmação da identidade negra. Na Jamaica existem comunidades rastas que não cortam os seus cabelos e moram nos morros dedicando o tempo à meditação da Bíblia. Na década de 60 o rastafarismo achou a sua maneira de se exprimir através da música reggae. Bob Marley é um dos expoentes máximos.

Bibliografia: Internet: http://perso.wanadoo.fr/rasta.irie/perso4.htm

Negritude. O termo "negritude" aparece pela primeira vez no livro de poemas Cahier d'un retour au pays natal de Aimé Césaire em 1939. A negritude como reivindicação da identidade negra é anterior ao surgimento do termo. Já em 1920 Marcus Garvey proclamava a volta na África (Rastafari) revalorizando sua cultura. Na mesma época, no Harlem, o jazz nasce como a manifestação musical de maior força. O surrealismo, por sua vez, tentava liberar as forças do imaginário e do inconsciente rompendo com a lógica e a razão dominantes no pensamento ocidental, ao mesmo tempo se voltava para a África e a Oceania fazendo uma redescoberta delas. Em 1932 René Ménil e Thélus Léro, entre outros, publicaram um manifesto "Légitime Défense" onde denunciavam toda forma de assimilação com a França e reconheciam por sua vez a identificação com o surrealismo. Em 1934, Césaire junto a Léon Gontram Damas e Léopold Senghor, poeta senegalês, publicaram a revista "L'étudiant noir" em Paris, na qual era louvada a origem negra dos estudantes martiniqueses, guadalupenses. Intentava-se fazer os estudantes acordarem à tomada de consciência da pertença a uma mesma comunidade de sofrimento, comunidade que tinha sido espoliada durante séculos por causa da cor da pele. No "Cahier d'un retour au pays natal", Césaire se apropria da palavra "negro", usada até então pelo homem branco com um sentido pejorativo, transgride sua utilização conferindo ao termo um sentido de revolta. A palavra "négritude" é o grito de reivindicação da origem africana, de seus valores e de sua cultura assim como uma tentativa de definir uma identidade negra. Com o passo do tempo a noção de negritude tem sido criticada desde diversos ângulos. Recentemente, os autores do livro Éloge de la créolité salientam que a Negritude permitiu a recuperação da parte cultural africana até então amputada, mas que a África não era mais que uma ilusão que tinha que ser ultrapassada para poder se pensar a crioulidade. Glissant, por sua vez, considera a Negritude como um momento de oposição necessária às formas de opressão, mas que é abolida quando o sujeito atinge a consciência de si. Mas o escritor martiniquês toma uma distância crítica ao respeito do termo Negritude porquanto considera que, às vezes, utiliza-se para definir uma essência negra, o que significa permanecer no pensamento do Mesmo.

Bibliografia DAMATO, Diva. Negritude/Negritudes in Revista Através, n. 1, Sao Paulo, 1983 BERNABE, Jean; CHAMOISEAU, Patrick; CONFIANT, Raphaël. Éloge de la créolité , Paris: Gallimard, 1993. GLISSANT, Édouard. L'intention poétique , Paris: Gallimard, 1997.

Aimé Césaire. Aimé Césaire nasceu na Martinica em 1913. Destaca-se como poeta, dramaturgo, pensador e homem político. Em 1934 Césaire, junto a Léon Gontram Damas e Léopold Senghor, fundou a revista "L'étudiant noir" onde reivindicava a identidade negra. No livro "Cahier d'un retour au pays natal" publicado em 1939 aparece pela primeira vez a palavra Negritude. Esse longo poema não teve, no início, uma importante recepção no público, torna-se conhecido ao ser publicado novamente em 1944 com um prefácio d'André Breton. O escritor surrealista francês descobriu Césaire por acaso, quando foi obrigado a interromper a sua viagem para Nova York e permanecer alguns dias na Martinica a causa da guerra. A leitura dos poemas do "Cahier" subjugou Breton. No encontro Breton-Césaire, pela primeira vez, a literatura escrita numa colônia pôde-se medir numa igualdade de forças com a literatura da metrópole segundo Chamoiseau e Confiant. Entre outros livros de poemas Césaire escreveu Les armes miraculeuses (1946), Ferrements (1960), Moi, laminaire (1982). Como autor de peças de teatro, escreveu La tragédie du roi Christophe (1963), tema que pertence à história do Haiti, Une tempête (1968) retoma o tema de Shakespeare atualizando a oposição Caliban, que é agora um escravo negro, e Próspero, que é um colono branco. Muitos intelectuais das Antilhas tomaram uma distância crítica a respeito da atuação política de Césaire. Em 1946 Césaire, que já tinha expressado suas idéias anticolonialistas, decidiu apoiar, como deputado ante a Assembléia Nacional, a assimilação de Guadalupe e da Martinica como estados da França. É esse gesto contraditório que ainda hoje é questionado. Contudo, desde um ponto de vista literário é considerado o porta-voz daquela Negritude que devolveu a parte africana recalcada pelo discurso oficial, restituindo a dignidade. O que leva Bernabé e outros intelectuais martiniqueses a afirmar que são para sempre filhos de Césaire.

Bibliografia BERNABE, Jean; CHAMOISEAU, Patrick; CONFIANT, Raphaël. Éloge de la créolité , Paris: Gallimard, 1993. CONDE, Maryse. Cahier d'un retour au pays natal . Césaire, Paris: Hatier, Col. Profil littérature, 1978. CHAMOISEAU, Patrick; CONFIANT, Raphaël. Lettres créoles , Paris: Hatier, 1991.

Nicolás Guillén (1902-1989) . Poeta cubano engajado no seu fazer poético com fazer político e social. Sua obra se constrói a partir da afirmação do seu passado negro, da procura de uma identidade que o leva a postular uma tomada de consciência da complexidade racial das Antilhas, da sua cultura mestiça, onde a contribuição negra é fundamental. Esse pensamento americano de uma identidade negra americana far-se-á sentir na África. Fernandez Retamar salienta a presença da poesia de Guillén na obra do poeta de Angola Agostinho Neto.

Bibliografia: FERNANDEZ RETAMAR, Roberto. Para una teoría de la literatura Hispanoamericana , Santa Fé de Bogotá: Publicaciones del Instituto Caro y Cuervo, 1995.

Léon Gontram Damas. Poeta da Guiana francesa que foi o co-fundador da Negritude, junto com Césaire e Senghor. Chamoiseau e Confiant chamam a poesia de Gontram Damas de poesia-jazz por seu caráter abrupto onde as palavras se entrecruzam com a cadência algo violenta do jazz. Mesmo que a sua poesia não seja hoje muito lida, Gontram Damas continua sendo considerado importante pela sua procura de uma identidade negra.

Bibliografia CHAMOISEAU, Patrick; CONFIANT, Raphaël. Lettres créoles , Paris: Hatier, 1991.

Edouard Glissant

Edouard Glissant nasceu em 1928 no Lamentin, ao norte da ilha de Martinica, numa plantação de cana de açúcar. Fez os seus estudos de segundo grau no colégio Schoelcher em Fort-de-Frace, capital da Martinica. Com os seus colegas, durante a guerra, fundaram um grupo chamado de Franc-Jeu criando um espaço de debate cultural e político bem como um lugar para publicar poemas. Em 1946 foi à França como bolsista para continuar os estudos obtendo a licenciatura em filosofia na Universidade da Sorbona em Paris. A partir de 1954, Glissant começou a publicar artigos críticos na revista Les lettres nouvelles ; desde essa época sua produção como crítico cultural, romancista e poeta não se deteve jamais, conformando uma vasta obra. O fato de ter nascido numa plantação fez-lhe conhecer a vida dura dos que trabalhavam na exploração da cana de açúcar, a única produção de recursos que vinha da época da escravidão, abolida em 1848. Conheceu também a realidade da colônia com sua herança de racismo, analfabetismo, pobreza, elementos que vão aparecer ao longo dos seus escritos. Durante a sua infância na plantação, Glissant esteve em contato com os contos que os contadores de histórias narravam toda noite às crianças. Espírito sensível, o futuro escritor recolhe os silêncios dessas histórias misturadas que se constituíram no lugar da memória oral, como uma das formas de resistência à opressão colonialista. Cimarronagem que tem sido denominado como oralitura .

A ilha Martinica foi colônia até 1946, ano em que passou a ser um Estado da França. Essa nova forma de dependência e suas conseqüências preocuparam grandemente Glissant quem, em 1967 criou o Instituto martiniquês de estudos com a intenção de constituir um centro de reflexão sobre os problemas antilhanos. Em 1971 iniciou a publicação do jornal Acoma como forma de fazer conhecer os resultados das discussões sobre os problemas culturais, sociais e psicológicos sofridos pela comunidade martiniquesa desde 1946 (ano em que a Martinica deixa de ser colônia e é transformada em um estado francês. Muitas das considerações ali tratadas encontram-se expostas no livro de ensaios Le discours antillais . Entre 1982 e 1988 dirigiu Le Courrier de l'UNESCO , em Paris.

Glissant é um dos vice-presidentes do Parlamento Internacional de escritores que tem sua sede em Estrasburgo, na França. Em 1997 Glissant esteve em Passo Fundo , no Brasil, durante a 7° Jornada Nacional de Literatura com a intenção de difundir o trabalho do Parlamento e tentar chegar a um acordo para que essa cidade brasileira fosse a primeira na América toda a se transformar em cidade-refúgio para os escritores que no mundo se acham em situação de risco.

Seu romance La Lézarde recebeu o prestigioso prêmio Renaudot em 1958. Nessa obra Glissant coloca como tema a relação entre o sujeito, o espaço e a memória bem como os acontecimentos políticos vividos na Martinica na pós-guerra, numa tentativa de desentranhar essa complexa realidade. Este tipo de problemática será um tema recorrente em toda a obra de Glissant. A cada pergunta feita frente à realidade complexa corresponde um livro como uma tentativa de dar uma resposta. Glissant, quem era um escritor quase desconhecido, atingiu com esse prêmio o reconhecimento de um amplo público. Posteriormente seu outro romance Le Quatrième Siècle recebeu o prêmio Charles Veillon em 1964. Nesse romance trata-se de imaginar o passado seguindo os cruzamentos das histórias de duas famílias cujas origens remontam na época da escravidão. Como o passado é opaco e fragmentado, a sua reconstituição jamais é linear, pelo contrário ela se faz através de idas e voltas que indicam os quebres da linearidade. Em 1992 o jurado do prêmio Nobel de literatura devia escolher entre um autor de língua inglesa Dereck Walcott e um autor de língua francesa, Edouard Glissant, ambos os dois escritores do Caribe.

Em 1954 Glissant publicou o livro de poemas Les Indes onde exprimiu suas reflexões histórico-políticas sobre as conseqüências da descoberta de Colombo. No livro de ensaios Soleil de la conscience (1956) reflete sobre o tema do exílio como forma de auto-descoberta. Além dos romances premiados citados acima, devem-se agregar Malemort (1975) centrado nos problemas que decorrem do uso da língua francesa na Martinica e que provocam uma relação conflitiva com o crioulo, língua materna dos martiniqueses. La case du commandeur (1981) apresenta a resistência que alguns martiniqueses opuseram às forças homogeneizadoras do processo de assimilação que se fez na Martinica após 1946. Nesses romances os personagens agem no espaço martiniquês ao passo que no último romance Tout-monde (1993) Glissant apresenta uma multiplicidade de histórias onde os personagens são martiniqueses que saem da ilha e percorrem o mundo procurando se abrir à Diversidade . Seus escritos teóricos, como os livros de ensaios Le discours antillais (1981), Poétique de la Relation (1990), Poétique du Divers (1995) e o último Traité du Tout-monde (1997) constituem obras de referência permanente por suas reflexões sobre o literário, o histórico e o cultural que ultrapassam o espaço geográfico das Antilhas e falam da importância de Glissant.

Contudo, seus escritos teóricos e ficcionais mantêm uma relação dialógica que descontrai as fronteiras entre os gêneros, gesto iconoclasta que relaciona Glissant com muitos dos escritores latino-americanos. Nesse sentido, o nosso passado colonial bem como as diferentes tentativas de construirmos uma identidade são elementos que estão presentes nos diferentes países da América Latina e do Caribe e que determinaram de alguma maneira o gesto compartilhado de questionamento dos modelos herdados, entre eles os literários.

Em toda a sua obra Glissant volta sempre sobre algumas questões entre as quais o passado é central. É marcante a constante preocupação com a reconstrução de um passado comum aos Martiniqueses que só se faz possível através daquelas histórias que, no discurso oficial da História, têm sido abafadas. Histórias que falam da penosa recuperação da memória que os escravos fizeram a partir dos vestígios , dos fragmentos do passado porque os escravos, arrancados da sua terra e trazidos pela força para o espaço americano, foram espoliados não só dos valores e costumes de suas comunidades mas também das suas línguas porque, nos navios negreiros e nas plantações, misturavam-se as diferentes etnias para evitar possíveis revoltas.

Como as histórias são múltiplas e fragmentadas, a forma da escritura torna-se também fragmentada e os gêneros literários na sua divisão clássica não podem dar conta dessa forma de pesquisa do real e do imaginário. Glissant propõe assim a possibilidade de escrever ensaios que sejam romances e romances que sejam poemas desfazendo dessa maneira o fechamento dos gêneros.

Glissant tem um especial interesse por certos escritores como Segalen, Saint-John Perse. Glissant salienta a grande importância que teve para a sua reflexão, a leitura dos textos de Victor Segalen , sobre tudo do Essai sur l'exotisme onde o escritor francês desenvolve a idéia do Diverso . O poeta guadelupense Saint-John Perse exerceu também uma influência marcante na obra poética de Glissant pelo tema das viagens e dos contatos entre culturas diferentes. O escritor americano William Faulkner tem um lugar de destaque na obra do martiniquês. Faulkner rompeu com a tradição baseada na idéia de filiação. A sua tentativa de refazer uma filiação tem como objetivo mostrar a impossibilidade de ela ser traçada, pois as pistas misturam-se e só ficam vestígios das histórias. Glissant escreveu o livro Faulkner, Mississippi (1996) onde analisa minuciosamente os romances de Faulkner e a sua poética definida como uma revelação diferida construída sobre o mistério e a vertigem.

Um outro tema fundamental que percorre os textos todos de Glissant é a questão da identidade. O escritor martiniquês inscreve-se assim na trilha daqueles intelectuais do Caribe que refletiram nessa questão. Glissant pertence a uma época posterior à Négritude da qual ele toma uma distância crítica ao considerar que foi um passo necessário para se pensar a identidade negra e se resgatarem as raízes africanas recalcadas. Contudo era preciso ultrapassar esse momento para não ficar numa posição essencialista, fechada sobre uma suposta identidade negra.

Nos anos 40 e 50 o contato com as obras do pintor cubano Wilfredo Lam, do pintor chileno Roberto Matta entre outros, conduziram Glissant a refletir numa identidade regional. Entre os anos sessenta e setenta Glissant elabora o conceito de Antilhanidade, noção que surge a partir da análise das realidades que as culturas caribenhas compartilham por terem um passado em comum. Trata-se de culturas insulares surgidas do sistema escravocrata das Plantações, comunidades compostas em geral por povos africanos, indianos, chineses que se mestiçaram dando lugar às culturas crioulas. Glissant salienta de um lado, a fragilidade da Antilhanidade ameaçada pelo fato de ela não estar ainda inscrita na consciência das comunidades caribenhas e de outro lado, as dificuldades da tarefa de levar à prática esse conceito devido aos diferentes regimes políticos dos estados assim como às realidades socio-econômicas diversas.

Nesse sentido o artista antilhano está numa estreita relação com o devir da comunidade, pois é ele quem revela e expressa o que as comunidades vivem no real mas de maneira inconsciente sem isso significar uma mistificação da tarefa do autor. Precisa-se de uma voz poética que articule um projeto comum, pois os começos dos povos foram poéticos, basta lembrar a Ilíada, o Antigo Testamento, o Livro dos mortos dos egípcios.

Nos anos oitenta e noventa, Glissant concebe a identidade-rizoma , conceito articulador da poética da Relação que postula uma maneira de freqüentar o mundo, a diversidade do mundo que Glissant chama de Todo-mundo (Tout-monde) . Elabora nesse período o conceito de crioulização .

Para pensar a identidade-rizoma, o escritor martiniquês parte das reflexões feitas pelos filósofos franceses Deleuze e Guattari que opõem à raiz única, que mata tudo o que está ao redor dela, o rizoma que se caracteriza por ser uma raiz múltipla e estender-se sem prejudicar as outras plantas. O pensamento hegemônico de Ocidente constrói-se segundo a idéia da identidade-raiz e do Mesmo que vê o Outro como o diferente perigoso que tem que ser assimilado na generalização do Mesmo ou ser aniquilado. A justificativa da identidade-raiz encontra-se na idéia de filiação, fonte de legitimação do conceito de propriedade assim como de toda conquista de terras e de homens. Oposta a esta concepção, Glissant propõe o conceito de identidade-rizoma que respeita o Diverso , as diferenças consentidas. Assim o pensamento do rizoma, da identidade múltipla, estaria na base da poética da Relação, que concebe a identidade como uma relação com o Outro. A identidade-raiz, ao submeter o Outro segundo o pensamento do Mesmo, apaga as diferenças, em proveito de um humanismo universal tranqüilizador. A identidade-rizoma vê o Outro como projeto de acordo, a partir da aceitação das diferenças.

A diversidade respeitada de todos os povos assegura a cada um, um lugar no mundo, nesse Todo mundo imaginado por Glissant. Esse respeito não se impõe pela força, mas por uma mudança dos imaginários, pela aceitação da idéia que temos necessidade de todas as comunidades, de todos os imaginários para podermos viver. A Poética da Relação, tecida no encontro dinâmico de todas as histórias particulares misturadas, é uma maneira de freqüentar essa totalidade-mundo que não deve ser pensado como um absoluto, mas como um movimento que se refaz constantemente e que por sua força poética tende a se aperfeiçoar.

Em 1995 Glissant publica Pour une poétique du Divers onde retoma o conceito de mestiçagem. Esta noção foi elaborada no livro de ensaios L'intention poétique (1969) para dar uma resposta à necessidade de pensar as culturas como formas híbridas, mestiças, que se entrecruzam de maneira dinâmica. Nesse sentido a especificidade cultural é chamada de opacidade. No novo contexto a mestiçagem é colocada em relação com o conceito de crioulização. A noção de mestiçagem é definida nesse contexto como a interpenetração de dois ou mais elementos diferentes que acabam numa resultante previsível, com poucos erros. Pelo contrário, a crioulização, onde interagem o cultural e o lingüístico, é um processo permanente com resultados imprevisíveis. A crioulização afirma assim na sua conceitualização uma margem de ambigüidade devida a sua imprevisibilidade. Mas que é um dado fundamental-, a crioulização coloca em relação elementos heterogêneos sem privilegiar nenhum deles, sem estabelecer hierarquias.

Na atualidade, Glissant, pela força e profundeza da sua obra toda, é o grande mestre da literatura francófona das Antilhas. Os escritores mais jovens como Chamoiseau e Confiant salientam que a escritura de Glissant constrói o futuro da literatura crioula. Mas além do espaço do Caribe o pensamento glissantiano se constitui numa referência para aquelas pessoas desejosas de refletirem em outras formas, talvez utópicas por enquanto, de pensar as relações humanas.

A escritura literária

A escritura literária na América, sobre tudo de romances, caracterizou-se e ainda se caracteriza pela problematização dos limites entre os gêneros. O nosso passado colonial que temos em comum assim como as diferentes tentativas de nos construirmos uma identidade são elementos que contrubuíram para a desconstrução dos modelos herdados.

Glissant, escritor antilhano com uma imensa produção literária ao longo de mais de quarenta anos, poemas, romances, ensaios e uma peça de teatro, é um escritor que tem refletido sobre essas questões dos limites dos gêneros.

Segundo Glissant, os escritores americanos não têm uma tradição literária como acontece com os escritores europeus, isto faz com que eles tenham a mesma maneira precipitada, brusca de entrar na modernidade. Trata-se para eles de uma modernidade " vivida ", definida por sua imposição penosa se compararmos com a modernidade " amadurecida " que se dá através dos espaços históricos estendidos. As línguas atávicas, que passaram através de processos conflitivos de fixação, chegam num dado momento de suas histórias, a se estabelecer no seu próprio classicismo. Um escritor francês que pretendesse se opor a um modelo determinado de escritura, ele teria a possibilidade de olhar atrás de sim para achar o que ele deseja. Esse escritor "tem detrás dele esse continuum, essa tradição e contra-tradição que estão inseridas na sua história e na história de sua sensibilidade". Os escritores americanos, ao carecerem de uma tradição literária, entram na modernidade de uma maneira abrupta, fora da tradição e da continuidade. Esses escritores têm uma linguagem compartilhada que vai além das diferentes línguas faladas. Essa linguagem é feita a partir de uma concepção semelhante do tempo enquanto duração assim como da relação oral-escrito. Em Le discours antillais Glissant define sua linguagem "Minha linguagem tenta se construir no limite do escrever e do falar" (p.256). Ele afirma procurar não reproduzir a linguagem do dia a dia mas tentar fazer uma síntese da sintaxe escrita e da rítmica falada.

Na modernidade "vivida", as questões discutidas pela modernidade "amadurecida" com respeito ao texto não são pertinentes. Discutir o sistema generativo do texto, fazer do autor do texto não um gênio criador mas o lugar de encontro dos sistemas generativos, essa aventura de desmitificação não interessa à produção literária americana pois segundo Glissant "Temos que desenvolver uma poética do "sujeito", porque durante muito tempo fomos objetivados ou "objetados"" p.257 (i.e. transformados em objetos). "O Nós transforma-se no lugar do sistema generativo, e no verdadeiro sujeito" p.258.

Quando Glissant fala do romance americano inclui a produção na América do Sul, nas Antilhas mas também a obra de certos escritores do Sul dos Estados Unidos como Faulkner. Ele deixa de lado a produção literária do Norte dos Estados Unidos, de escritores como Henry James ou Hemingway pois apesar da modernidade dos temas abordados nas suas obras, eles se apresentam de um lado como os herdeiros da tradição europeia e de outro como o seu ponto culminante. Ao passo que Faulkner rompeu com a tradição baseada na idéia da filiação. A sua tentativa de refazer uma filiação tem como objetivo mostrar a impossibilidade de traçar uma filiação pois as pistas se misturam e só ficam traços, vestígios da história.

Relação história-literatura

Ao longo da sua trajetória, a história foi considerada como fábula, narração ou discurso, cada concepção da história caracteriza-se por uma forma retórica. A História -como enunciado e como vivência- e a Literatura têm uma mesma problemática: estabelecer uma relação coletiva dos homens com seu meio ambiente. Às vezes a consciência histórica pode ser vivida como a relação de um homem com um "Ailleurs" que o transcende e o domina.

O Mito é o primeiro que aparece na consciência histórica, ainda ingênua, a matéria primeira da obra literária, o Mito prefigura a história como memória do futuro.

Para Glissant a lenda é a expressão popular e poética de uma consciência coletiva e o mito é o resumo de um conteúdo consciente de uma pulsão coletiva. No mito -como na Tragédia grega que provem geralmente dos mitos- a harmonia coletiva supõe o sacrifício do herói.

O pensamento religioso primitivo elabora uma concepção do mundo organizando uma gênese e uma classificação para tentar esclarecer a relação natureza-cultura. "Dominar a natureza e sua natureza através de uma cultura foi o sonho do homem ocidental". D.A.p.139 Atitude bem diferente das concepções orientais onde se trata de ritmar a cultura segundo as dimensões cósmicas de sua natureza e da natureza. História e Literatura concordam em submeter a natureza à cultura. "A linearidade do relato e a linearidade da cronologia traçam-se nesse contexto. O homem, o elegido, conhece-se e conhece o mundo, não pela sua participação nele mas porque o homem põe o mundo numa série e o mede segundo a idade dele mesmo, isto é segundo a sua filiação". D.A. p.139

Tentativa da História e da Literatura para organizar a Totalidade num sistema

Shakespeare coloca o problema da legitimidade. Rompe-se com o equilíbrio unificador da Idade Média para entrar na energia diversificada dos Tempos Modernos. Mas no equilíbrio proposto por Shakespeare, Próspero é colocado num plano superior ao de Caliban quem legitima sua superioridade pela cultura, maneira de legitimar o Ocidente. A História e a Literatura construíram a Totalidade criando o homem segundo a imagem do Ocidente.

Na contemporaneidade, a potência, a força trágica "abandonou a aventura coletiva para se concentrar na fulguração dos destinos individuais" D.A.p.147 .

A História com H maiúsculo exclui as histórias que não concordam com a sua visão. A Literatura, como lugar da sacralização do signo escrito, legitima também a pretensão dos povos com uma civilização baseada na escritura de dominar aquilo que tem uma civilização oral.

A História estourada (estalada) iria junto, segundo uma análise lógica, a uma Literatura difratada na qual ninguém possui o sentido. Mas nessa lógica deixa-se de lado o peso da vivência. "A literatura na só é difratada, agora ela é compartilhada. As histórias estão lá, e as vozes dos povos. Tem que se pensar uma nova relação entre a história e a literatura. Tem que ser vivida diferentemente" D.A. p.142

Essa relação diferente entre história e literatura se baseia no que Glissant chama le désiré historique . Trata-se da obsessão da história, das tentativas de elucidação, nunca realizadas na totalidade, de um traço primordial que sempre se subtrai, apaga-se se revelando como antes o Mito. Outra diferença: o Mito afundava na espessura do vivido, a obra atual, personalizada demais, afasta-se às vezes dessa vivência para expressá-la melhor. Se o désiré historique não exprime mais do que o fracasso do personagem do romance que não tem sucesso na busca ou que o tem abolindo a busca, tal vez seja concordar com umas das leis que governam o Mito e a Tragédia: o sacrifício do herói é o que permite a união da comunidade "o herói assume a força coletiva, e é de sua destruição que nasce a concórdia final" D.A.p.148 . (Essa constante da Tragédia no Ocidente é o que a diferencia du Drama que não envolve o coletivo)

Glissant dá como exemplo do désiré historique o romance Absalon! Absalon! de Faulkner onde o desejado tem a ver com a fundação de uma família. O desejo, o conhecimento de uma origem poderia ser mortal. A viagem à origem se enrola em espiral "en direção de (vers) um "mais aqui" ( en-deçà ) que é o contrário da luminosa ascensão em espiral... Esse retorno em espiral só pode provocar a vertigem. A literatura continua lá com um dos aspectos do Mito: seu enrolado" ( D.A.p.148 ). Mas ao passo que o enrolado mítico desemboca na filiação linear, na Classificação ( le Dénombrement ) o enrolado no livro Absalon! relaciona-se com a impossibilidade da busca. O desejado histórico da origem, repetição de uma história revivida, permanece como desejo, trata-se então da negação da história como encontro e superação, e de sua afirmação como paixão.

A impossível volta do herói de " Partage des eaux " (Los pasos perdidos?) para a fonte (source) assim como a volta solitária do herói de "Cien años de soledad" de García Márquez para conhecer sua história são semelhantes ao outro retorno em espiral do romance Abslon! evocado por Glissant que aproxima dessa maneira as duas Américas.

O homem se colocou no centro do Drama, histórico e literário porque era o elegido do conhecimento. Alguns poetas como Rimbaud, Lautréamont, Baudelaire questionaram a realidade e tentaram mostrar o que existe por baixo da aparência fazendo com que o homem seja o objeto (já não mais o sujeito) do conhecimento.

História

A falta de uma tradição literária está em relacionada com a história como memória do vivido, que nós como países latino-americanos temos e não temos em graus diferentes segundo a força de dominação dos discursos colonizadores. Os escritores americanos, obcecados pelo passado, têm o desafio de ordenar uma cronologia embaciada , expressão que descreve o tipo de trabalho a fazer para a reconstrução de uma duração, um passado que não está perdido mais extraviado "E de Faulkner a Carpentier, estamos na presença de espécies de fragmentos de duração que são engolhidos em amontoamentos (acumulações) ou em vertigens".

Vamos apresentar algumas noções recorrentes em Glissant para entender melhor o que está em jogo na Poética da Relação no que diz respeito à problemática que nos ocupa: a escritura literária na América.

A noção de identidade : quando as comunidades chegam a legitimar, pela via do mito ou da revelação, a posse de um território, a identidade se afirma e com ela se afirma a crença no direito de dominar os outros.

O pensamento hegemônico do Ocidente enraíza-se no conceito de identidade e do Mesmo que vê o Outro como o diferente perigoso a quem tem que se assimilar à transparência tranqüilizadora da generalização ou tem que se destruir. A identidade-raiz mata tudo o que está ao redor. Na base da identidade-raiz encontra-se a idéia de filiação, fonte de legitimação do conceito de propriedade e de legalização de toda conquista dos territórios ou dos homens. O Diverso é próprio da identidade-rizoma , conceito que Glissant tomou de Deleuze e Guattari. Glissant opõe à transparência do mesmo a opacidade da diferença aceita. O rizoma é uma raiz múltipla que se propaga sem prejudicar as outras plantas. O conceito do SER é subsituído pelo conceito de ENTE, isto é do ser com , da Relação. "O pensamento do rizoma estaria na base, na origem do que chamo uma poética da Relação, segundo a qual toda identidade se estende numa relação com o Outro" Poétique de la Relation , p.23 . A identidade-raiz ao submeter o Outro segundo as diretivas dadas pelo pensamento do Mesmo, apaga as diferenças em proveito do humanismo universal tranqüilizador. A identidade-rizoma vê o Outro como projeto de acordo, a partir da aceitação das diferenças. "O Mesmo é a diferença sublimada, o Diverso é a diferença consentida" D.A.p.191 .

"Chamo relativo o Diverso, a necessidade opaca de consentir à diferença do outro, e chamo absoluto a busca dramática de imposição de uma verdade ao Outro" D.A.p.256

A diversidade respeitada de todos os povos assegura, a cada um, um lugar no mundo, nessa totalidade-mundo imaginada por Glissant. Esse respeito não se impõe pela força, mas por uma mudança dos imaginários, pela aceitação/assunção da idéia que nós temos necessidade de todas as comunidades, de todos os imaginários para viver. A Poética da Relação é assim uma maneira do imaginário de freqüentar o mundo.

A transparência colocada como valor inevitável é própria ao pensamento do sistema, pensamento dogmático que avança em linha reta e tem como ideal a compreensão total. Durante muito tempo uma parte da humanidade foi olhada, medida segundo os princípios universais que eram os dos povos dominantes. Nesse olhar que atravessava os corpos não se considerava nenhuma diferença. "A generalização é totalitária: ela escolhe do mundo uma parte de idéias ou de contatos que aceita e que tenta impor fazendo viajar os modelos" P.R.p.33

Oposta à transparência há o que Glissant chama de opacidade . A diversidade, a opacidade é o direito exigido pelo errante aquele que vai dizer a Relação. Se o errante deseja conhecer a totalidade do mundo, ele sabe que se trata de uma busca que não acaba nunca. "O errante rejeita o édito universal, generalizante, que resumia o mundo numa transparência e lhe dava um sentido e uma finalidade pressuposta. Ele se afunda nas opacidades da parte do mundo onde ele tem acesso". P.R.p.33

Uma das maneiras de dominação da transparência se exerce através da supremacia da língua que ela impõe tentando aniquilar os imaginários dos dominados. O pensamento da raiz, relacionado com um centro, é sempre "monolíngüe" ao passo que a poética da Relação só se concebe no horizonte do multilingüismo.

A Poética da Relação se tece no encontro dinâmico de todas as problemáticas das humanidades que se inscrevem numa circularidade em volume constituindo a estética do Caos, onde cada particularidade, cada história, tem a mesma complexidade da totalidade. Tem que se salientar que para Glissant cada história particular se tece a partir da paisagem do país, história que não é uma abstração que substitui o conceito de universal, mas um sedimento em conjunção com as histórias dos outros povos, inscritas também na dinâmica global da Relação. Esses sedimentos acumulados, essas misturas dos particulares são por tanto a maneira de se aproximar a poética da totalidade-mundo. Totalidade que não debe ser pensada como um absoluto, mas como um movimento que se refaz constantemente e que por sua força poética tende a se aperfeiçoar. As histórias sempre particulares, sempre diferentes - só a diferença assegura a energia e a preservação do Diverso - tecem a poética da Relação.

A história para Glissant não é simplesmente um assunto dos historiadores, sua reconstrução através dos traços conservados no real é uma tarefa que corresponde também aos escritores pois "saber o que aconteceu ... é a questão que a gente ... não pode não se fazer" D.A.p.149 . O texto literário deve produzir história a partir de uma exploração criadora -e não analítica- dos panos caídos do passado, deve desenredar (esclarecer) uma cronologia embaçada, reconstruir um tempo não perdido mas extraviado. O escritor está em presença dos fragmentos de duração.

Glissant salienta a importância da paisagem como forma determinante na produção literária americana. Se a literatura européia é marcada pela presenca de uma paisagem intimista constituído sobre tudo por dois elementos: a fonte e o prado que desenham um espaço harmonioso pelo contrário a literatura americana está determinada pelo vento, elemento móvel que transforma a paisagem fazendo da sombra da árvore uma grande árvore sem tentar explicá-la. "E por isso que o realismo, isto é a relação lógica e consecutiva ao visível, mais do que em qualquer lado trairia a coisa significada" D.A.p.255 . O espaço americano é aberto, estourado como o tempo.

No que respeita às Antilhas, sua história de escravidão marcou com profundidade o presente pois ela começa com um rompimento (quebre) produzida pelo tráfico de escravos. A partir de lá a falta de uma língua em comum, de uma religião, de valores compartilhados, tudo o que constitui uma visão do mundo, fez com que o estabelecimento de uma memória coletiva fosse muito difícil, memória que normalmente se faz a partir da acumulação de uma história. A memória, construída com riscos, só conserva os traços das histórias que percorrem o passado. A linearidade que caracteriza a História, com H, é aniquilada pela complexidade de histórias. Esse caos da memória deve ser explorado e dito segundo formas que se afastam da exposição consecutiva. "Da mesma maneira... nosso tempo poético ou romanesco não abrange essa impressionante harmonia que, por exemplo, Proust reconstituiu. Um grande número de nós não têm freqüentado seu tempo histórico; nós o temos experimentado... Nossa busca da dimensão temporal não será então nem harmoniosa nem linear. Ela se encaminhará numa polifonia de choques dramáticos... entre dados, tempos inconexos, descontínuos, onde o laço que estabelece relações não é evidente" D.A.p.199

Se de um lado Glissant destaca a falta de um passado cultural (arrière-pays culturel) como apoio tradicional das produções literárias, de outro ele salienta a presença do conto como forma de relato oral decorrente da época das Plantações e mais para atrás das tradições africanas.

Vejamos como essa oralidade vai marcar a concepção literária de Glissant.

O Conto, a diferença do mito que vai do desconhecido (o escuro) para o conhecido (esclarecimento que funda a História e a filiação ) não retraz um percurso datado - a temporalidade como dimensão fundante do homem, conceito ocidental, lhe é indiferente. Conta histórias que não são generalizáveis (a generalização e uma condição indispensável à História) mas que constituem os lugares da memória onde a comunidade antilhana às vezes bebeu para acalmar a sede da carência do passado e exorcismar o fantasma dessa falta imposta pelo discurso da História. Glissante afirma que o conto deu aos Antilhanos o "Nous" onde o Eu está implicado no Nós, o Eu implicado no Outro e o Nós no Nós, escritura da Relação. E ele salienta no Discurso Antilhano em 1981, onze anos antes da publicação do romance Tout-monde : "Dizem-me que o romance do Nós é impossível de fazer, que sempre terá que se fazer a encarnação dos devenires particulares. É um bom risco a correr" D.A.p.153

Voltemos à oralidade do conto. A História que procede por generalização, que se inscreve na tracée da filiação, impõe o escrito como maneira de se perpetuar e afastar os povos que têm o oral como forma da memória. "O escrito é o traço universalizante do Mesmo, lá onde o oral seria o gesto organizado do Diverso" D.A.p.192 . No texto poético oral africano o mistério vem das repetições, de tudo o que a acumulação expressa e não do que é oculto. Esses espessores acumulados constroem uma "duração" na oralidade. Na literatura ocidental, a duração vai pela conta do romance, lugar que corresponde sobre tudo ao escrito (a poesia é o lugar da fulguração, expressão de uma "poética do instante" que se encarrega de dizer o indecidível ). Os escritores que vêm desse contexto de oralidade terão, talvez, uma tarefa a fazer "Finalmente nós não devemos talvez esquecer que podemos servir à conjunção complexa da escritura e da oralidade; contribuir assim com nossa parte para a expressão de um homem novo, liberado dos absolutos do escrito e na procura de uma escuta nova para a sua voz" D.A.p.200 .

A fulguração poética é para Glissant o apogeu do eu que transcende. A repetição, a acumulação das histórias relatadas, repetição que não é tautológica mas expressa uma nova economia da palavra, as "mises en relation", constituem a forma do Nós, que não se dá como transcendência. O Nós da Relação é a base da mestiçagem que como proposição monstra que os povos compósitos não precisam de uma filiação, que o conceito de origem já não é operatório. "A poética do mestiçagem e a mesma da Relação: não linear e não profética, tecida com árduas paciências, com derivados incompreensíveis" D.A.p.251

Em 1995 Glissant publica Pour une poétique du Divers onde retoma o conceito de mestiçagem pondo-o em relação com o conceito de crioulização . A noção de mestiçagem é definida nesse contexto como a interpenetração de dois elementos diferentes que acabam numa resultante previsível com poucos erros. Pelo contrário, a crioulização, onde interagem o cultural e o lingüístico, é um processo permanente onde os resultados são imprevisíveis. A crioulização afirma na sua conceitualização uma margem de ambigüidade devida a sua imprevisibilidade. Glissant diferencia a crioulização da crioulidade seguindo o conceito elaborado por Confiant e Chamoiseau porque Glissant vê nessa noção uma volta à essência, como foi a Negritude na época de Césaire. A crioulizaçao pondo em relação elementos heterogêneos, não privilegia nenhum deles.

A imprevisibilidade das misturas das histórias múltiplas, diversas, é o que constitui a beleza de nosso tempo; as formas possíveis que podem resultar da relação dessas histórias é o que temos que imaginar. Eis por que Glissant afirma "Acho que nós podemos escrever poemas que são ensaios, ensaios que são romances, romances que são poemas. Quero dizer que tentamos desfazer os gêneros justamente porque sentimos que os papéis que foram distribuídos a esses gêneros não servem mais para nossa pesquisa que não é só uma pesquisa do real, mas também é uma pesquisa do imaginário, das profundidades, do não-dito, das proibições" Poétique du Divers,p.93

Para dizer a Relação do caos-mundo, retraçar as misturas, dizer os não-ditos, expressar a força das fórmulas cujo sentido nos foge, dizer a palavra barroca, a partição entre os gêneros, tal como foi feito no Ocidente desde há tempo, não tem mais validade hoje para aqueles que procuram escrever nos traços desse novo imaginário. As vias que devemos percorrer são aquelas de uma escritura híbrida onde a mistura dos gêneros se abre para resultados imprevisíveis.