Brasil - Quebec: em busca do tertium comparationis

Wlad Godzich

Tradução:

Sérgio Levemfous

GODZICH, Wlad. Confluences littéraire: les bases d'une comparison. Quebec : Balzac, 1992. p. 41-55: A la recherche d'un tertium comparationis (Col. L'univers des discours).

Comentario: Sérgio Levemfous (UFRGS)

BRASIL - QUEBEC: EM BUSCA DO TERTIUM COMPARATIONIS

Esse sujeito não tem pescoço, tem cachaço. Querer comparar as literaturas quebequense e brasileira significa trafegar no domínio da suposição: ora a comparação se faz baseada em relações entre autores ou movimentos cuja realidade histórica pode ser facilmente verificada, ora ela remete implicitamente ou explicitamente a uma noção da literatura que seria universal e que admitiria variantes tão separadas quanto o são as produções brasileiras e quebequenses. A primeira tentativa cai por água abaixo desde que se examine um pouco a história das duas literaturas: exceto no período mais recente onde trocas ainda muito dispersas e pouco numerosas aconteceram sob o égide de instituições universitárias, as duas literaturas se desenvolveram em uma ignorância mútua profunda e fácil de explicar. A literatura quebequense ou mesmo, franco-canadense, é de caráter relativamente recente e apenas nutre relações impulsionadas pela literatura francesa e sem dúvida também pela literatura americana, mesmo que os estudos nesse domínio, que permitem esse tipo de afirmação, sejam praticamente inexistentes. A literatura brasileira, por outro lado, foi objeto de numerosos estudos comparativos que concordam quanto ao fato dela ter três momentos: o da dependência inicial dos modelos portugueses, uma primeira emancipação a partir desses modelos para lhes substituir uma enfeudação por outros modelos europeus, principalmente francês, e enfim uma verdadeira independência a partir da qual ela se desprende de qualquer modelo e começa uma vida autárquica ainda mais forte que o português no qual ela se exprime e a separa do resto do mundo hispano-americano e que só lhe abre o pequeno mercado português e luso-africano (que ficou muito tempo sob a ditadura salazarista, cuja esclerose intelectual é inútil lembrar). Nessas condições, um estudo comparativo seria pura suposição sem possibilidade de apoio a fatos tais como contatos pessoais entre autores, recepção contrastada de obras importantes, influências críticas e outros elementos de base do comparatismo bem compreendido. A segunda possibilidade depara-se não mais com a ausência dos fatos a serem analisados, mas com objeções de natureza metodológica: de que direito se postula que a literatura é uma e o que se chama, por falta de melhor expressão, as tradições nacionais, constituam-se tão somente variantes desta literatura? A história da literatura comparada mostra bem que esta se quis herdeira do grande projeto de Poética Universal formulado por humanistas da Renascença tais como Scaliger ou Piccolomini - projeto que foi bombardeado pelo movimento nacional das literaturas européias na época do romantismo. Os comparatistas do fim do último século e do atual tentaram realizar este projeto, reconhecendo nele certos limites, mas mesmo empreendimentos tão abertos para o mundo e pouco dispostos a valorizar um modelo nacional às custas dos outros quanto a história das literaturas da Associação Internacional de Literatura Comparada, não podem somente se abster de um certo eurocentrismo, pois acabam na desvalorização de certas práticas estéticas limitadas no tempo e no espaço e que correspondem aos momentos fortes das literaturas inglesas, francesas e alemãs. Enquanto se tratar de comparar estas literaturas umas às outras os materiais não faltam, mas a partir do momento em que se separa esse núcleo central do conjunto que corresponde à idéia que se faz da literatura, os elementos de comparação começam a faltar, de maneira que ao comparar uma literatura da periferia a uma das literaturas do centro, a primeira manifesta sobretudo as lacunas em relação à segunda. E a situação se torna insustentável, uma vez que se trata de comparar duas literaturas da periferia entre elas.

Assim mesmo tenta-se fazê-lo? Evidentemente existem estudos comparativos sobre literaturas latino-americanas ou sobre literaturas australianas e neozelandesas, mas elas estão subentendidas pela idéia de um reagrupamento, pelo desejo de constituição de um conjunto maior e relativamente homogêneo. Por outro lado, um estudo que compare, por exemplo, a literatura húngara à literatura chilena, ou a literatura norueguesa à literatura neozelandesa (apesar das reais semelhanças topográficas entre os dois países), ou a literatura quebequense e a literatura brasileira inexiste, ou quase. Os pesquisadores devem ter sentido espontaneamente a incongruência de semelhante tentativa: seria uma curiosa comparação como aquela que chegaria à constatação de que as duas literaturas não têm praticamente nada em comum. Mas então, o silêncio dos pesquisadores deve ser interpretado como uma rejeição implícita do projeto comparatista? Significa que esse projeto tem apenas uma amplitude limitada, seja ela circunscrita por uma rede de relações historicamente comprovadas, ou definida por uma relação com uma das literaturas constitutivas daquilo que chamei de núcleo de nossa concepção da literatura? Se assim o fosse, a literatura comparada, enquanto disciplina, teria atingido seus limites interiores: ela dependeria da existência de um certo material histórico por trás do qual se proliferaria sua dívida conceptual a respeito da história da literatura tal como praticada na Europa do século XIX, e ela não poderia sair da referência dessas mesmas literaturas européias. Ou seja, a prática pedagógica corrente que faz com que aproximadamente 80% dos textos estudados em literatura comparada pertençam às literaturas inglesas, francesas e alemãs e que os 20% restantes estão concentrados nas literaturas grega, latina, russa, italiana e espanhola, para só deixar migalhas às outras literaturas, incluídas nisso as ricas literaturas do Oriente Médio e da Ásia, sem falar das novas literaturas africanas e antilhanas, não dependeria do acidente histórico, mas tão somente aplicaria uma regra constitutiva da disciplina.

A constatação da existência desses limites internos da literatura comparada, que qual muitos ficariam tentados a constatar o fracasso da disciplina, quer dizer que ela não tem nada a dizer sobre essas literaturas que lhe parecem escapar? Ou, simplesmente, que a existência dessas literaturas exige uma reconceitualização da disciplina? Essa reconceitualização não poderia entretanto ser assimilada por um simples deslocamento do centro de gravidade do conjunto chamado Literatura. Dito de outra forma, e contrariamente àquilo que se escuta tão freqüentemente nas controvérsias que agitam a universidade americana nesse momento, não basta abandonar o eurocentrismo (cuja literatura americana é parte integrante) para sair dos trilhos em que a atividade literária parece descarrilar. Pois abandonar o eurocentrismo é se condenar a desconhecer o processo formador da literatura tal como a conhecemos.

A literatura é um conjunto de práticas lingüísticas de composição, de escrita, de difusão, de recepção, de leitura, de publicação, de avaliação, de hierarquização, de canonização, de ensino, de transmissão e de imitação. Ela depende de uma rede híbrida e complexa de instituições: editoras, jornais, revistas, universidades e escolas, academias, prêmios, críticas, redes de venda e etc. Ela representa uma cifra importante do produto global bruto. É mais do que evidente que as práticas provenientes da literatura nem sempre foram as mesmas e que apenas progressivamente o modelo presente da literatura encontrou seu lugar no ocidente, como também é evidente que cada uma dessas práticas e dessas instituições passaram por uma evolução diferente em diferentes lugares do globo, mesmo sem que todas se realizem em todos os lugares. Poderia se conceber uma primeira prática de comparatismo sobre esta base: o estudo comparativo das práticas e instituições provenientes da literatura. Basta enunciar esse programa para nos darmos conta de a que ponto ele está distante de ser realizável: em parte a famosa Storia della letteratura italiana publicada pela Einaudi, não dispomos de estudos de uma única literatura que leve em consideração todas suas práticas e instituições e mostrem seus entrelaçamentos.

Essa ausência de estudos, que praticamente não está sujeita a ser preenchida tão logo, não nos impede, no entanto, de encarar uma segunda prática do comparatismo que nos permitiria, segundo ela, considerar costa a costa as literaturas brasileira e quebequense. Essa prática teria apoio na seguinte constatação: o modelo eurocentrista (melhor que eurocêntrico, pois não se trata de um acidente histórico mas de uma vontade de impor seu percurso como o percurso normativo de toda literatura) da literatura é um modelo à vontade hegemônica e às pretensões globais: fortemente ligado, e também parte integral, ao projeto da modernidade, impõe-se pouco a pouco no conjunto do globo como exemplo de modernização, obrigando as práticas locais seja para se alinhar com ele, seja para se redefinir em relação a ele.

Tomaremos tão somente um único e banal exemplo: a literatura de língua árabe possui uma história mais longa e, em muitos aspectos, mais rica que todas as literaturas européias; no entanto ela não deu origem ao gênero que o ocidente conhece por romance antes de conhecer o contato colonial com o ocidente e a imposição da modernização como conseqüência desse contato. O romance, cuja emergência suscita grandes controvérsias no mundo árabe, uma vez que ela necessita de uma nova distribuição e de uma hierarquização dos discursos e registros da língua, acabará por se estabelecer na segunda metade do século XX, e essa emergência vitoriosa será brindada com a concessão do prêmio Nobel ao egípcio Naguib Mahfouz. Notaremos que, como foi o caso ocorrido anteriormente com a atribuição do Nobel ao japonês Kawabata Yasunari (1968), o prêmio recompensa alguém que soube adotar um gênero, a saber o romance, cujas origens são ocidentais e cujo sucesso traça a linha de força do conjunto Literatura, recusa-se a reconhecer que esse gênero sofreu os contragolpes dessa implantação fora da Europa e da América do Norte (1).

Segundo a hipótese que preside nesta Segunda prática da literatura comparada, um escritor brasileiro ou um escritor quebequense, ou mutatis mutantis , um leitor ou uma leitora destas regiões, situaria sua prática na zona definida pelo ângulo da intersecção das práticas locais tradicionais com as práticas hegemônicas da Literatura (a maiúscula designa o conjunto eurocentrista à maneira hegemônica). Esta zona compor-se-ia de empréstimos e de rejeições, de ignorância declarada como de resistência absoluta, e apresentaria em cada caso uma topografia que lhe seria evidentemente peculiar, mas que no entanto comportaria linhas de força ou de escape que alimentariam a reflexão do comparatista.

É a posição deste último que se torna então a mais curiosa: Ou ele se torna o instrumento da Literatura e mede, com efeito, as distâncias que separam as realizações locais do trajeto que esta traça, ou ele remarca (re-traça) as resistências e práticas autárquicas locais em relação ao hegemonismo. No primeiro caso, tender-se-á a ver na literatura um sistema autônomo que se encerra na história, e ele será tão somente um observador privilegiado; no segundo, ele procurará tornar menos autônomo o funcionamento do conjunto Literatura e fará ele mesmo trabalho de resistência. Essa resistência será tanto maior e eficaz se ele procurar tecer novos laços entre as literaturas que não formam o núcleo central da Literatura, pois esses laços ofereceriam modos de circulação dos bens simbólicos que não seriam empregados na malha serrada do conjunto Literatura. Não se trata aqui de fazer do terceiro-mundismo, prática sentimental e ultrapassada, mas de propor e mesmo de apresentar pólos que modifiquem a circulação; dito de outra forma, trata-se de tomar parte ativa na construção daquilo que ultimamente chamamos uma Nova Ordem Mundial (2), ou seja, assegurar que a globalização que está em curso, e que não se pode lutar contra, não seja um feito somente das forças hegemônicas. Por isso é importante rememorar o movimento geral desta globalização, as resistências que ela suscitou, as formas que elas tomaram, e os resultados que elas obtiveram. Lembraremos aqui alguns pontos proeminentes.

A globalização é um fenômeno que, para o literato, comporta ao menos duas dimensões. A primeira é a extensão de um poder sobre territórios cada vez mais vastos e a integração progressiva desses territórios em uma só zona de circulação das mercadorias e das pessoas - o que hoje em dia chamamos de mercado . A segunda é a legitimação dessa extensão e dessa integração pela elaboração de um mercado de circulação de bens simbólicos homólogo ao precedente veiculando objetos que visam reforçar esses dois mercados. Se tomamos um exemplo hoje em dia pouco suscetível de suscitar as paixões, como o império de Alexandre o Grande, constata-se que de fato ele englobava a maior parte das terras conhecidas dos habitantes do Mediterrâneo oriental, et que fez circular em um único grande mercado todos os bens produzidos em seus territórios, desde as sedas dos Indus até os pergaminhos do Nilo. Esse império foi dotado de um vasto empreendimento de legitimação com a criação do museu de Alexandria, inclusive sua famosa Biblioteca: Não se tratava nada menos que de recensear e colecionar todas as atividades e artefatos criados no território do império, de classificá-los e de submetê-los à interrogação da razão, de tal maneira que esta, sob a forma de uma política de organização dos saberes existentes, pôde doravante presidir, desde a capital imperial, até tudo o que se faria no império. Sabe-se que essa obra desconhecida (no Ocidente se conhece, pois ela tem homólogos na China) da organização do saber, apresentando-se como uma coleta inocente dos saberes existentes ou mesmo como um empreendimento de preservação desses mesmos saberes, transformou-lhes radicalmente, medido-os segundo seus próprios critérios: critérios de simplificação, de unificação, de imposição dos modelos únicos, aos quais se deve, entre outros, o texto de Homero tal como o conhecemos (e que substitui as tradições orais dispersas e contraditórias disseminadas através da Grécia), o corpus hipocrático, a própria idéia do classicismo aplicada à literatura da Grécia antiga assim como o cânone desse classicismo e seu instrumento de predileção: a antologia. Esse último se revelou tão potente que continuou a formar os programas escolares até nossos dias (3) .

O museu de Alexandria pode servir de matriz para compreender o modo de funcionamento do duplo mercado que nos interessa: por um lado, ele colhe, reúne, cria, classifica os artefatos e se entrega a um trabalho de acumulação; por outro lado, ele seleciona, valoriza, elabora modelos, lhes dá uma forma prescritiva, segue portanto uma política de investimento a partir da acumulação em curso a fim de determinar justamente o curso e de obter os maiores lucros. Que sentido dar à palavra lucro? Sempre que se refere às práticas alexandrinas, que nada desmentem às dos séculos ulteriores, são julgadas lucrativas todas as práticas que aumentam a coesão do conjunto imperial de um lado e organizam o espaço em uma série de esferas funcionalmente diferenciadas por outro lado. Ou seja, são as práticas que permitem ao processo de acumulação melhor se realizar estendendo a malha em escala global de um lado, e tecendo essas malhas de maneira cada vez mais finas por outro lado. As diferenças não só são toleradas como também encorajadas, à condição que elas sejam funcionais, isto é, que elas se completem umas às outras, e se ajustem de tal maneira que o conjunto forme certamente um mosaico, mas que a unidade prima nos fragmentos constitutivos (4). A diferença deve estar a serviço do conjunto e não ser a expressão de uma resistência a esse conjunto. Se preciso, iremos até suscitá-la (5), pois a dinâmica social se nutre do trabalho da diferença.

As duas dimensões da globalização, mesmo fortemente imbricadas uma na outra, jamais se desenvolvem na mesma velocidade e sua descrição apresenta dificuldades, mas observa-se um processo que marca uma tendência importante: o da sua convergência progressiva - fenômeno que parece em vias de realização em nossa época com a substituição da informação à força de trabalho como força de produção fundamental do modo de produção dominante de nossa época (6) . Pode-se desde já antecipar que a Literatura reterá das literaturas locais os elementos que se prestarão mais à aceleração dessa convergência, enquanto que ela depreciará os elementos que se opõem a ela.

O termo globalização e o exemplo do império de Alexandre o Grande dissimulam o fato que o processo que busco descrever precisou primeiramente passar pela fase da nação e mais precisamente a de Estado-nação. Os mecanismos de acumulação e de integração, continuam, de fato, os mesmos, mas a etapa da nação é decisivo para a configuração do conjunto Literatura. Sabe-se que a vida comercial da Idade Média e da Renascença era organizada em torno das cidades, que estas drenavam os produtos das províncias para vendê-los no interior de redes mais ou menos fechadas, como a famosa Liga hanseática. Os trajetos traçados pelos comerciantes foram quase que imediatamente seguidos por soldados, peregrinos e estudantes, que assim como mercadorias, veicularam notícias, idéias e práticas culturais. É no interior dessas redes que começa a se tecer um discurso social que ultrapassa os horizontes da localidade, do 'país' como diziam então, e que serve como pilar às identidades coletivas que se forjam na Europa moderna.

Esse processo se acelera desde que os príncipes e seus sucessores se dêem conta que a acumulação, e os lucros que dele provêm, podem ser otimizados pela extensão de seus territórios transformando-os em um só mercado sem entraves à circulação das pessoas e dos bens em seu interior, mas com formidáveis barreiras traçadas sobre sua circunferência. Cumpre-se então um profundo trabalho de saturação nacionalista que deve por um lado nivelar as diferenças interiores, e por outro lado criar novas em sua circunferência. Busca-se então dissolver as distinções que existem sobre o território dito nacional favorecendo a extensão da língua do príncipe e os valores da corte ou do amálgama constituído pela corte e as oligarquias mercantis, embrião do futuro aparelho estatal. Esse trabalho nacionalista se apóia na imprensa, que, pelo viés dos privilégios reais, se torna um instrumento de propagação da nova ideologia da identidade coletiva nacional, cuja tarefa é convencer aqueles a quem ela é inculcada que as antigas distinções são expiradas e obscurantistas, enquanto que as novas são fundadas ao mesmo tempo na natureza e na história. É a época em que se fala de raças francesas, inglesas ou alemãs. A nação, como indica sua etimologia, é uma característica que se leva consigo desde o nascimento, e a humanidade se dividiu naturalmente em nações. O Estado se encarrega de velar pelo bem estar da nação, e com essa finalidade formula um grande projeto pedagógico que não é nada menos que a aculturação das pessoas nascidas em seu território e ligadas por vários tipos de práticas (culinárias, vestuárias, religiosas, higiênicas e evidentemente lingüísticas) elaboradas pelas tradições locais na nova cultura nacional que se apresenta como um prolongamento dessas práticas, cuidadoso em evitar os inevitáveis conflitos que a aproximação e a fusão delas perigam acarretar.

A Literatura desempenha um papel de primeiro plano na naturalização desse espaço nacional. Ela é o cadinho do discurso social da nação: faz o inventário dos discursos existentes, cria, classifica e explora as combinações possíveis para consagrar alguns discursos e banir outros. Transforma o enraizamento local em elemento do folclore nacional. Legitima o Estado nascente dando a ele uma genealogia cultural que faz com que sua emergência presente seja percebida como a realização e a finalização de um longo processo de gestação alimentado pelo desejo obscuro de sua existência. Ela contribui com as instituições que são de seu meio (escolas, preceptores, universidades, academias, editoras, livrarias, bibliotecas, etc.) até o estreitamento da rede do Estado sobre o território que é doravante o seu.

Esta fase nacional e estatal da globalização (cuja lógica é inerente ao capitalismo) não deixa de suscitar resistências que tomam formas diferentes através dos tempos, desde as insurreições medievais, direcionadas muito mais contra o novo poder das cidades que contra os detentores da ordem feudal, até as guerrilhas revolucionárias contemporâneas. Até a Revolução Francesa de 1789, essa resistência se manifesta sobretudo em ações espontâneas na ocasião de um aumento dos preços ou dos impostos de dinheiro, de trabalho espontâneo ou forçado. Mas dando seqüência ao Congresso de Viena que representa uma primeira tentativa de aplicação de uma Ordem Mundial (sobretudo europeu fica submetido aos acordos do Tratado de Paris, exceto no que diz respeito à África do Sul e parte das Antilhas, (7)), a própria resistência toma uma forma cada vez mais organizada que se divide em duas tendências principais.

Seja porque ela provém de agregados de populações que se recusam a se deixar reduzir pelo processo nacionalitário do Estado no qual foram inseridas, e ela toma, então, a forma de um movimento de libertação nacional que procura se separar do conjunto no qual ele é englobado para criar seu próprio Estado. Evidentemente é o caso, no século XIX, da Polônia e de outros países da Europa central, e conhecemos o êxito dessa forma de resistência na segunda metade do século XX, visto que ela deu origem a mais de cento e vinte novos Estados desde o fim da Segunda Guerra mundial. Ou então, ela se opõe às múltiplas transformações da ordem social que se tornaram necessárias devido a implantação de um mercado cujos limites coincidem com os do Estado, e ela assume, assim, a forma de um movimento social que pode ser revolucionário ou reformista. Os movimentos socialistas, comunistas e sócio-democratas são os melhores exemplos disso. Eles têm em comum com os movimentos de libertação nacional o fato de aspirarem tomar o controle de seu Estado e de organizar o espaço social.

Essa última característica é de primeira importância para nosso assunto: ela revela que as forças que se opõem à globalização, tanto quanto aquelas que são seus agentes, vêem na forma Estado o instrumento privilegiado e o lugar por excelência de sua intervenção (8) . Esse acordo subjacente das forças antagonistas está no centro de muitos mal-entendidos, e em particular aqueles concernentes a Literatura. Efetivamente, vê-se que esta, que tem parte ligada com a forma Estado, pode tanto fazer parte do arsenal das forças de globalização quanto daquelas que se opõem a elas tanto que essas últimas ligam sua sorte à conquista do Estado . É por isso que o perfil geral da Literatura, de fato, mudou muito pouco durante todo esse período (9): ele fica restrito a uma lógica da representação cuja hegemonia se explica pela dialética da acumulação e do investimento descrito anteriormente (10).

Há motivos, portanto, para se distinguir entre duas formas de resistências: as que se opõem a certos aspectos da globalização sem contudo colocá-la em questão, por um lado, e as que tomam a globalização por alvo, por outro. Nesse caso, também é necessário ficar atento e não concluir demasiado cedo que aquilo que um movimento ou mesmo uma pessoa opõe à forma Estado, por exemplo, opõe ipso facto à globalização, ao menos em nossos dias, pois parece que ela é que doravante está em vias de ultrapassar a forma Estado para sua realização. Basta evocar a existência das grandes multinacionais, a aceleração dos câmbios financeiros em escala planetária, a formação de conjuntos transacionais como a Comunidade Européia, o funcionamento dos meios de comunicação como a cadeia CNN, tão somente mencionar os exemplos mais óbvios, para ver que o Estado é mais um obstáculo para seu desenvolvimento que qualquer outra coisa.

Mas ao mesmo tempo nós não assistimos a uma ruína do Estado, muito pelo contrário. Primeiramente, temos visto uma proliferação do número de Estados, e esse processo, que acaba por se enriquecer com a implosão da União Soviética, está longe de se extinguir, visto que escoceses, corsos, catalãos, bascos, eslavos, para só mencionar exemplos europeus, fazem, hoje em dia, valer seu direito à independência e ao controle de um Estado próprio, como o Quebec continua a fazê-lo. É bem provável que todos esses desejos sejam satisfeitos, pois a independência que hoje está em questão não tem mais nada a fazer com a criação de um mercado nacional fechado. É uma independência na interdependência, que coloca em questão noções de base como a da soberania. Efetivamente, a globalização passa por um estreitamento da rede dos Estados que liga tanto esses últimos quanto o Estado liga seus cidadãos, de tal maneira que assistimos a um duplo processo: proliferação do número dos Estados e, ao mesmo, tempo restrição de suas zonas de competência em favor das instâncias de decisão cuja forma não é nada fácil de se distinguir pois não obedece mais à antiga lógica da representação, o que é explicado pela conjunção de três tendências. A primeira é a dependência cada vez mais aguda da informação como força de produção. Pois, como sabem todos os literários, o efeito de mise en abîme - implacável desde que a informação tente se representar por si mesma-, é um meio dos mais eficazes para desmantelar a representação. A segunda: a aceleração dos movimentos financeiros e o fato que os diferenciais de valor serem calculados sobre a rapidez dos câmbios, marcam nossa saída do dinheiro-mercadoria visível e introduzem o dinheiro-unidade de conta que se manifesta como impulsão eletrônica e, o que é mais importante, depende inteiramente da existência de um sistema de crença tão forte quanto a fé que o anima. Portanto é a era dos pecunioe absconditoe que, como a do deus absconditus de outrora, só valoriza a representação para dela fazer um espaço ao mesmo tempo limitado e com estratégias decididas em outros lugares. É o que os Situacionistas chamaram "a sociedade do espetáculo". A terceira tendência diz respeito precisamente a esse "outrem", domínio do fazer histórico cujo "lugar" e a natureza hoje continuam a escapar à teorização e que, portanto, eles constituem a tarefa mais urgente. Em sua ausência, não se sabe quem são os atores da história nem mesmo qual forma ela possui.

É aqui que se joga, hoje em dia, a sorte da Literatura. Se constatamos que ela adere ao novo estado da globalização (o romance latino-americano como romance transnacional, por exemplo, ou a promoção de escritores como V.S. Naipaul ao status de escritor "universal", ou ainda a proliferação das práticas metaficcionais como distanciamento em relação à hegemonia da representação), ou seja, que ela abandona algumas de suas ligações com a forma Estado - o que alegra certos comparatistas - , ela continua contudo a ser ensinada e estudada na base da nação-Estado como ator da História. Este ensinamento é cada vez mais contestado, muito freqüentemente de maneira confusa, pela produção de outros grupos, cujo princípio de coesão reside na consciência compartilhada de uma comunidade de crenças ou de práticas, e que eu chamaria de comunidades de consciência: movimentos de mulheres, de algumas minorias étnicas, os mundos de integrismos religiosos, as zonas de culturas alternativas , os mundos das orientações sexuais, etc. Literaturas nascem nas dobras desses mundos e elas reivindicam uma identidade diferente e diferencial. No conjunto, elas não passam mais pela instância do Estado mas também não estão mais ligadas à globalização; é por isso que se tende a representá-las como práticas residuais, zonas inassimiladas da modernização, ao passo que elas talvez sejam lugares a partir dos quais são elaborados, sobre a própria irredutibilidade que os funda, os pólos de um mundo heteronômico em que os modos de circulação não estariam a serviço de uma acumulação centrípeta mas que permitiriam espaços de acumulação diferentes, fontes de novas riquezas.

É em relação a esse processo complexo e diferenciado que os estudos comparativos podem se desenvolver. Todo comparatista sempre soube que a comparação exigia sempre um tercium comparationis . Muito freqüentemente esse terceiro termo fica implícito, o que permitiu valorizar um dos dois termos da comparação e de fazer assim inclinar a balança em favor dos modelos hegemônicos. Tornando explícito o terceiro termo da comparação escapamos dessa opinião preconcebida. Adotando o desenvolvimento da Literatura e das literaturas em relação à globalização, asseguramos não somente o trabalho de comparação mas também, como salientei a pouco, a obra de resistência, pois os laços que se tecem exigem que se deixe fiar certas malhas dessa globalização e que se oponha a ela uma outra visão da ordem mundial.

Assim poderíamos, a título de simples exemplo, nos perguntar efetivamente quais são as relações da literatura brasileira e quebequense em relação a esse processo, e poderíamos comparar obras tão diferentes umas das outras como As viagens de Marco Polo de Alain Grandbois (11) e Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade (12). Elas não parecem ter nada de traços em comum e seus autores absolutamente não se conhecem. A primeira se apresenta sob a forma de uma narração histórica de composição clássica enquanto que a segunda é fragmentária, polêmica e sarcástica e coloca em questão a própria idéia do livro cuja primeira é um exemplo. E no entanto, desde que os considere na ótica proposta aqui, a comparação se torna possível. Seu primeiro elemento seria o silêncio. A crítica considerou, de um lado e de outro mas mais em Oswald, que essas duas obras não diziam um certo número de coisas. Grandbois não nos dá o itinerário de Marco Polo, um itinerário que conhecia, entretanto, muito bem para ter percorrido uma parte; Oswald desempenha mais abertamente o papel do intertexto pelo viés das ilusões, mas dá ao leitor o sentimento de ter tido acesso somente a uma parte da obra. Essas estratégias do não-dizer não são provenientes de uma concepção da obra aberta modernista, mas de uma concepção da relação dessa obra com a história.

Grandbois retoma a narrativa fundadora da globalização, a do mercado europeu que vai abrir a China aos mercados da Europa, colocar em movimento o processo das grandes descobertas e desencadear a globalização capitalista, mas seu Marco Polo não é a figura heróica da narrativa fundadora. Ele é a figura de várias ambivalências sobre a qual são exercidas múltiplas pressões, e em particular de um pai que encarna a lei e o Estado, e a dos irmãos que o tomam nas malhas da solidariedade e da concorrência. Marco Polo teve dificuldade para encontrar seu personagem histórico sob a pluma de Grandbois: hesitante, ele não sabe se deve se afirmar ou se submeter; dessa hesitação nasce a introspecção que o conduz ao seu maior feito, que Grandbois é o primeiro e talvez o único a reconhecer: a proeza de Marco Polo não foi de ter feito a viagem à China mas de tê-la narrado, pois é esse último e não o primeiro que mudou a face do mundo.

Grandbois também fez uma viagem para a China, e que China! Visto que é aquela que está em vias de viver a revolução e que excita tanto Malreaux de A condição humana , para fazer uso de um exemplo de um escritor contemporâneo. Grandbois publica seus poemas na China, em Hankéou, mas não faz a narração de sua viagem. O autor de Né à Québec não procura transportar para seu país natal aquilo que viu na China. Quase à maneira que um cachorro marca o território que percorre, ele se contentará de deixar um rastro: um quebequense passou por aqui. E ele voltará para se perguntar, enquanto transcorre a Segunda Guerra mundial, sobre as origens da globalização. Não é necessário se deixar levar ao classicismo da expressão de Grandbois. Ele não procura se inserir na história mas meditar sobre o curso daquela que lhe é oferecida e recusar as formas que ela assumiu até hoje, quer sejam elas do Estado ou do grande escritor, inspiração de seu povo.

É o terreno que ele divide com Oswald de Andrade: o da viagem. Mas sua viagem está naquilo que Malreaux chamará, após Walter Benjamin, Le musée imaginaire , não para seguir uma história do progresso ou desvendar constantes transhistóricas como Malreaux nos convidará a fazer mas, antecipando a respeito de Benjamin, para fazer aparecer a economia secreta, que é a da globalização. Inútil desde então fazer o trabalho de Penélope e de tecer e desfazer e tecer novamente o que essa globalização já teceu tão bem. Mais vale testar a solidez de tudo praticando grandes rupturas, pois são esses buracos na superfície que permitem melhor ver os laços secretos que mantêm o conjunto.

Serafim Ponte Grande se apresenta como tendo sido escrito no auge do crack de Wall Street de 1929, e desde a página de rosto ele coloca em questão o próprio principio que governa Wall Street - o da propriedade - , no lugar do copyright tradicional, lê-se: "Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas - São Paulo - 1933". Essa reformulação do texto da Convenção de Berna, adotada inicialmente em 1886 e revisada em 1928, é freqüentemente citada pela crítica como exemplo do caráter burlesco da escrita de Oswald. Pois esse texto, publicado em 1933 portanto, exprime sucintamente o conteúdo do protocolo de Estocolmo na Convenção de Berna de 1967. Esse protocolo, bastante contestado e citado por muitos como a primeira convocação para aquilo que será mais tarde o afrontamento entre os Estados Unidos e os países do Terceiro Mundo no seio da UNESCO, tinha sido adotado por insistência dos países recentemente descolonizados para lhes permitir que se apropriassem das obras das culturas do centro sem ter que pagar direitos autorais, pois eram incapazes de fazê-lo. Oswald era, portanto, contra o modo de organização da circulação dos bens simbólicos, não somente nessa apresentação inicial mas aplicando no interior do livro: ele traduz, reproduz e deforma os discursos mais variados. Segundo sua própria terminologia, ele os consome devorando-os e os transforma apropriando-se deles.

Alain Grandbois e Oswald de Andrade talvez não tenham tido nada em comum, exceto o fato de terem refletido sobre o fato que eles escreviam a partir de um ponto particular do globo, enquanto que esse globo era tomado nas malhas de uma globalização que ia ficar mais densa. Cabe a nós tecer, nós também, laços entre eles, não para aumentar a rede mas para salientá-la e para tecer belas escalas de fuga.


(1) A esse respeito notaremos que o comitê do Nobel parece cada vez mais inclinado a distinguir entre centro e periferia atribuindo os prêmios Nobel a poetas do centro (Brodsky, Elytis, Seifert, Montale, Aleixandre) e a romancistas da periferia (Soyinka, - que é também dramaturgo -, Márquez, Mahfouz, Gordimer). Nesse caso, seria interessante se perguntar a qual periferia pertencem Singer e Canetti.

(2) Devo lembrar que antes de sua retomada e sua banalização pelo presidente americano quando da recente guerra do Golfo, essa expressão tinha sido o slogan dos países contra-hegemônicos da UNESCO que reclamavam evidentemente a aplicação de uma Nova Ordem Mundial da informação, que não seria controlada pelos países do centro e sobretudo os Estados Unidos. Aliás, basta pensar nesta guerra para ver o que a existência de uma alternativa da informação teria podido significar. A respeito da batalha da UNESCO vale consultar William Preston Jr., Edward S. Herman, e Herbert I. Schiller, Hope and Folly. The United States and UNESCO, 1945-1985, Mineapolis, University of Minnesota Press, 1989.

(3) Vale consultar o primeiro capítulo do livro de Georges Gusdorf, Les origines de l'herméneutique, Paris, Payot, 1988.

(4)Teremos reconhecido não somente a forma da arte pública privilegiada pelo império romano que, a esse respeito, se considerou o herdeiro de Alexandria, mas também a metáfora inevitável do liberalismo canadense que o opõe ao melting pot americano.

(5)Não precisamos ir muito além para explicar o entusiasmo dos círculos governamentais australianos e canadenses pelo multiculturalismo: o trabalho de redução das diferenças reais nesses dois países é bastante avançado e pode chegar a um nivelamento sem relevo que ameaça o processo de acumulação de êxtase. Por outro lado, nos Estados Unidos a redução sempre se deparou com o obstáculo da raça (ou mais exatamente do racismo), linha de ruptura constitutiva da sociedade americana, em torno da qual desembocam as outras diferenças. Nessas condições, o multiculturalismo representa um pólo de resistência. Para se convencer dessa diferença entre as duas situações, basta se lembrar que nem os autóctones do Canadá nem os aborígines da Austrália não sucumbiram em nome das políticas de multiculturalismo de seus governos respectivos.

(6)O que acarreta inevitavelmente a famosa crise de legitimação que está em evidência em pensadores tão variados como Habermas e Lyotard, já que a função de legitimação que remeteria diretamente à informação (nome que se dá ao saber sob a forma mercantil) não pode mais ser preenchida por esta desde que se possa legitimá-la.

(7)Para mim, é impossível abordar aqui a questão das possessões espanholas e portuguesas nas Américas cujo destino se discute também em Viena, mas com um modo negativo: é precisamente porque sua sorte, com todos os fins práticos, é passada sob silêncio que desencadeia o processo de sua liberação.

(8)Mesmo se os movimentos sociais e comunistas se pretenderam internacionalistas, para tanto eles não renunciaram a fazer passar sua política pela conquista do Estado. Apenas os anarquistas são exceção a esse respeito.

(9)Mesmo se ele pertence à história da literatura e nos faz acreditar o contrário multiplicando movimentos e tendências. Todas essas mudanças ficam restritas ao modelo Literatura.

(10)Essa dialética consiste em fazer outra coisa com a mesma a fim de fazer mais a mesma coisa. Eis a razão de ser econômico na representação.

(11)Ottawa, Fides, 1969, col. "Nénuphar" (publicado originalmente em 1941 pela editora Valiquette).

(12)São Paulo, Global Editora, 1984 (publicado originalmente en1933).