Brasil - Quebec: em busca do tertium comparationis

Wlad Godzich
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Comentario: Sérgio Levemfous (UFRGS)

Multiculturalismo e o tertium comparationis

Apresento aqui um depoimento de quem diretamente vivência a problemática apontada referente ao estudo comparado de literaturas "excêntricas" (termo empregado por Hutcheon). Entendo por "excêntricas" não apenas aquelas que distam do eixo europeu, formador de modelos e de conceitos basilares para a crítica literária, mas toda aquela que se situa (não na geografia mas no status) à margem dos modelos consagrados.

É evidente que os modelos europeus, pilares da hegemônica "Literatura", nos servem até hoje como parâmetro ao analisarmos ou cotejarmos literaturas emergentes, afinal tanto Brasil como Quebec tiveram suas influências provenientes desse pólo cultural. Rejeitar essas heranças é coisa do passado, trata-se agora de se reapropriar ou, como prefere Walter Mozer, de fazer uma reciclagem visando à criação de novas composições, de novos cânones.

Desde os primórdios, o trabalho do comparatista permite desvelar realidades desconhecidas a partir da aproximação a outras já consagradas. É nesse sentido que vejo a importância da Literatura , sob a condição de que não se estabeleçam graus qualitativos desta em relação às outras. Segundo o autor, não faltariam elementos ao comparar literaturas inglesa e francesa, por exemplo, entretanto se a relação for entre literatura periférica e literatura do centro, constataríamos lacunas na primeira em relação à segunda. Uma terceira situação seria comparar duas literaturas periféricas e, nesse caso, o pesquisador poderia sentir-se desprovido de elementos suficientes para o intento ou constatar que elas pouco têm em comum.

Os pontos de contato entre essas literaturas periféricas (e excêntricas) me parecem estar no empenho em manifestar uma personalidade própria e na compreensão e valorização do contexto histórico no qual estão inseridas sem contudo negarem crises e status cultural, numérico ou lingüístico, de algum modo, desfavorecidos.

Passada quase uma década da primeira publicação do artigo de Godzich, já não é tão raro encontrar estudos comparativos entre literaturas ditas periféricas, embora numericamente estejam ainda aquém das expectativas.

Há algum tempo venho trabalhando com literatura quebequense e procurando estabelecer pontos de contato e mesmo incongruências com a literatura brasileira. Parece-me que a afirmação dessas literaturas passa por uma profunda reflexão sobre a questão identitária: identidade literária adquirida à medida que, pelas mais variadas óticas, se consegue realizar no discurso uma composição imagética das realidades e irrealidades que se tecem destecem nas sociedades em questão. Levar em conta o contexto social é, ao meu ver, fundamental na análise dessas obras, pois grande parte tem dispensado especial atenção ao aspecto transcultural.

A tendência que atentou para a valorização do espaço multicultural, no Brasil como no Quebec, tomou corpo a partir dos anos 70 (1). Nesse último, embora inicialmente se tenha insistido em uma literatura que postulava uma unidade nacional, a própria dificuldade de se estabelecer essa unidade acabou desencadeando a consciência de que o elo estava justamente na diversidade étnica e cultural que o compunha.

Tendo um histórico de vagas migratórias mais recentes que no caso brasileiro, a busca de uma afirmação identitária é ainda mais premente no Quebec. Ali, prevalece a imagem de um indivíduo que se plebiscita constantemente sobre sua condição perante o Canadá anglófono e perante o próprio meio em que está inserido, onde as mais diversas culturas e etnias se entrecruzam. A literatura brasileira, por sua vez, não deixa de pautar a multiplicidade de etnias, culturas e as decorrências desse convívio. É o que podemos constatar, por exemplo, nas obras de João Ubaldo Ribeiro entre outras. No Quebec, os romances de Régine Robin têm por tema a adaptação da comunidade judaica no contexto quebequense , lugar que abriga igualmente outras culturas. Pode-se obter por aí, no processo de inscrição no meio, elementos que nutririam uma comparação com as obras, por exemplo, de Moacyr Scliar, que também aborda a problemática da identidade judaica no Brasil.

Atravessamos um processo de globalização no qual convergir é a palavra de ordem, exaltando, é claro, as diferenças, contanto que, como afirma Godzich, elas estejam a serviço do conjunto e não sejam uma resistência a ele.

Parece que ao vermos essas literaturas mencionadas colocarem em evidência aspectos particulares, problemáticas referentes ao território em que se encontram, estamos diante de um trabalho de auto afirmação para que, a partir do esforço em equacionar uma consciência, uma identidade própria (atividade nunca concluída e sempre recomeçada), seja encontrada a forma ideal de inserção ou de resistência à ordem mundial.


(1)No Brasil, outras manifestações literárias já sinalizavam bem antes esse caminho, como, por exemplo, a antropofagia oswaldiana por volta de 1928.