O gaúcho

François-Paul Groussac
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Comentário: Franklin Cunha (médico e escritor)

François-François-Paul Groussac nasceu em Tolouse em 15 de fevereiro de 1848. Desejando fazer uma viagem ao redor do mundo, tomou o primeiro navio que partia de Bordeuax, sem saber seu destino. Veio, assim, aportar em Buenos Aires , em fevereiro de 1866. Completara dezoito anos, não falava espanhol e não tinha profissão.

Eram os dias da guerra do Paraguai e Groussac encontrou, segundo suas próprias palavras, " um ambiente de maneiras demasiado rudes e paixões demasiado fortes". Embora jovem, teve uma formação clássica na França, o que lhe possibilitou a nomeação para professor de matemática no Colégio Nacional, em 1870. Antes, porém, tivera rápida passagem pelo interior do país onde se impregnou da poesia dos pampas e conheceu, com sua perspicácia, o cerne da alma argentina.

Não demorou a fazer amizades com figuras da incipiente intelectualidade portenha, principalmente com os colaboradores e diretores da Revista Argentina a cujas tertúlias Groussac assistia. A partir desse núcleo cultural, o nome do intelectual francês logo chegou aos ouvidos de Nicolás Avellaneda, Ministro da Instrução Pública do presidente Sarmiento que o nomeou, no ano de 1871, professor em Tucumán. " País feliz e anos felizes aqueles - escreveu Groussac - em que um ministro da nação e candidato à presidência se desviava das patranhas políticas para atender a um pobre rapaz estrangeiro" Este país que Groussac conheceu palmo a palmo, antes que as ferrovias e a imigração o tivessem transformado, era o mesmo das lutas pela Independência e da anarquia. Devido ao isolamento das províncias, tanto os aspectos das cidades como os costumes e os caracteres étnicos, poucas mudanças haviam ocorrido desde os primeiros desbravamentos.

Tucumán... "Natureza exuberante, em formas, matizes e fragrâncias; existência patriarcal, cheia de rasgos originais e saborosos, em que o tempo não valia nada e, como se dizia: a vida dava para tudo". Ali viveu onze anos, onde ensinou, estudou, escreveu, participou das contendas mais apaixonastes e fundou um lar. Depois de alguns anos de trabalho no Colégio Nacional de Tucumán, foi a seguir nomeado diretor de ensino da província e logo inspetor nacional de educação, cargo que exerceu de 1874 a 1878.

Entretanto, suas atividade não se limitaram às tarefas docentes nos anos de Tucumán. Sua vinculação com Avellaneda e com a sociedade local determinaram sua definição política. Foi jornalista combativo e influente pois naqueles dias um escritor era uma força. Estas campanhas jornalísticas de Groussac têm importância porque nelas ele fez seu aprendizado definitivo de escritor do idioma espanhol. Mergulhado no estudo dos clássicos, foi adquirindo cada dia maior destreza no manejo do vernáculo e, ao deixar Tucumán, dois lustros mais tarde, estava apetrechado para alcançar o posto que hoje ocupa na literatura castelhana.

Além de comentários do cotidiano, publicou inumeráveis artigos literários, impressões da natureza e da arte, silhuetas de grandes escritores, versos, crônicas musicais, etc.

Mantinha contato com seus amigos de Buenos Aires por meio de artigos que enviava para A Tribuna. Entre eles lembramos uma análise da Excursão aos Índios Ranqueles do general Mansilla e uma carta aberta ao presidente Avellaneda, a quem refutava suas opiniões sobre a necessidade da dor como elemento indispensável à existência dos grandes poetas.

"País feliz e anos felizes aqueles", onde um presidente da República verseja.

Em 1882 publicou seu Ensaio histórico sobre Tucumán, escrito por encargo do governo provincial para figurar na "Memória" apresentada na Exposição Continental. Situou os acontecimentos tucumanos dentro do quadro da história argentina, de cujo desenvolvimento geral o livro contém descrições de positivo interesse. A vida dos indígenas anterior à chegada dos espanhóis, a conquista, a legislação colonial, a realidade de sua aplicação, o caudilhismo até os dias dos governos estáveis, aparecem estudados com abundância de informação.

Groussac viveu na Europa durante o ano de 1883. Tinha quase tantos anos de vida argentina como de francesa. Era um desconhecido em sua pátria, porém, logo se tornou notado a partir da publicação no Le Figaro de um ensaio sobre L'Evangeliste de Alphonse Daudet. O artigo apareceu em primeiro plano, com um cabeçalho elogioso. Assim ficou vinculado ao grande novelista, em cuja casa conheceu a Zola, a Edmond de Goncourt e a muitos outros contemporâneos célebres. Freqüentou o salão de Victor Hugo, que era como o Olimpo naqueles anos de espetacular ocaso.

Quando embarcou para Buenos Aires, trazia a intenção de um pronto regresso. Mas estava escrito que continuaria vivendo entre os argentinos. Logo foi nomeado pelo ministro Wilde, inspetor do ensino secundário.

A capital do país fervilhava em disputas. Iniciava-se a campanha que culminou com a sanção das leis de ensino laico e do casamento civil. Jovens impacientes dispunham-se a conquistar os galardões da vida pública, em brava luta contra "o obscurantismo". Carlos Pellegrini, de volta da Europa, era recebido triunfalmente pelos homens de sua geração. Groussac assistiu o banquete de sua recepção e ficou "imantado" como ele disse, pelo jovem estadista, com quem manteria amizade sem sombras até sua morte.

De 1883 a 1885, esteve ligado à revista Sud-America cujos editores políticos eram Carlos Pellegrini e Roque Sáenz Peña e a editoria literária estava confiada a Groussac e Lucio V. Lopez. O objetivo da publicação era dar sustento às reformas liberais de ministro Wilde.

Além dos aguerridos debates políticos, Sud-América tratava de realizar o tipo de cotidiano literário que nessa mesma época triunfava em Paris com Le Figaro. Junto ao comentário de fundo figuravam a nota ligeira, a crônica, o epigrama em prosa e verso. Todas as manifestações da vida portenha tinham ali seu eco jovial: a política, o mundo, o teatro, as letras e até uma atividade de pouca relevância: "Buenos Aires gastronômico". Groussac atuava em quase todas as seções mas principalmente na crítica literária e nos artigos polêmicos, ácidos, eficazes, inconfundíveis. Abandonou a revista quando em 19 de janeiro de 1885 foi designado diretor da Biblioteca Nacional. Durante mais de quarenta anos, quase totalmente subtraído da atividade externa, viveu elaborando sua vasta obra nesse retiro de estudo e reflexão.

As páginas de Groussac que alcançaram maior ressonância são as que se destacam pela acre agudeza de seus juízos. Difundiu um higiênico terror entre os improvisadores e os verborrágicos. Com as notas ao pé das páginas de seus livros, com suas retificações detalhadas que nos revelam as assombrosas lacunas na cultura de certos autores, poderia compor-se um livro de inesperada comicidade. Groussac era um leitor temível. Citações relevantes e afirmações peremptórias de certos autores, que poderiam intimidar ao leitor comum, submetidas à sua fiscalização resultam em pródigas fontes de críticas ironias. Até cunhou um neologismo para as literatices destes "trocatintas": são os "cacógrafos", produto genuíno do meio intelectual hispano-crioulo.

Colocou igual tenacidade no fustigamento de outro vício sul-americano de herança peninsular: o que chamou "a cultura do floripôndio". Ampolosidade enfática, períodos multicoloridos e fulgurantes, "metaforões" disformes, adjetivação parasitária, são outros tantos sintomas de uma enfermidade do bom gosto, favorecida pela índole do idioma, "que nos expõe continuamente à vertigem da oratória". Nascem daí a vacuidade boquirrota, o fetichismo verbal, a debilidade do pensamento que não necessita concentrar-se para obter os fulgores do latão.

Groussac combateu essa peste com uma terapêutica vingativa. Pregou, incansavelmente, e não sem resultados, a sobriedade, a linha reta e breve, a adequação estrita da palavra à idéia, o ódio à obscuridade, a paixão à nobre e difícil simplicidade. Afirmou repetidamente que "a ironia é útil com a condição de não vir sozinha mas como um condimento de algo mais substancial".

Com essa inspiração empreendeu suas impiedosas campanhas contra males nos quais acreditava perceber a causa da "esterilidade geral do intelecto hispano-americano".

Segundo Jorge Luis Borges, Groussac não era um sonhador de invenções, mas um homem muito inteligente, muito culto, menos propenso à fé do que à incredulidade e à ironia.

Lugones costumava defini-lo como um mero professor de francês. Consta que diante desta observação respondeu: " O que posso fazer num país em que Lugones é um helenista?" Outra vez, falando de um escritor famoso, disse: "Ser famoso na América do Sul não é deixar de ser um desconhecido".

Completamento alheio à devoção nacionalista, Groussac disse, a respeito de certa história História da Literatura Argentina, que era a história do que organicamente nunca existiu.

Ainda conforme o mesmo J.L. Borges, todos os livros de Groussac são de leitura hedônica, porém sua obra capital não é nenhum deles, nem sequer seu conjunto, mas a diversificada e delicada lição de seu estilo.

Já em idade avançada, antes da febre freudiana, estudou o labirinto dos sonhos e deles não tirou uma conclusão, porém deixou-nos uma iluminada pergunta:

"Não vos parece prodigioso que a cada manhã, com a boa e santificada luz do sol, emerja também a inteligência intacta de suas trevas e fantasmas noturnos?"

François-Paul Groussac deve, em grande medida, a lembrança de sua obra a Jorge Luis Borges. O destino fez com que este se encontrasse no mesmo lugar físico em que Groussac trabalhou durante quarenta anos: a Biblioteca Nacional. Talvez por suportar a mesma luz ou padecer as mesmas sombras, ambos acabaram cegos. Mal que, coincidentemente, foi inaugurado pelo poeta José Mármol quando também ocupava o mesmo cargo.

Enfim, como disse Borges, Groussac é, sem se haver proposto, uma parte preciosa e necessária das letras argentinas. E acrescentou: "toda a leitura tem obrigação fundamental de ser um prazer. Ao relembrar a obra do escritor franco-argentino, queremos convidar ao leitor a essa felicidade".

OBRAS DE François-Paul Groussac:

*Estudos da história argentina - Buenos Aires (BA)

*Crítica literária - BA

*Discursos - BA

*Ensaio histórico sobre Tucumán - BA

*Fruto vedado (romance) - BA

*Do Prata ao Niágara (viagens) - BA

*Santiago Liniers - Barcelona

*Relatos argentinos ( romances ) - Madri

*A viagem intelectual - BA

*Mendoza e Garay - BA

*O Congresso de Tucumán - BA

*A Divisa Punzó (drama histórico) - BA

*Nicolás Avellaneda - Tucumán

*Os que passavam - BA

*A Biblioteca Nacional de Buenos Aires ( resenha histórica) - BA

*Artigos e discursos - BA

*Crítica literária (segunda série) - BA

EM COLABORAÇÃO:

* La Biblioteca (revista, 8 volumes) - BA

*Anais da Biblioteca (10 volumes) - BA

EM FRANCÊS:

*Une Énigme littéraire - Paris

*Le Cahier des sonnets - BA

*Prosper Mérimée - BA

* Études hispaniques - New York

* Les Iles Malouines . Toponymie argentine - BA

* Nouvelles et fantaisies - BA

* L'Action Française en Argentine - BA