Non Serviam

e

A criação pura

Vicente Huidobro

HUIDOBRO, Vicente. Non Serviam e A criação pura. In: SCHWARTZ, Jorge. Vanguardas Latino-americanas, polêmicas, manifestos e textos críticos . São Paulo: Iluminuras, EDUSP, 1995.

Comentário: Maritza Bleil (UFRGS)

NON SERVIAM

Eis que uma bela manhã, depois de uma noite de sonhos primorosos e doces pesadelos , o poeta se ergue e grita à sua mãe natureza: Non serviam .

Com toda a força de seus pulmões, um eco otimista e tradutor repete nas brenhas: "Não te servirei".

A mãe natureza estava a ponto de fulminar o jovem poeta rebelde, quando este, tirando o chapéu e fazendo graciosa mesura, exclamou: "És uma velhinha encantadora ".

Esse non serviam ficou gravado em uma manhã da história do mundo. Não era um grito caprichoso, não era um ato de rebeldia superficial. Era o resultado de toda uma evolução, a suma de múltiplas experiências.

O poeta, em plena consciência de seu passado e de seu futuro, lançava ao mundo a declaração de sua independência frente à natureza.

Não mais queria servi-la na condição de escravo.

O poeta anuncia a seus irmãos: "Até agora outra coisa não fizemos senão imitar o mundo em suas aparências, não criamos nada. O que brotou de nós que antes não tivesse se detido à nossa frente, circundando nossos olhos, desafiando nossos pés ou nossas mãos?”.

"Celebramos a natureza (coisa que a ela nem um pouco interessa). Nunca criamos realidades próprias, tal como ela fazia ou fez em tempos idos, quando era jovem e cheia de impulsos encantadores”.

"Aceitamos, sem maiores ponderações, o fato de não poder existir outras realidades além das que nos cercam, e nem chegamos a pensar que também nós podemos criar realidades de um mundo nosso, em um mundo à espreita de sua própria fauna e de sua própria flora. Flora e fauna que somente o poeta pode criar, graças ao dom especial que lhe foi dado pela própria mãe Natureza, a ele, unicamente a ele".

Non serviam . Não hei de ser teu escravo, mãe Natureza; serei teu amo. Admito que te servirás de mim. Não quero e não posso evitá-lo; mas eu também me servirei de ti. Hei de possuir minhas árvores que não serão como as tuas, hei de possuir minhas montanhas, meus rios e meus mares, hei de possuir meu céu e minhas estrelas.

Não poderás mais dizer-me: "Esta árvore não está bem, não me agrada este céu... os meus são melhores".

Eu retrucarei que os meus céus e as minhas árvores são meus e não teus, nem há razão para serem parecidos. Já não poderás esmagar ninguém com tuas pretensões desmedidas de velha caduca e patusca. Já escapamos de tua armadilha.

Adeus, velhinha encantadora; adeus, mão e madrasta, não te renego nem te maldigo pelos anos de escravidão a teu serviço. Foram eles o meu mais precioso aprendizado. Meu único desejo é jamais esquecer tuas lições, embora tenha idade para andar sozinho por estes mundos. Pelos teus e pelos meus.

Uma nova era se inicia. Ao se abrirem suas portas de jaspe, ponho-me de joelhos para respeitosamente de reverenciar.

Vicente Huidobro, 1914.

A CRIAÇÃO PURA

O entusiasmo artístico de nossa época e a luta entre as diferentes concepções individuais ou coletivas resultantes deste entusiasmo trouxeram novamente à moda os problemas estéticos, como nos tempos de Hegel e Schleiermacher.

Não obstante, hoje devemos exigir maior clareza e maior precisão que as daquela época, pois a linguagem metafísica de todos os professores de estética do século XVIII e dos começos do XIX não faz mais sentido para nós.

Por isso devemos nos afastar o máximo possível da metafísica e nos aproximar cada vez mais da filosofia científica.

Iniciemos pelo estudo das diferentes fases, os diversos aspectos sob os quais a arte tem se apresentado ou pode se apresentar.

Essas fases podem ser reduzidas a três e para designá-las com maior clareza eis aqui o esquema que imaginei:

Arte inferior ao meio ( Arte imitativa ).

Arte em harmonia com o meio ( Arte de adaptação ).

Arte superior ao meio ( Arte criativa ).

Cada um dos termos que compõe este esquema e que marca uma época na história da arte envolverá um segundo esquema também composto de três divisões, resumindo a evolução de cada uma dessas épocas:

Predomínio da inteligência sobre a sensibilidade.

Harmonia entre inteligência e sensibilidade.

Predomínio da sensibilidade sobre a inteligência.

Analisando-se, por exemplo, o primeiro elemento do primeiro esquema - isto é, a arte imitativa -, diremos que os primeiros passos no sentido de sua exteriorização foram dados pela inteligência que busca e experimenta. Trata-se de reproduzir a Natureza, é o que a Razão tenta fazer com a maior economia e simplicidade de que o artista é capaz.

Todo o supérfluo ficará de fora. Nesta época, cada dia impõe a resolução de um novo problema e a inteligência deve trabalhar com tal ardor que a sensibilidade fique relegada a segundo plano, subordinada à Razão.

Mas logo chega a segunda épo ca: os principais problemas estão solucionados e todo o supérfluo e desnecessário para a elaboração da obra foi cuidadosamente afastado. A sensibilidade toma então seu posto junto à inteligência e infunde na obra certo calor tornando-a menos seca, dando-lhe mais vida do que naquele primeiro período. Esta segunda época marca o apogeu de uma arte.

As gerações de artistas que aparecem em seguida aprenderam esta arte por receitas, habituaram-se a ela e são capazes de praticá-la de memória; não obstante terem esquecido as leis iniciais que a constituíram e que são a sua própria essência, não vêem mais que seu aspecto exterior e superficial, em uma palavra: sua aparência. Eles executam as obras por pura sensibilidade e, pode-se até dizer, maquinalmente, pois o hábito se transfunde se inicia a terceira época, isto é, a decadência.

Devo explicar que, de cada uma dessas etapas participam várias escolas; assim, na etapa da arte imitativa, temos a arte a arte egípcia, chinesa, grega, a dos primitivos, a renascentista, a clássica, a romântica etc. A história da arte inteira está cheia de exemplos que testemunham o que dissemos.

É evidente que existem, nessas várias etapas, artistas em que uma faculdade predomina sobre a outra; mas a maioria segue fatalmente o caminho aqui traçado.

Toda a escola séria que marca época começa forçosamente por um período de busca no qual a inteligência dirige os esforços do artista. Este primeiro período pode ter como origem a sensibilidade e a intuição; quer dizer, uma série de aquisições inconscientes. Partindo sempre do princípio de que tudo passa primeiro pelos sentidos. Porém isto ocorre somente no instante da gestação, que é um trabalho anterior ao da própria produção, uma espécie de seu primeiro impulso. É o trabalho nas trevas, mas ao vir à luz, exteriorizando-se, a inteligência começa a trabalhar.

É um erro bastante difundido crer que a intuição faz parte da sensibilidade. Para Kant, não pode existir nesta uma intuição intelectual. Ao contrário, Schelling afirma que só a intuição intelectual pode surpreender a relação de unidade fundamental que existe entre o real e o ideal.

A intuição é conhecimento a priori e somente influi na obra como impulso; é anterior à realização e em raríssimos casos ocupa um lugar no curso desta última.

De qualquer modo, a intuição só se acerca da sensibilidade quando brota de um rápido acordo que se estabelece entre o coração e o cérebro, como uma centelha elétrica que surge repentinamente iluminando o fundo mais escuro de um recipiente.

Em conferência, pronunciada no Ateneo de Buenos Aires, em julho de 1916, afirmei que toda a história da arte não é senão a história da evolução do Homem-Espelho para o Homem-Deus, e que ao estudar essa evolução notava-se claramente uma tendência natural da arte a se separar mais e mais da realidade preexistente, para buscar a sua própria verdade, abandonando todo o supérfluo, tudo o que pudesse impedir sua perfeita realização. Acrescentei que isso é tão visível ao observador quanto possa sê-lo em geologia a evolução do Paloplotherium , passando pelo Anquitherium , até chegar ao cavalo.

Essa idéia do artista como criador absoluto, do Artista-Deus, me foi sugerida por um velho poeta indígena da América do Sul (aimará) que disse: "O poeta é um deus, não cantes para a chuva, poeta, faça chover". Embora o autor destes versos tenha cometido um erro de confundir o poeta com o feiticeiro, crendo que o artista para se mostrar criador deve mudar as leis do mundo, quando o que precisa fazer é criar seu próprio mundo, paralelo e independente da Natureza.

A idéia de que a verdade da arte e a verdade da vida estão separadas da verdade científica e intelectual, sem dúvida vem de muito longe, mas ninguém a precisou e a demonstrou tão claramente como Schleiermacher ao afirmar, em princípios do século passado, que "a poesia não busca a verdade ou, melhor, ela busca uma verdade que nada tem em comum com a verdade objetiva".

"A arte e a poesia só expressam a verdade da consciência singular" (1).

É preciso assinalar esta diferença entre a verdade da vida e a verdade da arte; uma existe anteriormente ao artista e outra lhe é posterior, sendo produzida por ele.

Confundir ambas as verdades é a principal fonte de erro no juízo estético.

Devemos atentar para este ponto, pois a época que começa vai ser eminentemente criativa. O Homem abala o jugo, rebela-se contra a Natureza com outrora Lúcifer se rebelara contra Deus, apesar de essa rebelião ser só aparente, pois o homem nunca esteve tão perto da Na tureza como agora quando não está mais tentando imitá-la em suas aparências, mas está fazendo o mesmo que ela, imitando-a no mesmo plano de suas leis construtivas, na realização de um todo, no mecanismo da produção de novas formas.

Veremos a seguir como o Homem, produto da Natureza, obedece em suas produções independentes à mesma ordem e às mesmas leis que a Natureza .

Não se trata de imitar a Natureza, mas de atuar como ela; não de imitar suas exteriorizações, mas seu poder exteriorizador.

Visto que o Homem pertence à Natureza e não pode evadir-se dela, ele deve recolher nela a essência de suas criações. Teremos, então, que considerar as relações existentes entre o mundo objetivo e o Eu, o mundo subjetivo do artista.

O artista recolhe seus motivos e elementos no mundo objetivo, e, após transformá-los e combiná-los, devolve-os ao mundo objetivo sob a forma de novos fatos. Este fenômeno estético é tão livre e independente como qualquer fenômeno do mundo exterior, tal como uma planta, um pássaro, um astro ou um fruto e, como estes, tem sua razão de ser em si mesmo, tem os mesmo direitos e independência.

O estudo dos diversos elementos que os fenômenos do mundo objetivo oferecem ao artista, a seleção de uns e a eliminação de outros, segundo a conveniência da obra que se pretende realizar, é o que constitui o Sistema.

Desse modo, o sistema da arte de adaptação é diferente daquele da arte imitativa, pois o artista pertencente ao primeiro retira da Natureza elementos diversos daqueles que o artista imitativo retira, e o mesmo ocorre como artista da época de criação.

Por isso o sistema é a ponte pela qual os elementos do mundo objetivo penetram no Eu ou mundo subjetivo.

O estudo dos meios de expressão, pelos quais esses elementos uma vez eleitos conseguem alcançar o mundo objetivo, constitui a Técnica.

Em conseqüência, a técnica é a ponte lançada entre o mundo subjetivo e o mundo objetivo criado pelo artista.

O fato novo ciado pelo artista é precisamente o que nos interessa, e seu estudo, junto ao estudo de sua gênese, constitui a Estética ou Teoria da Arte.

A harmonia perfeita entre o Sistema e a Técnica é o que gera o Estilo; e o predomínio de um destes fatores sobre o outro tem como resultado a Maneira.

Diremos, pois, que um artista tem estilo quando os meios que emprega para realizar a sua obra estão em perfeita harmonia com os elementos escolhidos no mundo objetivo.

Quando um artista domina a boa técnica, não sabendo porém escolher perfeitamente seus elementos, ou, pelo contrário, quando os elementos empregados são os que mais convêm à obra, e no entanto sua técnica deixa a desejar, tal artista não alcançará jamais um estilo, terá tão somente uma maneira.

Não nos ocuparemos daqueles cujo sistema está em absoluto desacordo com a técnica. Estes não podem ser objeto de um estudo sério da arte, apesar de serem a grande maioria, de divertirem os jornalistas e de serem a glória dos salões de falsos aficionados.

Antes de terminar, desejo elucidar um ponto: quase todos os eruditos modernos querem negar ao artista o direito de criação e pode até se dizer que os próprios artistas temem essa palavra.

Há bastante tempo eu luto pela arte de criação pura e esta vem sendo uma verdadeira obsessão ao longo de toda a minha obra. Mesmo em meu livro Pasando y Pasando , publicado em janeiro de 1914, disse que ao poeta deve interessar "o ato criativo e não o da cristalização" (2).

São precisamente os cientistas que negam ao artista o direito de criação, aqueles que mais do que ninguém deveriam outorgá-lo.

Por acaso não consiste a arte da mecânica também na humanização da Natureza e não desemboca na criação?

E se é concedido ao mecânico o direito de criar, por que este haveria de ser negado ao artista?

Quando se diz que um automóvel tem vinte cavalos de força, ninguém vê os vinte cavalos; o homem criou um equivalente para eles que, no entanto, não aparecem diante de nós. Atuou como a Natureza.

O Homem, neste caso, criou algo sem imitar a Natureza em suas aparências, mas obedecendo às leis internas delas. E é curioso comprovar como o Homem em suas criações obedeceu à mesma ordem da Nature za, não apenas quanto ao mecanismo construtivo, mas também quanto ao cronológico.

O Homem começa vendo, depois ouve, em seguida fala e por último pensa. Em suas criações o Homem obedeceu a esta mesma ordem que lhe foi imposta. Primeiro inventou a fotografia, que consiste em um nervo ótico mecânico. Depois o telefone, que é um nervo auditivo mecânico. Em seguida o gramofone, que consiste em cordas vocais mecânicas; e por último, o cinema, que é o pensamento mecânico.

Não só nisto, mas em todas as criações humanas se produziu uma seleção artificial exatamente parelha à seleção natural, obedecendo sempre às mesmas leis de adaptação ao meio.

Isto se encontra tanto na obra de arte como na mecânica e em cada uma das produções humanas.

Por isso eu afirmei em uma conferência sobre Estética, em 1916, que uma obra de arte "é uma nova realidade cósmica que o artista sobrepõe à Natureza, e que ela deve ter, como os astros, uma atmosfera própria e uma força centrípeta e outra centrífuga. Forças que lhe dão perfeito equilíbrio e lançam-na fora do centro produtor".

Chegou o momento de chamar a atenção dos artistas para a criação pura, sobre a qual muito se fala, mas nada se faz.

Vicente Huidobro, 1921.


(1)Aesthetik, pp.55-61 (Nota do Autor)

(2)Pasando y Pasando , crônicas e comentários (Santiago do Chile: Imprensa Chile, 1914) (Nota do Autor)