Non Serviam

e

A criação pura

Vicente Huidobro
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Comentário: Maritza Bleil (UFRGS)

A educação típica das famílias da aristocracia chilena, ambiente onde nasceu Vicente Huidobro, no ano de 1893, deu ao poeta um conhecimento profundo da estrutura com a qual romperia, da cultura decadente que ele subverteria ao inaugurar não apenas no Chile, mas em toda a América Latina, as vanguardas do início do século XX. O cenário inicial de sua vida literária é a Santiago dual do início deste século, marcada pela urbanização, deslumbrada com a velocidade do progresso moderno, de transportes novos e de comunicação ligeira, Santiago que comportava em si tanto a classe dominante vivendo sua "belle époque criolla", quanto os trabalhadores vivendo amontoados nos cortiços (1). Modernidade heterogênea e periférica, mostrava o mesmo quadro de tantos outros países latino-americanos, onde uma economia exportadora de matéria prima, dependente do capital estrangeiro, era dominada pelas oligarquias rurais que, pouco a pouco, seriam substituídas por uma burguesia ascendente.

A principal corrente comprometida com este momento era o realismo, uma arte que imita o seu redor, que imita a natureza, que a ela se submete para reproduzi-la. Aqui ouvimos a voz de Huidobro erguer-se pela primeira vez, em 1914, no Ateneo de Santiago de Chile, onde o poeta faz a leitura de seu manifesto "Non Serviam", aqui reproduzido. Considerado por muitos historiadores da literatura latino-americana como marco inicial do ciclo de vanguardas, este manifesto lança a base do criacionismo, uma teoria-movimento criada e protagonizada pelo poeta chileno, que foi de fundamental importância para a criação de um novo espaço, de um novo território para o poético. Em manifestos posteriores, Vicente Huidobro expõe detalhadamente sua teoria, em especial no ensaio de estética também presente nesta publicação, onde explica que o poeta tem que ser criador de uma nova realidade e não imitador daquela que o cerca. O poeta deve imitar a natureza em seu poder de criação, gerando, como ela o faz, uma realidade, e não copiando aquela que a natureza produz. É a conscientização do fazer poético, do estruturar uma nova realidade e uma nova linguagem. É neste sentido que L. Ambrozio traça um paralelo interessante entre Huidobro e Mário de Andrade, uma vez que ambos diferenciam a "verdade (ou o belo) da arte" da "verdade (belo) da vida". Para ambos a poesia deve se encarregar da primeira pois lhe cabe criar um mundo próprio, não estando em seu alcance nem em sua função reproduzir a realidade tal como é. E assim como Huidobro, Mário de Andrade também colocava o poeta como agente consciente de sua criação poética, agente transformador de um mundo. O poeta chileno foi até mesmo citado no famoso texto de Mário "A escrava que não é Isaura.", mostrando-nos não apenas que o poeta brasileiro conhecia a obra de Vicente Huidobro, mas que possivelmente fora influenciado, de alguma forma, por ela.

O poeta criacionista sintetiza de forma magistral sua teoria no poema "Arte Poética" de 1916:

Que o verso seja qual uma chave

Que abra mil portas.

Uma folha cai; passa uma coisa volátil;

Que os olhos criem tudo quanto vejam,

E o ouvinte, alma trêmula, vibrátil.

 

Inventa mundos novos e atenta à palavra;

O adjetivo, se não dá vida, mata.

 

Estamos em pleno ciclo dos nervos.

O músculo pende,

Como lembrança, nos museus;

Nem por isso a força nos faleça:

O vigor verdadeiro

Reside na cabeça.

 

Por que cantar a rosa, ó poetas!

Fazei-a florescer no poema;

Só para nós

Vivem todas as coisas sob o sol.

 

O poeta é um pequeno Deus.

 

Fiel à sua proposta, dá vida às mais insólitas imagens num gesto de profunda liberdade criadora. Chega até mesmo a recriar o mito da gênese humana em seu "Adán", o homem que renasce no novo mundo. Se "Adán" é a reapropriação de Huidobro para o mito do princípio humano, "Altazor" é onde ele se reapropria de sua língua, transformando-a e levando esta transformação às últimas conseqüências nesse extenso poema , possivelmente sua obra mais importante. Escrito ao longo de doze anos, com várias viagens à Europa, "Altazor" trata-se de uma "viagem de pára-quedas", como a define o autor, em que a linguagem percorre o "espaço" do poema de sete cantos num processo de crescente deslocamento e fenecimento do significado, culminando na total ausência deste, em pura expressão fonética. Dessa forma, reelabora a linguagem utilizada até então, rompendo com a estrutura sócio-cultural que a mantinha e abrindo um novo caminho para o território do fazer poético.

A questão do apropriar-se de sua língua tem um papel importante para Vicente Huidobro, em suas várias viagens à Europa, não são raras as vezes que o poeta escreve e publica em francês, num gesto consciente e assumido de rebelião contra o espanhol. Nove obras, de suas trinta e uma, foram publicadas em língua francesa. Em sua introdução a Mío Cid Campeador Huidobro explica porque usa muitos termos de outras línguas, embora os mesmos existam em espanhol:

" Además me parece muy bien que las lenguas se invadan las unas a las otras lo más posible; que las palabras pasen como aeroplanos por encima de las fronteras y las aduanas y aterricen em todos los campos. Acaso a fuerza de invadirse las lenguas lleguemos a tener algún día um solo idioma internacional y desaparezca la única desventaja que presenta la Poesía entre las otras artes ."p.10

A questão da viagem e seu papel na vida e obra do poeta são de fundamental importância. A partir de 1916, Vicente Huidobro vai para Paris, onde entra em contato com vanguardistas europeus, com os quais funda a famosa revista "Nord - Sud". Este contato com artistas como Tzara, Reverdy, Apollinaire e tantos outros, permitiu a Huidobro circular livremente tanto no território da vanguarda latino-americana quanto da européia, enriquecendo significativamente sua obra. É em Paris que Huidobro apresenta seus poemas pintados, em 1922, e na mesma cidade, em 1927, apresentam-se seus poemas atuados, ao lado de outros, escritos por Apollinaire e Tzara. Além desses novos "gêneros" que misturavam diferentes formas de arte, o "criacionista" inventa ainda um novo gênero em prosa, que chama de "Hazaña" (2) , espécie de novela épica em que vários episódios se encadeiam através de um protagonista comum, episódios estes carregados de prosa poética.

Além de fundador do criacionismo, Vicente Huidobro é visto por muitos como um dos semeadores do Ultraísmo, tendo sido também o autor que levou o dadaísmo ao Chile. Foi também através de reuniões em sua casa que o primeiro grupo surrealista organizou-se no Chile e mesmo os concretistas brasileiros consideram-se filiados ao poeta criacionista. Tendo sido o fundador de tantos jornais e revistas, colaborando ainda para outras revistas de todo o mundo, é compreensível que um espírito tão inovador tenha aberto tantos caminhos, estimulado tantas correntes literárias, uma vez que pôde gritar tão alto sua liberdade criadora.

Entretanto, ao contrário do que se possa pensar, o pai do criacionismo não se limitou apenas ao terreno estético como palco de revolução e criação de identidade, sua participação política foi igualmente ativa e importante, a ponto de sofrer mais de um atentado contra sua vida por causa de suas posições. Já no início de sua vida literária publica Pasando y Pasando onde faz fortes críticas sociais e religiosas; em 1924 publica Finis Britannia , onde se insurge contra o imperialismo inglês. Filia-se ao partido comunista chileno e chega a concorrer a presidência, em 1925, pelas Juventudes Progressistas. Participa da Guerra Civil Espanhola e trabalha como correspondente na Segunda Guerra Mundial. Acredita-se que o derrame que o matou, em 1948, tenha sido conseqüência dos ferimentos sofridos nessas ocasiões. Enterrado em uma colina em frente ao mar, seu epitáfio, escrito por sua filha Manuela e o poeta Eduardo Anguita, é consonante com o poeta que Huidobro foi:

"Aquí yace el poeta Vicente Huidobro

Abrid la tumba

Al fondo de esta tumba se ve el mar."

BIBLIOGRAFIA:

1 AMBROZIO, Leonilda. Mário de Andrade e Vicente Huidobro: Identidades. Revista Letras . Curitiba ???

2 BETHELL, Leslie. Historia de América Latina . Barcelona: Crítica, 1991.

3 DONOSO, Ricardo. Breve Historia de Chile . Buenos Aires: Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1963.

4 HUIDOBRO, Vicente. Mio Cid Campeador . Santiago: Ercilla, 1942.

5 IANNI, Octavio. O Labirinto Latino-americano . Petrópolis: Vozes, 1993.

6 JOSEF, Bella. História da Literatura Hispano-americana . Petrópolis: Vozes, 1971.

7 JOSET, Jacques. A Literatura Hispano-Americana . São Paulo: Martins Fontes, 1987.

8 PIZARRO, Ana. Sobre Huidobro y las Vanguardias . Santiago: Editorial de la Universidad de Santiago de Chile, 1994.

9 SCHWARTZ, Jorge. Vanguardas Latino-Americanas . São Paulo:EDUSP, 1995.


(1)Brilhante contextualização e análise estão na obra de Ana Pizarro constante em nossa bibliografia.

(2)Literalmente "façanha", em Espanhol.