A historiografia como espelho, eco e narrativa de "nós outros"

Jocelyn Létourneau 

Tradução:

Carla Muller

LÉTOURNEAU, Jocelyn. L'historigraphie comme miroir, écho et rècit du "Nous Autres". In: LETOURNEAU, Jocelyn e JEWSIEWCK, Bogumil (orgs.). L'historie en partage . Paris: Harmattan, 1996. p.25 - 45.

Comentário: Sandra J. Pesavento (UFRGS)

A HISTORIOGRAFIA COMO ESPELHO, ECO E NARRATIVA DE " NÓS (1) OUTROS"

No Quebec, conta-se nos dedos de uma mão os historiadores que fazem um estudo do saber que produzem. Se alguns o fazem, seu olhar crítico diz respeito mais naturalmente aos trabalhos de seus predecessores, onde descobrem mais facilmente as contaminações ideológicas do que sobre seus próprios trabalhos, os quais parecem por magia escapar de seu contexto histórico de produção e de não se situar em relação a qualquer campo cognitivo e discursivo.

Entretanto, é extremamente interessante lançar um olhar crítico sobre a produção corrente dos historiadores concernente ao Quebec (2). Não para questionar os comportamentos, os métodos ou os objetos de seus realizadores - quanto a isso, a qualidade dos trabalhos é incontestável, realmente tentadora. Mas para mostrar como esses escritos participam da reconstrução das representações do conjunto que uma comunidade de comunicação, no caso dos quebequenses francófonos, evolui dela mesma em seu longo percurso, na sua diacronia.

Neste artigo, tentaremos ver qual é a história contada atualmente aos franco-quebequenses que procuram saber um pouco mais sobre eles mesmos, sobre sua origem, sobre sua progressão histórica e sobre seu estado atual de avanço, estabelecendo um vínculo entre esta história e a transformação de figuras identitárias desta coletividade.

1. Evolução e transformações da grande narrativa coletiva dos franco-quebequenses

Aceita-se naturalmente a idéia segundo a qual a identidade é uma inteligibilidade e uma configuração narrativa de Si-Mesmo e do Outro numa relação de reprocidade e de reconhecimento mútuos. Em outros termos, a questão crucial da experiência humana não é, como Shakespeare havia formulado em uma máxima , " ser ou não ser", mas antes, ser uma história contável ou não (3). Em conseqüência, vê-se bem o papel fundamental realizado pela produção dos historiadores no estabelecimento dos fundamentos de toda a identidade coletiva. Definiremos esta identidade como a narrativa autorizada e concedida na qual uma comunidade de comunicação se reconhece. Importamos de Habermas esta noção de comunidade de comunicação: ela designa um conjunto de pessoas que participam pela atividade comunicacional em uma interação, que coordenam seus projetos concordando uns com os outros sobre qualquer coisa que exista no mundo e que dividam um mundo vivido, um tipo de horizonte oferecendo aos participantes da comunicação uma provisão de evidências culturais, de modelos e de interpretações.

A identidade, ainda que se cristalize nas atribuições que se intensificam com o tempo e que então se pode acreditar semelhantes a alguma "substância", é entretanto inicialmente, uma narrativa na qual uma comunidade de comunicação estabelece suas temáticas comuns, evoca suas origens, instala a preeminência de seu espaço memorial e declama seus encantamentos.

Desse ponto de vista, a narrativa na qual os franco-quebequenses, pelo viés do discurso de suas elites pensantes, lembraram-se deles mesmos e contaram uns aos outros, seus percursos históricos, ou seja , a narrativa na qual se definiram situando-se com relação aos outros, variou no tempo.

Durante uma boa parte do século XIX e até aproximadamente os anos 40, essa narrativa fazia parte de um grupo isolado e sectário, solitário e contido, fundamentalmente marcado pela Conquista inglesa pela qual passara em 1759. Entretanto, um grupo que se mantivera reagrupando-se em torno de suas elites, principalmente clericais, e que também pela sacralização de suas tradições, soube se proteger das influências nefastas conservando sua singularidade, tipo de estatuto especial concedido pelo poder divino e que fazia disso uma comunidade predestinada à encontrar uma época de ouro na reativação perpétua de seu passado feliz e de sua memória ilustre (4).

Gradualmente, no decorrer dos anos 40, sobretudo a partir do momento em que uma primeira geração de intelectuais formados nas universidades estrangeiras constituiu uma massa crítica suficiente para pensar fora desta interpretação sustentada por cantores épicos, a representação da noção extenuada politicamente, mas triunfante por sua moral, por sua lealdade e por suas tradições, começou a ser substituída nos círculos dos sociólogos principalmente por aquela massa de f olk-urban society, de inspiração americana e fortemente revestida de evolucionismo (5).

Sem entrar nesses detalhes, digamos que esta nova representação, primeiro momento de elaboração do paradigma da modernização, conheceu seu tempo de graça nos anos 50 para ser em seguida criticada em sua formulação original, sem que a idéia de defasagem que ela implicava e sugeria, não fosse totalmente repudiada ou eliminada por seus críticos. Nascida de uma crise de consciência provocada pelo reconhecimento em toda sua amplitude, do fenômeno de industrialização e de urbanização que marcava a província do Quebec, a representação da folk-urban society , que invertia a versão precedente do passado coletivo e que introduzia a idéia de uma identificação pessimista ou negativa do grupo, insistia de fato sobre a condição infeliz e inferior do canadense francês e sobre as barreiras desta sociedade (6). Apesar de uma transição iniciada para a sociedade industrial e urbana, a província de Quebec acusava uma ruptura face a outras entidades políticas, principalmente o Canadá inglês e os Estados Unidos e esse, tanto no plano de desenvolvimento quanto no plano da adequação de suas estruturas político-institucionais e de sua consciência coletiva com sua base material. Evidentemente, se a sociedade canadense-francesa não era tradicional no plano de suas infra-estruturas e no plano dos comportamentos econômicos de uma grande parte de sua população, contrariamente a uma descrição que uma certa elite dava sobre isso, não era ainda inteiramente, corretamente ou suficientemente moderna, e isso era identificado como uma tara.

A conseqüência política à interpretar desta avaliação de um percurso histórico - conseqüência que foi efetivamente assumida por uma maioria de definidores de situação que se afirmaram nos anos 60 no seio do espaço público quebequense - era evidente. Tratava-se de nada mais nada menos do que cortar as raízes desta tara, de preencher a ruptura e de reorientar a historicidade da comunidade antes para seu futuro do que para seu passado. Em outros termos, a comunidade não podia doravante senão encontrar sua Em outros termos, a comunidade não podia doravante senão encontrar sua redenção no resultado de sua transformação, o qual tornava-se assim o lugar de sua felicidade, rompendo com seu passado, fonte de sua infelicidade e de seu atraso. É importante ajustar-se a essas noções de defasagem, atraso, inferioridade, ruptura e bloqueio : todas fazem referência a um desequilíbrio gerador, o da falta , pois elas não podem ser consideradas como simples qualificativos para caracterizar um estado de sociedade. Essas noções definiam de fato a condição de ser de uma comunidade e modelavam o indivíduo coletivo com relação aos Outros. O canadense francês era um ser ausente (mais ou menos em estado incompleto) que, inspirado pelos dirigentes de horizonte ideal ultrapassado (os intelectuais e os conservadores) estava prestes a perder o rumo da história, o rumo da modernização. Era imperativo dissociá-lo desta elite reacionária e inscrevê-lo em uma nova temporalidade que o faria gradualmente chegar a esse estado idealizado da evolução das sociedades contemporâneas, o estado do liberalismo, da democracia e do progresso moderno, um estado contrário ao "monolitismo ideológico e ao nacionalismo de raça". Em termos evidentes, a mutação estava não somente na ordem do dia, mas era uma necessidade vital para regeneração de toda uma comunidade e para a complementação de um indivíduo coletivo, ambos engajados em um passado que não queria deixá-los.

Desde então, compreende-se melhor porque a década dos anos sessenta foi marcada, no plano científico, por um grande número de empresas de pesquisa tendo como objetivo comparar e estabelecer um paralelo entre a sociedade quebequense e outras sociedades, principalmente sua vizinha valorizada: Ontário. Algumas obras e artigos, publicados no final de 1950 e no início de 1960, logo se tornaram clássicos do pensamento quebequense modernizante e podem ser similares a verdadeiros textos fetiches, tipo de corpus fundador que inspirou vários pesquisadores tentando compreender as causas do atraso, da defasagem, dos bloqueios e das lacunas que causavam sofrimento à sociedade quebequense. Por esses estudos conduzidos pelos últimos refinamentos metodológicos e apoiando-se sobre índices, tratava-se por um lado, de identificar as causas da ruptura e, por outro lado, de medir a distância que separava o indivíduo canadense-francês dos outros , o indivíduo canadense-inglês de preferência, de maneira a cercar melhor o canal que restava ao primeiro à atravessar para chegar ao primeiro lugar. Descobrir as condições de decolagem, encontrar os meios de estar melhor para erguer o grupo um pouco acima dele mesmo, eram os objetivos visados e o andamento dos trabalhos.

As coisas andavam assim até a metade de 1970. A partir desse momento, que coincide com a instalação no meio científico quebequense de uma nova geração de intelectuais para que o episódio da revolução tranqüila estruturasse decisivamente o imaginário político e histórico (7), a grande narrativa coletiva dos quebequenses foi mais uma vez, gradualmente, revista e corrigida. O trabalho fez-se em duas etapas, segundo os parâmetros do andamento científico convencional.

Iniciou-se, em um primeiro tempo, a inquirir novamente o passado de uma outra maneira, isto é, a partir de questões animadas pelo espírito do momento e também sob inspiração de problemáticas em voga nos meios intelectuais estrangeiros, o da França principalmente, em que várias universidades recentemente engajadas haviam sido formadas. Em um extenso artigo em que é revisto uma grande parte da produção dos historiadores de 1970 falando sobre o Quebec, e fazendo disso a análise temática, Fernand Ouellet (8) mostra bem como esta geração intelectual consagrou-se em preparar novos terrenos e em rearticular o esforço de pesquisa em torno de ateliers que, ainda hoje, marcam amplamente a paisagem da pesquisa histórica no Quebec. Esses ateliers são os da história da economia rural, urbana, das populações e de seus deslocamentos no espaço (que abre as portas ao estudo das mestiçagens demográficas e à interculturalidade), o da história de certas categorias sociais (principalmente os operários e as mulheres) a partir da problemática da estratificação social e de conflitos de sexo, também o da história das tensões políticas entre grupos ou categorias opostas, etc.

Nossa intenção não é de repassar aqui um quadro detalhado desta pesquisa, mas de ressaltar a idéia segundo a qual o corpus de conhecimentos e de dados assim constituído fez aflorar aos olhos de todos uma questão do passado que, até então, havia sido negligenciada, esquecida ou voluntariamente atrofiada por historiadores titulados (taxados de não profissionais ou de não científicos por seus sucessores) - esta "amnésia", tendo justamente tornado possível a elaboração de uma grande narrativa coletiva, centrada novamente sobre episódios épicos da história coletiva.

Ora, a nova questão extirpada do passado por esses pesquisadores - questão que transformava o colono (visão tradicional) em morador empregador (visão atual), que restaurava a importância determinante, até mesmo proeminente da cidade na atividade coletiva e na experiência popular (com relação a visão corrente que não fazia valer senão os campos verdejantes das planícies), que repudiava a imagem da fixação das populações no espaço mostrando como o deslocamento era uma característica fundamental dos canadenses, que transformava as cidades de Quebec e de Montreal em foyers de cosmopolitismo abertos às influências heterogêneas da Europa e da América (contrariamente a essa idéia simples que se fazia dos canadenses franceses enquanto "povinho bitolado"), e que fracassava essas imagens idílicas de uma comunidade sem disputa mostrando como a indelicadeza, a manobra, as trapaças e as tramóias, a corrupção e a violência gratuita estavam também no centro da vida real de uma sociedade marcada pela industrialização anárquica, pela crueldade freqüente das narrativas de poder e pela repressão recíproca dos grupos em conflito - esta nova questão modificou particularmente a aparência do indivíduo quebequense. Como exatamente escreveu Ronald Rudin (9), esse indivíduo foi "normalizado", seu estado existencial e seu percurso histórico doravante assemelhando-se à esses outros, não se reduzindo a essa especificidade necessária.

À esta questão divulgada e bem fundamentada, restava integrar em um todo coerente, o que é exclusivo das obras de síntese. Esse trabalho de integração foi realizado principalmente no decorrer dos dez últimos anos e continua. Nós não queremos, no meio desse artigo, proceder a uma análise detalhada das sínteses publicadas no curso deste período. Nós nos ateremos mais, a partir de um olhar geral sobre a produção dos historiadores corrente, em fazer ressaltar as novas representações que foram aqui elaboradas (10). Tentaremos igualmente ilustrar o entrelaçamento existente entre essas representações e o processo de transformação identitária que conheceu o indivíduo quebequense desde a revolução tranqüila.

Em uma obra publicada sob a direção de Jacques Rouillard (11), historiadores quebequenses experimentados tentaram traçar um panorama detalhado da produção histórica corrente falando sobre o Quebec e fazendo ressurgir dele as principais tendências. Abordando os trabalhos que tratam sobre o regime francês (período relativamente abandonado pelos pesquisadores hoje em dia), John A . Dickinson e Jacques Mathieu escreviam, tanto sobre a ruptura da homogeneidade da representação da Nova-França graças à demografia, em monografias locais e no estudo dos grupos sócio-profissionais; quanto a instância sobre a maneira que as pessoas ordenaram seu território e sua vida - o que levou a uma revisão do retrato adquirido do habitante e da relação cidade-campo; enquanto a importância dos trabalhos consagrados ao estudo das relações sociais na perspectiva da transição do feudalismo para o capitalismo e sobre a análise das relações interculturais entre ameríndios e europeus que marcaram profundamente a produção dos historiadores dos quinze últimos anos no Quebec. Após esse trabalho, é a imagem de uma sociedade homogênea e estática, igualitária e imóvel, enclausurada e arraigada nas suas heranças que foi revertida em proveito de uma nova representação profundamente ancorada na idéia de movimento, tipo de matriz geradora de uma gama de conceitos centrais na enunciação social atual: dinamismo, hierarquia, estratégia, mobilidade, diferenciação, estratificação, etc. Essas tendências da pesquisa, que remetem de fato aos quatro critérios tipificando o indivíduo quebequense contemporâneo (racional, aberto à influência dos outros, participante da mudança global e tomando suas distâncias com relação aos poderes autoritários), mostram o suficiente até que ponto os historiadores reativam a questão do passado a partir do que eles chamam de questionamentos novos, mas que não são senão categorias existenciais pelo viés dos quais um grupo se dispõe rever o passado fundando sua historicidade na longa duração.

Essa relação entre as figuras identitárias do indivíduo franco-quebequense contemporâneo e suas reencarnações históricas é igualmente evidente quando se observa as tendências que marcam a produção dos historiadores, corrente correspondente ao período do regime inglês (1760-1867). Uma citação extraída do capítulo escrito por Jean-Pierre Wallot e Pierre Tousignant, na obra de Rouillard, revela a amplitude desta dialética e desta dialógica entre o presente e o passado:

"Conjunto dos estudos recentes [ que tratam sobre o regime inglês] tende a mostrar [...] que os canadenses franceses (exatamente como aliás, os colonos britânicos) situavam-se em um contexto atlântico em plena órbita, que eles participaram das ideologias e das transformações de todas as ordens que apareceram entre a Revolução Americana (1774-1783) e a Revolução Francesa, a contar de 1789, e a Confederação (1867), passando por diversas formas de governo, uma outra guerra com os Estados Unidos (1812-1815), insurreições (1837-1838) e o governo responsável (1848). No plano político, esses estudos marcam o papel importante dos canadenses franceses na obtenção e na utilização hábil de um regime parlamentar restrito [...]. Sobre o plano econômico e social, longe de serem fundamentalmente irracionais e conservadoras, as classes médias canadenses-francesas teriam procurado lançar anteriormente as iniciativas em seu favor e monopolizar o poder; as massas camponesas e urbanas teriam reagido com uma racionalidade limitada na verdade, mas com uma boa dose de adaptação às mutações que já se desenhavam na virada do século XIX (reestruturação e modernização da economia sob o impacto do mercado) e que se estenderam em alguns casos até a Confederação, apesar de diversos obstáculos. (12)

Estamos marcados aqui pelos qualificativos empregados para descrever o indivíduo canadense-francês, seus comportamentos, seu universo mental e seu horizonte interativo: em movimento, participante ativo, racional, hábil em se adaptar às mudanças que influencia seu meio de vida e se aproveita dele. Todas as qualidades que, por um lado, demonstram a normalidade desse indivíduo com relação aos outros (e, principalmente com relação ao britânico, seu alter ego secular), mas que vão igualmente ao encontro da imagem que disso havia proposto durante muito tempo à historiografia canadense-inglesa - esta apresentando os britânicos como os emancipadores de uma população historicamente defasada - e também, ao encontro da representação que disso havia dado uma certa historiografia canadense-francesa, a qual insistia sobre os comportamentos tradicionais dos canadenses franceses e sobre sua confusão em um universo mental obsoleto.

De fato, a pesquisa dos últimos quinze anos literalmente fez eclodir, simultaneamente, a antiga narrativa canadense-inglesa (solidamente articulada em torno da elite burguesa e nacionalista anglófona) e a antiga narrativa canadense-francesa (intimamente ligada ao discurso nacionalista das elites francófonas, e isso, desde sempre). Na verdade, essas narrativas apresentavam uma estranha semelhança, uma e outra se articulando sobre as mesmas oposições - entre as duas raças, entre os camponeses canadenses-franceses e os comerciantes britânicos, entre os protestantes e os católicos, entre os conquistadores e os conquistados -, mas com esta profunda diferença que a valorização desses elementos passava do negativo ao positivo e, inversamente, segundo a origem da narrativa. A pesquisa atual marginalizou outro tanto as problemáticas em voga nos anos 50 e 60 que, tomando distância com relação às que a precederam, insistiam no atraso ou na singularidade do desenvolvimento da região de Quebec. Doravante, prevalecem as idéias de similitude, convergência e igualdade : a fronteira do Nós Outros , e finalmente a identidade quebequense, estão em vias de serem estabelecidas sobre novas bases.

O que isso significa para o período que começa em 1867? Recorramos ainda uma vez mais, para situar o debate, a uma citação extraída do Guide d'histoire du Québec . Decretando que as duas obras de síntese são de longe as mais populares no Quebec desde sua publicação, uma em 1979 e a outra em 1986 (13), são ao mesmo tempo as melhores, Jacques Rouillard escreve:

[...] Essas duas obras abordam a história como tema antes mesmo do que de maneira puramente cronológica [...]. Rejeitando a idéia da modernização do Quebec desde a última guerra, elas interpretam sobretudo sua história como um longo processo de evolução desde a metade do século XIX voltada para uma sociedade industrial e urbana. Longe de ser fechada em si mesma, a sociedade quebequense aparece complexa, diversificada, submissa às influências exteriores, freqüentemente evoluindo uma dinâmica próxima dessas outras sociedades americanas. [...] (14)

Lembra-se uma vez mais, subjacente a essa nova narrativa do percurso histórico dos quebequenses, o tópico da normalidade. Contrariamente ao que se pensava precedentemente, a sociedade quebequense foi marcada pelos conflitos e as lutas das classes (com a mesma qualificação que toda a sociedade industrial comparável), lutas que não tinham exclusivamente ou mesmo principalmente a forma de um conflito etno-lingüístico entre os ingleses e os franceses (ainda que a questão nacional sempre tenha estado ligada a questão social). Assim, ao encontro do que se supôs há muito tempo, a sociedade quebequense sempre foi aberta para o exterior, caracterizada por intensos movimentos de população e absorvendo positivamente as influências estrangeiras. A idéia de defasagem ou de atraso tão importante nas produções dos universitários quebequenses durante os anos 50 e 60 (pouco importa que se explique esse atraso para uma mentalidade anacrônica ou como uma conseqüência resultante da conquista britânica) é, por outro lado, incisiva na ótica dessas duas obras de síntese. O caráter ruralista dos quebequenses (comumente percebido como pejorativo e negativo) é negado pela valorização de seu caráter urbano e também por uma instância sobre os fenômenos avançados e extensivos de proto-industrialização nos campos, exceto de "entrepreneurship" canadense-francês - o que tenderia mostrar a que ponto o território e a sociedade quebequenses faziam parte constituinte do desenvolvimento norte-americano da época, o grupo rival desse fato de uma universalidade em vias de emergência.

Uma outra característica importante lembrada pelos autores dessa síntese e posta em evidência por Rudin em seu artigo já citado, atinge a desmistificação da aura clerical que pendia no percurso histórico dos quebequenses e a sua substituição pela aura estática . A "declericalização" do passado quebequense, em que um dos aspectos é fazer ressurgir a pluralidade das crenças na região e de dessacralizar a missão da Igreja e a obra de seus cardeais, é de fato uma forte tendência da pesquisa histórica contemporânea.

Em verdade, o quebequense era, bem menos do que se poderia crer (ou sobretudo do que se quisesse levar a crer) um indivíduo "messiânico". Era, sobretudo, um indivíduo cívico dotado de uma cultura política e mostrava um entusiasmo para as instituições parlamentares democráticas, o mesmo acontecia com o liberalismo (15). Mais ainda, o aparelho do Estado (figura da identidade da nação moderna), o qual e negligenciou a história antes de 1960, entrou no coração do futuro quebequense (mais ou menos desde a Confederação), e seu desenvolvimento foi, considerando os recursos financeiros do qual foi dotado, comparado ao desenvolvimento das regiões ou estados vizinhos. Inútil dizer para finalizar, que o franco - quebequense era, a exemplo do modelo ideal do perfeito ocidental, um ser técno-científico que fundou, muito antes do que não se disse, suas próprias instituições e participou da busca do saber certamente graças ao seu gênio inventivo e também aos esforços sistemáticos de pesquisa que se seguiram.

Ainda que a demonstração in extenso desta tese tenha exigido desenvolvimentos muito mais longos e fundamentados no comentário detalhado de obras e de artigos marcantes, a argumentação avançada nos parágrafos precedentes permite ver como a produção dos historiadores corrente que trata do Quebec, está ligada, de maneira a reforçá-la, à mutação pela qual passaram os franco-quebequenses há trinta anos no plano de sua identidade e de suas representações coletivas, tais como são, em todo caso, formalizadas pela classe política e econômica. Descrita no início como sendo diferente do outro tudo nele sendo superior, esse indivíduo, graças ao esclarecimento trazido pelo novo Aüfklarer, tomou consciência de suas falhas (que dele se escondera, obscurecendo sua verdadeira situação) e procurou preencher o atraso acumulado com o objetivo de normalizar sua condição. Liberado de suas proteções e de suas fadigas, resistente de sua revolução, descobriu seu ser e restabeleceu sua situação histórica valorizando seu passado, sustentando suas semelhanças e universalizando seu percurso. Munido desta nova identificação positiva à qual os historiadores começam a dar base histórica, isto é, notemos a nuance, um fundamento pela história, o indivíduo quebequense pode divisar um futuro promissor e pode também, de uma vez por todas, livrar-se desta mentalidade de sitiado que o condenava inelutavelmente à condição de "pequeno".

2. Reconfiguração do Nós Outros : à luz de um novo identitário quebequense

Como a nova representação do indivíduo coletivo no tempo conduz a uma reinterpretação dos grandes episódios da história quebequense e a uma remodelação do percurso histórico seguido por esta coletividade?

Inicialmente um primeiro ponto: como vimos, a historiografia quebequense esmera-se agora em mostrar como a sociedade quebequense, desde seu status original de colônia e de fronte pioneiro até sua denominação atual de coletividade pluralista predominantemente francófona, sofreu uma evolução aproximadamente comparável a de sociedades do mesmo gênero. Se, na grande narrativa coletiva precedente , o Outro - e, principalmente o inglês - era continuamente descrito como um adversário, um estrangeiro e uma antítese, a versão atual dessa grande narrativa restabelece as bases de uma reconciliação com esse Outro que é doravante percebido como um fator de enriquecimento, uma "entrada" positiva no desenvolvimento coletivo. Em outros termos, a operação histórica de normalização do indivíduo franco-quebequense, restabelecendo favoravelmente a imagem que ele faz de si mesmo, coloca condições propícias a sua abertura para o Outro , o qual testemunham, além disso, todos os estudos que procuram fazer ressurgir a herança heterogênea (britânica, francesa, ameríndia, americana, etc.) e as influências exóticas as quais impregnou-se a cultura quebequense para tornar-se o que ela é. De agora em diante, o indivíduo franco-quebequense não é mais percebido como uma idiossincrasia da história: ele é a própria expressão de uma síntese, o que lhe torna comparável senão igual aos Outros o qual não tende a separar-se mas a associar-se à eles em parceria - o que pode, além disso, justificar sua pretensão a autodeterminação política.

Se bem que a idéia de defasagem, central no primeiro momento de elaboração (1950-1960) da idéia da modernização para pensar o desenvolvimento coletivo, está em vias de desaparecer. Rejeitada como manifestação de uma visão primariamente comparatista e evolucionista das sociedades, esta idéia sancionava de fato o caráter retardatário, anacrônico e marginal do indivíduo franco-quebequense com relação aos Outros , o que é propriamente dito inaceitável, verdadeiramente ofensivo, tendo em vista os critérios a partir dos quais generaliza-se doravante esse indivíduo, antes critérios de semelhança do que de diferença.

Uma vez a idéia de normalização sendo adquirida e desaparecida a idéia de defasagem, o campo está aberto para restaurar uma temporalidade que se manifesta no universal antes mesmo de se fechar ou de recuar sobre o singular e o local. Ainda que o fato de ligar a história do Quebec às grandes continuidades e descontinuidades do surgimento das sociedades ocidentais tenha começado a circular desde o final dos anos 70, é mais recente o fato dela estar incrustada na trama argumentária de uma síntese. Em um artigo bastante crítico para seus predecessores, John A . Dickinson e Brian Young (16), que são ao mesmo tempo os autores desta síntese (17), pleitearam decididamente pela utilização de uma periodização diferente fundada na identificação das transições maiores pelas quais a sociedade quebequense passou do ponto de vista dos modos de produção e de câmbio. Segundo essa perspectiva, a história quebequense está reestruturada em torno de cinco partes de inigualáveis durações, sempre mais curtas à medida em que se avança no tempo e que coincidem com as etapas de desenvolvimento. Esta cronologia e estas etapas são as seguintes:

- antes de 1650 (número de anos indeterminado): época dos sistemas sócio-econômicos autóctones ;

- 1650-1810 (160 anos): época pré-industrial;

- 1810-1880 (70 anos): a transição para o capitalismo industrial;

- 1880-1930 (50 anos): época do capitalismo industrial;

- 1930-1960 (30 anos): época da modernização;

- 1960 aos dias de hoje (30 anos): o Quebec contemporâneo.

Esta periodização, que deixa de estar vinculada à temporalidade marxista e seu evolucionismo implícito, reconcilia o percurso histórico seguido pela sociedade quebequense com os grandes parâmetros da transformação ocidental inscrevendo-o em uma trajetória amplamente compartilhada pelos outros povos. Fazendo isso, não somente o indivíduo coletivo é reconfortado em relação à seu passado que é "normalizado", mas é, além disso, tranqüilizado em sua pretensão de longa data de se apresentar como parte integrante do grupo de comando, evoluindo no diapasão desses que ainda percebia, até recentemente, como modelos a imitar ou marcos à se unir. Doravante, o indivíduo franco-quebequense pode assumir inteiramente sua condição de ser descomplexado e elevar-se à condição dos outros já que sua própria história, contrariamente ao que se tinha levado a acreditar, foi a sua maneira uma succesfull story .

Se esta periodização reconcilia o indivíduo franco-quebequense com o universal e o autoriza a romper seu enclausuramento às margens do mainstream da história, ela torna igualmente possível uma substituição total da historicidade e da temporalidade dos "pré-revolucionários" pelos "modernos" (18). Esta modificação na gênese fundadora de um grupo não é sem conseqüência. Já que a narrativa histórica resulta sempre de uma dialética complexa entre a memória (o que está posto em evidência) e o esquecimento (o que está conseqüentemente nas sombras), ela abre as portas para uma nova divisão da memória e da amnésia.

Novamente, é importante compreender a significação de tal modificação na gênese fundadora dos franco-quebequenses, os historiadores fazendo de qualquer maneira, nesse processo, o papel de cirurgiões encarregados da operação complexa e delicada de manejo dos lóbulos memoriais do indivíduo coletivo:

- Retraçar no tempo os índices da presença de um indivíduo moderno e pluralista, liberal e urbano, econômico e racional, é apoderar-se de um passado do qual os "Antigos" tinham se apropriado pretendendo que fosse o lugar de evolução de um indivíduo tradicional que se encarnava principalmente na figura do agricultor (sujeito normal opondo-se ao lenhador (19), tipo indigno, e para o tipo indigno, e para o empreendedor industrial, sujeito em segundo plano (20)). Apoderar-se desse passado a ponto de demonstrar que o habitante procurava as ocasiões de negócios e que se comportava como um espírito utilitarista, é negar a perspectiva que o franco-quebequense jamais tenha sido, no decorrer de sua história, um ser tradicional (isto é, um ser marcado pela imobilidade, pela preservação e pela perpetuação das coisas). Isso feito, é destruir a memória e a história dos "Antigos", é também dissolver sua identidade e sua existência. Em suma, é apropriar-se todo o espaço de uma coletividade, sua historicidade como seu futuro, o que é um fator de ascendente hegemônico formidável sobre a psiquê de uma comunidade de comunicação, percebendo-se, descrevendo-se e representando-se doravante graças a categorias que não são as da história mas as de um grupo que define pela história suas condições futuras, de ascensão, de validação, de poder e de hegemonia (21).

Esta reinterpretação dos grandes episódios da história quebequense e a remodelação do percurso histórico desta coletividade parecem, a primeira vista, apresentar dois problemas:

a) Ligando a história do grupo aos grandes parâmetros do futuro universal e negando a idéia de um povo enclavado, continuamente submetido aos terrores da opressão de seus invasores e de seus dominadores. São enfraquecidos, por um lado, a própria tese do povo distinto, por outro lado, o desenvolvimento forçado ou suspenso pelo estrangeiro.

b) De outra maneira, na medida em que a nova periodização identifica vários momentos de transição que são antes interpretados como processos objetivados substituindo-se uns aos outros, e na medida também em que ela se desfaz das tramas políticas convencionais (Conquista de 1759, Rebelião de 1837-1838, Confederação de 1867, etc.), é o próprio status deste episódio fundador ao qual a tecnocracia associou sua historicidade e sua temporalidade, isto é, o da revolução tranqüila, que foi posto em questão (22).

Ora, esses dois problemas não foram realmente uma reinterpretação e uma remodelação para os edificadores da presente versão da grande narrativa coletiva. De um lado, a normalização do passado coletivo pela refiguração de uma história muito mais otimista e brilhante fundou a pretensão de uma possibilidade de destino glorioso para um povo há muito descrito e depreciado sob as representações ofensivas de "lenhador", de "aguadeiro" e de "comedor de sopa de ervilha". De outro lado, ao invés de questionar o passado negativamente a partir de uma problemática do esquecimento e através de questões do gênero: "Como e porque o desenvolvimento do Quebec não foi esse?" e , sobretudo, somos levados a compreender, a partir de uma problemática das condições particulares de evolução de uma sociedade de um questionamento positivo, usando fórmulas do gênero: "Como e porque esse desenvolvimento foi assim?", a característica específica e original do passado quebequense. Assim sendo, a passagem do indivíduo vencido e desmoralizado ao indivíduo ideal e ambicioso foi sancionada.

Sabe-se até que ponto a constituição de uma identidade se realiza em uma relação dialógica e dialética com o Outro , este último freqüentemente aliado a um inimigo e, o caso à vencer, apontado como a causa do infortúnio do primeiro. No caso dos franco-quebequenses, esse Outro foi o inglês (que uniu-se ao ameríndio como antítese do bom indivíduo). No entanto, a versão atual da grande narrativa coletiva (entenda-se bem, sob sua configuração competente,) tende modificar a figura desse personagem antitésico que toma doravante o aspecto de forças e de fatores objetivos. Certamente, o inglês permanece como parte ativa do meio, mas é considerado como um ator dispondo de um certo número de privilégios com relação ao francófono, levando em consideração sua situação privilegiada de acesso a informação. Em outros termos, o inglês é desativado enquanto consciência maléfica e reencarnado sob forma muito mais neutra de um modo de produção e de troca. Da mesma origem, segundo esse novo roteiro, o francófono não aparece mais como vítima de sua própria inércia e sua condição específica não resulta mais de seu próprio encarquilhamento sobre si mesmo (esse que freqüentemente lhe censurou). Essa condição leva antes a um conjunto de situações sobre as quais ele não tivera praticamente tomado conhecimento, o que o libera do formidável fardo do acusado e lhe assegura uma responsabilidade desagradável à sustentar. Mais ainda, embora pressões nas quais devia evoluir, o francófono mostrou ao longo de sua história, uma grande imaginação para encontrar soluções aos problemas que encontrava ou para aproveitar as ocasiões que se apresentavam à ele, é preciso admitir que ele soube provar, quanto a isso, suas competências. Evidentemente, a grande narrativa leva a relativisar a dicotomia oprimido-opressor sobre a qual fora fundada a concepção precedente da história coletiva e faz do franco-quebequense um ser audacioso e ambicioso, o que corresponde de fato as características dessa espécie de herói coletivo -- o Ser de mercado empreendedor de sua própria existência - que se impõe no imaginário das elites quebequenses há uma década.

O desaparecimento das criaturas de pele e dos acontecimentos políticos em proveito dos fatores objetivos - que se comenta em termos de fenômenos ou de processos - não foi, entretanto, até dessacralizar este episódio, pivô na história quebequense que é a revolução tranqüila. Na verdade, admite-se naturalmente, que esta data de 1960 não é senão um sinal cômodo para situar uma mudança geral que não tem, como tal, temporalidade precisa mas que se estende no decorrer de um período mais ou menos longo. Assim, se reconhece que a revolução tranqüila foi precedida por um prodigioso trabalho de interpretação e de crítica; verifica-se assim que o advento da televisão em 1952 mudou particularmente o universo representativo de uma multidão de indivíduos respondendo de pronto as solicitações da modernidade; insiste-se enfim sobre o fato de que o número de mutações já tinham modificado poderosamente a sociedade e a economia quebequenses no sentido das fortes correntes que se manifestavam em terra americana. Dito isso, essas nuances que se trás à narrativa clássica reforçam tão somente sua trama central, a saber que o povo franco-quebequense não pode sair in extremis de sua condição (foi ela especial e não tão desfavorável que se teria acreditado, não era ideal) senão devido a uma nova classe esclarecida - que chamamos "tecnocracia" - a revelou, guiou e conduziu para uma nova era a qual ainda se beneficia.

Mostrou-se, aliás (23), que a revolução tranqüila era, para a tecnocracia, um episódio identitário e um dos acontecimentos chave pontuando sua própria história confundida com a história do Quebec. Gostaríamos de acrescentar um outro elemento que permite compreender porque a revolução tranqüila não pode e não poderá ser facilmente derrubada de sua base no imaginário coletivo franco-quebequense apesar de nuances suscitadas nesses últimos anos pela produção intelectual. Na historiografia canadense-inglesa anterior a 1970, o episódio da Conquista de 1759 é de fato interpretado como um momento de liberação favorável aos francófonos, levando-se em consideração o avanço detido pelos britânicos nesta época, tanto no plano das estruturas econômicas quanto no plano das instituições políticas. Por outro lado, segundo essa narrativa a qual encon- tra-se suspeita e os ecos até nos trabalhos atuais, o Canadá foi construído graças ao espírito de empresa dos capitalistas britânicos vindos à esse continente com seus valores e suas instituições. Para concluir, na grande narrativa canadense-inglesa anterior a 1970, a conquista foi uma bênção para os vencidos e os britânicos não foram nada menos do que os libertadores permitindo aos conquistados escrever sua historicidade ao lado dos vencedores. Então, é todo o tipo de franco-quebequense que, desde o princípio, foi dependente da boa sorte dos britânicos (ou dos canadenses, esse não é o problema), isto é, dos Outros . Pode-se conceber destino mais trágico do que ser desprovido do governo de sua própria sorte e confinado, incapaz, ao papel de espectador de sua história? A revolução tranqüila, enquanto episódio fundador de um retorno identitário dos francoquebequenses, permite justamente romper com esta perspectiva alienante e restabelecer os francófonos enquanto heróis de sua própria liberação, em outros termos, de lhes dar um papel positivo de atores e de comandantes de sua própria historicidade. A revolução tranqüila consuma a vingança desta terrível derrota que foi, no plano simbólico, a derrota das Plaines d' Abraham (N.T.). Ela autoriza os franco-quebequenses a se apresentarem também como vencedores na história. Feito isso, o exorcismo da identificação negativa do indivíduo histórico é subjugado e sua derrota é resgatada.

N.T. - Planícies de domínio canadense, situadas na província de Quebec ao norte do Saint-Laurent e à oeste da cidade de Quebec. Palco do combate entre ingleses e franceses no qual foi decidido o destino da Nova-França.


(1) Versão reduzida de um artigo publicado em Recherches sociographiques , 36,1 (1995), p. 9-45.

(2) Nos referimos aqui aos trabalhos publicados sobre a história do Quebec desde o início dos anos 80. Isso não implica que os escritos precursores, que influenciaram a evolução da historiografia, não tinham sido publicados antes desta data. O leitor compreenderá que nós passamos aqui rápida e concisamente às orientações maiores tomadas pela produção dos historiadores, sem nos determos ao comentário detalhado dos trabalhos nem a sua nomenclatura exaustiva.

(3) De fato, poder-se-ia avançar na idéia que não existe identidade fora desta linguagem e que portanto, a identidade se constrói num quadro de uma circulação discursiva ininterrupta; como, poderia-se sustentar que a história, enquanto o olhar lançado sobre o passado, é uma identidade que se coloca em representações, em ações e em palavras.

(4) A constar que essa narrativa era antes otimista pelos horizontes de espera e o prognóstico que ela projetava: permanecia fundamentada sobre o postulado querendo que os Canadenses franceses, enquanto que detentores da fé católica, representavam em terra americana um germe de continuidade da tradição leal do Antigo Regime e uma fortaleza contra a hegemonia do protestantismo anglo-saxão.

(5) Culturalista por seus postulados, a problemática da folk-urban society , modelo de tipificação ideal das etapas do desenvolvimento das sociedades, sugeria, em sua formulação inicial que, por um lado, a sociedade quebequense evoluía segundo a trajetória previsível de um continuum entre a sociedade tradicional e rural e, por outro lado, da sociedade urbana e moderna. Com muitas considerações, pelos detentores desta tese, a sociedade quebequense permanecia uma sociedade tradicional voltada para a modernidade e constituía, desse modo, um caso interessante à observar já que se podia estudar, de visu e in situ, um processo de transição aliás concluído.

(6) Infelizmente, nós não nos referimos a uma situação material vivida pelo povo, mas a uma miséria coletiva resultante da persistência de mentalidades aparentemente anacrônicas. Sabe-se que esta idéia implícita de uma condição infeliz influenciou profundamente o desenvolvimento da reflexão sociológica, política, econômica e histórica do Quebec entre 1960 e 1970, esta reflexão estando amplamente centrada sobre as problemáticas da dependência, da subordinação econômica e da opressão nacional . Mencionamos, para finalizar, que até os anos 50, numerosos foram os autores que associavam positivamente a infelicidade dos canadenses franceses, bem como, seu tormento coletivo e sua pobreza, com um tipo de gênio, confirmando assim o que os outros sempre perceberam como sendo um elemento central de identidade quebequense: o amor pela derrota.

(7) Dá-se o nome de revolução tranqüila a esse período de aproximadamente seis anos (1960-1966) ao longo do qual uma coletividade projetada por uma nova classe política fortemente inspirada pelo ideal de intervencionismo estático e pela planificação tecnocrática, coloca as condições de sua promoção relativa e absoluta lançando todo um conjunto de medidas que terão, por conseqüência, de modificar radicalmente as maneiras de ser, de fazer, de pensar e de dizer em seu meio.

(8) Fernand Ouellet, "La nouvelle histoire", Recherches sociographiques , 26,(1-2) 1985, p. 11-83.

(9) "Revisionism and the Search for a Normal Society. A Critique of Recent Quebec Historical Writing", Canadian Historical Review, 73,1 (1992), p. 30-61.

(10) Para realizar nosso estudo, tiramos proveito do guia bibliográfico de Jacques Rouillard. O interesse desta obra vem do fato em que oferece ao usuário uma nomenclatura exaustiva dos trabalhos publicados sobre a história do Quebec no decorrer dos últimos vinte anos e que ele os situa com relação a evolução da historiografia. Analisamos sistematicamente a Revue de l'histoire de l'Amérique française, Histoire sociale/Social History et Recherches sociographiques . Enfim, tivemos acesso aos catálogos cumulativos das editoras publicando obras sobre a história do Quebec.

(11)Guide d'histoire du Québec du Régime français à nos jours . Bibliographie commentée, Monréal, Méridien, 1991.

(12) Jean-Pierre Wallot e Pierre Tousignant, "Le Régime britannique", dans J. Rouillard, op. cit., p.

(13) Paul-André Linteau et al., Histoire du Québec contemporain , I: 1867-1929, Montréal, Boréal, 1979; id., Histoire du Québec contemporain II : des années 1930 à nos jours , Montréal, Boréal, 1986.

(14) Jacques Rouillard, op. cit., p. 127.

(15) É preciso deixar claro que a idéia aqui não é de negar a importância adquirida ou representada pela Igreja na história do Quebec, mas de mostrar, por um lado, que esta se comportava como uma quase empresa interessada pelo desenvolvimento econômico e que, por outro lado, a adesão às ordens era para um número de indivíduos - principalmente para as mulheres - um cálculo oportunista e estratégico de promoção social e de extensão de seus horizontes pessoais.

(16) "Periodization in Quebec History. A Reevaluation", Quebec Studies, 12 (1991), p. 1-10.

(17)Brève histoire socio-économique du Québec , Sillery, Septentrion, 1992.

(18) As noções de "pré - revolucionários" e de "modernos" são construídas com referência ao episódio da revolução tranqüila que, no imaginário coletivo, demarca um tempo do Depois com relação a um tempo do Antes e tipifica, para cada uma dessas temporalidades, um indivíduo histórico irreconciliável com seu duplo negativo. Com relação a isso,ver J. Létourneau, "La saga du Québec moderne en images", Geneses, 4 (maio 1991), p. 44-71.

(19) Sabe-se a que ponto o lenhador, durante muito tempo a figura odiada pelo clero, figura aproximada do selvagem, agente incontrolável, incompreensível e fugidio, constituía para a maioria dos Brancos um exemplo invejado.

(20) Empregamos a revelia o termo "segundo plano" para indicar que, sem estar ausente do discurso distinto dos tradicionalistas, o empreendedor não fazia parte do panteon dos heróis aclamados.

(21) Feito isso, pode-se pensar que os "modernos" são dotados implicitamente de um capital simbólico considerável.

(22) Sobre a idéia segundo a qual existe uma confusão positiva entre a história do Quebec moderno e a história da ascensão social da tecnocracia, ver nossos seguintes trabalhos: J. Létourneau, " Quebec d'après-guerre et mémoire collective de la technocratie ", Cahiers internationaux de sociologie, XC(1991), p. 67-87; Id.., " Le Québec moderne: un chapitre du grand récit collectif des Québecois ", Revue française de science politique,41, 5 (outubro de 1992), p. 765-785.

(23) Ver nossos artigos citados anteriormente.