A historiografia como espelho, eco e narrativa de "nós outros"

Jocelyn Létourneau 
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Comentário: Sandra J. Pesavento (UFRGS)

O texto de Jocelyn Létoureneau é, sobretudo, instigante, pois nos remete às questões que se colocam para o historiador nesta nossa " fin de siècle " e do "milênio": a da escritura da história e a da identidade.

A começar pela metáfora inicial, que se introduz pelo título: a historiografia como espelho. Ora, o espelho não é a reprodução mimética ou o reflexo fiel do real, porque, neste processo se introduz a mediação do olhar, que recepciona a imagem e lhe atribui significados. Se é o olhar que qualifica o mundo, a leitura também produz sentido, multiplicando as representações possíveis de um mesmo objeto, contemplado ou narrado.

Neste eixo de problematização se insinua a narrativa historiográfica, que - tal como um espelho - é capaz de produzir de um mesmo referente - a realidade passada - imagens distintas, que são ressignificadas através do tempo.

Pensar a escrita da história por este prisma implica pôr, no mínimo, entre parênteses os clássicos atributos de objetividade, racionalidade e veracidade do conhecimento histórico produzido.

Tal inflexão na maneira de entender a escritura da história permite apreciar a historiografia como um espelho, que fornece imagens do real, sem guardar com ele uma correspondência única ou verdadeira.

Enquanto narrativa e, portanto, representação, a história oferece imagens construídas, dotadas da força da credibilidade, que assumiu o que se poderia chamar de "efeito de real".

Este processo se torna mais perceptível, como insinua o texto, quando se trata de abordar a questão ancestral, telúrica, histórica e política da identidade. Esta seria a segunda ordem de reflexão que o artigo de Létoureneau sugere.

A identidade, esta comunidade simbólica de sentido que constrói a sensação de pertencimento e possibilita a coesão social, é um referencial imaginário revisitado com freqüência pelos historiadores.

Artífice das representações do passado, reimaginando o imaginado, o historiador é alguém que organiza, seleciona, recorta, articula e compõe o registro do passado, ordenando os vestígios de uma temporalidade transcorrida e atribuindo-lhe um significado que conforta e estabelece marcos de referência.

A historiografia é assim um eco - segunda figura de linguagem empregada pelo autor - que articula vozes de uma temporalidade passada, tornando-as inteligíveis para os homens do seu tempo.

Isto implica dizer que a construção de uma identidade, através da recuperação da história de um povo, pode ser continuamente reescrita e ressemantizada, segundo as expectativas, necessidades e injunções do presente.

O eco, no caso, transmite, pois, tal qual o espelho, as palavras e as imagens que se quer ouvir e ver, o que torna toda e qualquer produção historiográfica irremediavelmente datada.

O caso de Québec, como bem demonstra o autor, é exemplar para que se apreciem como estereótipos, visões e apreciações valorativas e depreciativas se constroem e reconstroem através do tempo.

Uma terceira ordem de reflexão se insinua com a enunciação feita: "nós outros". A identidade construída é sempre uma constatação da existência de um outro: a França existe porque existem os alemães além do Reno, os portugueses se constroem como identidade contra e a partir dos espanhóis, assim como os franco-quebequenses têm seus marcos de ancoragem identitários definidos pela existência dos anglo-canadenses.

Todo processo de construção identitária pressupõe uma dimensão relacional, que contrapõe a alteridade à identidade e que atrela a existência do outro à construção do nós.

Entretanto, o texto encaminha a discussão também para uma outra dimensão, que é a do estranhamento da postura intelectual, que permitirá ver como estrangeiro o que é nosso e ver no outro uma projeção de nós mesmos.

Como atitude que preside o trabalho científico, este distanciamento do olhar não é fácil, quando se trata de entender, analisar e explicar nosso próprio ethos - a configuração identitária na qual nos inserimos - ou a produção intelectual que define nossa própria trajetória.

Isto implica, por vezes, assumir a atitude do viajante, na qual é preciso por vezes afastar-se do local em que se vive, para poder entender o que se vive. Olhar a si próprio como um outro - seja com relação ao processo identitário, seja com relação à narrativa historiográfica - pressupõe, portanto, esta posição de estrangeiridade.

Por outro lado, este encadeamento de reflexões, conduzido ao plano identitário, desemboca no que Julia Kristeva afirma - "Estranhamente, o estrangeiro habita em nós" -, o que implica aprofundar na análise do processo identitário. Trata-se de assumir que, em cada um de nós, é possível encontrar um outro oculto, não revelado ou confessado, assim como, com relação à comunidade, pode-se qualificar como estrangeiro qualquer um diferente de nós, ou seja, o outro.

Só que este "outro" pode variar, conforme a temporalidade e a historicidade transcorrida, tal como varia também a configuração identitária na qual nos inserimos.

O caso analisado pelo autor é típico, pois revela a capacidade imaginária da narrativa historiográfica de incorporar o outro no viés identititário. Reconfigurando-se a apreciação valorativa do inimigo tradicional, este "outro" do franco-quebequismo - a alteridade inglesa - é capaz de ser visualizado como condição de diversidade e riqueza para a identidade que se reconstrói.

Não há como deixar de pensar em outras escrituras que trabalham com a construção historiográfica, como é o caso da latino-americana e, particularmente, do Brasil, que também redefinem, ao longo do tempo, o julgamento de seus personagens sociais, como é o caso tão discutido da mestiçagem. Porque, a rigor, a temática posta em pauta pela articulista é, em si, universal: a possibilidade de releitura de um processo de escritura da história que é, em si, construtor da identidade e que faz, ao longo do tempo, reavaliar, ressemantizar e mesmo trocar de lugar os sujeitos de quem se fala: nós e os outros.

Um fio percorre toda a leitura: a escritura do passado de um povo que é, sempre e necessariamente, a história do seu presente, tem recorrências com o mito: a força e autoridade da fala a torna quase uma verdade revelada e, como narrativa, conta, rememora, explica e conforta, fornecendo a um povo a sua identidade.