Nacionalismo e vanguardismo na ideologia política

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As correntes de hoje. O indigenismo

José Carlos Mariátegui
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Comentário: Silvina Carrizzo (UFF)

José Carlos Mariátegui (Lima, 1895-1930) foi um agudo pensador de formação autodidata, jornalista e militante político, com uma vasta produção escrita (artigos, ensaios, crônicas, críticas e projetos), e uma não menos vasta atuação política, destacando-se como diretor de revistas tais como Nuestra época (1918) e Amauta (1926-1930) - entre outras -, como fundador da Central Sindical (1927) e do Partido Socialista (1928), além de ter sido um crítico polêmico de Haya de la Torre , político peruano mentor da "Alianza Popular Revolucionaria Americana" (APRA -1926).

"Nacionalismo e Vanguardismo: na Ideologia política" aparece pela primeira vez em Mundial , na cidade de Lima, em 27 de novembro de 1925 e "As correntes de hoje. O Indigenismo" forma parte do já clássico Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana , que é de 1928. Ambos os textos trazem à baila a "novidade" já desde seus títulos. É que, como todo homem moderno, José Carlos Mariátegui sentia que se abria um novo momento para o país. Um tempo em que o novo surgia como um entramado enriquecedor da interligação de três fatores: a) as forças sociais em mudança, a presença do operariado e do movimento camponês, b) uma percepção diferente da construção temporal da nação -passado/presente/futuro-, e c) o dispositivo marxista como intérprete e canalizador das energias do presente. O novo entendido como uma relação fundante entre a atualidade e a tradição, entre as demandas sociais da sua contemporaneidade e o espírito da civilização incaica, e ainda como uma energia criativa na busca de soluções.

Esse sentimento de "novidade" aflora nele depois da experiência européia, depois da viagem (1919-1923) Nesse deslocamento do olhar, o cidadão universal se torna ainda mais local, questionando-se sobre o que é ser peruano: "Partimos para o estrangeiro à procura do segredo de nós mesmos, e não do segredo dos outros". Nesse aspecto, Mariátegui procurará abranger a sociedade em sua totalidade - na sua dupla vertente: a mundial e a nacional -, compreender sua problemática, partindo assim, de uma análise da situação econômico-social e política na perspectiva marxista, e da sua relação com as manifestações do povo e das artes, de modo geral.

Um espírito novo, aquele de ruptura, deveria delinear, na esfera da arte, uma consciência e uma literatura sem ataduras com o colonialismo espanhol. O momento novo, que ligaria em seu pensamento o presente e os tempos anteriores à colonização, era o do "indigenismo", uma aproximação à "peruanidade" através de caminhos universais e cosmopolitas. Mariátegui não pode pensar o país fora do panorama do mundo, longe das implicâncias do ritmo da economia capitalista que abarca todo o ocidente. Se seu pensamento político se vincula àquele da crítica à civilização burguesa, ao evolucionismo colonialista e ao fatalismo das leis deterministas é porque percebe que só um modo de refletir criativo e necessariamente atrelado à realidade próxima poderia instaurar o espírito revolucionário. Nesse sentido, pensar o Peru, a terra e ao índio, será pensar sobre as problemáticas em comum que afetam a toda América Latina.

O conceito de nação surge então na clivagem entre uma determinada noção de passado e presente, entre o particular -a situação de dependência e fragilidade do país- e o universal -o ritmo da história mundial, o capitalismo -, entre o nacional - o genuíno - e o cosmopolita - a modernidade, o progresso. Nesse espaço, Mariátegui construirá a sua reflexão sobre a nação através da escritura de ensaios, fazendo germinar uma forma de pensar inovadora e utópica pelo que teria revolucionária e de potencial futuro.

Se na maioria dos seus trabalhos se interessa em ressaltar e analisar o fracasso da burguesia liberal em resolver a questão nacional -tanto no Peru quanto em outros países do continente -, nesses dois textos escolhidos visamos iluminar a forma com a qual o pensamento de Mariátegui desenhava o mapa da vontade, o teor do espírito de mudança. Conceitos chave como os de nacionalismo, socialismo, vanguarda e indigenismo se constituirão como os operacionalizadores de uma forma original de refletir a respeito da conjuntura que vive o país, no período de entre guerras.

Para isso, no artigo de 1925 o autor se coloca como porta voz de um modo de sentir e pensar a realidade peruana. Assim a nova geração percebe que estar na avant-garde do país é compreender o maior de seus problemas: o índio. A partir dessa argumentação, Mariátegui, com um estilo discursivo muito próximo do "manifesto", cria os elos necessários para a junção de conceitos como os de vanguarda, nacionalismo e socialismo.

A forma de entender o conceito de vanguarda política significava para eles assumir o compromisso com o marxismo. Não devemos esquecer a respeito o impacto que a revolução russa provocou em Mariátegui e de que forma a experiência européia contribui para organizar seus modos de pensar e agir. Já no caso do nacionalismo começa por descompor o que isso significa no interior do discurso reacionário, para o qual percebe o "artifício" na construção das histórias da nação e os riscos que a importação de idéias pode trazer num país colonizado. O "artifício" -muito próximo da noção de falso- não apenas se apropria do território, mas também do passado, por isso o tom sentencioso e de disputa: "A nova geração reivindica nosso verdadeiro passado e nossa verdadeira história". Essa reivindicação de um "genuíno" passado permitiria emergir a história dos expoliados, e aí o "verdadeiro", no caso a imensa visibilidade do índio e sua condição de excluído, aparece por sua vez imbricado ao imperativo do território: "Nenhum nacionalismo pode prescindir da terra". O humus soberano do espírito - o comunismo incaico- alargando e gerando as fronteiras espaço-temporais da nação autenticamente peruana.

Vinculado aos conceitos de artifício e de território aparece o de solidariedade. Nesse sentido, solidariedade tem a ver com uma percepção realista - o "hoje"- e moderna que procura soluções para o presente, ou seja: a práxis política cuja base está no socialismo.

Logo após o tom de manifesto irrompe mais uma vez o tom explicativo. É o momento de sistematizar as relações nacionalismo/socialismo. Para isso, a estratégia primeira é a de poder captar a singularidade da "realidade dos países colonizados" -questão que para a época e desde a ótica do marxismo resultava muito herética - desmascarando a interligação entre burguesia nacional e capitalismo: "Nesses povos, o socialismo adquire (...) uma atitude nacionalista". Uma vez limpo esse território, a segunda estratégia é a de fazer ressurgir o "espírito revolucionário" e a "idéia de liberdade", sentimentos que tendo pertencido à formação das nações devem ser então associados ao socialismo. Na imbricação do conceito de "revolução" e "liberdade" aparece uma consideração importantíssima na reflexão de Mariátegui, aquela que diz respeito à "experiência do colonizado", não apenas inovadora para o pensamento latino-americano, mas ainda para a reflexão marxista. Em suma, o agir revolucionário de um povo colonizado exigiria do socialismo em primeiro termo uma atitude nacionalista.

No ensaio "As correntes de hoje. O indigenismo", Mariátegui privilegia dentro das artes a literatura, escolhendo-a como campo de debate a respeito da questão do país e da construção dos "artifícios" do nacional. Como seria possível ler as coordenadas da nova geração vanguardista e nacional dentro da literatura peruana atual? Como ler a partir dessas premissas a história da literatura nacional? Qual a missão da literatura? No complexo tecido da construção das identidades nacionais e da necessidade de uma resposta que esteja na altura dos tempos, a colocação que o autor faz do "indigenismo" adquire um singular viés: uma preferência pelo presente, uma vontade de ruptura, e uma rejeição interessante da mestiçagem. Partirá, para isso, da consideração do problema do índio como uma urgência nacional e de reivindicação social e espiritual, trabalhando as relações entre situação social do índio, a sua história e a questão demográfica. São essas argumentações as que lhe permitirão colocar o índio no centro da peruanidade. Na época, lembremos que o presidente Leguía (1919-1930) governava no Peru e o Estado tinha-se voltado para as regiões rurais através de políticas indigenistas estabelecendo "El Patronato de la raza Indígena"(1922), políticas que não guardavam muitas diferenças do que foi feito em relação aos índios no período colonial. O tema do índio estava em pauta, daí que a interpretação do autor sobre esse problema assinale o momento do surgimento de uma nova percepção dos outros, dos "uns", e em decorrência, da nação em sua diversidade.

No momento das vanguardas, nesse período de internacionalização de diferentes processos político-econômicos, no qual se observa uma relação particular entre o político e o estético, o Peru esta devendo uma resposta a seu povo no plano sócio-político e isso pode se constatar também na esfera da arte: o indigenismo literário é o seu sintoma. Nesse sentido, Mariátegui, se mostra um instigante leitor da articulação literatura/sociedade, constituindo-se como um crítico, na trilha dos marxistas, versátil e capaz de dar conta do estado do campo literário. Segundo ele, a sensibilidade nova se alimenta de um panorama mental mais realista, mas também por isso mais lírico, de um olhar materialista - o condicionamento do desenvolvimento econômico e social- e de um impulso vital. Essa sensibilidade é o alicerce das tentativas e esboços da poesia andina, ainda em germem, que aos poucos abandona a corrente costumbrista para idealizar o índio e estetizá-lo. Porém, a poética indigenista é ainda um assunto de sujeitos mestiços, são eles os que ainda têm a palavra. Contudo, há uma confiança nesses mestiços, eles também têm uma missão a cumprir. Nesse aspecto só poderia chegar-se ao indigenismo através de uma reivindicação dos excluídos política e economicamente, reivindicação que exige dos escritores a tomada de consciência do espaço simbólico que eles ocupam na sociedade. Assim a escritura de Mariátegui se torna programa e exemplo de vontade. A maioria indígena, por enquanto, não tem voz, mas a terá. Esse dia é o da revolução, o dia em que os excluídos terão a sua própria literatura.

Refutador tenaz de qualquer tom profético -pense-se na sua crítica ao mexicano Vasconcelos -, o autor amarra-se aos resultados imediatos e se contenta com perspectivas próximas. Sob esse ponto de vista consegue desmascarar o sentido da mestiçagem quando colocada como questão identitária, ao interpretá-la como metáfora ideológica, Mariátegui compreende que não seria senão uma construção de e para a cultura dominante. Por sua vez, sabe desacreditar o tom ufanista que comumente, segundo ele, acompanha essa metáfora ideológica na negação de um futuro que não partisse de uma atenta consideração da materialidade do presente, daí que ele assinale: "o índio é".

Mariátegui, embora tentando mapear o espaço da mudança e refletindo sobre suas possibilidades no âmbito do literário e do histórico, continua a imaginar um conceito de nação no qual sempre haverá "artifícios" -e aqui "artifícios" no sentido de versões discursivas- para a exclusão e a inclusão. Ao se referir aos mulatos, aos pretos, aos chineses e em grande medida aos mestiços, a sua argumentação cai na mesma armadilha, ao se privilegiar o lugar dos novos sujeitos históricos, os índios, outros sujeitos devem ser "escrituralmente" rasurados. Existe uma lógica interna que não lhe permite fugir do bipolarismo da argumentação, embora a colocação do problema como uma questão sociológica e a sua interpretação particular do marxismo tenham-lhe permitido rejeitar as teorias da raça em sua vinculação ao positivismo e ao determinismo e quando atrelados aos discursos sobre a nação que pairavam na época. Todavia, resíduos de estereótipos ajudam a desqualificar a importância social dos elementos que compõem a sociedade peruana.