Nossa América

José Martí
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Comentário: Liliam Ramos (UFRGS)

(...) Martí foi o mentor direto de nossa Revolução, o homem cuja palavra era sempre necessário recorrer para dar a interpretação justa dos fenômenos históricos que estávamos vivendo, o homem cuja palavra e cujo exemplo era preciso recordar cada vez que se quisesse dizer ou fazer algo transcendente nesta pátria... porque José Martí é muito mais que cubano - é americano; pertence a todos os vinte países de nosso continente e sua voz se escuta e respeita não apenas aqui em Cuba mas em toda a América (...)

Ernesto Che Guevara (discurso a crianças e jovens em um ato de homenagem a José Martí, em 28 de janeiro de 1960, em Cuba)

O GUERRILHEIRO

José Martí (Havana, Cuba, 1853 - 1895) sempre teve o desejo de ver sua pátria livre. Na 'Escuela Municipal de Varones', teve como diretor o discreto poeta Rafael María Mendive, que seria seu mentor literário e inspirador de seu pensamento separatista. A situação colonial de Cuba, a última das possessões espanholas no Novo Mundo, definiria toda a existência de Martí, diferenciando-o essencialmente dos outros escritores hispano-americanos do fim do século XIX. Enquanto estes escritores se dedicavam à função criadora, Martí se comprometeu desde cedo com a liberação de sua pátria e por ela dedicou todas as suas atividades.

Martí lutava a favor do separatismo, sempre deixando os estudantes a par do que estava acontecendo e incentivando manifestações. Primeiro escreve no El siglo , jornal clandestino de estudantes. Aos dezesseis anos, juntamente com Valdés Domínguez, escreve no El Diablo Cojuelo , um pequeno jornal satírico de estudantes que teve somente uma edição. Pouco depois sai o jornal La Pátria Libre , que inclui seu dramático poema Abdala , "escrito especialmente para la patria". Foi condenado à prisão em 4 de março de 1870, onde passou seis meses fazendo trabalhos forçados que prejudicaram para sempre a sua saúde. Devido a esse espírito de libertação de sua pátria e seu povo, em janeiro de 1871 é deportado à Espanha. Desde então, todos seus esforços se orientarão em direção a um único propósito: a independência de sua pátria. Após a primeira deportação, Martí não teve mais moradia fixa, sempre viajando pelo mundo para poder reunir cubanos a favor de uma mudança política em seu país. Sua vida começa a ser resumida em fugas, já que ele estava conspirando contra o governo. Chegando à Europa, publica um texto chamado El presidio politico en Cuba , com afirmações apaixonadas e valentes, que foram reafirmadas em 1873 com La República Española ante la revolución cubana . Neste país tão distante, cursa Direito, Filosofia e Letras e dá aulas particulares. Terminados os estudos, em dezembro de 1874 se mudou para Paris. Depois de um tempo longe da América, regressa e vai morar no México, onde escreve para o teatro. Chega a voltar a Cuba, para resolver assuntos de família, mas é por pouco tempo. Novamente muda de país e vai para a Guatemala, onde dá aulas de filosofia na universidade e funda a Revista Guatemalteca . Em 1879, volta à Espanha onde faz discursos políticos e conspira para a revolução. Em 1881, passa cinco meses na Venezuela e, como professor, funda a Revista Venezolana , que fez muito pela renovação literária em Caracas. Em Nova Iorque, além do jornalismo, trabalha como empregado de comércio, professor de espanhol e tradutor do inglês e do francês. Publica no jornal nova-iorquino dois livros de poemas: Ismaelillo , 1882, e Versos Sencillos , 1891 - um romance - Amistad Funesta , folhetim do El Latinoamericano , 1885 - com o pseudônimo Adelaida Ral, e um jornal para crianças - La Edad de Oro , 1889.

Nos Estados Unidos conhece vários cubanos emigrantes. Reúne-os, organiza-os e disciplina-os até que chegue o momento de trabalhar na guerra libertadora, onde atua valentemente em toda a campanha. Estava sempre atento aos conflitos que iam se aprofundando entre os chefes militares, tratava de ilustrar para os norte-americanos as condições em que deveria ser feita a independência da ilha, acompanhava e alertava diariamente os soldados e não fugia dos combates. No dia 19 de maio de 1985, na cidade de Dos Ríos, morre em um pequeno combate com as tropas espanholas.

O ESCRITOR

Martí, neste vigoroso texto destinado ao povo americano, pede que este acorde e livre sua América dos colonizadores europeus. Usa metáfora para despertar o instinto nacionalista daqueles que se conformaram com uma colonização brutal. A palavra-chave é "idéia", ou seja, representação mental, imaginação, elaboração intelectual. Cada ser humano possui a capacidade de ter sua própria elaboração intelectual e com isso conseguir a sua autonomia.

Não há o que temer dos invasores. O aldeão americano é mais forte. Há que se buscar a força em suas raízes. Os colonizadores chegaram com uma idéia, e por isso conseguiram apropriar-se da terra alheia. O sangue derramado afetou o espírito americano, mas não acabou com a sua sede de vitória pela recuperação do continente tomado. A árvore não foi atingida, os americanos têm que acreditar em seu potencial, em sua idéia, em sua terra, em sua América. Uma frase marcante da época da guerra independentista de Cuba é quando José Martí diz que "um povo não se funda pelos métodos com que se manda num acampamento". Contra as estratégias de guerra, Martí quer dizer que não se rege dois países com culturas diferentes de uma mesma maneira; neste caso, Espanha e Cuba, um país europeu com grande potência industrial e marítima e um país americano que começava a andar em duas pernas, cambaleando ainda.

A vida do último libertador da nossa América é projetada como a de um herói romântico, impulsionado por um pensamento que se transformava em ação apaixonada e incitante. Isso explica o vigor com que Martí escreve o ensaio "Nossa América", com grandes méritos, embora tenda a uma proposta homogênea de identidade americana. A cultura americana é heterogênea, e é esta heterogeneidade que podemos perceber neste CD-ROM: o sangue estancado está fluindo novamente.

BIBLIOGRAFIA

GHIANO, Juan Carlos. José Martí . Enciclopedia Literaria. Centro Editor de America Latina: Buenos Aires, 1967.

MARTÍ, José. Nossa América . Tradução de Maria Angélica Almeida Triber. São Paulo: HUCITEC, 1983.

MARTÍ, José. Páginas Selectas . Colección Estrada, v.8: Buenos Aires, s/d.