A língua, a letra, o território (ou a crise dos estudos literários coloniais)

Walter D. Mignolo 

Tradução:

Tatiana Capaverde

MIGNOLO, Walter D. La lengua, la letra, el território: o la crisis de los estudios lierários coloniales. Dispositio , University of Michigan - Departament of romance language, v.11. n.28/29, p.137-160.

A LÍNGUA, A LETRA, O TERRITÓRIO (OU A CRISE DOS ESTUDOS LITERÁRIOS COLONIAIS)

As histórias da literatura hispano/latino-americana nos legaram uma imagem do período colonial que dificultou (se não impediu) orientar a reflexão sobre obras que não foram escritas em espanhol, consideradas literárias e que expressaram ou representaram, de alguma maneira, certa "experiência americana". Os critérios que fundamentaram esta imagem foram o idiomático, o literário e o cultural. A suposição de que a literatura colonial É a literatura escrita em espanhol em/sobre a América, de tão simples parece inquestionável. Las corrientes literarias en la América hispánica (1949) de Pedro Henriquez Ureña impõe um modelo que se naturaliza e é expresso desta maneira por Enrique Anderson Imbert (1954):

"Nem ao menos nos ocuparemos dos fenômenos culturais próximos da literatura: folclore, oratória, jornalismo, filosofia, crítica... Quando não pudermos mais nos deter em um escritor sem propósitos literários buscaremos seu lado mais íntimo e pessoal. Literatura, só literatura. E a literatura que vamos estudar é a que, na América, foi escrita em espanhol. Não ignoramos a importância do grande número de índios, mas em uma história dos usos expressivos da língua espanhola na América é pertinente escutar apenas aqueles que se expressaram em espanhol. Pela mesma razão, não vamos fazer referência aos escritores que nasceram na América Hispânica, mas escreveram em latim (Rafael Landivar), em francês (como Jules Supervielle) ou em inglês (como W. H. Hudson). Tampouco aos que escreveram em espanhol, mas sem experiência americana (como Ventura de la Vega ). No entanto, incorporaremos à nossa história os estrangeiros que viveram entre nós e empregaram nossa língua (como Paul Groussac)."

Ainda que seja inquestionável o fato de que uma história dos usos do espanhol na América se limite às obras escritas em espanhol, não é por isso que os estudos literários sobre o período colonial devam limitar-se aos usos do espanhol no Novo Mundo. Ao contrário, tanto a complexidade idiomática das colônias como a confrontação de culturas orais e sociedades baseadas na escrita fazem do período colonial um modelo ideal tanto para a reflexão sobre culturas e línguas em contato, quanto para a reflexão sobre a variedade de interações discursivas. Penso que a paulatina conscientização da complexidade cultural e lingüística do modelo que a colônia oferece foi manifestando-se em um conjunto de estudos que começam a ser publicados nos anos 80. Desta maneira, o domínio dos textos escritos em espanhol e com valor literário perde terreno frente aos textos escritos em outras línguas e às transcrições de relatos orais que não possuem, necessariamente, valor estético. A "crise" do subtítulo faz referência ao reconhecimento, por parte dos pesquisadores, da relevância da circulação de discursos no Novo Mundo e entre o Novo Mundo e a Europa para a compreensão do período, considerando outros materiais além do escrito (já que têm importância as tradições orais e as escritas não-alfabéticas) e do material escrito em espanhol por hispânicos. Intuo que estamos presenciando uma mudança de paradigmas, para cuja conceituação este artigo tenta contribuir. Vejo quatro orientações entre os estudos que contribuem para o exame da imagem herdada da literatura colonial, que passo a resumir.

1 - A primeira orientação começa antes de 1980, mas, naturalmente, passa desapercebida. Digo "naturalmente" porque, enquanto as pesquisas literárias se limitavam ao espanhol, mal se dedicava atenção aos estudos do neolatim durante o México colonial e aos estudos que trazem à luz a literatura náhuatl . Ainda que os estudos pioneiros dedicados ao neolatim se devam aos irmãos Gabriel e Alfonso Méndez Plancarte (1937, 1941, 1946), são indiscutivelmente os estudos eruditos de Ignacio Osorio Romero os que situam o neolatim no cenário das letras coloniais (Osorio Romero, 1976, 1979, 1980, 1983a e 1983b). A confluência no interesse pelo neolatim e pelas letras indígenas é assinalada por Osorio Romero nestas palavras:

"O novo interesse pelo neolatim mexicano - não podemos esquecer os trabalhos de mérito de Joaquín García Icazbalceta no século passado - surgiu quase simultaneamente à atualização que Angel María Garibay fez dos múltiplos estudos anteriores sobre os poetas e prosistas indígenas até escrever a Historia de la literatura náhuatl (1953-1954). Ambos os esforços surgem de uma mesma motivação: recuperar uma tradição, fixar uma identidade para o mexicano de hoje, dar atualidade aos valores, que a seu ver se perdem (1983a, 11-12)."

A diferença entre o projeto dos irmãos Plancarte e o que reinicia Osorio Romero é de natureza ideológica. Enquanto que os primeiros continuam, de maneira acrítica, a herança de Menéndez e Pelayo (1877) transplantando Horacio en España para um México que é essencialmente uma colônia agrícola (Gabriel Méndez Plancarte, 1837), o segundo trata de revisar criticamente a herança latina em conjunção com a espanhola na formação do México colonial. Cito:

"A cultura que os espanhóis introduziram nestas terras que eles significativamente chamaram Nova Espanha tinha duas expressões: uma em língua latina e outra em língua espanhola . Ambas as correntes fixavam suas raízes na história e na tradição; representavam, por um lado, aqueles que consideraram que a perfeição literária se encontrava na expressão latina clássica, e, por outro lado, aqueles que elevaram as línguas vulgares à categoria literária. Seu uso durante a colônia, na maioria das vezes, foi simultâneo, mas também, em uma visão de maior alcance histórico, o latim e o espanhol encarnaram os Dióscuros que tinham que viver e morrer alternativamente (1983a, 12-13)."

A leitura conjunta deste parágrafo com o de Anderson Imbert, antes citado (para o qual convido o leitor), dispensa-nos de prolongar os comentários que ressaltam o contraste entre os dois projetos. A restrição das letras coloniais aos textos escritos em espanhol responde à ideologia e ao ponto de vista da tradição colonizadora. A abertura que assinala Osorio nos situa, no entanto, na ideologia e no ponto de vista da tradição que surge dos escombros do processo colonizador. Recordemos, finalmente, a precoce contribuição para o tema de José Manuel Rivas Sacconi ( Rivas Sacconi, 1949).

2 - A segunda orientação é um esforço para justificar e racionalizar a atribuição de propriedades estéticas ou expressivas a um conjunto de textos cuja relevância cultural hoje nos parece óbvia, ainda que assim não sejam seus traços literários. Ao mesmo tempo, um esforço para racionalizar e justificar a "origem" da literatura hispano-americana no século XVI. Neste contexto são ilustrativos os estudos de Enrique Pupo-Walker sobre Garcilaso de la Vega e sobre a vocação literária do pensamento histórico na América (Pupo-Walker, 1982a e 1982b); o de Noé Jitrik sobre Colombo (Jitrik, 1983); e o de Beatriz Pastor sobre o discurso narrativo da conquista (Pastor, 1983). Em Pupo-Walker encontramos um denodado esforço para justificar as propriedades literárias nos escritos de Garcilaso de la Vega (1982a, 27ss); de conjugar o imaginário e o retórico com o literário e o pensamento histórico (1982b, 64ss, 80ss) e de fundir o emprego de técnicas narrativas literárias no discurso historiográfico com a natureza literária deste último (1982b, 38ss). Em Jitrik percebemos uma significativa mudança de expressão, "escrita latino-americana" em vez de "literatura hispano-americana", e um esforço para encontrar em Colombo os traços de uma "escrita" (que inclui tanto o escrito em espanhol como a "literatura") cultural "latino-americana" (que inclui "hispano-americana"). Por sua vez, Beatriz Pastor opta por atender àquilo que não é específico, mas genérico (i.e., o discurso narrativo). Ao mesmo tempo se preocupa em encontrar nessa generalidade do discurso narrativo o momento em que emerge a consciência estética e cultural que confere ao discurso narrativo da conquista uma especificidade literária e americana (1983, 451ss). Estes estudos têm dois elementos em comum: criam um espaço crítico e reflexivo sobre a natureza do literário e do (hispânico/latino) americano e projetam as técnicas da análise literária sobre a análise dos discursos não-literários. A conseqüência mais notável é a ampliação do horizonte da disciplina, incluindo nela uma ampla gama de discursos cujo estatuto literário não lhe é próprio. Conservam, do paradigma anterior, o postulado de uma essência americana que se manifestaria desde os primeiros textos escritos por exploradores e conquistadores.

3 - A terceira orientação dá relevo, por um lado, ao que há de comum, mais que de específico, em cada discurso e, por outro, às normas retóricas que regiam a produção e a leitura de discursos entre o século XVI e o XVIII. Elide Pitarello (1982) mostrou em uma detalhada análise, a complexidade discursiva e a ambigüidade genérica da Elegía de varones ilustres de Índias , de Juan de Castellano. Tendo analisado o texto à luz dos princípios gerais que configuravam o sistema discursivo da época, Pitarello mostra que a dicotomia entre o gênero épico e historiográfico não deve, necessariamente, impulsionar-nos a decidir por um ou por outro, mas aceitá-lo como um texto que participa da natureza de ambos. O conhecimento dos princípios gerais do discurso historiográfico, no artigo citado, permitiu-lhe desenvolver um estudo desta configuração discursiva na obra de C. Suárez de Figueroa, Hechos de Don García Hurtado de Mendoza, Cuarto Marquez de Cañete (1613) e na Historia de los descubrimientos antíguos y modernos de la Nueva España (1584) de Baltazar de Obregón (Pitarello, 1984, 1986). A necessidade de reconstruir os princípios gerais que guiam a organização discursiva durante o período colonial foi também sugerida por Walter Mignolo, distinguindo a configuração discursiva historiográfica da literária e reconhecendo a existência de textos cuja "unidade" resulta da compaginação de normas que regem distintos tipos e configurações discursivas (Mignolo 1982, 1983, 1986, 1988). Por outro lado, a análise da escrita da história do ponto de vista da história da escrita, permitiu confrontar as formas de conservar o passado em sociedades orais com as sociedades com escrita alfabética (Mignolo 1981a, 1981b).

4 - As pesquisas do que chamarei a quarta orientação, a mais recente, e por isso menos definida, têm em comum a propriedade de chamar a atenção sobre as fronteiras da língua e da cultura espanhola na cultura do Novo Mundo. A noção de literatura que orientou a seleção de textos e autores do período colonial raramente invocou os autores indígenas. Por outro lado, o critério idiomático não só eliminou a consideração dos textos em línguas indígenas, como também bloqueou a possibilidade de considerar textos escritos em outras línguas além do espanhol. Se do ponto de vista da "literatura hispano-americana" o idioma já impõe fronteiras, do ponto de vista dos "discursos do período colonial" as interações discursivas adquirem maior relevância que as fronteiras idiomáticas. A natureza dos problemas que desejemos investigar ou dos textos que decidamos (re)interpretar terão distintas configurações segundo os situemos no contexto da "literatura hispano-americana" ou dos "discursos do período colonial". Tanto a descrição e a explanação de acontecimentos e situações discursivas, como a interpretação de textos individuais, necessitam de um "contexto de descrição", cuja configuração não foi estabelecida pela História, mas escolhida e postulada pelo pesquisador. A tentativa de contemplar o "contexto histórico" a que estamos acostumados não é mais que a escolha de UM contexto de descrição que o pesquisador escolhe e pretende que não tenha sido escolhido por ele/ela, mas criado por seu agente anônimo: a História.

a) O primeiro caso pode ser ilustrado com o exemplo de Juan Carlos Miariátegui (1929) e de Francisco Esteve Barba (1964) frente a Guamán Poma de Ayala. Mariátegui ocupa-se de Garcilaso de la Vega e de Espinoza Medrano ao buscar as raízes da literatura peruana na colônia, mas não menciona a Guaman Poma. Esteve Barba, por sua vez, traça a história da historiografia indiana e dedica algumas páginas ao autor indígena, principalmente para criticar suas incoerências, mau uso do espanhol e seu orgulho nativo (p.475-481). A edição de Nueva crónica y buen gobierno de John Murra e Rolena Adorno (1982) e os numerosos estudos que Adorno tem dedicado a Guamán Poma e que culminam em seu recente livro (Adorno, 1986) tornam impossível ignorar a obra, assim como se faz necessário dedicar-lhe um lugar no campo de estudo. Para fazê-lo, devemos sair da limitação dos usos do espanhol na América e ingressar na complexa estrutura mental das culturas pré-colombianas (Adorno, 1982) e na rede de interações semióticas das colônias do Novo Mundo.

b) O estudo de W. Franklin sobre os descobridores, exploradores e colonizadores (Franklin, 1979), dedicado em sua maior parte a América Saxônica começa, no entanto, estudando as cartas de Colombo e Cortés, prestando grande atenção às teses de E. O'Gorman (1960). Por razões que podemos imaginar, mas que ficam fora de nossos propósitos explorar, o estudo de Franklin passou despercebido nos estudos da literatura do Novo Mundo. O recente livro de P. Hulme (Hulme, 1986) contribui para recordar o de Franklin, publicado durante os primeiros anos da transformação disciplinar que venho esboçando. Os estudos de Hulme (como o de Franklin) dedicam os primeiros capítulos aos tópicos da cultura "hispano-americana" do Caribe para logo desenvolver temas da cultura "anglo-americana". Ambos compartilham a preocupação central pelo "discurso" e pelo período colonial. Ambos são excelentes exemplos para ilustrar o deslocamento da área de estudo da literatura hispano/latino-americana para o discurso da colônia.

Estes exemplos, como disse, nos convidam a examinar o alcance e os limites da noção de "literatura hispano/latino-americana". Alguns desses exigem uma revisão da noção de "literatura"; outros, do modificador "hispano-americano". Meu propósito nas páginas que seguem é o de construir uma imagem da área de estudo que nos liberte das restrições impostas pelas noções de literatura e de sua especificidade cultural e o de justificar a necessidade de incluir nela o âmbito da oralidade, das escritas não-alfabéticas e dos discursos em idiomas distintos do espanhol. O tópico II se dedica a fazer alusão ao domínio dos estudos literários e suas conseqüências para a configuração de áreas; o III a fazer alusão ao problema da identidade cultural e a distinguir a imagem de identidade forjada pelos membros da comunidade cultural da descrição dessa imagem por parte dos praticantes de uma atividade disciplinaria; finalmente, o tópico IV reúne os resultados dos dois anteriores para justificar uma mudança na designação da área de estudo da "literatura hispano/latino-americana colonial" para "os estudos coloniais".

II. Da Letra ao Discurso

O vocábulo "literatura" provém de "letra" ( littera , uma letra do alfabeto; do grego gramma , um signo escrito que significa um som). Em seu sentido primeiro designa a escrita alfabética e a distingue tanto da voz ( phoné , vox , som, grito, chamado) como das formas de escrita não-alfabéticas. A singularização da escrita alfabética, distinguida da voz e de outras formas de escrita, deu lugar à necessidade do surgimento de uma disciplina (a gramatologia) que se ocupe dela. Esta disciplina se distinguiria da epigrafia e da paleografia por formular perguntas sobre o como e o porquê em vez de perguntar por o que , quando e onde . As primeiras perguntas estabelecem o contexto teórico da gramatologia, enquanto que as segundas estabelecem o contexto descritivo da epigrafia e da paleografia (Gelb, 1969, 22-23). Por outro lado, o emprego do mesmo vocábulo (gramatologia) por Jacques Derrida para designar uma disciplina surgida da crítica sobre a lingüística moderna põe em descrédito a distinção entre a língua falada, em que se fundamenta a lingüística (segundo Saussure) e os signos gráficos, nos quais se baseia a gramatologia (segundo Gelb), como também a própria criação das disciplinas científicas cuja condição de existência é a escrita alfabética, um lugar privilegiado do domínio de estudo promovido à categoria de universalidade (Derrida, 1967, 43). Ao destituir a lingüística e a escrita alfabética de seu privilégio semiótico (e.g., de constituir-se em signos e representantes de outras coisas que não são signos) e propor que toda manifestação é um signo cuja estrutura foi gerada pelas diversas possibilidades da distinção (p. 68) e cuja significação surge da diferença. A escrita já não é privilégio do lingüístico mas a própria condição da significação (p. 95).

Tanto a lingüística como a gramatologia (nas versões de Gelg e Derrida) nos convidam a revisar a imagem cultural da noção de literatura e regressar à questão fundamental da letra . A letra fixa se independiza do discorrer oral conduzindo à pesquisa de novas estratégias discursivas. Também, uma vez que se independiza da voz, a letra se independiza de outras formas de expressão gráfica, configurando um domínio de interações em que o discurso é prisioneiro do objeto em que se transmite os signos: o livro (Mignolo, 1987).

Os vocábulos letra e literatura designam e mostram, neste contexto, um espaço que bem poderia considerar-se como o domínio dos estudos literários . Assim, o universo do discurso (em sentido lógico) ficaria composto pela letra e seu complemento: a oralidade e as escritas não-alfabéticas . Enquanto que com Aristóteles nos acostumamos a pensar a história como complemento da poesia; e com Jakobson as distintas funções da linguagem como complemento da função poética; a imagem do domínio de estudo que acabo de sugerir, nos convida a meditar sobre as condições de existência da fixação gráfica do discurso (em sentido gramatológico) em relação com as possibilidades do domínio do discurso (em sentido lógico) que elimina a oralidade e as escritas não-alfabéticas. As conseqüências de um tal deslocamento do domínio de estudo são relevantes não só para a própria disciplina, como também para uma área específica de estudo, como assim o é a literatura colonial do Novo Mundo. O centro de atenção se desloca da literatura (no sentido de "belles lettres") para a literatura (no sentido de produção discursiva escrita) e para seu complemento: a oralidade e as diversas formas de escrita das culturas pré-colombianas. Um duplo deslocamento que nos leva da idéia de literatura imposta por uma tradição cultural para o conceito de literatura forjado em uma prática disciplinar (Mignolo, 1983).

A idéia de literatura imposta pela tradição cultural e que ainda faz parte de nossa vida cotidiana se remonta ao século XVIII, quando os vocábulos letra e literatura se rodeiam de novos sentidos ao estabelecer-se uma relação de sinonímia entre "poesia" e "belas letras". Enquanto que na antiga Grécia "poesia" (poiesis, fazer e fazer mimético, fazer para deleitar) se diferenciava de gramma e phoné , vocábulos com que se designavam as unidades do discurso oral e escrito, a expressão "belas letras" (cunhada no século XVIII) cria a sinonímia entre "letra" e "discurso" e singulariza um tipo particular de discurso por seus traços de beleza que não tardam em identificar-se com a antiga noção de "poesia" e gerar, no encontro, a imagem de literatura a que ainda estamos acostumados. Assim, no contexto intelectual da modernidade, gramma (signo escrito, letra do alfabeto) se funde com aesthesis (sensação, percepção, intuição) para converter-se em sensação, percepção e intuição da beleza (E. Kant, Crítica del juicio, 1790). A acumulação destas transformações configura o corpo de conhecimento (e.g., marcos discursivos) associados hoje ao vocábulo "literatura"; conhecimentos que reprimiram as estreitas relações entre poiesis , mimesis e phoné vertendo-as no contexto de poiesis , aesthesis e gramma . As leituras de Platão feitas por E. Havelock (1963) nos relembram que os diálogos em torno da poesia tem, em seu contexto imediato, as preocupações de uma sociedade que está vivendo o conflito entre a oralidade e a escrita, no qual as musas são as guardiãs da memória ( mnemosune ) e conservadoras do passado, mas não fontes de inspiração poética para captar a beleza. A idéia de poiesis que em Aristóteles se expressa em estreita relação com a mimesis mantém, previamente, uma estreita relação com mnemosune (Haveloch, 1963, 100).

A acumulação e transformação de sentidos em torno do vocábulo "literatura" para conceitualizar uma atividade que, primariamente, se limita a certo domínio de interações discursivas e se desenvolve em sociedades com escrita alfabética é um bom exemplo de um fenômeno geral que caracteriza os seres humanos: a capacidade de participar, em um nível, em um domínio de interações e, em outro nível, refletir e criar uma imagem do primeiro. Ainda que esta característica seja, como disse, comum aos seres humanos, a conceituação da "literatura", no entanto, se limita àquelas sociedades e culturas que criaram um domínio de interações por meio da letra escrita (ver Figura 1). O deslocamento da noção de literatura que compartilhamos como membros e participantes da vida social e cultural para a noção de literatura (i.e., letra escrita, discurso), que elaboramos como membros e praticantes das atividades disciplinares, guiará nossa concepção dos estudos de áreas, assim como nossa interpretação de atividades, artefatos e acontecimentos semióticos da área que estudarmos.

Não só os estudiosos da literatura se viram desorientados por uma noção regional e cultural (não teórica) do domínio de estudo, mas também antropólogos e historiadores. Leiamos estas opiniões de Edmonson sobre Popol Vuh :

"It is my conviction that the Popol Vuh is primary a work of literature, and that it cannot be properly read apart from the literary form in which it is expressed. That this form is general to Middle America (and even beyond) and that it is common to Quiché discourse, ancient and modern, does not dimish its importance. The Popul Vuh is in poetry and cannot be accurately understood in prose. It is entirely composed in parallelistic (i.e. semantic) couplets."

A pressuposição de que um discurso que se manifesta por meio de repetições e acoplamentos paralelos é "literatura" surpreenderá hoje os estudiosos familiarizados com a teoria da literatura e com as reavaliações da oralidade e da escrita. Se aceitamos, de fato, que as repetições e paralelismos são uma exigência da expressão oral para assegurar a conexão discursiva e que a letra escrita introduz novos meios para alcançar o mesmo fim (e.g., a fixação escrita que dirige a atenção para frente, prosa; e elimina as repetições que dirigem a atenção para trás, verso) é sensato inferir deste princípio que as repetições que encontramos em Popol Vuh se devem à base oral na qual se realizam as interações discursivas da cultura em que se narra e transmite o relato, e não à universalidade dos valores estéticos/literários que o relato manifestaria. Intuo que Edmonson tem razão quando sustenta que a forma expressiva de Popol Vuh é um traço comum das culturas mesoamericanas. Deles não se infere, entretanto, que as culturas mesoamericanas praticavam ou haviam descoberto a poesia. Os conceitos de poesia e de literatura são regionais e pertencem à tradição das sociedades e culturas alfabéticas ocidentais. Não é nem mérito nem demérito de uma sociedade que teve um desenvolvimento paralelo às tradições do ocidente não possuir ou desconhecer uma forma de interação que esta última tenha conceitualizou e deu o nome de poesia e de literatura. La busca de Averroes de Borges é um bom modelo das dificuldades em compreender diferentes conceitualizações de atividades semelhantes : Averróis, empenhado em traduzir Aristóteles e ofuscado pela impossibilidade de entender o sentido de duas palavras, tragédia e comédia (que ninguém no âmbito do Islã "pressentia o que queriam dizer"), olha pela sacada gradeada a brincadeira de umas crianças seminuas que pretendiam ser o que não eram ("todos queriam ser o almuadem, ninguém a congregação ou a torre").

A tradução e interpretação de Popol Vuh proposta por Tedlock (1985) enfatiza, no entanto, a natureza oral do relato não só em sua estrutura, mas também em sua transmissão (1983a, 1983b, 1983c). Enquanto que Adrián Recinos, mais apegado à ideologia da escrita, traduz a primeira frase do relato destacando a expressão "antigas histórias" ("Este é o princípio das antigas histórias deste lugar chamado Quiché"), deixando que "histórias" nos remeta tanto ao relato como aos acontecimentos, Tedlock destaca a expressão "a antiga palavra" ("This is the beginning of the Ancient Word, here in this place called Quiché"). A opção da primeira frase revela os pressupostos que guiaram as opções na tradução inteira do primeiro parágrafo e de sua interpretação correspondente. Comparemos:

"Recinos: Este é o princípio das antigas histórias deste lugar chamado Quiché. Aqui descreveremos e começaremos as antigas histórias, o princípio e a origem de tudo, o que se fez na cidade de Quiché pelas tribos da nação quiché.

Tedlock: This is the beginning of the Ancient Word, here in this place called Quiché. Here we shall inscribe, we shall implant the Ancient word, the potential and source for everything done in the citadel of Quiché, in the nation of Quiché people."

O processo que conduz da primeira versão escrita em idioma quiché às traduções de Recinos, passando pela do padre Fray Francisco Ximénez, apresentam uma variedade em que a conservação oral do relato e a correspondente conceitualização na cultura quiché, anterior à conquista, se fixa na escrita e, ao fazê-lo, deixa aberta a possibilidade das traduções que levam com elas a conceitualização das interações semióticas geradas pela escrita. A tradução e estudos de Tedlock sobre Popol Vuh e a cultura quiché são um esforço para restituir os traços orais, ao mesmo tempo que contemplam o processo de fixação e transmissão escritural.

Uma situação semelhante à anterior é a Historia de la literatura náhuatl de Angel Marría Garibay (1954). As mesmas objeções que foram feitas a Miguel León-Portilla por ter criado uma imagem do pensamento asteca sobre o modelo da filosofia grega (Léon Portilla, 1959) se poderia fazer, com as cautelas necessárias em ambos os casos, a obra de Angel María Garibay. Sabemos, por um lado, que Garibay era um grande conhecedor da cultura helênica assim como da tradição das grandes culturas orientais. Sabemos também que estava atento à história do alfabeto e da escrita. E, fundamentalmente, que sua obra não só tem o valor do qual ele mesmo é consciente (uma primeira recompilação e ordenação da produção verbal em náhualt), mas também o de resgatar uma produção cultural que, por não ser escrita, foi até esse momento menosprezada (cfr, 1954, vol. 1, p.10-11). As dificuldades que temos hoje com a obra de Garibay é que a valorização da cultura náhuatl é feita, na maioria das vezes, de forma paralela à imagem pós-renascentista da cultura grega. E, como em muitos outros casos, reconstrói uma cultura fundamentalmente oral em termos de uma filosofia da produção verbal forjada sobre a experiência das sociedades com escrita alfabética. Uma tese, em suma, que se constrói sobre a base da semelhança e toma o lugar do que hoje gostaríamos que fosse uma descrição que enfatize a diferença. Léon-Portilla (1968) racionalizou a necessidade deste princípio metodológico em conexão com o pensamento e a filosofia. Esta racionalização seria aplicável à obra de Garibay e, neste caso, à produção oral e literária. Não obstante isso, segunda das cautelas anunciadas, Léon-Portilla abriu novos caminhos ao investigar a etimologia das palavras empregadas pelos próprios astecas para referir-se a suas interações semióticas. É assim que, ao mesmo tempo que nos brinda preciosa informação e comentário de palavras empregadas pelos astecas para designar as maneiras de conservar o passado (1980, 15ss), das "formas de composição de acordo com sua designação em Náhuatl" (1978, xxv) e nos introduz no pensamento de uma sociedade oral, nos devolve à homogeneidade do vocabulário da cultura ocidental integrado à linguagem da disciplina. Fala-nos assim dos primeiros intentos por preservar textos pré-colombianos (1978, xviii), ou da legitimidade de conservar o vocábulo filosofia para designar todo tipo de pensamento ou atividade semelhante ao que no ocidente se entende e designa por tal nome (1968). Não se trata aqui de um emprego neutro dos vocábulos que poderia justificar-se invocando a dificuldade de empregar vocábulos indígenas para designar aquilo que sabemos ser propriamente filosofia ou literatura, mas que, no entanto, se assemelham. Trata-se, melhor dizendo, de pressupostos que guiam a leitura e interpretação de discursos orais como se fossem textos escritos. Por exemplo, quando J. Bierhorsr observa que as peças denominadas xochitl/cuicatl (flores/cantos) dos Cantares mexicanos foram definidas repetidamente como poema ou poesia e que tal definição foi, ao parecer, inventada por Angel M. Garibay (Bierhorst, 1985, 17). Intuo que a distinção entre oralidade e escrita que sustenta meu argumento anterior (referido a Edmonson/Tedlock) pode invocar-se novamente aqui. Na verdade, quando Bierhorst sustenta que a definição "xochitl/cuicatl = poetry" é, no melhor dos casos, um conceito fraco e, no pior, um equívoco, podemos intuir que a distinção entre oralidade (canto) e poesia (escrita) está em jogo. A crítica de Léon-Portilla (1987, 390ss), enfocada no nome que Biershorst designa ao ritual ("ghost-song ritual"), evita, na realidade, o destaque que o segundo põe no fato de que tais peças não sejam poesias mas cantos associados à determinadas formas rituais. Sem pretender interferir na discussão, mas empregá-la em meu próprio argumento, quero recordar que oralidade, neste contexto, remete às sociedades que não possuem nenhuma forma de escrita fonética. E. Havelock (1986, 65) acentua a expressão " oralidade primara " para destacar um tipo de interação lingüística que para nós é difícil de compreender, pois cunhamos uma rede metafórica e um léxico inferidos de nossa experiência escritural. Esta comprovação abre as portas para um campo desconhecido que os estudos literários podem contribuir ao explorar. Nesta exploração paulatinamente se manifestará o confronto de culturas orais e escriturais no Novo Mundo: enfrentamento que foi interpretado, na maioria das vezes, ignorando a diferença radical que separa as primeiras das segundas.

III. Discurso, Identidade e territorialidade

O modificador "hispano/latino" que usualmente acompanha o substantivo "literatura" pode ser analisado de maneira semelhante ao deste último. Arturo Ardao (1980) colecionou e comentou um número significativo de documentos nos quais a idéia e/ou o nome "América Hispânica", "América Latina" e algumas outras expressões equivalentes às duas primeiras se forja e se transforma desde os primeiros anos do século XIX até os últimos. É notável também, ao ler esses documentos, que o modificador é substituído (como já estamos acostumados desde Martí) pelo possessivo, obtendo assim a expressão "nossa América". Surge assim um discurso em que o possessivo faz implicações à identificação com o espaço e com o passado deste espaço. Isto é, o possessivo invoca o problema da tradição e da identidade (Mario Zambarino, 1980). Neste tópico me interessam as relações entre o discurso e a maneira com que este fixa, transmite e transforma o sentimento e o sentido de identidade que anima todo grupo humano.

De fato, enquanto que a nível de indivíduo construímos descritivamente uma entidade que chamamos "eu" que nos permite conservar nossa coerência operacional lingüística e nossa adaptação no domínio da linguagem (Maturana e Varela, 1984, 152), a nível de grupo construímos descritivamente uma entidade que chamamos "nós" e que situamos em relação a um espaço e a uma tradição compartilhada, quero dizer, a um território. A identidade social e cultural de um grupo humano se constrói descritivamente em um discurso que o situa em um espaço delimitado por fronteiras geográficas e cronológicas (e.g., uma linhagem, uma sucessão de acontecimentos que chega até "nós"). Expressões como "América Latina" ou "América Hispânica" podem ser empregadas, do ponto de vista de um discurso que constrói descritivamente um "nós", como uma apropriação territorial e, do ponto de vista que constrói descritivamente um "ele" (o discurso de várias disciplinas como a história, a sociologia, a literaturologia, etc.), como nome que designa uma entidade mas que não deveria necessariamente ser identificada com o sentido de territorialidade. Quando a identificação ocorre, o discurso que construo como membro de uma cultura se identifica com o discurso que construo como praticante de uma disciplina. As respostas às perguntas sobre a identidade do hispano/latino-americano e, portanto, de sua literatura, foram vítimas desta justaposição.

O sentimento e o sentido da identidade de grupo são inseparáveis da reflexão e da conceitualização do passado. "Tradição" nos remete tanto aos elementos inconscientes que compartilham os membros de uma comunidade como à reflexão consciente que a comunidade faz deste passado. No primeiro caso, tradição é uma configuração cultural que faz com que o grupo seja o que é; no segundo é a construção discursiva e conceitual através da qual o grupo se representa como acredita ser.

Durante o período colonial temos pelo menos três tipos de construção territorial: a das culturas nativo-indígenas, a dos conquistadores e colonizadores e, finalmente, a dos nativo-crioulos. É suficiente para meu argumento um exemplo de cada um dos tipos, ainda que seja possível encontrar casos fronteiriços que complicam a tipologia.

"1) O Senhor do Sul é o tronco da linhagem do Grande Uc. Xhantacay é seu nome. E é o tronco da linhagem de Ah Puch .

Nove rios os guardavam. Nove montanhas os guardavam.

A pedra vermelha é a sagrada pedra de Ah Chac Mucen Cab . A Mãe Celba Vermelha, seu Centro Escondido, está no Oriente. O chacalpucté é a árvore deles. Seus com a sapota vermelha e os sarmentos vermelhos. Os perus vermelhos de crista amarela com seus perus. O milho vermelho e tostado seu milho.

A pedra branca é a sagrada pedra do Norte. A Mãe Celba Branca é o Centro Invisível de Sac Mucen Cab. Os perus brancos são seus perus. As favas brancas são suas favas. O milho branco seu milho.

A pedra preta é a pedra do Poente. A Mãe Celba Preta é seu Centro Escondido. O milho preto encaracolado é seu milho. A batata de pedúnculo preto é sua batata. Os perus pretos são seus perus. A negra noite é sua casa. O feijão preto é seu feijão. A fava preta é sua fava.

A pedra amarela é a pedra do Sul. A Mãe Celba Amarela é o seu Centro Escondido. O pucté amarelo é a sua árvore. Amarelo é sua batata. Amarelo são seus perus. O feijão de dorso amarelo é seu feijão. ( Libro de Chilam Balan de Chumayel , "Libro de los linajes". Antonio Mediz Bollo, 1980).

2) A natureza parece que quis dividir e cortar o continente e a terra descoberta das Índias pelo istmo ou estreitamento que há na terra desde o Nome de Deus ao Panamá, deixando a metade das Índias na parte do norte e a outra metade no sul; ainda que a descoberta e povoada parte de Terra firme e Peru seja (sic) muito mais, em comparação, que o da parte do norte, a terra que está por ser descoberta por Quiviria e parte setentrional vai-se ampliando de maneira que parece ou deve ser tanta como a do sul ou mais[...] e assim a divisão de toda terra das Índias, por natureza e por razão, parece a mais cômoda que pode ser pelo Nome de Deus e Panamá , que está desde 0 ou 9 graus setentrional, deixando uma parte em um plano toda a terra e ilhas do mar do Norte, que existe a partir daquela altura para o norte, com nome de Índias do Norte e a outra parte do sul, tudo o que existe desde a dita altura mencionada de 8 graus e costa de terra firme até a Estreito de Magalhães e o que depois se descobriria com o nome de Índias do sul (López de Velasco, 1571-74, itálicas acrescentadas);

3) Ainda que o Novo Mundo abarque, como vulgarmente dizemos, duas Américas, a mexicana ou boreal e a peruana ou meridional, deixamos intacta esta última em nossa BIBLIOTECA , por muitas razões. [...]

Rotulamos nossa obra BIBLIOTECA MEXICANA, ou seja, história dos homens eruditos que, tendo nascido na América setentrional ou visto a luz em outros lugares, pertencem a ela por sua residência ou estudos e escrevem alguma coisa, não importa em que idioma; e em especial daqueles que se destacaram por seus feitos ilustres ou por qualquer tipo de obras, impressas ou inéditas, dirigidas ao progresso e ao incentivo à fé e à piedade católica.

A razão de ter sido chamada de mexicana esta BIBLIOTECA está declarada e legitimada pelo costume geográfico, em virtude da qual se designa toda esta região com o qualificativo de mexicana, tomado o nome de sua famosa e principal cidade. Sujeitando-nos ao dito costume e tendo que tratar dos escritores que floresceram na América Boreal, tentaremos incluí-los sob o indicado título. Nesta biblioteca incluímos igualmente os venezuelanos, que, embora no demais pertencem a América meridional ou peruana, estão adscritos política e eclesiasticamente, à mexicana por ser sua diocese uma das sufragânio da Igreja Espanhola ou Católica de São Domingos. No entanto, deixaremos quase de lado a Carolina, a Virgínia, a Nova Inglaterra, a Luisiana e o Canadá ou Nova França, regiões dominadas por reis estrangeiros, com as quais temos pouco ou nenhum contato e cujos livros desconhecemos quase totalmente, a pesar de terem sido produzidos nestas partes da América setentrional (Egiara e Eguren, [1755], 1944, 1984)."

Eis aqui os comentários que me sugerem estes exemplos:

a) A tese de Edmundo O'Gorman (1952) sobre a invenção de América põe em relevo, neste contexto, o fato de que não tem nada "essencial" em um espaço geográfico que determine o sentido e o sentimento de territorialidade. A "invenção de América" é um caso de apropriação semântica e de construção territorial que ignora e reprime aquele que já existia e que a invenção oculta. Colonização é, neste sentido, uma questão de apropriação territorial. A "invenção de América", uma construção semântica do tipo 2, a dos exploradores e colonizadores hispânicos, que não se superpõe nem substitui a territorialidade pré-colombiana e a dos crioulos do século XVIII. Errôneo seria dizer, como historiadores ou sociólogos o fazem com freqüência, que no fim das contas o que antes era chamado de Índias Ocidentais é na realidade hoje o Caribe ou também América Latina. As expressões e os nomes próprios não têm um sentido independente de quem as emprega e dependente do que designam. Uma vez mais, a imensa contribuição de O'Gorman é a de ter desvinculado o nome da coisa, tê-lo remetido ao contexto dos usuários e tê-lo destituído de sua necessidade histórica. Em conseqüência, as respostas à pergunta pela natureza e pelo âmbito da literatura latino-americana (Ana Pizarro et al., 1985, 13-65) dependerá do contexto de emprego e da posição de participante ou de observador de quem a formule. Podemos, contudo, estar certos de que do ponto de vista da construção territorial da colônia [exemplo 1) a 3)] a expressão "literatura latino-americana" não tem nenhum sentido. A expressão "literatura indiana" empregada por Céspedes del Castillo (1985; 307) para referir-se a La araucana e a outros exemplos coloniais é próxima, pelo menos, do conceito territorial hispânico e crioulo.

b) Como é óbvio, "América Latina" não aparece em nenhum dos exemplos anteriores. "América Latina" é o nome admitido em diversas disciplinas para designar uma vasta macroárea antropogeográfica. Lingüisticamente, é um substantivo composto equivalente a "Latino-América". Forma-se de um substantivo simples adjetivado, "América Latina". O caso é semelhante a "Hispano-América" que se forma de um substantivo adjetivado "América hispânica". A mesma lógica afeta a formação de "Indo-América" ou "Ibero-América". Historicamente, esses nomes começam a formar-se depois dos movimentos de independência. Culturalmente tais nomes e expressões foram e são empregadas por várias gerações de intelectuais pós-independistas para construir seu próprio marco territorial.

c) A questão da língua está estreitamente ligada à questão territorial. O primeiro texto está escrito, originalmente, em idioma quiché; o segundo em espanhol e o terceiro em latim. Dois exemplos ilustram a importância deste aspecto para a conceitualização das relações entre discurso e sentido de territorialidade.

Em 1545 Ambrosio de Morales expressa o conflito entre o latim e o espanhol e defende a imposição do primeiro sobre o segundo. Quando Cervantes de Salazar vem para o Novo Mundo, uma de suas múltiplas tarefas é a de editar os Diálogos de Luis Vives, agregando-lhe alguns de sua própria autoria. Três destes diálogos, escritos em latim , foram traduzidos para o espanhol e editados por Joaquín García Icazbalceta em 1875. Os quatro restantes, também escritos em latim, mas cujo tema não é a cidade do México ou sua Universidade, mas os jogos, não foram incorporados nesta edição. Com a edição de Icazbalceta, a literatura mexicana e hispano/latino-americana ganhou uma nova obra. A obra de Cervantes de Salazar pertence à dois territórios: o das colônias espanholas no Novo Mundo e o das nações independentes. Um segundo exemplo é a obra de Sahagún. Em seu enorme esforço para traduzir e fixar na escrita alfabética o discurso de uma sociedade oral, Sahagún enfrenta a questão da língua que descreve desta maneira:

"O Governador com os prefeitos assinalaram-me até oito, ou dez principais, escolhidos entre todos muito hábeis em sua língua, e em suas antigüidades: com os quais, e com quatro ou cinco colegiais, TODOS TRILÍNGÜES: por espaço de um ano ou um pouco menos, em "tepeculco"."

Ao espanhol e ao latim se somam, neste e em outros casos semelhantes, as línguas nativas. Recordemos, uma vez mais, que os manuscritos indígenas que se conservaram, independente dos idiomas respectivos, são de dois tipos: os códigos pictográficos, anteriores e posteriores à conquista, e a transcrição de discursos orais e sua subseqüente tradução. Enquanto que a língua é um implícito da territorialidade, os relatos e descrições que construímos mediante ela a expressam de maneira explícita. É isso o que encontramos nos exemplos anteriores, dois deles traduzidos para o espanhol e cada um deles mostrando diferentes espaços territoriais. O território emerge de um conjunto de orações descritivo-narrativas que constróem as fronteiras geográficas e a seleção de acontecimentos significativos do passado.

d) Cada um dos conceitos territoriais expostos nos três exemplos não se excluem, mas coexistem. Melhor dito, coexistem do ponto de vista do observador, não necessariamente de quem participa em um sentido territorial. Em outras palavras, enquanto que para o participante e membro de uma cultura trata-se de um território ou de morada cultural, para o observador trata-se de um campo de conhecimento. No primeiro exemplo, o território está demarcado conforme a cosmologia mesoamericana, pelos quatro pontos cardeais e as cores e objetos que corresponde a cada um deles. A esta demarcação espacial do território se soma a tradição das linhagens, a memória do passado daqueles que narram e expressam o sentido de territorialidade. Um exemplo do Memorial de Sololá :

"De quatro [lugares] chegaram as pessoas a Tulán. No oriente está uma Tulán; outra em Xibalbay ; outra no poente, de lá nós chegamos, do poente; e outra de onde está Deus.

Por conseqüência havia quatro Tulanes[...]. Do poente chegaram a Tulán, do outro lado do mar; e foi a Tulán onde chegamos para ser geradas por nossas mães e por nossos pais (A. Recino, 1950)."

Neste relato as fronteiras geográficas não estão especificamente delimitadas. As técnicas para medir o espaço não haviam alcançado, nas culturas mesoamericanas, a mesma sofisticação que as técnicas para medir o tempo. No entanto, as inter-relações entre a organização do espaço e sua correspondente "espessura" histórica mediante as quais as culturas pré-colombianas concebiam e representavam sua concepção territorial fica aqui claramente especificada. A isso podemos agregar a clássica análise do mapa de Teozacoalco feito ha vários anos por Alfonso Caso (Caso, 1949), no qual a representação geográfica e cronológica do território se expressa também por meio de signos não verbais. Enquanto mantivermos a literatura e não a letra como objeto de conhecimento, confundiremos a territorialidade com o campo de conhecimento uma vez que suprimiremos a possibilidade de compreender as relações entre a letra, a palavra e o ideograma. A territorialidade, como apropriação de um espaço no qual se constrói um passado, uma história, estende nossos projetos cognitivos à generalidade das interações semióticas. A letra se converte em um ponto de referência para o qual converge a palavra e o ideograma para construir um novo objeto de conhecimento.

e) O contraste entre a concepção territorial mesoamericana com a descrição territorial de López de Velasco é mais que notória. O texto de López de Velasco marca e outorga sentidos às fronteiras geográficas que tem correspondência com a expansão e apropriação territorial espanhola. "Índias Ocidentais" é o nome com que se identifica o território e que, do ponto de vista dos participantes do empreendimento espanhol, substitui em sua totalidade o sentido territorial de expressões indígenas como "Anáhuac" (perto de onde tem água em abundância) ou "Teozacoalco" (grande solar ou espaço). A apropriação territorial se fundamenta em uma disposição da própria natureza e no futuro da humanidade que a cultura que executa a apropriação se outorga. O discurso que descreve as Índias Ocidentais, produzido por e para peninsulares, é o discurso que constrói um sentido territorial que é o mesmo tempo uma apropriação. Se a atribuição de nomes espanhóis e as constantes comparações que empregam cronistas e historiadores espanhóis são, por um lado, pontos de referência cognitivos, também são, do ponto de vista da construção territorial, formas de apropriação. Neste processo Cristóvão Colombo ocupa um lugar singular. Sua leitura das Índias Ocidentais é uma apropriação territorial que tem correspondência com a expansão peninsular. A leitura de Colombo que foi feita por historiadores e historiadores da literatura lhe concedeu um lugar privilegiado na origem das letras e da cultura do Novo Mundo e tem relação com a construção territorial do século XIX e pós-independista em Hispano/Latino-América.

f) O território que Egiara e Eguren constrói é de outra natureza. A memória territorial não começa com Colombo ou com Cortés (que não são mencionados em suas Antéloquia ) mas a "origem" se remete às culturas pré-colombianas. Enquanto que a construção territorial hispânica se superpõe e apaga a territorialidade nativa, Egiara e Eguren a incorpora ao sentido territorial que foi criado pelos crioulos. Sete de suas vinte anteloguia (exatamente um terço) estão dedicadas às antigüidades mesoamericanas. No oitavo anteloquium se introduz a trajetória das letras e da cultura depois da chegada dos espanhóis. O título deste capítulo é o seguinte:

"Em que se põe em evidência a ignorância de Manuel Martí a respeito da cultura mexicana desde o tempo em que a América começou a ser comandada pelos espanhóis até nossos dias , e se contesta a rapidez com que escreve (ênfase empregado)."

Este capítulo está dedicado ao ensino no México. No seguinte, Eguren começa a oferecer os primeiros nomes e pontos de referência que nos orientam até sua construção territorial. Estes primeiros nomes são os de Antonio Rubio e sua Lógica mexicana ( Lógica mexicana sive commentarii in universam Aristotelis logicam , 1605), a Grandeza mexicana de Bernardo de Balbuena (1604) e "nossa sor Juana, cujos livros publicados em Madri, sete vezes editados em outros lugares de Espanha no século passado e dados reiteradamente para a imprensa mais tarde tornaram-na conhecidíssima de espanhóis e estrangeiros, o que lhe concedeu a titulação de décima musa e os eminentes elogios dos homens mais ilustres". Estes nomes e títulos pertencem à biblioteca mexicana na medida em que se aceitam as fronteiras geográficas estabelecidas por Eguren e os critérios a partir dos quais se concebe "nossa" cultura. Alguns destes critérios são implícitos, outros explícitos como são os de nascimento, o lugar de residência e a diversidade idiomática . A Nova Espanha e o México de Eguren não são os mesmos que a Nova Espanha e o México de López de Velasco. Menos ainda o México-Tenochtitlan de Alvarado Tezozomoc, a quem lhe entrego a palavra:

"Diz-se, nomeia-se aqui como chegaram e penetraram os anciãos chamados, nomeados teochichimecas, entes de Aztlan, mexicanos, chicomoztoquenses, quando vieram em busca de terras, quando vieram a ganhar terras da grande população da cidade do México Tenochtitlan, seu lugar de fama, seu modelo, lugar de morada dos "tenochtli" (tuna dura), que está no interior da água [...] que está dentro da água, no "tular", no carriçal e que se chama o "tular", o carriçal do vendaval, a que se constituíra em cabeceira de todos e cada um dos povoados de todas as partes desta recente Nova Espanha . ( Crónica mexicáyotl , 1609)."

Egiara e Eguren converte aquilo que para o europeu é "o outro" em "o nosso". "O outro" pressupõe uma identidade, uma identidade que não se faz explícita nos discursos dos colonizadores porque ela lhe é própria. É significativo o fato de que tanto no Memorial de Sololá como em Egiara e Eguren encontremos uma ênfase no passado para fundamentar o presente, enquanto que no texto de López de Velasco trate de um presente que implica um futuro. O Novo Mundo, expressão que implica já uma demarcação territorial, incorpora- se ao Velho Mundo porque a memória territorial é, para o colonizador, o segundo; tanto que o primeiro é a projeção territorial até o futuro. Melhor dizendo, é a colonização. As projeções desta repartição territorial são encontradas refletidas, hoje, nos próprios estudos coloniais. De fato enquanto que o estudo O'Gorman (1952) leva implícitas as marcas da identidade , o de Todorov (1982) torna implícitas as da outridade. A compreensão da colônia como parte "do mesmo" ou como "do outro" da Europa não se deve tanto aos princípios disciplinares que assume o pesquisador, mas à cultura à qual pertence ou do ponto de vista cultural que adota. Uma linha tênue, mas significativa, separa a territorialidade (na qual se inscreve o pesquisador) do domínio de estudo que configura seu discurso. A questão da natureza da "literatura hispano/latino-americana" é um bom exemplo da simultaneidade entre a apropriação territorial e a conceitualização disciplinar daquilo que se quer descrever, historiar ou explicar.

IV. CONCLUSÃO: DA LITERATURA HISPANO/LATINO-AMERICANA AOS DISCURSOS NAS COLÔNIAS DO NOVO MUNDO

Nos tópicos anteriores, meus propósitos foram os de constatar a necessidade de uma nova distribuição da área de conhecimento e o de sugerir uma maneira de fazê-lo. Quero concluir adiantando um novo problema inseparável do anterior: a transformação disciplinar a que necessariamente chegamos como conseqüência da redistribuição da área de conhecimento.

Mencionei acima, rapidamente, as perguntas formuladas por Ana Pizarro em sua introdução ao volume em que contem as propostas e diálogos da reunião na Universidade de Campinhas (Pizarro 1985). Cito:

"Quando dizemos literatura latino-americana estamos falando, por exemplo, da literatura dos conquis- tadores espanhóis, portugueses, fran- ceses, holandeses, ingleses -tardios no caso do Caribe - que, sendo europeus, escrevem sobre a América ? [...] É literatura latino-americana, por exemplo, a literatura dos jesuítas que em 1767 são expulsos do continente e que começam a constituir na Europa uma espécie de consciência de América no exterior?[...] É literatura latino-americana a dos recentes exilados que começam a publicar fundamentalmente na Europa e nos Estados Unidos textos em fumano, finlandês, francês? Por outro lado, nos situando no âmbito da língua, como pensar no caso dos chicanos que vivem do outro lado da fronteira do México com os Estados Unidos e cujos conteúdos culturais constituem um processo transcultural específico? E o caso dos hispânicos, situados também entre duas línguas e duas culturas?

Como pensar em uma problema que já não é de minorias, mas que em nosso continente, em vários de nossos países, é de maiorias, como é o caso do problema da literatura indígena?

Como pensar, por outro lado, a literatura do Caribe? Já não é no Caribe hispânico (São Domingos, Cuba, Porto Rico), nem no Caribe francês (Haiti, Martinica, Guadalupe) que pensamos em última análise quando falamos do Caribe não-hispânico, mas também do Caribe holandês (Curaçau, Aruba, Suriname) ou inglês (Trindade, Jamaica, Santa Lúcia), etc.?"

A enumeração que sustenta as perguntas é exemplar. Caberia dizer, como o fez B. Croce sobre os gêneros, que a expressão literatura hispano/latino-americana é uma maneira de falar que não se pode tomar como a expressão que unifica tão vasto campo de experiência. Ou caberia dizer, como sugeri no tópico anterior, que a expressão citada tem vigência e é relevante no contexto da construção territorial que iniciam os crioulos e se estende ao longo do século XIX, mas que não tem validade como conceito que designa a totalidade da área de conhecimento de uma disciplina. Durante o período colonial a literatura é uma prática discursiva relativamente menor e só poderia conceder-se que seja hispano/latino-americana na medida em que se aceite que por "hispano/latino" entendemos a presença da cultura européia e, por "americano", a contribuição das culturas indígenas à configuração cultural do Novo Mundo, em vez de entender-se o transplante da colonização européia na América do Sul.

As perguntas enumeradas por Pizarro levam-me a enfatizar um segundo aspecto que foi abordado nos tópicos anteriores. E muito especialmente no que diz respeito à territorialidade. Quando o pesquisador é um membro da comunidade cujo próprio passado é o passado que investiga, uma fina linha separa a construção territorial da construção cognitiva (Mignolo, 1983). Ao repensar as perguntas enumeradas por Pizarro, compreendemos de imediato que as respostas podem dar-se de duas perspectivas, de tal maneira que a pergunta que está subjacente a todas as que contêm os parágrafos citados é algo semelhante ao seguinte: "Para quem um corpus textual ou um conjunto de práticas discursivas regu- ladas por determinadas convenções e normas pode ser designada com o nome de literatura hispano/ latino-americana"? Se a resposta é formulada do ponto de vista territorial, a expressão incorpora os textos e as práticas que são constituídas pela imagem de territorialidade como se "naturalmente" lhe pertencessem. É por esta razão que temos que pensar, como membros da cultura hispano/latino-americana, que nossa literatura começa com Colombo. No entanto, se a resposta é formulada do ponto de vista disciplinar, não podemos dar por certo que assim sejam as coisas. Devemos indagar quando surge a idéia de que existe tal coisa como a literatura hispano/latino-americana, no lugar de supor que haja tal entidade (em vez de uma idéia) e que tal entidade começa com Colombo.

O emprego da expressão "discursos no período colonial" em vez de "literatura hispano/latino-americana colonial" não é um capricho, mas uma necessidade de separar a cultura à qual pertenço da disciplina que pratico; separar a questão da identidade como uma questão vital da questão da identidade como uma questão analítica. A "literatura' colonial é, sem dúvida, uma parte dos discursos do período colonial, na medida em que tal idéia regula um setor das interações lingüísticas. O modificador "hispano/latino-americano" é alheio às reflexões coloniais sobre suas próprias interações semióticas. Portanto, o modificador me mantém na mesmice da cultura a que pertenço e me oculta a diferença entre aquilo que a cultura a que pertenço reprimiu. É por esta razão que o exercício crítico da prática disciplinar nas ciências da cultura (incluindo no conjunto os estudos literários) exige que saibamos distinguir a cultura que, como membro, naturalmente nos constitui, da disciplina que, como praticante, naturalmente devemos exercer criticamente.

A complexidade de interações semióticas e transações discursivas durante o período colonial nos põe diante de uma fascinante superposição de construções territoriais cuja sofisticação simbólica diminui e se perde, quando, no gesto egocêntrico de apropriação, a cobrimos com a pátina do sentimento que me identifica como hispano ou latino-americano. Por outro lado, nos permite distinguir o canônico (que se impõe como obrigação ler e transmitir) do campo de conhecimento e de pesquisa (que se impõe para nós como um desejo ou um interesse perseguir). O primeiro é uma herança cultural construída como territorialidade à que pertencemos (ou, como estrangeiros reconhecemos) e transmitimos; começamos a construir o segundo (segundo as teses deste artigo) como conhecimento e como diferença crítica com relação ao primeiro. A preocupação em afirmar a identidade cultural latino-americana frente à européia foi uma etapa necessária na "busca de nossa expressão" e inevitável frente à calada e imponente identidade do colonizador. Enquanto que sua prolongação é justificável do ponto de vista do programa ideológico de um grupo intelectual representativo de um amplo setor da população, seria improdutivo pensar que a tradição em que me situo incorpora sem diferença todo o passado de que me aproprio e todo o presente que ignoro ou desconheço. A literatura (e as tradições literárias) formam parte do que sou. Para que ela constitua um campo de conhecimento é necessário pontuar a diferença entre o canônico que leio e transmito (a literatura hispano/latino-americana) como membro de uma cultura ou interessado nela, do campo de conhecimento que construo e transmito como praticante de uma disciplina. Trata-se da simples distinção entre autocompreenção (hermenêutica) e conhecimento (epistemologia). O estado de crise é o da tensão entre os dois níveis.